Santo assombro

Vi hoje em cabine "Fronteira", segundo longa do mineiro Rafael Conde. Rafael é mais conhecido pela carreira acadêmica e de curta-metragista (o mais famoso deve ser mesmo "Françoise"). Seu primeiro longa foi "Samba-Canção", uma comédia experimental das mais divertidas e da qual nunca me canso de falar. Hoje em dia só é possível ver em mostras e festivais, porque o filme nunca foi lançado em DVD. Se você esbarrar com ele algum dia, não deixe de assistir.

Voltando ao "Fronteira", achei um filme assustador. Não é filme de horror, embora tenha uma atmosfera assombrosa. Também não é o que se entende por "filme de época": embora a trama se passe em fins do século 19, a narrativa clássica não tem vez. Não é um filme fácil - e o próprio diretor reconhece que houve um estranhamento na relação do público com seu trabalho nas exibições já realizadas em mostras.

Devo entrevistar o Rafael em breve, aí vocês terão uma noção melhor do que estou falando. Por hora, fiquem com o trailer (site oficial também disponível). O filme já está em cartaz em São Paulo e Salvador.


"A Vida Num Só Dia" direto em DVD

Acabo de receber release da Universal avisando que "A Vida Num Só Dia" - título "traduzido" dado pelo distribuidor a "Miss Pettigrew Lives for a Day" - chega às locadoras brasileiras no próximo dia 10 de dezembro.

Para quem não está a par, trata-se de uma comédia romântica "screwball", daquelas típicas dos anos 30. As notas são boas no Rotten Tomatoes (77% - com direito a certificado "Fresh") e no IMDb (7.2 em 10). Já o metacritic registra nota 63 em 10 - ainda assim, nada mal.

A direção é do cineasta indiano Bharat Nalluri, que, entre outras coisas, fez "O Corvo 3: A Salvação"... Medo! Mas como os roteiristas trabalharam em "Em Busca da Terra do Nunca", "Ou Tudo Ou Nada" e no elogiadíssimo "Slumdog Millionaire" (novo do Danny Boyle), vale dar uma conferida. E um filme com Frances McDormand e Amy Adams nos papéis principais não é de se jogar fora.

Infelizmente, o DVD para locação está em tela cheia. Vamos ver se na versão para venda teremos a razão de aspecto correta, que é 2:35:1.

Trailer a seguir:


Rede de Mentiras

“Rede de Mentiras” é um bom filme de espionagem, mas não espere que Ridley Scott ofereça algo novo ao gênero ou à sua filmografia (não deixa de ser curioso, aliás, que esteja sendo lançado no Brasil no mesmo dia em que “Queime Depois de Ler”).

A ambientação da trama na Guerra do Iraque é atual e tudo mais, mas parece que o tema foi abordado só para “estar na moda”, uma vez que não se acrescenta nada que já não vimos: tortura, intrigas políticas, espionagem hi-tech via satélite etc., etc., etc.

Como em todo filme de Ridley Scott, as imagens recebem um tratamento de primeira: são cenas bem iluminadas, quentes, plásticas até. É um filme bonito. Até mesmo uma cena que se passa num depósito de lixo é feita com a melhor fotografia possível. O problema é que o cineasta usa toda essa beleza fotográfica a serviço de decisões pouco sensatas, como na criação de cenas típicas de thrillers de ação. Tome como exemplo a seqüência em que o personagem de Leonardo DiCaprio é resgatado por helicópteros americanos – mais parece um filme do Rambo ou, para ficar na carreira de Scott, o terrível e ufanista “Falcão Negro em Perigo”.

O preciosismo do diretor com a imagem também é percebido na execução de cenas em que ocorrem ataques terroristas, que parecem muito realistas e detalhadas (note como a marquise de um prédio faz uma “onda” devido ao impacto de uma explosão). E por querer mostrar tudo e mostrar muito, Scott também volta a “Falcão Negro em Perigo” ao realizar uma cena bastante gráfica, quando a simples sugestão do que está acontecendo já bastaria.

É tudo muito bem feito em “Rede de Mentiras”, mas o filme não escapa de ser desnecessário. Scott mostra mais uma vez que é um cineasta de extrema competência técnica, mas emocionalmente gélido na construção de seus personagens – o que fica ainda mais evidente na tentativa desesperada do roteirista William Monahan em criar um lado mais humano para o personagem de DiCaprio através de um relacionamento amoroso. Acaba que é o chefe da CIA vivido por Russell Crowe que parece mais a vontade no filme, graças à sua personalidade fria e pouco sensível.

nota: 6/10 -- veja sem pressa

Rede de Mentiras (Body of Lies, 2008, EUA)
direção: Ridley Scott; com: Leonardo DiCaprio, Russell Crowe, Mark Strong, Golshifteh Farahani, Oscar Isaac, Ali Suliman, Alon Abutbul, Vince Colosimo; roteiro: William Monahan (baseado no livro de David Ignatius); produção: Donald De Line, Ridley Scott; fotografia: Alexander Witt; montagem: Pietro Scalia; música: Marc Streitenfeld; estúdio: De Line Pictures, Scott Free Productions; distribuição: Warner Bros. 128 min

Feliz Natal

O Natal traz sentimentos antagônicos: se por um lado é sinônimo de festa, reunião familiar, confraternização, por outro a data chega em um momento em que as pessoas parecem estar mais cansadas, estressadas, carregadas. Talvez seja resultado de um acúmulo de trabalho e outras coisas ao longo dos meses ou talvez seja apenas uma impressão que temos por se ter cumprido o calendário até o fim.

“Feliz Natal”, primeiro longa de Selton Mello na direção, traz exatamente essa dicotomia: não espere um filme alegre ou o típico lançamento de fim de ano. Não, não. Apesar de o riso aflorar em mais de um momento (muito graças ao garotinho Fabrício Reis), temos aqui o retrato de uma família desestruturada que vê seus dramas chegarem à beira da tragédia quando o filho mais velho, Caio (Leonardo Medeiros), retorna para casa justamente na noite natalina.

Ao longo do filme, descobrimos que Caio se envolveu e se sente culpado por um acidente automobilístico (não é a toa que ele trabalha em um ferro velho, como se aquilo fosse um tipo de expurgo) que resultou em pelo menos uma fatalidade (a morte, aliás, é um tema recorrente e que faz contraponto ao título, já que “natal” significa “nascimento”). Mas por que isso aconteceu, como e quem foi o verdadeiro culpado, o espectador não saberá. Da mesma forma, fica a dúvida sobre a razão da forte amargura que o pai (o grande Lúcio Mauro) sente em relação ao filho. Não parece ter sido apenas por causa do acidente. A relação de Caio com o irmão Theo (Paulo Guarnieri) também é marcada pelo ressentimento – algo que fica claro na cena em que Theo pergunta: “Você queria me falar alguma coisa?”, ao que Caio responde: “Queria”. Mas aquilo permanece engasgado.

Os motivos não importam realmente. O que interessa a Selton Mello são as emoções daquelas pessoas, o que elas sentem. Tanto é que sua câmera sempre procura empregar ao filme uma textura epidérmica: com imagens bastante granuladas (o que sempre me dá a impressão de que o filme está vivo), várias cenas são filmadas em primeiríssimos planos ou planos de detalhes, que quase encostam a lente na pele dos atores (como muitos colegas já disseram em seus textos e o próprio diretor admitiu, é uma influência direta do cinema de John Cassavetes). Mais que isso, Selton está em busca de olhares, como se os personagens falassem com os olhos. Em algumas dessas tomadas, ele adota um estilo esteticamente imperfeito, mas nem por isso inadequado, ao dar zoom no rosto dos atores enquanto eles dizem alguma coisa ou só escutam. São detalhes na filmagem que dão personalidade ao longa, somados aos bem executados planos-seqüências (que por sua vez remetem aos irmãos Dardenne) e à bela e equilibrada fotografia em scope de Lula Carvalho.

Talvez “Feliz Natal” perca um pouco de sua força em momentos isolados, como nas participações dos amigos de Caio, que acabam por fazer lembrar o jeito caricatural de Selton na frente das câmeras: eles falam rápido, esbravejam em certas horas, fazem piadas – parecem incorporar o ator Selton Mello em cena. Incomoda também a carga dramática excessiva empregada a um dos momentos finais (direi apenas que é numa cena que remete à primeira tomada do filme).

De qualquer forma, o que são esses “problemas” diante de uma seqüência tão magnífica quanto aquela em que a matriarca vivida por Darlene Glória, num momento de catarse em busca do nirvana, executa uma espécie de “dança da morte” enquanto, paralelamente, é mostrado o que se passa com os demais personagens? É um dos grandes momentos exibidos numa tela de projeção este ano, e não só entre os filmes brasileiros. É, enfim, um dos pontos altos que tornam este “Feliz Natal” tão assustadoramente bom.

nota: 9/10 -- veja no cinema e compre o DVD

Feliz Natal (2008, Brasil)
direção: Selton Mello; com: Leonardo Medeiros, Darlene Glória, Paulo Guarnieri, Lúcio Mauro, Graziella Moretto, Fabrício Reis, Emiliano Queiroz, Thelmo Fernandes, Claudio Mendes, Daniel Torres, Nathalia Dill, Hossen Minussi, Rose Abdallah, Lucas Guarnieri, Liz Maggini, Cláudia Nunes; roteiro: Selton Mello, Marcelo Vindicatto; produção: Vânia Catani, Selton Mello; fotografia: Lula Carvalho; montagem: Selton Mello, Marília Moraes; música: Plínio Profeta; estúdio: Bananeira Filmes, Mondo Cane Filmes; distribuição: Europa Filmes. 100 min

A Duquesa

Há algo de podre no reino... E essa podridão deixou de ser política e se tornou social. Ou eu deveria dizer comportamental? “A Duquesa” – mais um filme que traz Keira Knightley em um papel de época – deixa de lado os livros de História e se concentra nos jogos conjugais que se passam de palácio a palácio. A Revolução Francesa, por exemplo, é citada apenas quando um personagem quer puxar assunto em uma conversa casual. E a busca por esse lado mais íntimo das cortes têm se tornado uma tendência: “Maria Antonieta”, “Elizabeth – A Era de Ouro” e “A Outra” são outros recentes exemplos de filmes que preferem narrar eventos históricos pelo ponto de vista dos relacionamentos e dos sentimentos daqueles personagens.

No caso, o cenário principal é Devonshire, região no sudoeste da Inglaterra. Georgiana (Knightley) é negociada (não há termo mais adequado) por sua mãe, Lady Spencer (vossa realeza, Charlotte Rampling), para um casamento com William Cavendish, o duque de Devonshire (Ralph Fiennes). A História diz que Georgiana foi uma celebridade em sua época, tendo sido uma figura influente no meio artístico e político. No filme, vemos Georgiana participar de campanhas e proferir discursos, mas nunca esses momentos são a razão de ser das cenas – servem apenas para estabelecer a situação, onde o que realmente importa são as conversas tidas à sombra das cortinas, nos cantos dos salões e corredores, ou mesmo à mesa durante uma refeição.

Tais conversas giram em torno de um único assunto: a infeliz vida amorosa de Georgiana. Inicialmente feliz por ter se tornado uma duquesa, logo a jovem sente o desprezo machista de seu marido, que pensa e age com o pênis. O personagem de Fiennes lembra o de Eric Bana em “A Outra”: tanto o duque quanto o rei Henrique VIII se desfazem de suas companheiras porque elas não conseguem gerar um herdeiro do sexo masculino. Esse “desfazer”, porém, é relativo: o divórcio é um escândalo, então, a solução é conseguir uma(s) amante(s) e ser discreto – recomedação do próprio duque. Discrição esta que Georgiana não suporta, já que vê sua melhor amiga (Hayley Atwell) se tornar a segunda esposa não-oficial do duque e ainda tem que dividir a casa com ela. Vendo-se privada de também ter um amante, ela é obrigada a se contentar com o casamento de aparências (por esse lado, Maria Antonieta aproveitou mais a vida).

É compreensível que o papel da feminilidade numa sociedade como aquela se torne um tema de preferência, uma vez que a mulher contemporânea é cada vez mais independente e quer se enxergar na tela (Sofia Coppola entendeu isso). Ou, como é o caso aqui, ela pode tomar as dores da protagonista e se indignar por ela. Saul Dibb, o diretor, que também assina o roteiro, segue essa linha, mas, como Justin Chadwick em “A Outra” e Shekhar Kapur em “Elizabeth – A Era de Ouro”, se rende aos padrões do que se entende por “filme de época” (cenários e figurinos deslumbrantes, tomadas contemplativas, trilha sonora pomposa) e o tom romanesco predomina. Acaba que esses filmes se vêem diante de uma contradição: falta-lhes atitude, justamente aquilo que seu público-alvo mais procura.

nota: 5/10 -- veja sem pressa

A Duquesa (The Duchess, 2008, Reino Unido/Itália/França)
direção: Saul Dibb; com: Keira Knightley, Ralph Fiennes, Charlotte Rampling, Dominic Cooper, Hayley Atwell, Simon McBurney, Aidan McArdle; roteiro: Jeffrey Hatcher, Anders Thomas Jensen, Saul Dibb (baseado no livro de Amanda Foreman); produção: Michael Kuhn, Gabrielle Tana; fotografia: Gyula Pados; montagem: Masahiro Hirakubo; música: Rachel Portman; estúdio: Paramount Vantage, Pathé, BBC Films; distribuição: Paramount Pictures. 110 min

Max Payne

Até onde será que a guerra contra o terrorismo vai influenciar o cinema de entretenimento? Ao invés de os estúdios conseguirem uma janela maior para exibir os inúmeros documentários que são feitos todos os anos sobre o tema, preferem investir em bobagens que utilizam o “assunto da moda” para passar a idéia de que são filmes atuais, como se fazer uma ligação com o que se fala nos noticiários significasse ter alguma relevância.

Em “Max Payne”, a adaptação segue fiel o jogo homônimo de computador até certo ponto. Existe a droga Valkyr, existe um programa de treinamento de soldados. Agora, terrorismo e... demônios? O diretor John Moore, pau mandado dos estúdios Fox (são dele também as péssimas refilmagens de “A Profecia” e “O Vôo da Fênix”, além de “Atrás das Linhas Inimigas”), teve a “brilhante” idéia de incorporar um elemento sobrenatural ao filme. Os “anjos da morte” que surgem em abundância mais parecem ter sido emprestados de “Constantine”. No jogo, eles não existem: são apenas uma alusão ao efeito da droga (que tem relação com a mitologia nórdica). Assim, a principal característica do material original se perde: ao invés de ser um policial pé no chão, com influências diretas do cinema noir, o filme se torna um amontoado de cenas estilizadas em excesso.

Assim como em “A Profecia”, onde usava uma plasticidade muito incômoda, aqui Moore tenta emular o visual do game a todo momento. A neve está presente nas ruas, os cenários são escuros, há até mesmo um momento em que ele usa o alto contraste numa cena de pancadaria, intensificando o vermelho a cada soco recebido pelo protagonista. Isso sem falar no bullet-time. Se no jogo, lançado em 2001, esse efeito ainda empolgava devido ao sucesso de “Matrix”, hoje não consegue causar qualquer surpresa. Mas Moore parece deslumbrado e usa a câmera lenta apenas para fazer o que ele espera que seja a cena mais “cool” de todo o filme.

Aqueles que consideram Mark Wahlberg “o canastrão” tem em “Max Payne” um prato cheio para falar mal do ator – e com razão desta vez. Sua caracterização é desprovida da personalidade que ele soube empregar tão bem, por exemplo, em “Os Infiltrados”. Prova de que ele necessita de um bom diretor para guiá-lo além da cara amarrada de policial bronco e amargurado. Mas num elenco que conta com Mila Kunis (que vai se aposentar tentando ser algo mais do que a Jackie da série “That ‘70s Show”), Chris O’Donnell (por que ele não continua na TV?), o rapper Ludacris e Nelly Furtado (sim, a cantora), Wahlberg ainda nada de braçada.

nota: 2/10 -- pura perda de tempo

Max Payne (2008, EUA/Canadá)
direção: John Moore; com: Mark Wahlberg, Mila Kunis, Beau Bridges, Ludacris, Chris O'Donnell, Donal Logue, Amaury Nolasco, Kate Burton, Olga Kurylenko, Nelly Furtado; roteiro: Beau Thorne (baseado no videogame criado por Sam Lake); produção: Scott Faye, John Moore, Julie Yorn; fotografia: Jonathan Sela; montagem: Dan Zimmerman; música: Marco Beltrami, Buck Sanders; estúdio: Abandon Entertainment, Collision Entertainment, Depth Entertainment, Dune Entertainment, Firm Films, Foxtor Productions; distribuição: 20th Century Fox. 100 min

Vicky Cristina Barcelona

Por mais que Woody Allen geralmente seja apreciado pela inteligência de suas observações sobre a sociedade, os relacionamentos, a arte e até mesmo a condição humana, existe em seus filmes uma técnica de filmagem apurada que poucos levantam em críticas ou discussões, preferindo dar mais valor ao roteiro e ao humor irônico que se tornou a característica de sua obra. Enquanto o riso divide a atenção da platéia com o calor do romance vivido por Scarlett Johansson, Javier Bardem e Penélope Cruz, essa direção “invisível” do cineasta pode ser apreciada em sua plenitude em “Vicky Cristina Barcelona”.

O travelling, por exemplo, é suave e preciso. Allen utiliza bastante esse clássico movimento de câmera, mas em nenhum momento soa gratuito ou forçado, como se ele estivesse impondo um estilo (como faz Wes Anderson em “Viagem a Darjeeling”). Na maioria das cenas em travelling, a câmera desliza para a esquerda e pára, devagar, do outro lado, no novo quadro formado. Você quase não sente esse processo acontecer.

Outro momento de direção habilidosa é a cena em que Vicky (Rebecca Hall), Cristina (Johansson) e Judy (Patricia Clarkson) estão na galeria de arte e Cristina pergunta quem é Juan Antonio (Javier Bardem). Antes de ele aparecer, Judy explica que o verdadeiro autor dos quadros em exposição é um homem de terno de linho – e vemos que a pessoa sobre quem ela fala está logo atrás das três mulheres, desfocado em segundo plano. É muito sutil a forma como Allen resolve a cena, sem realmente mostrar o sujeito. Afinal, não interessa vê-lo e o olhar de Cristina naquele momento, que é o que mais importa na cena, está voltado para Juan Antonio, do outro lado do salão. Visualmente, a cena é equivalente àqueles momentos de desvio de atenção, em que alguém fala algo que entra por um ouvido e sai pelo outro.

Situações menores também trazem a elegância da filmagem de Allen, como numa simples cena de diálogo construída de forma a não ficar apenas no plano/contraplano. Ou mesmo numa tomada simples, como aquela em que Judy está ao telefone e é filmada de longe, entre janelas e corredores pelo lado de fora da casa. A movimentação da câmera segue uma cadência que conduz o olhar do espectador sem qualquer subterfúgio, algo que se sente especialmente nos planos-seqüências.

Embora Allen jamais privilegie o estilo de direção sobre o conteúdo das histórias que conta (é justamente o contrário: ele usa as ferramentas da linguagem cinematográfica em virtude da narrativa, por isso seus diálogos são sempre bem recebidos), “Vicky Cristina Barcelona” possui cenas esteticamente muito marcantes. Tome como exemplo a “cena do arbusto”: em duas ocasiões, quando Vicky e Juan Antonio se encontram e o que têm a dizer um ao outro não pode ser dito em público, os dois se “escondem” atrás da folhagem de uma árvore. Remete ao filme anterior de Allen, “O Sonho de Cassandra”, onde também há uma cena em que os personagens principais se protegem embaixo de galhos durante uma conversa ilícita.

Aliás, aquela primeira cena em que Vicky e Juan Antonio estão sozinhos talvez seja aonde Allen mais se mostre em “Vicky Cristina Barcelona” – e é uma seqüência fabulosa. Perceba como Allen utiliza as fusões e os close-ups em momentos precisos, finalizando com um slow motion bonito à beça. O timing é perfeito, coisa de mestre. É um tipo de direção que é uma delícia de acompanhar – como em Sidney Lumet e “Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto”, ou em Martin Scorsese e “Os Infiltrados”, para citar títulos recentes da obra desses cineastas, onde, assim como Allen, eles não se sobrepujam à narrativa.

Só para citar um último exemplo de precisão, temos a cena, famosa por antecipação, do beijo entre Scarlett Johansson e Penélope Cruz. É uma boa cena, não só porque é simples e nada gratuita (certo, nada inocente também), mas porque termina numa tomada que mostra Vicky admirando a experiência de Cristina e, logo em seguida, vem a reação de Doug (Chris Messina), o noivo careta, boquiaberto olhando para as duas. Nesse simples corte, de um lado da mesa para o outro, a reação da platéia é imediata. (E ainda há quem diga quem o cinema não funciona mais!)

Mas falando um pouco sobre os personagens, Vicky é quem se revela a verdadeira protagonista do filme. Os demais têm importância, claro, mas cada um deles, inclusive Cristina, funciona como engrenagem da história de Vicky, que é quem atravessa o arco dramático principal. E que ótima forma Allen encontrou para falar sobre tabus e convenções sociais que envolvem os relacionamentos humanos e a natureza dos sentimentos afetivos. São temas em que ele sempre tocou na carreira, mesmo que em breves piadas, mas que aqui são servidos como prato principal.

Cada um na platéia tira suas próprias conclusões sobre o quanto é liberal ou conservador. Mas já fica claro o quanto Allen é pungente ao levantar esses assuntos quando o grande interesse da mídia – e, por conseqüência, do público – pelo filme é o menage a trois. É só um sintoma de que sexo ainda é sinônimo de polêmica (e assim vende ingressos) e do quanto a sociedade é curiosa e ressentida em relação a certas liberdades ou formas livres de amar, se relacionar, viver.

nota: 9/10 -- veja no cinema e compre o DVD

Vicky Cristina Barcelona (2008, Espanha/EUA)
direção: Woody Allen; com: Rebecca Hall, Scarlett Johansson, Javier Bardem, Penélope Cruz, Christopher Evan Welch, Patricia Clarkson, Chris Messina, Kevin Dunn; roteiro: Woody Allen; produção: Letty Aronson, Stephen Tenenbaum, Gareth Wiley; fotografia: Javier Aguirresarobe; montagem: Alisa Lepselter; estúdio: Mediapro, Gravier Productions, Antena 3 Films; distribuição: Imagem Filmes. 96 min

[Rec]

Se a eficiência de um filme de terror se dá pela capacidade de promover tensão ao espectador, podemos dizer que “[Rec]” cumpre bem sua função. E no mar de porcarias em que os fãs do gênero andam nadando ultimamente, “[Rec]” é uma espécie de bóia.

A repórter Ángela Vidal (interpretada pela competente Manuela Velasco) é a apresentadora de um programa de TV (do tipo “Comando da Madrugada” com o Goulart de Andrade), que nesta edição acompanha o funcionamento de uma estação do Corpo de Bombeiros local, em uma noite inicialmente e aparentemente calma. Ao seguir com eles para atender um chamado aparentemente normal em um prédio das redondezas, Ángela e os que assistem ao filme quase que se mesclam e assumem o papel de testemunhas de acontecimentos aterrorizantes e inexplicáveis.

Ao manter o papel da repórter, com sua narrativa nervosa e câmera tremida, como uma espécie de âncora entre os acontecimentos do filme e aqueles que o assistem, Jaume Balagueró e Paco Plaza nos fazem temer pelo que está ocorrendo, além de nos fazer ousar pensar no que está por vir. Para que isso ocorra, os diretores se utilizam de uma genial edição e efeitos de som (e para quem nunca entendeu porque existem prêmios específicos para essa categoria, este filme é um bom exemplo) que deixam que a imaginação de todos, dentro e fora da tela, não pare de funcionar, criando uma tensão ainda maior.

Ao manter os personagens do filme e os da platéia no escuro, tanto literalmente quanto figurativamente, esta talentosa dupla de cineastas mostra que a Espanha está se tornando um ponto de referência no terror, assim como foi o Japão nos anos 90 e a Itália nos anos 70.

Obs.: “[Rec]” foi rapidamente refilmado nos Estados Unidos com o nome de “Quarantine”. Assim como alertei ao Renato, o trailer apresenta, ignorantemente, um dos melhores sustos do filme original. Portanto... O CINEMATÓRIO RECOMENDA: que esse trailer não seja visto caso se queira assistir tanto ao original quanto ao seu remake. E que o responsável por montar essa prévia seja despedido.

nota: 8/10 -- vale o ingresso

Rec ([Rec], 2007, Espanha)
direção: Jaume Balagueró e Paco Plaza; com: Manuela Velasco, Ferran Terraza, Jorge Serrano,Pablo Rosso, David Vert, Vicente Gil, Martha Carbonell; roteiro: Jaume Balagueró, Paco Plaza e Luis Berdejo; produção: Júlio Fernández; fotografia: Pablo Rosso; montagem: David Gallart; estúdio: Filmax; distribuição: Califórnia Filmes. 85 min

Romance

Longe da direção desde 2003, Guel Arraes retorna às telas com um misto de comédia satírica e romântica. A combinação é irregular, mas rende bons momentos. Só não se engane com a falsa impressão que tem sido passada de que o filme faz críticas à televisão brasileira, como se Arraes tivesse sido acometido de um ato de ousadia.

Não. Em “Romance” temos um humor que funciona bem ao satirizar a produção audiovisual do país, com direito a alfinetadas nada sutis na Rede Globo e em algumas tendências do cinema nacional atual, como a utilização de não-atores nos filmes. Porém, é preciso deixar claro, essa paródia é praticamente um mea-culpa. Afinal, a própria Globo está por trás do longa e Arraes e sua equipe sempre trabalharam na casa. Acaba que a sensação é semelhante à de ver o Casseta & Planeta fazendo piada com a novela das 8 – ou, para ser mais justo com o passado de Arraes, lembra os esquetes da saudosa “TV Pirata”.

A habitual parceria com Jorge Furtado no roteiro é responsável pelas tiradas mais espirituosas, especialmente quando a dupla faz o jogo metalingüístico com o qual já está tão habituada. Destaca-se, logo no início, a forma como o filme muda subitamente de gênero e de tom, do romance para a comédia, em um corte, na primeira aparição de Andréa Beltrão. Mais tarde, o próprio Arraes seu auto-ironiza ao levar a ação para o Nordeste, cenário que lhe garantiu fama com “O Auto da Compadecida” e “Lisbela e o Prisioneiro” – filmes que, por outro lado, só ajudaram a estigmatizar o linguajar nordestino na tela, e também a própria linguagem de Arraes (que sempre fez TV no cinema e cinema na TV sem grandes diferenciações estéticas – e esta não é uma observação pejorativa).

Por sempre repetirem um estilo característico de escrita – com diálogos rápidos e constantes jogos de palavra, além do uso do hipertexto para quebrar a linearidade narrativa – Arraes e Furtado demonstram uma certa fadiga criativa. Não é de se espantar, portanto, que, na tentativa de fazer algo diferente, os dois passem a se dedicar ao romance (ora!) da trama em certo momento. É aí que o resultado não sai de todo convincente.

Wagner Moura, que interpreta um ator e diretor de teatro que monta uma adaptação do clássico texto “Tristão e Isolda”, se sai bem alternando performance cômica e dramática, assim como Letícia Sabatella, que vive a atriz com quem ele inevitavelmente se envolve. Nos bastidores da peça encenada e da novela que dela surge, estão Andréa Beltrão, José Wilker, Bruno Garcia e Vladimir Brichta, cada um incorporando muito bem seus dotes humorísticos. O grande destaque fica para a participação de Marco Nanini, que rouba a cena e levanta o filme no momento em que ele se arrasta.

nota: 6/10 -- vale o ingresso

Romance (2008, Brasil)
direção: Guel Arraes; com: Wagner Moura, Letícia Sabatella, Andréa Beltrão, Vladimir Brichta, José Wilker, Marco Nanini, Bruno Garcia; roteiro: Guel Arraes e Jorge Furtado; produção: Paula Lavigne; fotografia: Adriano Goldman; montagem: Gustavo Giani; música: Fábio Mondego, Fael Mondego, Marco Tommaso (Bandeira 8); estúdio: Globo Filmes, Natasha Filmes, Miravista; distribuição: Buena Vista International. 105 min

RocknRolla

A pior decisão que Guy Ritchie tomou foi voltar a fazer um filme de Guy Ritchie. Desde a sinopse deste seu novo trabalho é tudo muito óbvio. Parece que ele está refazendo o mesmo filme, contando o mesmo tipo de história, usando os mesmos tipos de personagens... Se “Snatch – Porcos e Diamantes” foi uma versão entorpecente de “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes” , “RocknRolla” é a ressaca.

São muitos personagens (a maioria, desinteressante) em torno de uma trama simples, que acaba se tornando confusa. E por mais que o objeto de troca da vez (em “Jogos” era dinheiro, em “Snatch” foi um diamante e, agora, é um quadro) seja um McGuffin, não existe um enredo bom o bastante que se desenvolva em torno da “fórmula Ritchie do filme cool” – que inclui ainda truques de câmera já manjados, com utilização contínua de chicotes e enquadramentos obtusos.

Pelo menos, o personagem de Gerard Butler diverte: ele se auto-ironiza, praticamente numa piada com a homoerotização de “300”. Por outro lado, o grande Tom Wilkinson, que quase sempre faz o menor dos papéis ganhar destaque, desta vez parece estar no piloto automático.

Não foi com “Destino Insólito” e o ainda inédito no Brasil “Revolver” (que são bons filmes, vitimados pela falsa expectativa de que seriam novos “filmes de Guy Ritchie”), que o diretor enterrou sua carreira. Para quem havia experimentado esse duplo fracasso junto a público e crítica, com “RocknRolla” o cineasta escolheu o caminho mais fácil para conseguir emprego em Hollywood. Talvez ele se torne bem sucedido comercialmente daqui em diante. Porém, a nuvem negra agora paira é sobre seu futuro criativo.

nota: 4/10 -- veja sem pressa

RocknRolla (2008, Reino Unido)
direção: Guy Ritchie; com: Gerard Butler, Idris Elba, Tom Hardy, Thandie Newton, Jeremy Piven, Mark Strong, Karel Roden, Tom Wilkinson; roteiro: Guy Ritchie; produção: Guy Ritchie, Joel Silver, Steve Clark-Hall, Susan Downey; fotografia: David Higgs; montagem: James Herbert; música: Steve Isles; estúdio: Dark Castle Entertainment, Toff Guy Films; distribuição: Warner Bros. 114 min