Vigaristas


Em seu primeiro filme, "A Ponta de um Crime", que foi lançado direto em DVD no Brasil, Rian Johnson fez uma homenagem e uma refomulação do filme noir, contando uma história policial situada no ambiente escolar. Agora, em seu segundo longa-metragem, "Vigaristas", o cinema policial continua sendo o foco do diretor, mas em um subgênero diferente: os filmes de assalto, ou melhor dizendo, os filmes de golpe. A novidade que ele aplica é a história de amor e o drama meta-existencial do personagem de Adrien Brody, que está condicionado à vida que seu irmão "escreve" para ele.

A estrutura clássica do caper film está lá, com três atos bem definidos, personagens típicos como o ex-parceiro que se torna o inimigo número um, além, claro, das reviravoltas e traições. É aí, aliás, onde "Vigaristas" perde pontos, por tentar ludibriar o espectador e aplicar nele uma trapaça. Em filmes de fórmula semelhante, como "Onze Homens e um Segredo" e "Uma Saída de Mestre", ou o próprio "Os Vigaristas" de Ridley Scott (culpem a Paris Filmes por ter escolhido um título parecido), essa trapaça funciona a favor do público, pois acaba por nos surpreender pelo rumo que a trama toma. Já no filme de Johnson esse artifício narrativo se torna um pouco cansativo e até previsível pelo simples fato de nos deixar em estado de alerta para uma possível virada na história.

Se na escrita não se sai tão bem quanto poderia, Johnson novamente esbanja competência na direção e demonstra a boa evolução de sua técnica com a experência adquirida nos três anos que separam seus dois filmes. Na primeira metade de "Vigaristas", então, ele parece um veterano, tamanha sua facilidade em brincar com a narrativa. Em certos momentos, chega a lembrar o estilo de Martin Scorsese ou de Paul Thomas Anderson na montagem das cenas e na movimentação da câmera. E já que ele está homenageando um gênero de filme que esteve em alta nos anos 50 e 60, é notável como ele usa transições em íris ou cortina, dando ao longa um aspecto de filme antigo muito bem-vindo, ainda que a história se passe nos dias atuais.

Mas o trabalho de Johnson nada seria se não contasse também com o elenco de primeira, no qual se destacam as atuações de Adrien Brody, como o "good cop" que se opõe ao irmão "bad cop" vivido por Mark Ruffalo, e Rachel Weisz, que faz o par romântico de Brody. Ela, principalmente, brilha na tela pela ingenuidade de sua personagem. A força feminina do filme tem a cooperação da japonesa Rinku Kikuchi, que deve ter apenas uma ou duas falas, e mesmo assim tem uma presença de tela incrível. Todos os atores, aliás, incluindo aí Robbie Coltrane e Maximilian Schell, incorporam muito bem a caracterização dos personagens escritos por Johnson.

nota: 8/10 -- vale o ingresso

Vigaristas (The Brothers Bloom, 2008, EUA)
direção: Rian Johnson; roteiro: Rian Johnson; fotografia: Steve Yedlin; montagem: Gabriel Wrye; música: Nathan Johnson; produção: Ram Bergman, James D. Stern; com: Adrien Brody, Rachel Weisz, Mark Ruffalo, Rinko Kikuchi, Robbie Coltrane, Maximilian Schell; estúdio: Endgame Entertainment, Ram Bergman Productions, The Weinstein Company; distribuição: Paris Filmes. 114 min

Pra levar a sério

É sempre interessante quando um filme surpreende por se revelar algo que o cartaz de cinema ou a capa do DVD não deixam transparecer. Em alguns casos, até mesmo o título ou o rótulo dado pelo distribuidor – comédia, terror, ação – acaba escondendo a verdadeira proposta do diretor. Mas, no caso de dois filmes que chegaram recentemente às videolocadoras brasileiras, são os próprios atores principais que podem enganar o público – e, felizmente, isso é muito bom.

Em “O Segurança Fora de Controle”, Seth Rogen, conhecido de comédias como “Ligeiramente Grávidos”, “O Virgem de 40 Anos” e “Pagando Bem Que Mal Tem?”, interpreta o responsável pela equipe de vigia de um shopping center. A princípio, estamos diante de uma comédia americana tradicional, dessas que são um prato cheio para qualquer sessão da tarde - e a Warner acredita piamente nisso, visto o título que escolheu para o Brasil, quando o original é muito mais elegante: “Observe and Report”.

Mas, aos poucos, o protagonista vai revelando um lado psicótico assustador. Obstinado por ser reconhecido como um verdadeiro policial, e não ser visto apenas como um mero segurança de shopping, ele entra numa espiral de ações cada vez mais desmedidas, inconsequentes e inesperadas. Sua trajetória chega a ser trágica de certa forma, e a interpretação de Rogen é provavelmente a melhor de sua ainda jovem carreira.

Não é à toa que a crítica norte-americana comparou “Observe and Report” ao clássico de Martin Scorsese “Taxi Driver”, de 1976. Afinal, o personagem interpretado por Robert De Niro atravessa um drama muito parecido ao tentar “limpar” as ruas de Nova York e ter algum valor para a sociedade, por mais que para isso use métodos nada aprováveis. Dândis tortos, tanto o taxista Travis Bickle quanto o segurança Ronnie Barnhardt querem se impor, como se o tempo todo fizessem para todo mundo a pergunta: “Com quem você acha que está falando?”

Este é o segundo longa-metragem de Jody Hill, que mostra na montagem com voice-over de Rogen, na construção dos planos-sequências e na inventividade de algumas cenas (a briga com a lanterna é comparável à sequência de luta com o martelo em "Oldboy") porque devemos ficar de olho em tudo que ele fizer daqui em diante. Hill segue um estilo parecido com o de David Gordon Green em sua veia cômica (que, por coincidência, também teve Seth Rogen como guia no impagável "Segurando as Pontas" - também lançado só em DVD no Brasil). Inclusive, Hill usa o mesmo diretor de fotografia de Green, Tim Orr.

O cineasta merece ser elogiado ainda pela escolha perfeita das músicas que compõem a trilha sonora, que inclui bandas novas e clássicas, com destaque para Queen, Pixies e The Band - que entoa aquele que pode ser considerado o tema do protagonista, “When I Paint My Masterpiece”, que tem letra de Bob Dylan.


Outro filme que pode enganar pela capa e que, coincidentemente, também acabou saindo direto nas locadoras brasileiras é “JCVD” – título que nada mais é do que as iniciais de Jean-Claude Van Damme. Isso mesmo, o ator belga, famoso pelos filmes de ação e de luta, faz aqui um trabalho praticamente auto-biográfico, que tem partes de ficção e quase de documentário.

Van Damme interpreta ele mesmo e, no intervalo da produção de mais um filme policial para seu extenso currículo, ele se vê envolvido numa situação digna de um roteiro de cinema. Feito refém em um assalto a uma agência de correio, Van Damme acaba se passando por bandido e leva a polícia e a imprensa a acreditar que ele é o responsável pelo crime.

“JCVD” é bastante auto-referencial, repleto de piadas internas (os nomes de John Woo e Steven Seagal são inevitavelmente citados) e o tempo todo apresenta situações em que o próprio Van Damme, em lampejos de imaginação, deseja poder resolver tudo como num de seus filmes, dando um golpe de karatê e salvando o dia. Mas a vida pessoal de Van Damme (que não sabemos ao certo até onde apresenta fatos ou invenção na tela) toma conta e, em certo momento, ele chega a falar diretamente com a câmera. Seu monólogo, sincero e até tocante, surge numa das opções mais brilhantes do diretor francês Mabrouk El Mechri, em seu terceiro longa. O cineasta, de quebra, ainda é competente na direção de cenas de ação, vide a sequência de abertura.

Se você nunca viu Van Damme atuar para valer, chegando até a improvisar, aqui está uma chance única. E aí a redenção deixa de ser apenas do Van Damme personagem.

O Segurança Fora de Controle (Observe and Report, 2009, EUA) nota: 9/10 -- compre o DVD
direção: Jody Hill; roteiro: Jody Hill; fotografia: Tim Orr; montagem: Zene Baker; música: Joseph Stephens; produção: Donald De Line; com: Seth Rogen, Ray Liotta, Michael Peña, Anna Faris, Dan Bakkedahl, Jesse Plemons, John Yuan, Matt Yuan, Celia Weston, Collette Wolfe; estúdio: De Line Pictures, Legendary Pictures; distribuição: Warner Bros. 86 min

JCVD (2008, Bélgica/França/Luxemburgo) nota: 8/10 -- compre o DVD
direção: Mabrouk El Mechri; roteiro: Mabrouk El Mechri, Frédéric Benudis, Christophe Turpin; fotografia: Pierre-Yves Bastard; montagem: Kako Kelber; música: Gast Waltzing; produção: Sidonie Dumas; com: Jean-Claude Van Damme, François Damiens, Zinedine Soualem, Karim Belkhadra, Jean-François Wolff, Anne Paulicevich, Liliane Becker; estúdio: Samsa Film, Artémis Productions, RTBF, Gaumont; distribuição: Imagem Filmes. 97 min

Novidades no Amor


“Novidades no Amor” é na verdade um filme sem muitas novidades em sua fórmula. Uma mulher na casa dos 40 anos que redescobre a vida ao se apaixonar por um homem mais novo. Algo semelhante a “Terapia do Amor” e, até mesmo ao recente, “A Proposta”. Acrescentado à receita uma traição seguida de divórcio, duas crianças espertas e divertidas e um mocinho romântico com coração partido, aí está a premissa básica do filme.

Mas há algumas peculiaridades no roteiro de Bart Freundlich que fazem do longa uma comédia romântica leve e divertida. A começar pela composição da protagonista, Sandy, que caiu como uma luva para Catherine Zeta-Jones. A atriz encarna com muita naturalidade a mãe de família e “coroa gostosa” (apelido que recebe do personagem mais clichê do filme – o amigo bobão do protagonista que só pensa em sexo).

Freundlich, que também é responsável pela direção, não exagera ao tentar demonstrar as discrepâncias causadas pela diferença de idade entre o casal. Elas são retratadas, mas sem forçar a barra, evitando esbarrar no lugar-comum. Cuidado que o diretor não tem com outras questões, como a relação do protagonista, Aram, com os pais.

Já Justin Bartha convence como o rapaz romântico e maduro que se apaixona por Sandy. Mas, embora o ator não se saia mal, sua atuação fica apagada na sombra de Catherine e do garotinho Andrew Cherry, que interpreta o filho da “mocinha” na maior parte do longa. A empatia criada entre o personagem de Justin e os filhos de sua namorada também é um ponto alto de “Novidades no Amor”, funciona bem e rende algumas cenas engraçadas.

A maior parte do filme flui naturalmente com roteiro simples, mas bem emendado e um humor com grandes dosagens de inocência e romantismo. Mas nos últimos 30 minutos de projeção a história começa a desandar. Algumas atitudes da personagem de Catherine acontecem sem justificativas plausíveis e deixam um clima vago no ar. Bart Freundlich acelera o tempo e preenche o espaço com imagens bonitas, mas pouco esclarecedoras. Essa jogada cria uma ruptura na constância, até então bem construída, do filme e acaba por prejudicar o final previsível, como quase toda comédia romântica, mas bem de acordo com aquilo a que o longa se propõe.

nota: 7/10 -- vale o ingresso

Novidades no Amor (The Rebound, 2009, EUA)
direção: Bart Freundlich; roteiro: Bart Freundlich; fotografia: Jonathan Freeman; produção: Bart Freundlich, Mark Gill, Robert Katz, Tim Perell; com: Catherine Zeta-Jones, Justin Bartha, Eliza Callahan, Andrew Cherry, Jake Cherry, Kelly Gould; estúdio: A&F Productions; distribuição: Imagem Filmes. 97 min

O Desinformante!


Ele queria ser James Bond. Acabou se saindo um ótimo Inspetor Closeau, o agente desengonçado de “A Pantera Cor de Rosa”. Mas, no fim, Mark Whitacre se revelou um verdadeiro aprendiz de Bernard Madoff, o financista autor do maior esquema de fraude da história de Wall Street.

Situado no mundo corporativo, “O Desinformante!” narra de maneira um tanto sarcástica a trajetória de Whitacre. E é muito curiosa e bem-sucedida a maneira como Steven Soderbergh mistura o caso verídico com um estilo próprio dos filmes de espionagem e comédias dos anos 60 e 70, apesar de a história se passar na década de 90.

A maior contribuição para o tom empregado por Soderbergh, caracterizando bem a malandragem do protagonista, está na trilha sonora, composta pelo veterano e multi-premiado Marvin Hamlisch. É uma escolha mais do que adequada para o filme, já que, além do talento inegável para esse tipo de trilha, que traz um jazz mais brincalhão, com raízes no ragtime, o compositor já trabalhou num filme de James Bond, “O Espião Que Me Amava”, de 1977. Sem falar que também é dele a música do clássico “Golpe de Mestre”, de 1973.

A história de Mark Whitacre só não é trágica pela própria natureza do personagem, que apresenta sintomas de transtorno bipolar ao demonstrar estar “ausente” em vários momentos. Soderbergh usa o recurso do voice-over para demonstrar essa característica do protagonista: em alguns momentos, uma cena que começa com um diálogo é interrompida pela voz de Matt Damon, que fala alguma coisa que não tem nada a ver com a conversa. Sem falar que o ator está muito bem em mais um papel cômico em sua carreira.

Dos quatro filmes de Soderbergh que chegaram aos cinemas brasileiros este ano – os outros foram “Confissões de uma Garota de Programa” e as duas partes da biografia de Che Guevara - “O Desinformante!” é o melhor.

nota: 8/10 -- vale o ingresso

O Desinformante! (The Informant!, 2009, EUA)
direção: Steven Soderbergh; roteiro: Scott Z. Burns (baseado no livro de Kurt Eichenwald); fotografia: Steven Soderbergh (como Peter Andrews); montagem: Stephen Mirrione; música: Marvin Hamlisch; produção: Howard Braunstein, Kurt Eichenwald, Jennifer Fox, Gregory Jacobs, Michael Jaffe; com: Matt Damon, Melanie Lynskey, Scott Bakula, Allan Havey, Rusty Schwimmer, Eddie Jemison, Scott Adsit, Thomas F. Wilson; estúdio: Section Eight, Warner Bros. Pictures, Participant Media, Groundswell Productions; distribuição: Warner Bros. Pictures. 108 min

Distrito 9

Os problemas do estilo “neo-verité” que passou a ser muito utilizado nesta década são dois: mexer muito a câmera e usar cenas muito curtas. Combinados, esses dois elementos podem causar dor de cabeça e náusea na platéia, e, infelizmente, os primeiros 20, 30 minutos de "Distrito 9" são comprometidos por essa falta de tato com a imagem. Tanto é que as melhores partes do filme são aquelas que não tentam simular um noticiário ou documentário. Seja como for, essa abordagem realista tem sua razão de existir, já que pode até ser vista como um comentário sobre o próprio método de filmagem utilizado em filmes que tratam das margens da sociedade, criando para pessoas pobres uma identidade visual que acaba por discriminá-las da mesma forma: por que elas não podem ser vistas numa tela de cinema sob o mesmo prisma que o cidadão urbano, burguês?

É aí onde "Distrito 9" se destaca acima de um extraordinário conto sci-fi. Ele situa a ação num cenário distinto, apesar de não ser inédito em uma produção do gênero (basta nos lembrarmos de "Star Wars" ou "Vingador do Futuro"), e leva a estética dos chamados “filmes de favela” e seus personagens e problemas (como ordens de despejo e assentamentos, discriminação, para não falar em apartheid) para a ficção-científica – que, por sua vez, empresta seus alienígenas, espaçonaves, biotecnologia e armas hi-tech.

O diretor Neil Blomkamp iguala tudo na marginalidade. Com seu primeiro filme (apadrinhado pelo gigante Peter Jackson), ele não faz um comentário político-social, mas um comentário imagético. Ele prova que esse estilo de filmar não só não é mais novidade, ms que também foi apropriado pelo cinema de entretenimento (como já vimos em tantos outros filmes pós-"Bruxa de Blair", como os recentes “Cloverfield – Monstro”, “[REC]” e “Diário dos Mortos”). O "fake" (e não "ficção", pois tudo invariavelmente é ficção) e o "real" se confundem, mais do que nunca, em propostas das mais diferentes – e é curioso observar isto acontecer tanto num cinema de shopping quanto numa sala alternativa, em filmes como “Moscou” e “Aquele Querido Mês de Agosto”. Há uma congruência interessante aí no que diz respeito à evolução da linguagem cinematográfica.

Mas é injusto falar sobre "Distrito 9" sem mencionar também sua contribuição para o gênero em que está inserido. Estamos diante de algo que impressiona não apenas pelo uso do formato, mas também por avançar na narrativa até um ponto em que você pode ficar sem saber adivinhar o que virá em seguida - e, convenhamos, hoje em dia, com tanta reciclagem que se vê numa tela de cinema, esse é um grande mérito. Trunfo da caracterização do protagonista, Wikus Van De Merve, interpretado pelo novato Sharlto Copley. O personagem é construído de maneira ambígua: insuportável e chatíssimo à primeira vista, mas por quem você acaba torcendo, mesmo que ele se revele um genuíno anti-herói, egoísta e capaz de cometer filhadaputagens para poder salvar a própria pele. A comparação com "A Mosca", de Cronenberg, vai além da superfície.

E se não se pode dizer que os vilões humanos de "Distrito 9" são exatamente esféricos - como o militar Koobus ou os gângsteres que comandam a comunidade - Christopher Johnson, o alienígena principal (curioso como o extraterrestre tem um nome "mais humano" do que os próprios humanos do filme) é um dos grandes personagens do ano, pois, assim como Wikus, cativa o espectador gradualmente, além de ter um design simples (uma mistura de gafanhoto com lagosta), mas bastante interessante. Notável, aliás, como CGI e efeitos práticos se confundem na tela. Não estou 100% certo da técnica utilizada, mas em algumas cenas os alienígenas parecem ser bonecos animatrônicos de tão reais. Sem falar que os demais efeitos visuais são realizados com a competência habitual da WETA, sem que em momento algum você "saia" do filme por achar que alguma coisa ali é inverossímil.

Lembrando, sempre, que verossimilhança é aquilo que é crível, e não o que é verídico. Voltamos, então, à questão do "fake" se misturando com o "real": assistimos ao filme sabendo que nada daquilo existe, mas tendo como referência a vida do lado de cá, percebida através dos telejornais. Por isso prefiro a mentira sincera de "Distrito 9" do que qualquer cinema que se venda como verdade.

nota: 8/10 -- veja no cinema e compre o DVD

Distrito 9 (District 9, 2009, EUA/Nova Zelândia)
direção: Neill Blomkamp; roteiro: Neill Blomkamp, Terri Tatchell; fotografia: Trent Opaloch; montagem: Julian Clarke; música: Clinton Shorter; produção: Peter Jackson, Carolynne Cunningham; com: Sharlto Copley, Jason Cope, Nathalie Boltt, Sylvaine Strike, John Sumner, William Allen Young, Nick Blake, Vanessa Haywood, David James; estúdio: WingNut Films, Key Creatives, QED International; distribuição: Columbia Pictures. 112 min

Diário dos Mortos

ou "Quando Romero se olha no espelho"



A cena acima é de "Diário dos Mortos", quinto filme da série dos mortos-vivos de George A. Romero, pai desse tão amado subgênero do horror. O filme foi lançado diretamente em DVD no Brasil e já está disponível para compra nas lojas. É mais um inteligente exercício figurativo de Romero, que desde o primeiro longa, "A Noite dos Mortos-Vivos", de 1968, utiliza o meio para fazer algum tipo de comentário social. Mas em "Diário dos Mortos", vemos um Romero mais preocupado com o próprio cinema.

Não farei aqui uma resenha do filme, mas apontarei três cenas que demonstram a proposta de Romero. Se naquela primeira sequência o cineasta deixa transparecer uma reflexão reveladora de tão pessoal (é quase como se Scott Wentworth, que faz o papel do professor de cinema, fosse um alter ego de Romero), nos dois trechos a seguir percebemos na voz da atriz Michelle Morgan ponderações que levam a pensar sobre o próprio gênero. Ela diz: "Adicionei música em algumas partes para efeito, esperando assustar você". Depois, a mais pungente: "Estranho como, vendo as coisas com uma lente, a gente se torna imune. Eu achava que era só vocês, os espectadores, mas não é. A gente se torna imune também. E assim, não importa o que haja ao nosso redor, o quão horrível. Acabamos aceitando tudo como natural."

Como todo diário é um testemunho particular, não é de se espantar que Romero tenha encontrado aqui a oportunidade perfeita para mostrar um pouco do que pensa sobre seu ofício.



Deixa Ela Entrar

Com a febre "Crepúsculo" em seu auge, produções sobre vampiros podem ser vistas com uma certa desconfiança entre pessoas com mais de 20 anos. É compreensível, mas saiba que, se esta for a sua postura, você perderá obras interessantes protagonizadas pelos sugadores de sangue e uma delas é esta pérola sueca, "Deixa Ela Entrar".

"Deixa Ela Entrar" tem elementos de terror. Possivelmente, quando for lançado em DVD, ficará na seção específica desse gênero nas locadoras. Mas o filme de Tomas Alfredson é muito mais do que isso. É, na verdade, na mistura de gêneros, que ele subverte todas as expectativas de um filme de horror, já que, além dos momentos apavorantes, a produção é um romance e um triste drama sobre o amadurecimento.

Uma das metades do romance é Oskar, um solitário garoto de 12 anos. No início do filme, presenciamos Oskar ensaiando facadas que, provavelmente, no futuro, serão destinadas a alguém. Mas logo descobrimos que se trata de um ensaio para um tipo de vingança contra alguns colegas de escola que não perdem a chance de maltratar o garoto. Vingança que, possivelmente, nunca iria acontecer, já que Oskar é frágil e passivo demais para responder à altura. Um menino isolado na escola e que não parece ter muita conexão com os pais. Ele conhece e logo se afeiçoa a uma menina também solitária, mas por outros motivos. Ela só sai à noite, anda descalça na neve e, como a própria diz, não é exatamente uma menina e tem mais ou menos 12 anos. Você já sabe do que se trata a nossa amiga, certo?

O interessante de "Deixa Ela Entrar" é que Alfredson usa o terror para mostrar o surgimento de um romance e o desenvolvimento de um drama. Entre cenas causadoras de aflição, somos testemunhas do nascimento e crescimento da cumplicidade entre os protagonistas, muito por, através de motivos diferentes, se parecerem. Ele é o "loser" da escola, e ela o completa, dá coragem ao garoto para revidar as provocações. E Eli recebe de Oskar a amizade, o desejo, que é tão difícil para ela, por ser uma vampira.

Apesar de contar com vários personagens, Alfredson e o roteirista John Ajvide Lindqvist (também autor do livro que deu origem ao filme) acertadamente se importam apenas com Eli e Oskar. Há um senhor que faz uma certa parceria com Eli, mas nós nunca sabemos o que ele é na verdade. Nem mesmo qual é o papel do pai de Oskar na vida do garoto. Se para algumas pessoas isto pode parecer estranho, afinal aparecem personagens que, no fim das contas, não tem uma razão e não são desenvolvidos, isso evita que "Deixa Ela Entrar" seja um filme simplório, de respostas fáceis ou didático.

Se você está cansado de vampiros, portanto, recomendo que faça um esforço e assista a este belo filme (no sentido estético também). Porque em "Deixa Ela Entrar", ser vampiro, ou não, não é o que realmente importa. É apenas um pretexto para falar, de uma forma profunda, sobre o amadurecimento.

nota: 9/10 -- veja no cinema e compre o DVD

Deixa Ela Entrar (Låt den rätte komma in ou Let the Right One In, 2008, Suécia)
direção: Tomas Alfredson; roteiro: John Ajvide Lindqvist (baseado em seu próprio livro); fotografia: Hoyte Van Hoytema; montagem: Tomas Alfredson, Dino Jonsäter; música: Johan Söderqvist; produção: Carl Molinder, John Nordling; com: Kåre Hedebrant, Lina Leandersson, Per Ragnar, Henrik Dahl, Karin Bergquist, Peter Carlberg, Ika Nord, Mikael Rahm; estúdio: EFTI; distribuição: Filmes da Mostra. 115 min

Bastardos Inglórios


Armas são comuns nos filmes de Quentin Tarantino. Agora, que o cineasta fez seu primeiro filme de guerra, então, elas não poderiam faltar. Mas o que mais chama a atenção em “Bastardos Inglórios” é que o próprio filme é usado como arma por seu diretor.

Se fosse possível acabar com a Segunda Guerra Mundial através do cinema, “Bastardos Inglórios” certamente seria uma estratégia ideal (e das mais originais) para colocar um fim ao nazismo. O explosivo novo trabalho de Tarantino toma a liberdade para reescrever os livros de História e reimagina o cinema como arma – ideia adotada pelos soviéticos e pelos próprios nazistas através da propaganda e por diretores europeus e brasileiros que empunharam seus ideais políticos durante a Nouvelle Vague e o Cinema Novo. No caso de Tarantino, no entanto, o jogo é aberto, nada sutil, e está mais preocupado em mostrar a força da expressão artística de seu autor – que esbanja na tela o humor mórbido já conhecido desde “Cães de Aluguel”.

Marcas dos filmes de Tarantino estão espalhadas por todos os lugares em “Bastardos Inglórios”. A primeira, e mais óbvia, é a vingança, novamente personificada numa figura feminina – no caso a jovem francesa e judia Shosanna Dreyfus, interpretada por Mélanie Laurent que, num dos atos de transgressão do filme, rouba de Brad Pitt – chamariz absoluto do público recorde da carreira de Tarantino – o posto de protagonista. O ator, que nos trailers dava a impressão de liderar uma narrativa que na verdade corre apenas paralela à trama de Shosanna (não se preocupe em contar os escalpos nazistas colecionados pelo bando do tenente Aldo Raine), coloca à prova, mais uma vez, seu lado comediante e, mais uma vez, se sai muito bem. Só não tem mais espaço porque Tarantino parece ter gostado mais de brincar com o vilão, o coronel nazista Hans Landa, que parece ter crescido ainda mais em frente à câmera na atuação marcante de Christoph Waltz (premiado em Cannes por esse trabalho).

Também está na tela a famosa cena do mexican stand-off – que é aquele momento em que duas ou várias pessoas sacam suas armas e apontam uma para a outra ao mesmo tempo. Aqui, o mexican stand-off toma uma proporção numerosa na cena da taberna, uma das sequências mais tensas do longa, e também uma das mais surpreendentes pela facilidade com que Tarantino constrói e desconstrói o filme através do poder narrativo. Ele praticamente conclui ali uma célula dramática que tem vida própria, sem deixar de ser orgânica para a história como um todo. Só é uma pena que ele se despoje nessa sequência de um dos personagens mais interessantes, que acaba não tendo tempo de tela suficiente apesar de ser anunciado com alarde.

Violência, podolatria, falas memoráveis, citação a outros filmes em diálogos e na mise-en-scène, trilha sonora também repleta de referências e homenagens (especialmente a Ennio Morricone), divisão da história em capítulos, participações especiais de amigos (Julie Dreyfuss, Samuel L. Jackson, Harvey Keitel – esses dois últimos apenas com a voz), resgate de atores em decadência (desta vez é Mike Myers, mas seu papel não tem qualquer relevância, podendo ter sido feito por qualquer outro ator), pausas para flashbacks. Está tudo lá, como em todo filme do diretor. Mesmo assim, temos aqui um Tarantino mais contido no estilo, menos palhaço, ainda que o humor esteja presente em vários lugares. O mais importante ele mantém: a excelência no manuseio da câmera e no ritmo dos cortes (com o auxílio imprescindível de sua montadora de longa data, Sally Menke). É um serviço de carpintaria que ele parece refinar a cada filme, seja qual for o gênero em que trabalhe.

“Bastardos Inglórios” não é um filme exploitation como “Kill Bill” ou “À Prova de Morte”, mas também não é um filme de guerra sério, como os que são tradicionalmente feitos. Tarantino busca uma narrativa mais centrada na construção dos diálogos e menos na ação, talvez numa opção de se aproximar do cinema europeu. A primazia na arquitetura dos discursos de seus personagens impressiona (e é uma ótima ironia ver um senhor da palavra fazer questão de grafar o título do filme da forma errada, enfiando uma vogal a mais em “inglorious” e trocando outra em “bastards”). Porém, as cenas faladas algumas vezes dão a impressão de durarem tempo demais, e não oferecem punch-lines ou referências à cultura pop como nos acostumamos a encontrar na obra do cineasta. É, de toda forma, um sinal de que ele procurou não fazer mais do mesmo, ainda que esse mesmo não seja drenado por completo, felizmente.

Se esta é ou não é a obra-prima de Tarantino é uma questão subjetiva, mas é inegável que “Bastardos Inglórios” é uma visão bastante peculiar da terra sem lei em que se transforma qualquer guerra.

nota: 9/10 -- veja no cinema e compre o DVD

Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, 2009, EUA/Alemanha)
direção: Quentin Tarantino; roteiro: Quentin Tarantino; fotografia: Robert Richardson; montagem: Sally Menke; produção: Lawrence Bender; com: Brad Pitt, Mélanie Laurent, Christoph Waltz, Eli Roth, Michael Fassbender, Diane Kruger, Daniel Brühl, Til Schweiger, Gedeon Burkhard, Jacky Ido, B.J. Novak, Omar Doom, August Diehl, Denis Menochet, Sylvester Groth, Martin Wuttke, Mike Myers, Julie Dreyfus; estúdio: Universal Pictures, The Weinstein Company, A Band Apart, Zehnte Babelsberg, Visiona Romantica; distribuição: Universal Pictures. 153 min

Giallo - Reféns do Medo


O termo "Giallo" se refere a um gênero específico da ficção policial que rendeu inúmeros livros e filmes na Itália décadas atrás. Foi tão influente, que pode ser considerado o "pai" dos thrillers de serial killers que pululam no cinema comercial. Dario Argento, mais conhecido como diretor de horror, é um dos pioneiros do Giallo e, em seu mais recente trabalho, faz mais do que um revival: como Quentin Tarantino, Argento refina o gênero em um filme que pode ser chamado de tudo, menos de "suspense barato" - má fama que os Giallos de antigamente ganharam por terem baixo preço e alta replicação.

Lançado no Brasil diretamente em DVD, "Giallo - Reféns do Medo" traz Adrien Brody ("O Pianista", "King Kong") no papel do detetive perseguidor de assassinos, protagonista de 10 entre 10 dessas histórias. O vilão da vez, um psicopata obcecado por mulheres jovens e bonitas, também é interpretado por Brody, sob pesada maquiagem (mas nos créditos, repare, o nome do ator aparece espertamente como um anagrama: Byron Deidra). Tal escolha de Argento, obviamente proposital, reproduz um aspecto próprio de produção barata em que um mesmo ator interpreta mais de um papel.

Outra característica evidente do kitsch buscado pelo cineasta é a cor amarela que predomina no filme inteiro - afinal, "giallo" significa "amarelo" em italiano, e os livros do gênero tinham a capa amarela. Cor que contrasta com o vermelho da violência explícita, com agulhas, alicates e mutilações (hello, torture-porn!), que também tem uma aproximação própria para gênero - além, claro, de ser uma marca do cinema de horror de Argento, que evoluiu justamente a partir do Giallo.

Argento vai e volta em diversas convenções do gênero, mas é na construção da história que ele surpreende. A partir de certo ponto, o filme toma um rumo diferente do esperado, isto é, que o serial killer será revelado e perseguido, a última vítima irá quase morrer e o crime será solucionado. Tudo isso acontece, mas tanto o assassino quanto o detetive ganham camadas de personalidade que o afastam de qualquer superficialidade. E a famosa reviravolta é evitada, sem com isso enfraquecer a tensão e a eficácia do desfecho da trama.

"Giallo - Reféns do Medo" não pretende reinventar o próprio gênero, longe disso. Mas naquilo em que busca ser um exemplar que é, ao mesmo tempo, homenagem e algo novo (já que a geração mais nova de espectadores pode nunca ter visto um Giallo), Argento se sai com a competência habitual do mestre que é.

nota: 7/10 -- vale a locação

Giallo - Reféns do Medo (Giallo, 2009, Itália/EUA)
direção: Dario Argento; roteiro: Dario Argento, Jim Agnew, Sean Keller; fotografia: Frederic Fasano; montagem: Roberto Silvi; música: Marco Werba; produção: Rafael Primorac, Richard Rionda Del Castro; com: Adrien Brody, Emmanuelle Seigner, Elsa Pataky, Robert Miano, Byron Deidra, Silvia Spross, Daniela Fazzolari, Valentina Izumi, Luis Molteni; estúdio: Opera Film Produzione, Giallo Production; distribuição: Califórnia Filmes. 92 min

Tá Chovendo Hambúrguer


A Sony Pictures Animation tem seguido o caminho certo na busca por tirar da Pixar o monopólio da qualidade nas animações produzidas pelo cinema americano. Ao contrário da DreamWorks, que insiste num modelo de paródia e referências gratuitas a outros filmes em todas as suas produções, temos em “Tá Chovendo Hambúrguer” um trabalho que leva a marca da autenticidade, ainda que ela seja erguida sobre arquétipos facilmente identificáveis da ficção-científica. É um filme-desastre, mas, no lugar do tornado de “Twister”, está uma bela macarronada; ao invés dos meteoritos de “Armageddon” e “Impacto Profundo”, são almôndegas que rasgam o céu; sai a nave-mãe de “Independence Day”, entra a máquina que transforma água em qualquer tipo de comida.

A engenhoca é inventada pelo garoto-cientista louco Flint Lockwood, que só deseja um mínimo de reconhecimento – seja do pai, que queria tê-lo como sócio em sua loja de pesca, seja da população de sua pequena cidade costeira, que atravessa uma crise econômica (não, nem pense em comentário sócio-político!). Após trocar a infância e a adolescência por livros de física quântica, ciência nuclear, engenharia química, fisiologia do zero etc., logo Flint viverá uma história de amor nerd com a “garota do tempo” Sam Sparks, que anseia por subir na hierarquia telejornalística. E nesse casal mais do que provável e adorável, “Tá Chovendo Hambúrguer” faz graça com cientistas e jornalistas.

Se Flint e Sam agradam, os personagens secundários já não são tão bem aproveitados. O “Bebê” Brent, por exemplo, ganha uma importância exagerada, quando a gag com o comercial de TV já é suficiente. No lugar dele, poderia ter mais destaque no ato final o policial saltitante que implica com Flint. O cameraman/médico imigrante cumpre a função de “deus ex-machina”, mas suas piadas não convencem. Já outros personagens tem papéis adequados: o pai de Flint, com suas metáforas de pescador; o prefeito megalomaníaco e egocêntrico; e, claro, o macaquinho que leva no pescoço um “tradutor de falas” – aparelho que lembra bastante a coleira vista em “Up – Altas Aventuras”.

Um outro problema de “Tá Chovendo Hambúrguer” é encontrar soluções fáceis para certos desafios que o próprio roteiro impõe ao filme. Por exemplo, o fim que levam os restos de comida que caem do céu. Além disso, outras questões passam batidas, como a obesidade – consequência óbvia do fenômeno que Flint provoca na cidade, mas que fica resumida ao tamanho da barriga do prefeito.

Esses pequenos problemas não interferem muito no fator diversão, que é o que de melhor o filme tem a oferecer. E ele entretém os cinéfilos na forma como desconstrói, brincando, convenções da ficção-científica e dos filmes B, como os gritos e caretas dos personagens (algo que vimos também em "Monstros vs. Alienígenas" este ano) e o modo como eles olham para cima espantados, um atrás do outro, em takes que se empilham.

Junto a isso está o visual bem desenhado, ainda que em traços simples, e não simplistas (o design do pai de Flint, com sua "monocelha", é um dos mais criativos). Atenção também para mais uma boa utilização do 3-D, sem recorrer aos truques gratuitos de “jogar” coisas na cara do espectador. Quando acontecem, esses momentos estão inseridos à ação da sequência, o que contribui para “pegar” o público se surpresa.

Um detalhe também vale ser citado: logo no início, vemos que o tradicional crédito “um filme de” não leva o nome dos diretores iniciantes Phil Lord e Chris Miller. No lugar, aparece escrito “um filme de um monte de pessoas”. Um toque de humildade e reconhecimento, que certamente indica que o esforço coletivo de toda a equipe foi fundamental para o bom resultado obtido.

Observação: infelizmente, só há cópias dubladas no Brasil e os distribuidores ainda não se deram ao trabalho de legendar as versões 3-D (quem sabe em 2010, quando o número de salas aumentar?). Uma pena, pois o elenco de vozes original é dos mais interessantes, trazendo Bill Hader como Flint, Anna Faris como Sam, Bruce Campbell como o prefeito e Mr. T (ele mesmo, de "Esquadrão Classe A") como o policial Earl.

nota: 7/10 -- vale o ingresso

Tá Chovendo Hambúrguer (Cloudy with a Chance of Meatballs, 2009, EUA)
direção: Phil Lord, Chris Miller; roteiro: Phil Lord, Chris Miller (baseado no livro de Judi Barrett e Ron Barrett); design de produção: Justin Thompson; música: Mark Mothersbaugh; produção: Pam Marsden; com as vozes de: Bill Hader, Anna Faris, James Caan, Andy Samberg, Bruce Campbell, Mr. T, Bobb'e J. Thompson, Benjamin Bratt, Neil Patrick Harris, Al Roker, Lauren Graham, Will Forte; estúdio: Sony Pictures Animation; distribuição: Columbia Pictures. 90 min

Salve Geral

O diretor Sérgio Rezende chegou a comparar os ataques do PCC em São Paulo aos atentados terroristas do 11 de Setembro em Nova York. Se o cineasta considera tão significativo o episódio da rebelião generalizada dos presídios paulistanos, o mínimo que se poderia esperar de "Salve Geral" é que o assunto recebesse um tratamento à altura. Porém, o filme peca na carência de detalhes sobre os fatos ocorridos naquelas horas de terror. Faz falta, principalmente, o ponto de vista do cidadão que vivenciou o caos em que a capital paulista se tornou em maio de 2006.

Porém, se a ausência desse personagem-testemunha é sentida, o foco dado à participação dos presos nos ataques é fundamental para a melhor parte do longa-metragem, que trata justamente da organização da rebelião. E Rezende leva um tempo para chegar lá, passando praticamente metade da duração total do filme desenvolvendo os personagens – principais e secundários – e preparando o cenário.

A protagonista, Lúcia, papel de Andréa Beltrão, é a mesma mãe-heroína que vimos a própria atriz viver recentemente em "Verônica" e que Patrícia Pillar interpretou em "Zuzu Angel", filme também dirigido por Sérgio Rezende. A escolha da personagem é oportuna, já que os ataques começaram em pleno Dia das Mães. E Lúcia desce ao inferno e se entrega ao diabo para tentar tirar o filho da cadeia; cumpre a missão materna a um preço que ela mesma parece duvidar se é justo.

Mas se, por um lado, a trajetória de Lúcia é capaz de comover, por outro duvidamos se a participação dela no filme como um todo é orgânica. Afinal, os ataques do PCC deixam de ser pano de fundo e ganham o primeiro plano em vários momentos, e o envolvimento da protagonista com aquele submundo não tem implicâncias significativas para o evento. Ela, então, se torna coadjuvante de uma trama paralela, aquela em que Rezende poderia ter sido mais cuidadoso.

A primeira providência que o cineasta deveria ter tomado é evitar os estereótipos, dentro e fora da prisão (o garoto nerd, apelidado de "HD", por exemplo, ficaria mais bem situado numa comédia burlesca). A outra é preencher lacunas que não deixam clara a dimensão que os ataques ganharam. Na tela, só tomamos conhecimento de muito do que aconteceu por imagens de noticiários, ou seja, temos praticamente a mesma experiência de ter acompanhado o caso pela televisão à época; sem falar no suposto acordo feito entre o PCC e a polícia - se Rezende assume que tal coisa aconteceu, por que não se deu à liberdade de detalhar os termos acertados?

“Salve Geral” tem um elenco acertado (e sem muitos rostos conhecidos do público, o que é sempre bom) e faz bem ao não recorrer a cenas explícitas de violência. A falta de contexto pode não incomodar quem entrar no filme já a par de tudo o que o ocorreu, mas, para o futuro, talvez seja necessário ao espectador fazer uma pesquisa no Google para se inteirar mais do assunto.

nota: 6/10 -- veja sem pressa

Salve Geral (2009, Brasil)
direção: Sérgio Rezende; roteiro: Sérgio Rezende, Patrícia Andrade; fotografia: Uli Burtin; montagem: Marcelo Moraes; música: Miguel Briamonte; produção: Joaquim Vaz de Carvalho; com: Andréa Beltrão, Denise Weinberg, Lee Thalor, Eucir de Souza, Kiko Mascarenhas, Michel Gomes, Giulio Lopes, Guilherme Sant'Anna, Taiguara Nazareth, Bruno Perillo, Chris Couto, Luciano Chirolli, Pascoal da Conceição, Julio Cesar; estúdio: Toscana Audiovisual, Globo Filmes; distribuição: Sony Pictures, Downtown Filmes. 119 min

Aquele Querido Mês de Agosto


“Aquele Querido Mês de Agosto” é uma história de amor narrada em dois tomos. Começa como um documentário sobre a dificuldade de uma equipe de filmagem em rodar um longa-metragem e, quando você assusta, já está dentro da segunda parte: o “filme dentro do filme”, um romance juvenil que poderia cair no lugar-comum, mas que nas mãos do diretor português Miguel Gomes se torna plenamente cativante.

Dois elementos principais contribuem para o sucesso de Gomes na condução desse enredo, que basicamente trata do amor de certa forma proibido que um rapaz sente por sua prima, e vice-versa. O carisma do casal, interpretado por Sónia Bandeira e Fábio Oliveira, é contagiante, assim como a trilha sonora que varia do lúdico, passa pelo brega e chega à sinceridade interiorana que se encontra na música feita em algumas regiões brasileiras.

O genial do filme de Gomes é a forma como ele acolhe esse romance musical com camadas de metalinguagem que aos poucos vão aproximando o espectador das motivações do diretor em realizar aquele filme, nos levando pela mão para dentro da história. A parte documental deste segundo longa do cineasta é uma genuína declaração de amor ao cinema.

Das conversas entre o diretor e o produtor sobre o roteiro, da procura por locações em meio à irresistível paisagem montanhosa, da pesquisa sobre os costumes e as festividades daquela região surge um sentimento puro de afeição daquela equipe pelo lugar e pelas pessoas que encontram pelo caminho.

Quando o “filme dentro do filme” já está rolando, é uma delícia reconhecer os elementos que compõem o cenário e acrescentam detalhes à narrativa, já que nós vimos esses mesmos elementos serem descobertos por Gomes lá atrás. O cineasta está apaixonado por tudo o que achou, e junto da câmera ele respira, filmando pelo amor de filmar, de contar uma história, por mais simples que ela seja, transformando sentimentos pessoais em imagem, expressão absoluta da sétima arte.

nota: 10/10 -- veja no cinema e compre o DVD

Aquele Querido Mês de Agosto (2008, Portugal/França)
direção: Miguel Gomes; roteiro: Miguel Gomes, Telmo Churro, Mariana Ricardo; fotografia: Rui Poças; montagem: Telmo Churro, Miguel Gomes; música: Mariana Ricardo; produção: Sandro Aguilar, Thomas Ordonneau, Luís Urbano; com: Sónia Bandeira, Fábio Oliveira, Joaquim Carvalho, Manuel Soares, Andreia Santos, Armando Nunes, Emmanuelle Fèvre, Diogo Encarnação, Bruno Lourenço, Maria Albarran, Nuno Mata, Paulo “Moleiro”, Acácio Garcia, Luís Marante; estúdio: O Som e a Fúria, Shellac Films; distribuição: Filmes do Estação. 150 min