Dado alarmante

  • 11 Maio 2012
  • por
  • RENATO SILVEIRA

  • Da assessoria de imprensa do Telecine:


    Atenção para essa parte: "É dela (classe AB) a maior participação na audiência do canal, com 53%".

    Ou seja, o papo de que o "povão" é que prefere filme dublado não pode ser considerado na discussão.

    Há de se levar em conta ainda que a maior parcela do público de cinema certamente é formada por membros de classe AB.

    Dublagem é ruim. Deturpa a obra original. Mas não sou a favor da extinção do filme dublado, de forma alguma. Há o fator sócio-econômico que deve ser considerado. E quanto às crianças que ainda não conseguem acompanhar a velocidade das legendas?

    O problema ao meu ver é que a visão de mercado dos estúdios tem prevalecido. A culpa do crescimento dos filmes dublados não é exclusiva do público que "não quer ler". É também dos estúdios que se baseiam na lei de oferta e demanda e, assim, colaboram para a formação desse público. Parecem confiar cegamente em estatísticas e irresponsavelmente estimulam a preguiça.
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    Poder Sem Limites

  • 22 Março 2012
  • por
  • RENATO SILVEIRA

  • “Poder Sem Limites” chegou sorrateiro aos cinemas e se tornou um sucesso inesperado nas bilheterias americanas. Já no Brasil, a história de três amigos que ganham superpoderes não pegou e o longa já está saindo de cartaz após menos de um mês em exibição.

    Uma tremenda injustiça, pois trata-se de uma aventura eficiente e que traz novo fôlego ao gênero de filmes de super-heróis – e sem ser exatamente um filme de super-herói. A gênese está lá, especialmente em como surgem os heróis e os vilões (esses, em especial). Mas é mais como se Peter Parker pertencesse à geração do "Jack-Ass" que qualquer outra coisa.

    O diretor estreante Josh Trank faz uso do formato câmera na mão e filmagens encontradas (ou produzidas para "colocar no YouTube", que seria mais o caso) já tão explorado por filmes como “A Bruxa de Blair”, “Cloverfield” (texto) e “Atividade Paranormal”. Aqui, ele brinca a valer com essa estética suja, de imagens tremidas e com cortes brutos entre uma cena e outra, fazendo usos inventivos que sua história permite, especialmente a cada nova habilidade especial descoberta pelos personagens.

    O cineasta também aposta que o público já assimilou a lógica desse tipo de filme e não se importa em, por exemplo, deixar pelo caminho personagens com quem o espectador já pode ter se identificado. O que num filme convencional tenderia a se tornar um evento, com direito a câmera lenta e acordes altos, em “Poder Sem Limites” se resume a imagens desfocadas e sons desconexos seguidos de uma tela escura. A tensão fica suspensa por trás do ruído.

    Trank e o roteirista Max Landis forçam um pouco a barra na hora de justificar o uso da câmera em primeira pessoa a todo o momento, como por exemplo na personagem da blogueira que serve de interesse romântico para um dos protagonistas. No entanto, a dupla encontra um uso genial do conceito na realização da principal cena de ação do filme, quando imagens originadas dos mais variados tipos de câmera são utilizadas para narrar o evento que finalmente aproxima aqueles garotos de serem algum tipo de super-herói.

    Mas eles não saíram de uma revista em quadrinhos. Aliás, eles sequer mencionam os nomes de personagens como Homem-Aranha ou Superman. É como se eles decidissem não salvar o mundo e preferissem usar seus poderes para se divertirem e resolver pequenas questões pessoais. Sintoma de uma geração? Talvez. O fato é que “Poder Sem Limites” é um filme que merece atenção, portanto, corra para vê-lo nos cinemas enquanto é tempo. Se não der, redescubra-o em DVD ou Blu-ray.

    PODER SEM LIMITES (Chronicle, 2012, Reino Unido/EUA). Direção: Josh Trank. Roteiro: Max Landis. Fotografia: Matthew Jensen. Montagem: Elliot Greenberg. Produção: John Davis, Adam Schroeder. Com: Dane DeHaan, Alex Russell, Michael B. Jordan, Michael Kelly, Ashley Hinshaw, Bo Petersen, Anna Wood, Rudi Malcolm, Luke Tyler, Crystal-Donna Roberts. Distribuição: Fox Film. 84 min
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    Billi Pig fala com quem?

  • 13 Março 2012
  • por
  • RENATO SILVEIRA

  • "Billi Pig" é um daqueles filmes que você quer muito gostar, mas não consegue. A proposta inicial é muito boa: fazer uma comédia brasileira popular com pegada autoral, remontando às chanchadas e às comédias screwball. E José Eduardo Belmonte (e equipe) bem que tenta, você percebe isso na tela. Mas seu esforço esbarra em algumas questões.

    Belmonte vem de uma sequência de filmes elogiados e, infelizmente, pouco vistos no circuito comercial. O destaque fica por conta de “Se Nada Mais Der Certo” (texto), de 2008, que talvez seja uma das produções nacionais mais emblemáticas desta recente geração de cineastas empenhados em discutir o jovem brasileiro inserido em uma sociedade individualista. É também um filme que discute o jovem cinema brasileiro e sua estética. Sendo assim, “Billi Pig”, por mais que destoe no tom debochado, encontra ramificações com o restante da obra de Belmonte. Há uma discussão da imagem ali, e também uma discussão política.

    O que se tenta fazer é criar um diálogo entre o cinema popular da Globo Filmes e o cinema autoral, independente. E Belmonte não aparenta estar totalmente à vontade como o mediador desse encontro. Se ele consegue por um lado misturar bem o escracho e o bizarro, por outro se vê limitado na construção de uma narrativa envolvente. Uma suposta coerência jamais poderia ser exigida, mas sente-se, sim, uma carência por parte da história que está sendo contada, já que há nela um direcionamento ao público dos shoppings (o filme está em cartaz há duas semanas com 207 cópias, quase o triplo do vencedor do Oscar "O Artista" e não muito menos que os principais blockbusters em cartaz; em contrapartida, ainda não atingiu os 200 mil espectadores).

    Essa história gira em torno do deslumbramento do morador do subúrbio que ainda não chegou à condição de emergente, cujo poder aquisitivo ainda está aquém do da chamada "nova classe média". É a jovem dona de casa que sonha em ser atriz e ficar hospedada em hotel cinco estrelas, "obrigando" o marido a recorrer à trapaça para satisfazê-la. É um tema superbrasileiro encorpado na farsa do con movie e do filme musical, orientado pelo sobrenatural do imaginário cultural do país (a macumba e o sincretismo religioso).Uma verdadeira salada.

    Belmonte, portanto, continua a falar com seu público fiel, capaz de reconhecer suas referências e seu estilo (na montagem, em especial). Já o elenco conversa mais francamente com os espectadores de “Se Eu Fosse Você” e da “Zorra Total”, ao mesmo tempo em que também busca o riso na paródia do cinema estrangeiro (encontrando seu melhor momento em Milton Gonçalves, que em certo momento fala inglês como o estereótipo do negro americano). Talvez apenas o porco de brinquedo falante fique isolado, sem encaixe nessa baderna toda, sendo a pior escolha de Belmonte em termos narrativos e mesmo como sátira.

    A segmentação do público persiste, portanto, mas na tentativa de minimizá-la “Billi Pig” não é uma falha completa. Apenas fica no meio do caminho. E nem é uma tentativa inédita do nosso cinema. Basta lembrarmos que Hugo Carvana vem fazendo comédias populares que remontam à chanchada desde 2008, quando lançou “A Casa Mãe Joana” – e por coincidência, seu último filme é “Não Se Preocupe, Nada Vai Dar Certo”, uma rima involuntária com o título do melhor trabalho de Belmonte até agora.

    BILLI PIG (2012, Brasil). Direção: José Eduardo Belmonte. Roteiro:Ronaldo D´Oxum e José Eduardo Belmonte. Fotografia: André Lá venere. Montagem: Bruno Lasevicius e Frederico Ribeincher. Música: Zepedro Gollo e Sascha Kratzer. Produção: Vânia Catani. Com: Selton Mello, Grazi Massafera, Milton Gonçalves, Preta Gil, Otávio Muller, Cássia Kiss, Zezeh Barbosa, Sandra Pêra, Milhem Cortaz, Murilo Grossi, Tadeu Mello. Estúdio: Bananeira Filmes. Distribuição: Imagem Filmes. 95 min
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    A Invenção de Hugo Cabret

  • 05 Março 2012
  • por
  • RENATO SILVEIRA

  • Em uma cena de “A Invenção de Hugo Cabret”, o protagonista, o menino Hugo (Asa Butterfield), relembra os últimos momentos que teve junto do pai (Jude Law). Neste momento, uma luz intermitente cobre o rosto do garoto, ao mesmo tempo em que escutamos um barulho semelhante ao de um projetor de cinema. Aqui, o que Martin Scorsese está nos dizendo fica muito claro: o cinema é a arte da memória.

    Scorsese também nos fala que cinema é a arte do tempo, dos 24 quadros por segundo. Não é à toa que há tantos relógios aparecendo durante a projeção. Tempo e memória são temas que dependem tanto um do outro neste filme, que o simbolismo das engrenagens serve tanto a essa leitura quanto a outras - como a de que cada pessoa tem seu propósito dentro da grande máquina que é o mundo, na visão de Hugo.

    Mais que um diretor, Scorsese é um preservador da sétima arte. Presidente da World Cinema Foundation, ele sempre faz questão de falar publicamente sobre a importância da recuperação e restauração de filmes que correm o risco de serem perdidos não só pela deterioração física provocada pelo tempo, mas também pelo simples esquecimento a que alguns diretores são condenados pelo próprio público.

    Em “A Invenção de Hugo Cabret”, que é baseado no livro homônimo de Brian Selznick, Scorsese fala desse processo de esquecimento e da importância da memória, utilizando um caso verídico: o do cineasta francês Georges Méliès, precursor do cinema narrativo e do uso de efeitos especiais. Você certamente o conhece pelo clássico de 1902 “A Viagem à Lua”, mas talvez não saiba que você só conhece esse filme porque alguém, lá atrás, resgatou Méliès do esquecimento.

    Ao mesmo tempo, Scorsese dá outras duas funções à “A Invenção de Hugo Cabret”. Por se tratar de seu primeiro filme realmente apropriado para o público infantil, trata-se de uma verdadeira aula introdutória de cinema, capaz de suscitar nas crianças uma verdadeira paixão pela sétima arte e reavivar nos adultos um sentimento que pode estar apagado. É um filme sobre o poder da História, com "H" maiúsculo, que está não apenas nos filmes, mas nos livros e nos museus.

    Além disso, este é o primeiro filme 3D de Scorsese, e o diretor dá um novo sentido ao uso da tecnologia que, desde “Avatar”, não tinha um representante realmente bom. Mas “bom” é pouco para o que Scorsese faz aqui. Como um verdadeiro apaixonado por cinema, era natural que ele abraçaria forte as possibilidades que o 3D oferece tanto em trazer o filme para "fora" da tela quanto em levar o espectador para "dentro" dela.

    No primeiro aspecto, Scorsese, diferente da maioria dos diretores que já usaram o 3D, é bem mais comedido e não "joga" coisas no espectador. Apenas em um ou outro momento algum objeto é apontado num ângulo que o faz "saltar" em nossa direção. O melhor uso, neste sentido, surge no lado lúdico - o focinho do Dobermann que acompanha o guarda interpretado por Sacha Baron Cohen talvez seja o melhor exemplo - e no lado inventivo e experimental, quando Scorsese decide apontar o feixe da projeção de uma sala de cinema a que Hugo leva sua amiga Isabelle (Chloë Moretz) diretamente contra o feixe real, que nos mostra o filme. Scorsese brinca.

    Mas é na segunda capacidade do 3D onde Scorsese realmente se esbalda. Ele não só retoma o uso dos magníficos planos-sequências que marcam vários de seus melhores trabalhos, como também explora a profundidade de campo que um plano plongée, por exemplo, oferece e que não ficava tão evidente em seu modo tradicional. Da mesma forma, Scorsese usa o 3D para potencializar as múltiplas camadas dos planos gerais (não visualizamos só frente-meio-fundo, mas o todo em uma profundidade contínua).

    Sem falar na própria forma como ele nos permite enxergar "dentro" da tela: logo no começo, quando Hugo observa as pessoas por trás dos relógios da estação de trem, o personagem de Ben Kingsley é enquadrado dentro de um dos números do relógio, meio desfocado, mas o ângulo escolhido por Scorsese e seu fotógrafo Robert Richardson funciona de tal forma que possibilita ao espectador ter o reflexo de esticar o pescoço para olhar lá dentro daquele buraco e reparar no senhor que está sentado lá embaixo.

    Em contraponto, que ousadia tomar todo o quadro para exibir "A Chegada do Trem na Estação" dentro de um filme 3D, exatamente com o propósito de mostrar que o "efeito 3D" estava lá desde o início, como um espanto natural do espectador.

    É aí onde o 3D assume seu papel narrativo em "Hugo". No momento em que Papa Georges (Kingsley) observa um desenho feito à mão se movimentar no bloco de notas, ao passar as páginas rapidamente como num flipbook, vemos que o desenho se tridimensionaliza - ou seja, é como se a cabeça do autômato fosse real e estivesse se virando para encarar (e assombrar) aquele senhor. Já em outro momento, vemos trechos de "A Viagem à Lua" projetados numa tela e as cenas também estão em 3D - porque, ali, o público é convidado não apenas a experimentar a sensação de quase ser atropelado pelo trem dos irmãos Lumière chegando à estação, mas a efetivamente entrar naquele mundo, a participar daquele sonho, que é o que Méliès queria.

    Scorsese conseguiu provocar esse efeito em mim já na sequência pré-título, que na prática poderia funcionar como um curta e eu já sairia feliz do cinema. Ao final do filme, vi que seria muito difícil não amar "Hugo", assim como é difícil não amar Scorsese e, logo, não amar cinema. O filme fala disso também.

    A INVENÇÃO DE HUGO CABRET (Hugo, 2011, EUA). Direção: Martin Scorsese. Roteiro: John Logan (baseado no livro de Brian Selznick). Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Thelma Schoonmaker. Música: Howard Shore. Produção: Johnny Depp, Tim Headington, Graham King, Martin Scorsese. Com: Ben Kingsley, Sacha Baron Cohen, Asa Butterfield, Chloë Grace Moretz, Ray Winstone, Emily Mortimer, Christopher Lee, Helen McCrory, Michael Stuhlbarg, Frances de la Tour, Richard Griffiths, Jude Law. Distribuição: Paramount Pictures. 126 min
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    OSCAR 2012: Os vencedores e o tratado franco-americano

  • 27 Fevereiro 2012
  • por
  • RENATO SILVEIRA
  • Fazendo valer seu favoritismo, "O Artista" sagrou-se o grande vencedor do Oscar 2012, levando os troféus de Melhor Filme, Melhor Diretor para o francês Michel Hazanavicius, Melhor Ator para Jean Dujardin, Melhor Trilha Sonora e Melhor Figurino. Podemos falar "grande vencedor" pois o longa-metragem faturou três dos principais prêmios da noite. Em números, deu empate com "A Invenção de Hugo Cabret", que era o filme com a maior quantidade de indicações: 11, uma a mais que "O Artista"."Hugo" ganhou como Melhor Fotografia, Direção de Arte, Efeitos Visuais, Edição de Som e Mixagem de Som.

    O maior prêmio que Jean Dujardin ganhou ontem à noite.
    (Foto: ©A.M.P.A.S.)

    Foi uma vitória justa? Sim. Podemos dizer que, sim, "O Artista" mereceu ganhar, pois, independente da força política do nome dos irmãos Weinstein junto à Academia, é um belo filme, que diverte, emociona e ainda faz um comentário sobre Hollywood e sua tendência de sempre priorizar o que é mais novo, o que está na moda, sobre aquilo que se tornou supostamente antiquado (meu texto sobre o filme). 

    De certa forma, "A Invenção de Hugo Cabret", filme dirigido por Martin Scorsese, também fala sobre isso e mais: enaltece a história do cinema como um todo e faz um apelo pela preservação de filmes - uma bandeira que Scorsese sempre levantou. E o cineasta faz tudo isso usando a tecnologia 3D. Seria uma ótima oportunidade para a Academia consagrar de vez Scorsese com um segundo Oscar e levantar ainda mais a bola do 3D, que tem sido a salvação dos estúdios. 

    A vitória de "Hugo" seria um resultado mais justo, mas "O Artista" foi uma boa escolha em todas as categorias em que venceu - ainda que seja curioso (e estranho) o fato de a Academia ter, pelo segundo ano consecutivo, virado as costas para o cinema americano nas categorias principais, já que, no ano passado, o grande vencedor foi o britânico "O Discurso do Rei". Mais curioso ainda é a disputa deste ano ter ficado polarizada entre "O Artista", um filme francês que se passa em Hollywood, e "Hugo", um filme americano que se passa na França.

    Dos demais vencedores do Oscar 2012, temos alguns destaques:

    - "A Dama de Ferro" foi o único filme além de "O Artista" e "A Invenção de Hugo Cabret" com mais de uma estatueta, ficando com duas bem previsíveis (Melhor Maquiagem e Melhor Atriz para Meryl Streep, que ganhou o terceiro Oscar de sua carreira);

    - "Meia-Noite em Paris" ganhou como Melhor Roteiro Original, rendendo merecidamente a Woody Allen o seu quarto Oscar; 

    - Christopher Plummer, aos 82 anos, se tornou o mais velho vencedor de um Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por "Toda Forma de Amor", filme lançado direto em DVD no Brasil; 

    - "Os Muppets" faturou o prêmio de Melhor Canção, deixando o Brasil novamente sem Oscar, já que Sérgio Mendes e Carlinhos Brown concorriam com uma das músicas da animação "Rio". Não dá nem para dizer que foi justo ou injusto, pois os dois únicos concorrentes da categoria se equiparavam. Mas não custa lembrar que Hollywood adora os Muppets, então, o resultado já era esperado; 

    - Por fim, o iraniano "A Separação" ganhou o Oscar de Filme Estrangeiro, com todo mérito e sem nenhuma surpresa. Para nós, brasileiros, de certa forma é ruim, pois significa que dificilmente veremos os demais indicados da categoria nos cinemas brasileiros, e "A Separação" já está em cartaz.

    (Foto: Mark Davis – © 2012 WireImage)

    Ah! Vale mencionar ainda o retorno de Billy Crystal ao Oscar como anfitrião. A Academia devia fazer um contrato vitalício para ele: o cara realmente se sente em casa apresentando a cerimônia. Uma pena que só mesmo o tradicional número de abertura (montagem de cenas com Crystal inserido + medley com os indicados) tenha se destacado. As demais piadas do ator foram boas, mas não empolgaram a cerimônia que, como um todo, manteve um tom mais sóbrio que o ideal e um ritmo não tão cansativo, mas bem longe de ser animador.


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    9 Canções

  • 22 Fevereiro 2012
  • por
  • RENATO SILVEIRA

  • Vocês conhecem o famigerado "truque do lençol branco": sempre que há uma cena de sexo em um filme (na maioria dos casos, americano), a mulher aparece coberta após o ato, como se fizesse questão de esconder os seios, mesmo que seja de seu marido. E o mesmo vale na situação inversa, com o homem se cobrindo. Malditos puritanos.

    Se existe algo que me irrita mais em cenas de sexo do que o lençol branco são as elipses pré-coito. Tivemos um exemplo recente, muito frustrante, em “Cruzada”. E, para piorar, foi com a Eva Green, aquela deusa (quem viu “Os Sonhadores” sabe que a atriz não faz restrições quanto à nudez na tela). O engraçado é que o Ridley Scott não quis mostrar ela transando com o Orlando Bloom, mas não se acanhou na hora de esfregar nossa cara nas feridas dos soldados.

    “9 Canções”, do sempre surpreendente Michael Winterbottom, faz justamente o inverso dos filmes americanos nessa questão. É um romance, uma história sobre um sujeito que está fazendo um trabalho na Antártica, e, em sua solidão, relembra momentos marcantes que passou com uma recente namorada: os passeios, os shows a que foram juntos, as trivialidades e, claro, o sexo. Só que em vez de usar elipses nas transas, Winterbottom subverte: corta a conversa fiada fora e mostra o que interessa.

    Muitos têm dito que não passa de um filme pornográfico. Sim, vemos sexo explícito na tela, com os protagonistas praticamente encenando o Kama Sutra em certos momentos. Há tomadas de gozo. E até masturbação. Tudo filmado de perto. Sem cortes. Você vê entrando e saindo mesmo. Apesar de tudo isso, não acho correto dizer que se trata de pornografia. Por mais que filme de sacanagem tente inventar uma historinha só para não ficar na orgia despropositada, é óbvio que seu objetivo é único e exclusivamente mostrar gente (em alguns casos, animais também) transando. A proposta de “9 Canções” é bem diferente.

    Primeiramente, trata-se de uma experimentação. E, sendo assim, alguma barreira tem que ser quebrada. Winterbottom quis contar uma história de amor através do sexo. Sua ousadia está aí. Depois, fica claro (pela narração em off, as músicas e as conversas do casal) que o filme possui um fio narrativo: Matt sente falta de Lisa e, por mais que seu relacionamento com ela tenha se baseado principalmente em transas fantásticas, ele estava começando a se apaixonar. Quando ela teve que partir, “o amor me queimou por dentro” (verso de “Love Burns”, da banda Black Rebel Motorcycle Club, a última das nove canções do título).

    Mas, talvez, o principal que se deva notar é que Kieran O’Brien (Matt) e Margo Stilley (Lisa) estão longe de serem exemplos de extrema beleza. São pessoas comuns, que vão a shows de rock, saem com os amigos e, assim como as pessoas que estão do lado de cá da tela, fazem sexo. Winterbottom está nos contando uma história que acontece na vida real, com personagens que existem na vida real.

    Essa aproximação com a realidade também está na direção, já que Winterbottom filma o sexo compondo belos quadros, mas com uma câmera mais participativa do que contemplativa. E ele tem o cuidado de criar um clima para as cenas, especialmente através da fotografia, adotando um esquema de cores quentes – o que também beneficia as sequências dos shows e cria um contraponto com os planos aéreos na gélida Antártica, onde o branco predomina.

    O cineasta também tenta estabelecer um lirismo no longa, especialmente no contraste. Pólo Sul vs. Londres. Frio vs. calor. “Explorar a Antártica é sentir claustrofobia e agorafobia ao mesmo tempo – como duas pessoas na cama”, Matt reflete em certo momento. Quer dizer, é sentir-se tão pequeno diante de algo tão grande, é não conseguir mensurar o limite entre seu corpo e o da outra pessoa. Além disto, pode-se inferir que as memórias de Matt se devam também a uma necessidade de se sentir aquecido no meio de todo aquele gelo. E lembranças de uma boa transa podem mesmo nos esquentar, física e psicologicamente. Não só as lembranças do sexo remetem ao calor, como também as dos shows: os dois no meio daquela multidão, o contato com outras pessoas, tudo evoca uma sensação de quentura.

    Na verdade, “9 Canções” não precisa ser levado tão a sério. É mais um manifesto do que uma quebra de tabus. O filme não tem pretensão de ser revolucionário. Winterbottom quis só mostrar que sexo também pode ser cinema. Alguns (ou muitos) podem achar que é apenas uma tentativa barata de satisfazer olhares voyeurísticos. Talvez você se sinta ofendido, talvez não compre a ideia. Mas acho que é o caso de se refletir sobre o que tem sido mostrado na tela ultimamente.

    Por que a maioria das pessoas não se choca mais com a violência no cinema, a ponto de achar “Sr. e Sra. Smith” divertido? É porque tudo se tornou banal. Qual o problema de filmar duas pessoas transando? Por que o sexo se tornou mais ofensivo do que a violência? Numa boa, eu prefiro pagar por um filme em que dois desconhecidos transam durante 80% da projeção a ver Brad Pitt e Angelina Jolie se matando – para, no fim, toda a tensão sexual entre eles ser liberada em uma elipse.

    “9 Canções” é, enfim, a mais atual versão do bordão “faça amor, não faça guerra”. Nesse sentido, o filme possui um grande valor, porque é uma antítese do cinema moralista, sem ser imoral. Estamos vendo duas pessoas se amando. Se há algum mal nisso, está no ponto de vista de quem assiste.

    As 10 Canções de "9 Canções"

    01 Black Rebel Motorcycle Club - Whatever Happened To My Rock 'n Roll

    02 The Von Bondies - C'mon C'mon

    03 Elbow - Fallen Angel

    04 Primal Scream - Movin' On Up

    05 The Dandy Warhols - You Were the Last High

    06 Super Furry Animals - Slow Life

    07 Michael Nyman - Nadia

    08 Franz Ferdinand - Jacqueline

    09 Black Rebel Motorcycle Club - Love Burns

    FAIXA BÔNUS

    10 Elbow - I've Got Your Number

    Texto publicado originalmente em 25 de junho de 2005.
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    Um tapinha não dói

  • por
  • RENATO SILVEIRA

  • Quando saí da sessão de “Sr. e Sra. Smith” hoje, a sensação foi de ter assistido a um filme muito divertido. Afinal, como não rir de Brad Pitt fazendo aquelas caras? Mas aí, eu e minha namorada fomos conversando sobre o que vimos e chegamos à conclusão de que o filme é sadomasoquista.

    Muito se discute sobre essa maquiagem que Hollywood coloca sobre a violência, a fim de transformá-la em entretenimento. Alguns filmes tendem a fazer isso com o crime organizado, tornando cool ver grandes assaltos etc. É o caso de “Onze Homens e Um Segredo”, por exemplo, que tem uma ligação direta com “Sr. e Sra. Smith”. Além de ambos trazerem Brad Pitt interpretando praticamente o mesmo papel, os dois longas enxergam criminosos como superastros. E o curioso é que “Sr. e Sra. Smith” tenta iludir o espectador, mostrando Pitt e Angelina Jolie como espécies de espiões à la 007.

    Mas eles não são agentes especiais. Eles são assassinos profissionais. E por mais que possam ter objetivos “justificáveis”, como matar estelionatários ou pequenos gângsteres, nunca fica claro quem são realmente seus alvos e o que eles fizeram para merecerem ser executados. O motivo não interessa. O que importa é mostrar que o casal é bom no que faz, e azar se estão certos ou errados. Culpa, ao que parece, não é algo com o quê eles estão familiarizados. Em certo momento, eles até confessam um para o outro que nunca tiveram problema de insônia – ou seja, são tão frios, que vão dormir com a mente tranqüila.

    Porém, este não é o principal problema de “Sr. e Sra. Smith”. É bom deixar claro que não tenho objeção a filmes que estão “do outro lado da lei” (gosto muito de “Onze Homens e Um Segredo”, aliás). Desde que o filme permaneça na tela, tudo bem. O que realmente me espantou foi a violência com que Pitt e Jolie se tratam depois que descobrem a identidade um do outro.

    Há uma sequência dentro da casa que começa com troca de tiros e depois passa para pancadaria crua, com socos, pontapés, cabeçadas, garrafadas e tudo mais. E, no ápice do confronto, eles nem estão mais realmente interessados em eliminar um ao outro. Naquele ponto, bater se tornou prazer. E o que começa com os dois caindo na porrada em um sofá (com direito a Pitt chutando sem piedade a esposa no chão), termina com sexo. Quer dizer, eles só sentem tesão depois que se esmurram. E isso porque, no começo do filme, ficamos sabendo que o casamento dos dois está em crise e que eles não transam com frequência.

    Não vou mentir: eu me diverti vendo as armadilhas e perseguições protagonizadas pelos Smith. Justamente por isso que é uma diversão perigosa: você acaba aceitando aquilo. “E ‘Kill Bill’ não é violento e você também não aceita?” Sim, porém, o mundo de “Kill Bill” é irreal. Já o de “Sr. e Sra. Smith” não está tão longe do nosso. Podemos ir até mais adiante neste aspecto e observar que o filme se passa em Nova York e não há concessões no número e na escala das explosões (pelo visto, o trauma do 11 de Setembro já passou). Tem também a questão do fetichismo por armas, quase descontrolado aqui. Mas prefiro ficar numa questão mais delicada, que é a da violência doméstica incitada, mesmo que inconscientemente.

    É claro que ninguém vai sair do cinema e dar um soco na cara do(a) companheiro(a). Isso é paranóia (exceto para mentes fracas). O problema, ao meu ver, é mascarar esse sadomasoquismo com a mensagem torta de que um casamento só se salva se a sinceridade prevalecer. O que pode estar subentendido nessa metáfora bacaninha é que a tal sinceridade nada mais é do que uma liberação de instintos. Não esconda quem você é; depois, não esconda o que você sente; depois, não esconda o que você quer fazer. E comece com um tapinha, por que não?

    Fetichismo por armas: parece que os produtores de
    "Sr. e Sra. Smith" não assistiram a "Tiros em Columbine".

    Texto publicado originalmente em 13 de junho de 2005.
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    O Artista

  • 15 Fevereiro 2012
  • por
  • RENATO SILVEIRA

  • Quando eu soube que "O Artista" era um filme mudo, logo suspeitei de tudo não passar de uma desculpa para usar o formato apenas para fazer um filme à moda antiga nos dias de hoje. Felizmente, não se trata disso.

    Michel Hazanavicius já havia demonstrado carinho por um passado cinematográfico com os filmes do Agente 117 (ele dirigiu dois: um em 2006 e outro em 2009, ambos também com os atores Juan Dujardin e Bérénice Bejo; o mais recente inclusive se passa no Brasil, mas não foi lançado aqui). Em "O Artista", ele volta ainda mais no tempo, mas a graça toda do filme é que o cineasta não está só emulando o cinema mudo.

    A revelação se dá numa sequência de sonho do protagonista (Dujardin), um astro dos filmes da época, fim dos anos 20, que se vê surpreendido pela decisão dos estúdios em aposentá-lo dado o advento do cinema falado. Até ali, "O Artista" parece mesmo só imitar um filme mudo, mas Hazanavicius usa com inteligência a metalinguagem para mostrar a quê realmente seu filme veio.

    Ao mesmo tempo em que é uma homenagem, "O Artista" é um comentário sobre a troca de tecnologias e a sobreposição do mais novo sobre o consagrado.

    Primeiro, temos um modo de fazer cinema que é abandonado pelo estúdio e pelo público por uma razão meramente tecnológica e mercadológica (o simples ato de falar, o diálogo "físico", digamos, como fica claro, não é uma necessidade para se narrar um bom filme).

    Depois, temos o ator, moeda do estúdio que se desvaloriza com a idade. Ele é substituído pela atriz em ascensão (Bejo), uma oportunista inicial que é vista como "carne nova" pelo chefão do estúdio (John Goodman) por se dar melhor com a fala do que o personagem de Dujardin - embora nunca escutemos o som da voz dela, em mais uma sacada metalinguística de Hazanavicius.

    Ou seja, é um filme sobre o som - melhor dizendo, um filme mudo sobre a necessidade da fala. No fim, um filme sobre narrativa.

    “O Artista” é, portanto, um filme sobre filmes. Mas, mais que fazer uma homenagem, com direito ao bom humor que conhecemos de Charles Chaplin e Buster Keaton (mais de Chaplin, talvez), ele coloca em perspectiva a evolução do próprio cinema como arte e como negócio. O que serve à transição do filme mudo para o filme falado, cabe ao preto-e-branco para o colorido, à película para o digital, ao 2D para o 3D. Parece filme antigo, mas é atualíssimo.


    O ARTISTA (The Artist, 2011, França/Bélgica). Direção: Michel Hazanavicius. Roteiro: Michel Hazanavicius . Fotografia: Guillaume Schiffman. Montagem: Anne-Sophie Bion, Michel Hazanavicius. Música: Ludovic Bource. Produção: Thomas Langmann, Emmanuel Montamat. Com: Jean Dujardin, Bérénice Bejo, John Goodman, James Cromwell, Penelope Ann Miller, Missi Pyle. Distribuição: Paris Filmes. 100 min
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    Promessas de ano novo

  • 13 Fevereiro 2012
  • por
  • RENATO SILVEIRA
  • Como nos últimos dois anos, eu preparei uma extensa lista com os filmes que considero como "promessas" para 2012. Você encontrará de tudo aí embaixo. A ideia não é exatamente relacionar os filmes que considero ter potencial para entrar numa lista de melhores no fim do ano, mas, sim, filmes que eu certamente farei questão de assistir, pelas mais diversas razões, não importando, a princípio, se é um trabalho de um diretor consagrado ou fracassado (isto será um critério eliminatório, eu diria, no caso de ter de optar por ver ou não determinado filme). Alguma ou outra coisa deve ter ficado de fora, então, é provável que eu acrescente alguns títulos à lista nos próximos dias. 

    Um lembrete: há filmes aí que já foram exibidos em festivais no ano passado, mas não foram lançados comercialmente, e alguns que já estrearam em circuito fora do Brasil. Outro lembrete: dos filmes que já possuem data de lançamento no país, considerei apenas aqueles com previsão a partir de março.

    Os links levam para a página de cada título no IMDb ou sites oficiais, para mais informações.

    007 - SKYFALL, Sam Mendes

    360, Fernando Meirelles

    4:44 LAST DAY ON EARTH, Abel Ferrara

    À BEIRA DO CAMINHO, Breno Silveira

    À TODA PROVA, Steven Soderbergh

    O ABISMO PRATEADO, Karim Aïnouz

    AMOUR, Michael Haneke

    ÁREA Q., Gerson Sanginitto

    ARGO, Ben Affleck

    BAIT, Paul Schrader

    BATMAN: O CAVALEIRO DAS TREVAS RESSURGE, Christopher Nolan

    BEIJE-ME OUTRA VEZ, Gabriele Muccino

    BILLI PIG, José Eduardo Belmonte

    BROKEN CITY, Allen Hughes

    BULLET TO THE HEAD, Walter Hill

    THE CABIN IN THE WOODS, Drew Goddard

    A CADEIRA DO PAI, Luciano Moura

    CAPTAIN PHILLIPS, Paul Greengrass

    CARNAGE, Roman Polanski

    CLOUD ATLAS, Andy e Lana Wachowski e Tom Tykwer

    COGAN'S TRADE, Andrew Dominik

    THE COLD LIGHT OF DAY, Mabrouk El Mechri

    THE COMPANY YOU KEEP, Robert Redford

    CORAÇÕES SUJOS, Vicente Amorim

    O CORVO, James McTeigue

    COSMÓPOLIS, David Cronenberg

    DETONA RALPH, Rich Moore

    DJANGO UNCHAINED, Quentin Tarantino

    E AÍ, COMEU?, Felipe Joffily

    ESPELHO, ESPELHO MEU, Tarsem Singh

    O ESPETACULAR HOMEM-ARANHA, Marc Webb

    EU RECEBERIA AS PIORES NOTÍCIAS DOS SEUS LINDOS LÁBIOS, Beto Brant e Renato Ciasca

    FILME SEM TÍTULO DE TERRENCE MALICK, Terrence Malick

    THE FIVE-YEAR ENGAGEMENT, Nicholas Stoller

    FOXFIRE, Laurent Cantet

    FRANKENWEENIE, Tim Burton

    THE GANGSTER SQUAD, Ruben Fleischer

    O GATO DO RABINO, Antoine Delesvaux, Joann Sfar

    GEBO ET L'OMBRE, Manoel de Oliveira

    A GLIMPSE INSIDE THE MIND OF CHARLIE SWAN III, Roman Coppola

    THE GRANDMASTERS, Wong Kar Wai

    O GRANDE GATSBY, Baz Luhrman

    GRAVITY, Alfonso Cuarón

    HE LOVES ME, Jonathan Dayton e Valerie Faris

    HELENO, José Henrique Fonseca

    O HOBBIT: UMA JORNADA INESPERADA, Peter Jackson

    HOTEL TRANSILVÂNIA, Genndy Tartakovsky

    HYDE PARK ON HUDSON, Roger Michell

    A IGREJA DO DIABO, Manoel de Oliveira

    IMOGENE, Robert Pulcini e Shari Springer Berman

    INSIDE LLEWYN DAVIS, Ethan e Joel Coen

    INTO THE ABYSS / DEATH ROW, Werner Herzog

    JAYNE MANSFIELD'S CAR, Billy Bob Thornton

    JOHN CARTER, Andrew Stanton

    JOVENS ADULTOS, Jason Reitman

    KILL BIN LADEN, Kathryn Bigelow

    KILLER JOE, William Friedkin

    A LATE QUARTET, Yaron Zilberman

    O LEGADO BOURNE, Tony Gilroy

    LIFE OF PI, Ang Lee

    LINCOLN, Steven Spielberg

    LOOPER, Rian Johnson

    LOWLIFE, James Gray

    LUZ NAS TREVAS - A VOLTA DO BANDIDO DA LUZ VERMELHA, Helena Ignez e Ícaro Martins

    THE MAN WITH THE IRON FISTS, RZA

    THE MASTER, Paul Thomas Anderson

    MEANWHILE, Hal Hartley

    OS MERCENÁRIOS 2, Simon West

    UM MÉTODO PERIGOSO, David Cronenberg

    MOONRISE KINGDOM, Wes Anderson

    MOVIE 43, vários

    NERO FIDDLED, Woody Allen

    NERVO CRANIANO ZERO, Paulo Biscaia Filho

    ON THE ROAD, Walter Salles

    PARAÍSOS ARTIFICIAIS, Marcos Prado

    PARANORMAN, Chris Butler, Sam Fell

    A PERSEGUIÇÃO, Joe Carnahan

    PINA, Wim Wenders

    PIRATAS PIRADOS!, Jeff Newitt e Peter Lord

    A PLACE BEYOND THE PINES, Derek Cianfrance

    PLAYING THE FIELD, Gabriele Muccino

    POST TENEBRAS LUX, Carlos Reygadas

    PROMETHEUS, Ridley Scott

    QUARTET, Dustin Hoffman

    RED HOOK SUMMER, Spike Lee

    RED TAILS, Anthony Hemingway

    ROCK OF AGES, Adam Shankman

    SAVAGES, Oliver Stone

    SETE DIAS COM MARILYN, Simon Curtis

    SEVEN PSYCHOPATS, Martin McDonagh

    SHADOW DANCER, James Marsh

    SHAME, Steve McQueen

    THE SILVER LININGS PLAYBOOK, David O. Russell

    SMALL APARTMENTS, Jonas Åkerlund

    O SOM AO REDOR, Kleber Mendonça Filho

    SOMETHING IN THE AIR (APRÈS MAI), Olivier Assayas

    SOMOS TÃO JOVENS, Antonio Carlos Fontoura

    STOKER, Park Chan-wook

    TABU, Miguel Gomes

    THAT SUMMER (UN ÉTÉ BRÛLANT), Philippe Garrel

    THIS IS 40, Judd Apatow

    OS TRÊS PATETAS, Bobby e Peter Farrelly

    TWIXT, Francis Ford Coppola

    UNDER THE SKIN, Jonathan Glazer

    VALENTE, Brenda Chapman e Mark Andrews

    OS VINGADORES - THE AVENGERS, Joss Whedon

    VOYAGE OF TIME, Terrence Malick

    THE WE AND THE I, Michel Gondry

    WETTEST COUNTY, John Hillcoat

    WORLD WAR Z, Marc Forster

    XINGU, Cao Hamburger
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    Star Wars 3D

  • 10 Fevereiro 2012
  • por
  • RENATO SILVEIRA

  • A volta dos filmes 3D aos cinemas está correspondendo às expectativas dos estúdios. Prova disso é que a oferta de lançamentos no formato já apresentou alta para 2012 em relação ao ano passado. De acordo com o boletim FILME B, além dos quatro filmes 3D que já entraram em cartaz em janeiro no país, mais 36 estão programados até o fim de dezembro. A soma já supera o total de 38 filmes 3D lançados em 2011.

    Por um lado, o levantamento mostra que aumentou também o número de filmes realmente feitos em 3D, e não meramente convertidos para o formato – uma prática recorrente dos estúdios nos dois últimos anos. Por outro, temos uma ampliação também dos filmes antigos que estão sendo convertidos e relançados nos cinemas. Já tivemos “A Bela e a Fera” recentemente, seguindo o exemplo de “O Rei Leão”, e, agora, temos “Star Wars: Episódio I”, que será seguido por “Titanic” e “Procurando Nemo” nos próximos meses.

    Sem dúvida, o relançamento de grandes sucessos representa uma oportunidade para quem conheceu os filmes na TV poder revê-los na telona do cinema. No entanto, essas pessoas verão uma versão adulterada, já que esses filmes não foram feitos para serem vistos em 3D em primeiro lugar. Trata-se, portanto, apenas de uma estratégia caça-níqueis dos estúdios.

    Se o 3D de "O Rei Leão" já havia mostrado a grande picaretagem da estratégia (sem falar na incoerência artística, uma vez que trata-se de uma animação tradicional), o 3D de “Star Wars: Episódio I” não fica atrás. Não dá nem para usar o termo "decepção", porque, afinal, nunca houve algo bom de se esperar disso. No entanto, o trabalho feito pela Lucasfilm se mostra tão preguiçoso, que até cenas em que 99,9% dos elementos foram feitos com CGI não oferecem sensação de profundidade alguma.

    O melhor teste para identificar uma conversão 3D mal feita é tirar os óculos 3D por alguns segundos. Faça isso com "Star Wars" e perceba como há cenas totalmente planas. O que a Lucasfilm fez, basicamente, foi apenas "recortar" os planos de modo a colocá-los um atrás do outro, quase num sentido literal mesmo de três dimensões: você tem, por exemplo, dois personagens conversando na frente; logo atrás, estão outras pessoas que os acompanham; e, por fim, temos o fundo. Outra situação: em uma casa, vemos, no primeiro plano, o arco de passagem de um aposento para outro; no segundo, estão os personagens em pé; e, no terceiro, estão os objetos de uma prateleira e um armário encostados na parede.

    Num filme 3D genuíno, essa lógica seria a mesma, com a grande diferença de que você não conseguiria enxergar a separação entre as três dimensões. Elas seriam apresentadas de maneira mais natural, pois a ideia é fazer com que você veja (ou sinta que está vendo) o que está na tela da mesma forma como você vê as coisas que estão na sua frente, no dia a dia. Já em "Star Wars" e outros filmes convertidos, a sensação que temos é mais parecida com esta:





    Acredito que os episódios II e III poderão se beneficiar um pouco mais da conversão porque foram todos filmados em digital ("A Ameaça Fantasma" foi feito em 35mm). Mas imagine a trilogia clássica? Teremos provavelmente esse mesmo efeito de livro pop-up ainda mais evidenciado.

    A ideia de George Lucas é relançar os seis episódios de “Star Wars” em 3D, um a cada ano. Tudo bem que já se passaram mais de 10 anos desde que “Episódio I” estreou nos cinemas e muitas crianças não tiveram a chance de ver o filme no cinema. Então, por que não relançar apenas, sem a conversão em 3D? A resposta é simples: os ingressos das salas 3D são mais caros. Portanto, as chances de lucro extra são automaticamente maximizadas. Sem falar que "O Retorno de Jedi" chegará às telas em 3D em 2017 - exatamente no ano em que o filme original completa 40 anos e, certamente, haverá o lançamento de um novo box de Blu-rays, agora com as versões 3D.

    Tomara que diretores como Martin Scorsese, Ridley Scott, Ang Lee, Peter Jackson e Alfonso Cuarón, que decidiram fazer filmes em 3D genuíno, mostrem que o formato é mais que uma mera desculpa para fazer dinheiro fácil. De outra forma, estaremos sempre nesse círculo vicioso de relançamentos que os estúdios não farão questão nenhuma de interromper.
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    Como degustar “Sideways”

  • 08 Fevereiro 2012
  • por
  • RENATO SILVEIRA

  • - Primeiro, erga o copo e examine o vinho contra a luz.

    “Sideways” funciona em duas esferas: a primeira é a do estudo de personagens, na qual é prazeroso deixar de ler as legendas em alguns momentos só para observar as expressões e gestos de Paul Giamatti e seus colegas de elenco. A outra é a da comédia, onde quem mais brilha é Thomas Haden Church, que rouba a cena diversas vezes.

    - Agora, incline. O que você está fazendo é checar a densidade da cor, à medida que o vinho afina na direção da borda. Isso mostra a idade.

    Não há nada de mais injusto no Oscar deste ano do que a não indicação de Giamatti como Melhor Ator. Assistam a “Sideways” e depois venham dizer se não tenho razão. Aqui, ele faz seu melhor trabalho, uma interpretação sutil, que pode lembrar o Harvey Pekar de “Anti-Herói Americano”, mas sem os maneirismos daquele personagem, ficando apenas o lado pessimista e ranzinza. Acrescente a isso uma dose de pura sensibilidade, algo que o ator emprega ao aspirante a escritor Miles de uma forma que o torna um cara real, com sentimentos que eu ou você podemos compartilhar com ele.

    - Enfie o nariz. Não seja tímido, enfie o nariz pra valer.

    “Sideways” pode não agradar tanto quanto os outros indicados ao Oscar, o que é compreensível tendo em vista que ele é direcionado a um público peculiar: homens adultos que já passaram por experiências amorosas frustrantes. Não que as mulheres não possam curtir também (além de ser uma ótima oportunidade para elas observarem o comportamento do sexo oposto).

    - Ponha a taça no balcão e deixe entrar o ar. Oxigenar abre o vinho, solta os aromas, os sabores, isso é muito importante.

    Confesso que me identifiquei bastante com Miles e, por isso, o que mais gostei foi a análise da depressão pela qual ele passa. Miles diz a Jack que a semana que eles irão passar juntos é para o amigo se divertir, não ele. De fato, é isso que acontece, mas é Miles que vive o momento de maior descoberta interna, enfrentando os próprios demônios que o atormentam desde o fim de seu casamento. A incapacidade de se sentir estimulado a se relacionar novamente, o fracasso profissional que parece cada vez mais provável, tudo derivado do stress emocional que ele vive. Alexander Payne consegue transmitir com a câmera essa constante sensação de desconforto do personagem. Observe, por exemplo, como é filmada a cena em que Miles se senta com os amigos em um restaurante, mas ele só consegue pensar na ex-esposa.

    - Cheire de novo.

    Se o filme é tão, digamos, introspectivo, por que, então, foi tão elogiado e premiado em tudo quanto é associação de críticos nos EUA? A resposta está exatamente nesta observação tão próxima, que chega a ser pessoal. Assim como Miles nos ensina, “Sideways” deve ser degustado aos poucos. É preciso estudá-lo, pegar os detalhes, as nuanças dos personagens, os diálogos bem colocados, o timing dos atores, os enquadramentos, as aproximações da câmera. Não é um filme para se ver num gole só.

    - E quando a gente bebe?
    - Agora.

    Concordo que o filme possa estar passando por uma superestimação momentânea, ainda mais quando temos um Scorsese e um Eastwood em cartaz ao mesmo tempo, mas não dá para negar que o trabalho de Payne é realmente muito bom. Vale não só a primeira dose, mas a garrafa inteira.

    Texto publicado originalmente em 16 de fevereiro de 2005.
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    Os Descendentes

  • 05 Fevereiro 2012
  • por
  • RENATO SILVEIRA

  • O Havaí fica localizado sobre a placa tectônica do Oceano Pacífico e todas as suas ilhas foram formadas a partir do magma que corre por baixo do mar e que até hoje mantém vulcões ativos em alguns pontos do arquipélago. A região é também suscetível a terremotos e tsunamis. “Os Descendentes” se passa inteiramente no Havaí, mas o filme não mostra os desastres que ali já ocorreram ou que podem vir a ocorrer. E nem deveria: a vida de Matt King (George Clooney) já está devastada o bastante.

    Na verdade, o diretor e co-roteirista Alexander Payne começa o filme, sim, com a face do desastre: um fade in, um close-up de uma mulher sorridente (Patricia Hastie), um fade out. As três principais informações que temos ali são: o sorriso, o vento no rosto da mulher e o mar, ao fundo, indicando que ela pratica esqui aquático naquele momento e está muito feliz fazendo aquilo. Os fades, no entanto, é que são essenciais para a representação deste breve prólogo para o restante da trama.

    A forma como Payne narra o primeiro meio minuto de filme pauta todo o restante do longa-metragem. Ele utiliza uma cartilha bastante básica e cuida para que cada efeito e movimento de câmera não seja desperdiçado. Como é bom ver panorâmicas utilizadas de maneira tão funcional, assim como os chicotes, o zoom e até mesmo a transição em cortina, coisa rara de se ver num filme hoje em dia. A direção de Payne, aqui e em seus filmes anteriores, é linguagem pura usada a favor da narrativa. Ele sabe exatamente onde colocar a câmera. É um cinema simples que refuta o excesso e o modismo e investe em formas mais tradicionais, que são o que o tornam grandioso.

    Desde que estourou com “Eleição” (1999) e veio a ser consagrado precocemente com seu quarto longa, “Sideways – Entre Umas e Outras” (2004), Payne tem demonstrado um amadurecimento admirável e invejável a cada filme. Em “Os Descendentes”, ele não só apresenta uma direção consistente como comprova ser discípulo legítimo de James L. Brooks (“Melhor é Impossível”, “Laços de Ternura”, “Nos Bastidores da Notícia”), cineasta que já bebe do cinema do mestre Billy Wilder. Eu falo não apenas da técnica concisa, mas da abordagem humana. Fazendo dramas disfarçados de comédias (o inverso também se aplica), Payne fala de valores também bastante básicos, como respeito, lealdade e dignidade (a recuperação desta, em primeiro lugar) em face a eventos que, sem que se perceba de imediato, ocorrendo sob expressões aparentes, podem desestruturar uma família e desfazer, como num fade, os sentimentos que unem aquelas pessoas em primeiro lugar.

    Temos, em “Os Descendentes”, um homem arrasado que quer reconstruir sua família, alguém que deseja tão somente manter suas filhas num mesmo espaço. Ele quer ser um pai - coisa que uma geração ensina à outra. Ao mesmo tempo, ele quer ser um homem com "H" maiúsculo e, para isso, testa até onde vai sua capacidade de tolerar e preservar(-se). Payne não quer falar do desastre, mas das consequências - mais que isso, falar sobre reunir e reerguer.

    Um filme simples, elegante, equilibrado e tocante como a boa e velha Hollywood é capaz de fazer quando quer.

    OS DESCENDENTES (The Descendants, 2011, EUA). Direção: Alexander Payne. Roteiro: Alexander Payne, Nat Faxon, Jim Rash (baseado no livro de Kaui Hart Hemmings). Fotografia: Phedon Papamichael. Montagem: Kevin Tent. Produção: Alexander Payne, Jim Taylor, Jim Burke. Com: George Clooney, Shailene Woodley, Amara Miller, Nick Krause, Patricia Hastie, Beau Bridges, Michael Ontkean, Robert Forster, Barbara L. Southern, Matthew Lillard, Judy Greer. Estúdio: Ad Hominem Enterprises. Distribuição: 20th Century Fox. 115 min
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