A Cavalgada das Valquírias - um post musical









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Essa música que você ouve e certamente já reconheceu é “A Cavalgada das Valquírias”, abertura da ópera de Richard Wagner, escrita no ano de 1854. Mais de um século e meio depois, ela continua influente, tanto é que está intimamente ligada ao filme “Operação Valquíria”, já disponível em DVD.

Estrelado por Tom Cruise – que em fevereiro deste ano veio ao Brasil para divulgar o filme, você deve se lembrar – “Operação Valquíria” gira em torno de uma tentativa de assassinato contra Adolph Hitler, organizada por oficiais nazistas renegados. O esquema armado pelo grupo envolve um plano de emergência batizado por Hitler como “Valquíria” justamente porque a ópera de Wagner era adorada pelo ditador. Para você ter uma idéia, em certo momento no filme, o Führer chega a dizer que “para entender o Nacional-Socialismo, é preciso entender Wagner”.

Reza a lenda também que a “Cavalgada das Valquírias” foi tocada nos rádios-comunicadores de tanques de guerra nazistas, pouco antes de eles iniciarem um ataque. Um episódio que provavelmente inspirou o diretor Francis Ford Coppola a criar uma das cenas mais memoráveis de todos os tempos, no clássico “Apocalypse Now”, de 1979. Foi neste filme que a música foi eternizada no cinema e se tornou referência absoluta na cultura popular, graças ao momento em que o personagem de Robert Duvall ordena um ataque de helicópteros a uma vila vietnamita. A trilha sonora da carnificina promovida pelo exército americano é justamente a “Cavalgada”, que toca nos alto-falantes das aeronaves para, cinicamente, “inspirar” os soldados.

“Apocalypse Now” é o filme mais marcante que utiliza a música de Wagner, mas a história dessa poderosa composição no cinema começa bem antes. Já em 1915, ela podia ser ouvida no clímax de “O Nascimento de uma Nação”, filme seminal e controverso de D.W. Griffith, considerado um dos pioneiros da linguagem cinematográfica. Mais uma vez, a “Cavalgada” é utilizada no contexto de uma guerra. O que faz sentido, se você analisar a origem do título da ópera.

Na mitologia nórdica, as Valquírias são figuras femininas que conduzem os mortos em batalha para o salão de Valhalla, local onde os guerreiros honrados são recebidos pelos deuses. Portanto, há um significado especial para o uso da música em tantos filmes de guerra. Outros que podemos citar são “Soldado Anônimo” e “O Senhor das Armas”.

Mas filmes de outros gêneros também já aproveitaram a obra de Wagner, como a comédia “Os Irmãos Cara de Pau” e o clássico de Federico Fellini, “8 e meio”, sem falar no recente "Watchmen", em que a "Cavalgada" surge exatamente em uma cena que faz referência a "Apocalypse Now".

Jean Charles


A principal dúvida que pairava sobre a realização de “Jean Charles” era a influência que o filme teria do evento trágico que levou o protagonista à morte no metrô de Londres em 2005. Afinal, o diretor Henrique Goldman é brasileiro, mas é radicado na Inglaterra. Além disso, ao construir sua carreira como cineasta fora do Brasil, ele conseguiu o apoio de dois cineastas renomados: o alemão Wim Wenders, que co-produziu seu filme anterior, “Princesa”, de 2001, e o inglês Stephen Frears, que é um dos produtores executivos de “Jean Charles”.

Tendo trilhado esse caminho bem-sucedido, que por ironia do destino acabou o trazendo de volta ao Brasil, Goldman felizmente se mostra a pessoa certa para o projeto. Primeiro, por compartilhar com os personagens a experiência de trabalhar fora do país. E segundo, porque ele demonstra a sensibilidade necessária para não transformar “Jean Charles” em um filme-denúncia que poderia passar como uma espécie de vingança pessoal em nome dos brasileiros no exterior.

É interessante observar na tela como se apresentam as visões dos personagens e do diretor sobre o sonho de uma vida melhor fora do Brasil. O recorte feito por Goldman é nos olhares de Jean Charles (bem interpretado por um Selton Mello surpreendentemente fora do estereótipo) e de sua prima Vivian (papel de Vanessa Giácomo, também em boa atuação). O rapaz, que saiu da pequena cidade mineira de Gonzaga, curte uma certa fama que conquistou entre os compatriotas que trabalham em Londres. Sempre prestando serviços e quebrando galhos, usando o famoso jeitinho brasileiro, Jean Charles também não dispensa a malandragem para crescer, desde mentir com a cara lavada para agentes imigratórios a entrar num esquema de passaportes ilegais. Já Vivian se mantém íntegra, e até mesmo fiel ao namorado que deixou na cidade-natal, enquanto aprende aos poucos a se virar na capital britânica, aonde chega sem ao menos saber falar inglês.

Os imigrantes retratados no filme parecem enxergar Londres com um misto de admiração turística, ansiedade e esperança e, ao mesmo tempo, uma insatisfação evidente. Mesmo vivendo ali há tanto tempo, Jean Charles e seus primos Alex (Luís Miranda) e Patrícia (Patrícia Armani, que interpreta ela mesma) ainda sentem a necessidade de fazer passeios e tirar fotos pela cidade – momentos de lazer que surgem em meio a tanto trabalho, saudades e preocupações. Na maior parte do tempo, vemos que eles demonstram aquele olhar apreensivo, por estarem longe da família, trabalhando ilegalmente e fazendo bicos em bares ou obras, além de terem que enfrentar o preconceito.

Dessa forma, na cena em que Jean Charles vai a um show do cantor Sidney Magal, a emoção coletiva que o Goldman retrata é sinal claro da carência que aquelas pessoas sentem. Não só aquele é um momento de elas extravasarem, mas também de estarem junto do povo e da cultura de seu lugar de origem – por mais que essa cultura, ali, esteja representada por um ícone da música brega, que faz todos cantarem juntos o sucesso “Meu Sangue Ferve Por Você”.

Sem excessos na direção, Goldman (pouco conhecido até então, mas já autor de dois longas, “Ixcan”, de 1997, além de “Princesa”) consegue conduzir a história até o desfecho trágico de uma forma natural, filmando com câmera na mão sem desviar a atenção para artifícios estéticos. Ele compõe os planos de maneira simples e objetiva, e valoriza o trabalho de seus atores com tomadas únicas, sem recorrer à dinâmica do campo/contracampo na maior parte dos diálogos.

Além disso, o que torna “Jean Charles” um filme bastante digno é a maneira com que Goldman consegue narrar o drama daquelas pessoas sem fazer com que o incidente no metrô se torne o tema principal – aliás, propósito parecido com o de Breno Silveira em “2 Filhos de Francisco”, onde o suposto primeiro plano, a dupla sertaneja per si, é na verdade o pano de fundo. Ao lado do co-roteirista Marcelo Starobinas (também um brasileiro radicado em Londres), Goldman evita vilipendiar os ingleses de forma generalizada, sem com isso deixar de compartilhar da dor da família de Jean Charles (e de todos nós, brasileiros) frente ao crime que se cometeu contra ele. Também ao não privar aquele jovem de suas imperfeições e das infrações cometidas – sem também penalizá-lo por isso – o filme consegue estabelecer uma imparcialidade importante no retrato que constrói. As cenas finais com Vivian exemplificam bem o sentimento que o cineasta quer evocar.

nota: 7/10 -- vale o ingresso

Jean Charles (2009, Brasil/Reino Unido)
direção: Henrique Goldman; roteiro: Henrique Goldman, Marcelo Starobinas; fotografia: Guillermo Escalón; montagem: Kerry Kohler; música: Nitin Sawhney; produção: Carlos Nader, Henrique Goldman, Luke Schiller; com: Selton Mello, Vanessa Giácomo, Luis Miranda, Patricia Armani, Sidney Magal, Daniel de Oliveira; estúdio: Já Filmes, Mango Films, Telecine Productions, UKFC; distribuição: Imagem Filmes. 90 min

Rudo e Cursi


Quem torce de verdade para algum time de futebol já deve ter assistido a uma cobrança de pênalti com a sensação de que o resultado daquela cobrança (seja o gol ou uma defesa milagrosa do goleiro) era tão importante que influenciaria sua vida dali pra frente. Para os irmãos Rudo e Cursi isso vai muito além da sensação. Duas cobranças da penalidade – Cursi (Gael García Bernal) batendo e Rudo (Diego Luna) no gol – definem o futuro dos dois. Ambas acontecem em momentos distintos do filme e com dramaticidade e ênfase completamente diferentes, refletindo muito bem a realidade vivida pelos irmãos em cada momento do filme.

Rudo e Cursi vivem numa cidade rural do México e trabalham com cultivo de bananas. De família muito pobre, Cursi sonha em ser cantor, embora possua apenas uma música em seu repertório e não tenha nenhuma habilidade vocal – o narrador do filme chega a dizer que ele não sabe diferenciar paixão de talento. Entretanto, é a presença de um olheiro em uma partida de várzea que faz surgir para os irmãos a possibilidade de uma vida diferente do que Cursi planejava para seu futuro, mas com que Rudo sempre sonhou.

A partir de então, uma parcela de inocência e falta de planejamento somada ao sucesso e ao dinheiro rápido geram contrastes interessantes que algumas vezes chegam a ser cômicos. Rudo, que sempre gostou de uma mesa de jogos, troca o carteado e as brigas de galo por corridas de cavalos e apostas em cassinos. Cursi, um romântico introvertido (interpretado por Gael de forma impecável) se envolve com uma “Maria chuteira” de beleza tão extraordinária quanto sua falta de caráter.

A história é simples e algumas vezes previsível, mas Carlos Cuarón (roteiro e direção) consegue criar o clima certo para todas as circunstâncias, chegando bem perto da barreira com o ridículo, mas sem ultrapassá-la em momento algum. União, amizade, brigas, inveja e o compartilhamento de um sonho – construir uma casa enorme para a mãe – compõem o relacionamento dos dois protagonistas. Tudo é feito de forma muito natural e é quase impossível, para quem tem um irmão ou uma irmã, não se identificar em algum momento do longa.

O filme ainda conta com algumas sacadas ótimas – como o penteado exótico adotado por Cursi quando atinge o estrelato e os rituais de “batismos” aplicados pelos veteranos das equipes de futebol nos dois novatos – e um figurino fantástico, que para nós brasileiros pode parecer exagerado, mas diz muito da cultura mexicana. O conto de fadas acontece, os irmãos viram craques reconhecidos e cultuados em todo território mexicano, mas a todo instante Cuarón não nos deixa esquecer que seu filme não é fantasia, é vida real. Encontrar casos semelhantes aos vividos pelos dois irmãos é mais fácil do que parece, e o futebol brasileiro está cheio deles.

“Rudo e Cursi” chegou a ter estreia nos cinemas brasileiros marcada para março deste ano, mas acabou ficando de fora das telonas (logo no “país do futebol”) e foi lançado recentemente em DVD. Uma pena... Quem estiver em São Paulo pode conferir o longa na telona esta semana em uma das sessões do 4º Festival de Cinema Latino-Americano, onde é apresentado com o título "Rude e Brega" (veja a programação).

nota: 8/10 -– compre o DVD

Rudo e Cursi (Rudo y Cursi, 2008, México/EUA)
direção: Carlos Cuarón; roteiro: Carlos Cuarón; fotografia: Adam Kimmel; montagem: Alex Rodríguez; música: Leoncio Lara; produção: Alfonso Cuarón, Alejandro González Iñárritu, Guillermo del Toro, Frida Torresblanco; com: Gael García Bernal, Diego Luna, Guillermo Francella, Dolores Heredia, Adriana Paz, Jessica Mas, Salvador Zerboni; estúdio: Canana Films, Cha Cha Cha, Esperanto Filmoj, Focus Features, Producciones Anhelo, Universal Pictures; distribuição: Universal Pictures. 103 min

Os melhores filmes de 2009 - primeiro semestre


Geralmente, quando chega esta época, é comum ouvir comentários como: "Os filmes deste ano estão mal das pernas," ou, "Não lembro qual foi o último filme bom que vi no cinema..."

Eu sempre costumo discordar desse tipo de opinião, porque, na maioria das vezes, as pessoas que dizem isso não foram muito ao cinema ou viram apenas os grandes lançamentos. Mas, infelizmente, desta vez eu tenho que ceder: 2009 está mesmo devendo grandes filmes.

O ranking abaixo traz os 83 longas-metragens lançados nos cinemas brasileiros desde janeiro aos quais eu pude assistir. A notar: dentre os 20 primeiros colocados, apenas cinco são lançamentos genuínos de 2009 - os demais são produções que estreiaram em seus países de origem no ano passado ou que já vinham circulando por festivais desde o semestre anterior.

A boa constatação é que os filmes nacionais emplacaram bem, com três títulos entre as 11 primeiras posições e nenhum com nota inferior a quatro. Destaque ainda no campo da animação, que responde por três filmes entre os 10 preferidos. As grandes decepções ficam mesmo a cargo dos blockbusters hollywoodianos: tirando "Star Trek" e "Watchmen", veio bomba atrás de bomba.

Confira a lista completa - os filmes que possuem crítica publicada estão linkados.

1. “Gran Torino”, de Clint Eastwood (10)
2. “O Lutador”, de Darren Aronofsky (9)
3. “Entre os Muros da Escola”, de Laurent Cantet (9)
4. “Bolt – Supercão”, de Byron Howard e Chris Williams (9)
5. “Coraline e o Mundo Secreto”, de Henry Selick (9)
6. “Sinédoque, Nova York”, de Charlie Kaufman (8)
7. “Desejo e Perigo”, de Ang Lee (8)
8. “A Festa da Menina Morta”, de Matheus Nachtergaele (8)
9. “Valsa com Bashir”, de Ari Folman (8)
10. “Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Eu Dei”, Claudio Manoel, Calvito Leal e Micael Langer (8)
11. “FilmeFobia”, de Kiko Goifman (8)
12. “Presságio”, de Alex Proyas (8)
13. “Duplicidade”, de Tony Gilroy (8)
14. “Milk – A Voz da Igualdade”, de Gus Van Sant (8)
15. “O Visitante”, de Thomas McCarthy (8)
16. “Che”, de Steven Soderbergh (8)
17. “Rio Congelado”, de Courtney Hunt (8)
18. “3 Macacos”, de Nuri Bilge Ceylan (8)
19. “Watchmen – O Filme”, de Zack Snyder (8)
20. “Eu Te Amo, Cara”, de John Hamburg (8)
21. “De Repente, Califórnia”, de Jonah Markowitz (8)
22. “Beijo na Boca, Não!”, de Alain Resnais (8)
23. “O Equilibrista”, de James Marsh (8)
24. “O Casamento de Rachel”, de Jonathan Demme (8)
25. “A Janela”, de Carlos Sorin (8)
26. “Frost/Nixon”, de Ron Howard (8)
27. “Jean Charles”, de Henrique Goldman (7)
28. “A Garota Ideal”, de Craig Gillepsie (7)
29. “Dúvida”, de John Patrick Shanley (7)
30. “Star Trek”, de J.J. Abrams (7)
31. “The Spirit – O Filme”, de Frank Miller (7)
32. “W.”, de Oliver Stone (7)
33. “Apenas o Fim”, de Matheus Souza (7)
34. “Táxi Para a Escuridão”, de Alex Gibney (7)
35. “Operação Valquíria”, de Bryan Singer (7)
36. “Foi Apenas um Sonho”, de Sam Mendes (7)
37. “Monstros vs. Alienígenas”, de Rob Letterman e Conrad Vernon (7)
38. “Ninho Vazio”, de Daniel Burman (7)
39. “Intrigas de Estado”, de Kevin Macdonald (7)
40. “Tony Manero”, de Pablo Larrain (7)
41. “O Leitor”, de Stephen Daldry (7)
42. “A Troca”, de Clint Eastwood (6)
43. “O Curioso Caso de Benjamin Button”, de David Fincher (6)
44. “A Bela Junie”, de Christophe Honoré (6)
45. “Sim, Senhor”, de Peyton Reed (6)
46. “A Partida”, de Yôjirô Takita (6)
47. “Trama Internacional”, de Tom Tykwer (6)
48. “Verônica”, de Maurício Farias (6)
49. “Simplesmente Feliz”, de Mike Leigh (6)
50. “Alguém que Me Ame de Verdade”, de Diane Crespo e Stefan C. Schaefer (6)
51. “As Testemunhas”, de André Téchiné (6)
52. “O Corajoso Ratinho Desperaux”, de Sam Fell e Robert Stevenhagen (6)
53. “Divã”, de José Alvarenga Jr. (6)
54. “A Era do Gelo 3”, de Carlos Saldanha (6)
55. “Palavra (En)Cantada”, de Helena Solberg (6)
56. “X-Men Origens: Wolverine”, de Gavin Hood (6)
57. “O Menino da Porteira”, de Jeremias Moreira (5)
58. “Quem Quer Ser um Milionário?”, de Danny Boyle (5)
59. “Inútil”, de Zhang Ke Jia (5)
60. “Austrália”, de Baz Luhrman (5)
61. “Milagre em St. Anna”, de Spike Lee (4)
62. “Pagando Bem, Que Mal Tem?”, de Kevin Smith (4)
63. “Sexta-Feira 13”, de Marcus Nispel (4)
64. “O Exterminador do Futuro: A Salvação”, de McG (4)
65. “A Mulher Invisível”, de Cláudio Torres (4)
66. “Budapeste”, de Walter Carvalho (4)
67. “Um Louco Apaixonado”, de Robert B. Weide (4)
68. “Os Delírios de Consumo de Becky Bloom”, de P.J. Hogan (4)
69. “Dragonball: Evolução”, de James Wong (4)
70. “Velozes e Furiosos 4”, de Justin Lin (4)
71. “O Dia em que a Terra Parou”, de Scott Derrickson (4)
72. “Bela Noite Para Voar”, de Zelito Viana (4)
73. “Surpresas do Amor”, de Seth Gordon (4)
74. “Um Faz de Conta que Acontece”, de Adam Shankman (4)
75. “Perdido Pra Cachorro”, de Raja Gosnell (4)
76. “Anjos e Demônios”, de Ron Howard (4)
77. “Dia dos Namorados Macabro”, de Patrick Lussier (3)
78. “Ele Não Está Tão Afim de Você”, de Ken Kwapis (3)
79. “Quarentena”, de John Erick Dowdle (3)
80. “Alma Perdida”, de David S. Goyer (3)
81. “Noivas em Guerra”, de Gary Winick (3)
82. “Passageiros”, de Rodrigo García (2)
83. “Transformers: A Vingança dos Derrotados”, de Michael Bay (1)

Dúvida


Dizer que "Dúvida" é só um "filme de ator" (trocadilho com "filme de autor" que alguns colegas da crítica fizeram) é ignorar o trabalho bem feito na direção de John Patrick Shanley.

Ele é o mesmo cineasta que, quase duas décadas atrás, realizou a comédia "Joe Contra o Vulcão", aquela mesma com Tom Hanks e Meg Ryan, e um pouco antes ganhou o Oscar pelo roteiro de "Feitiço da Lua". Se exilou atrás da máquina de escrever nos anos 90 e não conseguiu produzir nada que valha a pena lembrar, como "Os Dinossauros Voltaram" (1993) e "Congo" (1995). Salva-se apenas "Vivos" (1993).

É de se admirar, portanto, este retorno ao comando da câmera, que resulta em um certo rigor na composição dos quadros. Muito, claro, vem da parceria com o diretor de fotografia Roger Deakins, que auxilia a execução de ideias como a cena em que o padre vivido por Philip Seymour Hoffman é confrontado pelas irmãs interpretadas por Meryl Streep e Amy Adams, e o "peso" do quadro vai todo sobre o sacertote.

Por outro lado, Shanley comete alguns excessos na tentativa de ressaltar momentos dramáticos da narrativa, como a cena em que o brinquedo do menino é pisoteado ou a ocorrência de uma tempestade, clichê digno de um filme de horror.

Apesar de "Dúvida" ter um visual bem cuidado, é perfeitamente compreensível que o elenco chame mais a atenção, já que os três atores principais são sinônimo inquestionável de qualidade. Meryl Streep está fantástica, como de hábito, mas seus colegas de cena não correspondem à expectativa.

Philip Seymour Hoffman, apesar de excepcional ator, parece mal escalado, pois simplesmente não convence como padre. Ele não insere peculiaridades na composição do personagem e parece repetir trejeitos de papéis anteriores, sempre gritando e rindo alto.

Mal semelhante acomete Amy Adams: já comprovou ser uma ótima atriz, mas começa a correr o risco de se desgastar se continuar intepretando sempre a ingênua da história.

A melhor sacada de "Dúvida" é manter até o fim, justamente, a dúvida sobre as atitudes do padre, ainda que no subtexto deixe mais ou menos claro o que está acontecendo. Shanley e seu elenco fazem cinema de qualidade, em mais um injustiçado do Oscar que merecia estar entre os cinco indicados a Melhor Filme, muito mais do que os que acabaram selecionados.

nota: 7/10 -- vale o ingresso

Dúvida (Doubt, 2008, EUA)
direção: John Patrick Shanley; roteiro: John Patrick Shanley; fotografia: Roger Deakins; montagem: Dylan Tichenor; música: Howard Shore; produção: Mark Roybal, Scott Rudin; com: Meryl Streep, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams, Viola Davis, Joseph Foster, Lloyd Clay Brown, Alice Drummond, Audrie J. Neenan, Mike Roukis, Paulie Litt; estúdio: Goodspeed Productions, Scott Rudin Productions; distribuição: Buena Vista. 104 min

Apenas o Fim

A estréia de “Apenas o Fim” nos cinemas é um exemplo perfeito da desigualdade entre o número de filmes que aguardam uma data para serem exibidos e o número de salas de projeção disponíveis no país.

Se fosse lançado na “baixa temporada”, isto é, entre março e abril ou setembro e outubro, o filme do cineasta estreante Matheus Souza poderia muito bem encontrar espaço nos cinemas de shopping. Afinal, trata-se de uma comédia romântica voltada para o público adolescente ou na faixa dos 30 anos de idade. Tem atores jovens e talentosos (Gregório Duvivier e Érika Mader, ambos de "Podecrer!"), uma direção simples e moderninha, bem ao gosto da geração MTV, além de uma tonelada de referências à cultura pop, presentes em praticamente todos os diálogos.

Mas de nada adianta tudo isso com a concorrência injusta da temporada de férias escolares, quando temos, por exemplo, “A Era do Gelo 3” ocupando nada menos do que 5 das 10 salas de um multiplex da rede Cinemark. Que saída há para produções independentes e modestas, como “Apenas o Fim”, senão o circuito alternativo?

O filme de Matheus Souza está longe de ser perfeito ou merecer figurar entre os melhores do ano. Tem problemas evidentes, principalmente no exagero de citações a outros filmes, séries de TV, brinquedos, videogames, bandas e até redes de fast-food. A sensação é a de estar numa sala onde Quentin Tarantino, Kevin Smith e Jerry Seinfeld, inspirações óbvias do cineasta, conversam sobre futilidades sem parar.

Souza não coloca menção a "Antes do Amanhecer"/"Antes do Pôr do Sol" na boca dos personagens - o que pode soar estranho, uma vez que o antenado casal protagonista certamente assistiu àqueles filmes. Mas talvez Souza tenha optado por não ser tão óbvio e fazer do próprio filme uma referência a Richard Linklater.

Apesar da overdose intertextual e do prolongamento de algumas cenas com o elenco coadjuvante, “Apenas o Fim” cresce em duas instâncias mais importantes. A primeira, a direção, com Souza privilegiando tomadas longas e planos-sequências entre o vai-e-vem desnecessariamente "cool" da narrativa. A outra, o sentimento sincero que evoca através do drama do fim do namoro, situação pela qual a maioria de nós já passou e que atinge em cheio o público jovem.

Público esse que, por imposição dos grandes distribuidores, fatalmente não verá o filme e perderá seu tempo com “Transformers 2” e outras bobagens.

nota: 7/10 -- vale o ingresso

Apenas o Fim (2009, Brasil)
direção: Matheus Souza; roteiro: Matheus Souza; fotografia: Julio Secchin; montagem: Julio Secchin; música: Pedro Carneiro; produção: Mariza Leão, Julia Ramil; com: Gregório Duvivier, Érika Mader, Marcelo Adnet, Nathalia Dill, Anna Sophia Floch, Álamo Facó, Julia Gorman; estúdio: Atitude Produções; distribuição: Filmes do Estação. 80 min

O Equilibrista


"Para mim, é muito simples que vida deve ser vivida no limite. Você tem que exercitar a rebeldia. Recusar a se prender às regras, recusar o próprio sucesso, recusar ficar se repetindo. Ver cada dia, cada ano, cada idéia, como se fosse um verdadeiro desafio. Assim, você vai viver a sua vida na corda bamba."

Em certo momento do documentário "O Equilibrista", Philippe Petit critica a curiosidade daqueles que perguntaram o motivo de ele ter decidido atravessar as torres gêmeas do World Trade Center em 1974, equilibrando-se em cima de um cabo.

"'Por quê? Por quê?' É uma pergunta tipicamente americana. Fiz algo magnífico, misterioso, e me perguntam um banal: 'Por quê?' E a beleza de tudo isto era que eu não tinha uma razão."

O ato de Philippe é uma performance circense radical e extrema. Em uma palavra: arte. Arriscada? Insana? Pretensiosa? Sim, pode ser tudo. Mas há algo ali muito bonito que não dá para definir bem.

É uma transgressão, sem dúvida, e o fato de o palco ser o recém-inaugurado World Trade Center demonstra o quanto aquelas torres já nasceram representativas e impositoras. Ver um homem desafiando um ícone, mais do que a altura ou a força da gravidade, tem algo de mágico.

Philippe está certo em criticar o "Por quê?" dos americanos. Sua performance não foi simbólica no sentido racional, mas certamente tem um significado para todos que a presenciaram e a vêem agora, na tela. Belo filme.

Desejo e Perigo


Um tema recorrente na filmografia de Ang Lee é a repressão – seja ela da sexualidade, em “O Segredo de Brokeback Mountain”, de emoções básicas do ser humano, como a raiva, tratada em “Hulk”, ou do mero descontentamento com a vida familiar, como visto em “Tempestade de Gelo”. Em “Desejo e Perigo”, a repressão surge na política.

Não apenas por o filme ser situado durante a Segunda Guerra Mundial, na Xangai ocupada pelos japoneses, onde o Sr. Yee, oficial vivido por Tony Leung, age com autoritarismo, torturando e executando aqueles que se opõem ao regime instalado. Na verdade, a política está principalmente no jogo que se estabelece entre o militar e a jovem Mak (Tang Wei), representante de um grupo da resistência (o que cria um interessante paralelo com o ótimo "A Espiã", de Paul Verhoeven).

O que mais chama a atenção é a relação de poder entre eles: o oficial exerce a dominação pela violência, enquanto a moça utiliza a sedução para se impor. É admirável a maneira como Ang Lee propõe a inversão de forças, quando observamos, primeiro, o gosto que Mak toma pelo poder que descobre ser capaz de exercer e, segundo, o ciclo que se fecha do primeiro ao último contato íntimo do casal.

As cenas tórridas de sexo não são gratuitas, já que historicamente Lee é um cineasta que jamais é explícito sem motivo. Em “Desejo e Perigo”, não apenas o sexo é usado como elemento narrativo (notável como a câmera mostra a nudez de Tang Wei pela primeira vez, do teto do quarto, e mais adiante, quase colada ao corpo da atriz), mas também uma cena de extrema violência.

Até tal cena acontecer, o filme corre de maneira muito contida, sem excessos. Quando a sequência de assassinato surge, o efeito é dramático (num filme de Quentin Tarantino, o impacto não seria o mesmo). E ela também representa uma forma de libertação - dramatúrgica e narrativa. Já mais adiante no filme, quando mostrar a morte não é necessário, Lee opta com inteligência por desviar a lente da câmera para cima.

É nessa forma que “Desejo e Perigo” se desenvolve, prendendo a atenção e surpreendendo o espectador em uma história de espionagem que se converte em um thriller erótico elegante, onde a luxúria indubitavelmente leva ao risco, como o título do filme preconiza.

nota: 8/10 -- veja no cinema e compre o DVD

Desejo e Perigo (Se, jie ou Lust, Caution, 2007, Taiwan/China/Hong Kong/EUA)
direção: Ang Lee; roteiro: James Schamus, Hui-Ling Wang; fotografia: Rodrigo Prieto; montagem: Tim Squyres; música: Alexandre Desplat; produção: Ang Lee, William Kong; com: Tony Leung, Tang Wei, Joan Chen, Wang Lee-Hom, Tou Chung Hua, Chu Chih-ying, Kao Ying-hsien, Ko Yue-Lin, Yuen Johnson; estúdio: Haishang Films, Focus Features, River Road Entertainment; distribuição: Europa Filmes. 157 min

Michael Jackson

"Thriller", "Bad", "Black or White". São todos vídeos geniais e, assim como outros de Michael Jackson, possuem alguma ligação com cinema, seja pelos diretores ou pelos atores convidados para contracenar com ele. Mais que isso, são concepções extremamente visuais, o que certamente ficará marcado como principal característica deste artista, talvez o primeiro de sua geração que soube criar uma obra onde música e imagem são indissociáveis.

Cada um dos vídeos citados acima marcou minha infância de alguma forma. Meus pais contam que eu morria de medo, de chorar até, quando Michael Jackson virava lobisomem em "Thriller". Eu era muito pequeno e não me lembro, mas algo que guardo na memória até hoje é a noite em que a Globo exibiu "Black or White" no Fantástico, versão integral, e reprisando o clipe no fim do programa.

De qualquer forma, é "Moonwalker", o filme, que mais está preso em meu imaginário. Abaixo, um trecho (pirateado por alguém, não sei até quando vão deixar no ar) que traz Michael Jackson fugindo de bonecos em animação stop-motion entre os galpões de um estúdio. Um nonsense só e era uma das partes que eu mais curtia ver.

Em seguida, outro trecho (dividido em duas partes), que além de trazer a famosa sequência com a música "Smooth Criminal" (dirigida por Colin Chilvers, que hoje é consultor de efeitos visuais, tendo trabalhado em "Superman - O Filme", "X-Men", "A Noiva de Chucky" e "Mandando Bala"), resume bem o estilo kitsch oitentista: da transformação em "Super-Máquina", à moedinha atirada na jukebox, chegando ao clássico robô.

"Moonwalker" pode ser brega pra caramba em toda sua auto-promoção, mas, perto do que artistas musicais de hoje em dia fazem no cinema, é algo notável e de uma imaginação inegável. Se antes da morte de Michael Jackson essas imagens já guardavam algo especial, agora ganham um brilho diferente. Está aí nossa homenagem.








Antes de acabar o post, sabemos que a cobertura sobre Michael Jackson será maçante pelos próximos dias na mídia, mas não poderíamos deixar de citar também "O Mágico Inesquecível", de 1978 - versão de "O Mágico de Oz" onde o músico interpreta o Espantalho e Diana Ross é Dorothy. O filme: dirigido por Sidney Lumet, escrito por Joel Schumacher e produzido por Rob Cohen. Quem diria, hein? Impagável. Confira o trailer:




E aqui está uma cena com Michael Jackson.

"Entre os Muros da Escola": do lado de cá


Duanne Ribeiro, da revista Capitu, me escreve um e-mail comunicando que, na próxima edição, será publicado um apanhado das reações entre os blogs a "Entre os Muros da Escola", o excelente filme de Laurent Cantet, vencedor da Palma de Ouro.

A iniciativa dá continuidade a uma reportagem publicada na edição de junho da Capitu, na qual Letícia Silva faz um relevante e revelador paralelo entre o cotidiano de uma escola pública de São Paulo e os fatos narrados por Cantet na tela e, principalmente, por François Begaudau no livro que inspira o filme.

Termino minha crítica citando que "Entre os Muros da Escola" encontra ecos deste lado do Atlântico. Fui aluno de escola pública do pré-escolar à oitava série no Instituto de Educação de Minas Gerais, numa época em que a situação não era excepcional para o ensino, mas, ainda assim, o ambiente escolar era saudável e de qualidade.

Minha mãe se aposentou como orientadora educacional no IEMG e, anos após eu ter deixado a escola, ela me contava como o quadro havia mudado: alunos encontrados com armas dentro de sala, displicência em níveis cada vez maiores e uma queda considerável de qualidade na própria docência - reflexo inevitável da desvalorização da profissão de professor.

Minha tia, irmã de minha mãe, também deu aulas no ensino público em Belo Horizonte e não era raro eu a ouvir comentar sobre os absurdos advindos da implantação do "Escola Plural" - programa instituído em 1995, durante a administração do então prefeito e atual ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Patrus Ananias, que, resumidamente, substituiu notas por "conceitos" e acabou com a reprovação, a chamada "bomba", sob o preceito de uma "renovação pedagógica". (Tendo em vista as duras críticas que o sistema recebeu ao longo dos anos, o atual prefeito de BH, Márcio Lacerda, anunciou mudanças nesse sistema, ainda a serem implementadas, como a volta das notas nos boletins e da conhecida "recuperação".)

Não é difícil imaginar nas escolas daqui quadro semelhante ao encontrado por Letícia Silva em São Paulo. Chama a atenção, em seu texto, a semelhança gritante entre as situações observadas por ela na sala de aula e aquelas reencenadas por Cantet, Begaudau e os atores-alunos no filme. Também existem congruências entre os professores da escola paulista e da francesa, como constatamos no seguinte trecho da reportagem:

"Lá, um professor francês, colega de Begaudau chega à escola com os cabelos em pé. Nervoso e agitado, anda rápido para dentro da sala dos professores. Ele promete a si e a todos que chega! Não ficaria mais ali. Levanta-se, transtornado, a prometer algo que, aqui, é tão comum. São muitos os professores que encontrei que querem (e muito) parar de dar aulas. Em Paris, os professores chegam à sala docente desolados, nervosos. Um com o cabelo em pé, outro, olheiras no queixo, outro, o nó na garganta. Outro, quieto, cansou de reclamar. Em São Paulo,o mesmo: professor não tem vez, disseram-me.

O tédio e a falta de vontade, nas duas realidades, tornam-se sinônimos da falta de sentido quando nem professor, nem aluno, trazem consigo experiências que traduzam a escola como lugar de benefícios, crescimento, e não de dor, privações, regresso."

Vale ler a matéria na íntegra. Clique aqui.

Notável também a força de "Entre os Muros da Escola", que lidera as buscas aqui no site. A crítica que escrevi mesmo: já foi linkada e citada em diversos outros sites, e é a mais lida desde a criação do blog. Até hoje, mais de três meses desde o lançamento do filme no Brasil, o texto ainda aparece no topo das estatísticas de acesso, acima de qualquer blockbuster ou vencedor de Oscar que já comentamos - o que é gratificante por ser uma amostra do interesse e do gosto do público que temos aqui.

"Entre os Muros da Escola" é distribuído pela Imovision no Brasil, ainda está em cartaz em alguns cinemas e será lançado em DVD, nas locadoras, no próximo dia 8 de julho.