Desculpe-nos o transtorno!

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Olá! O blog está passando por algumas obras, mas é rápido. Nós tivemos que migrar para outro servidor e enfrentamos (na verdade, ainda estamos enfrentando) problemas com imagens e links quebrados, páginas não encontradas (o famoso “erro 404”) etc. Além disso, eu estou recuperando e finalizando alguns textos que ficaram no rascunho nos últimos meses. A maior parte já está publicada nos posts abaixo, então, você pode ficar à vontade para ler esses textos e também consultar nosso arquivo até retomarmos as atualizações. Para ser avisado sobre o retorno, siga-nos no Twitter e no Facebook. Forte abraço e até breve!

JOGOS VORAZES: A ESPERANÇA – O FINAL: À beira do absurdo

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Apesar de não ser memorável como outros finais de recentes franquias de sucesso, a segunda parte de “Jogos Vorazes – A Esperança” cumpre bem seu papel de colocar novamente no centro da história a questão política por trás do espetáculo promovido pela Capital através de um reality show em que os participantes precisam se matar diante das câmeras.

Aqui, os jogos não acontecem por causa da rebelião dos distritos para derrubar o Presidente Snow (papel de Donald Sutherland). Porém, os líderes do movimento utilizam a mesma estratégia da publicidade para transformar Katniss (personagem de Jennifer Lawrence) em um símbolo da revolução. Ela, no entanto, quer distância das câmeras e tenta ir sozinha ao encontro de Snow para se vingar.

Em seu trajeto, contra a sua vontade, Katniss acaba sendo acompanhada de outros colegas rebeldes e se vê novamente em meio a armadilhas próprias dos Jogos Vorazes, só que agora no mundo real. Essa realidade, no entanto, surge ainda mais distópica do que nos longas anteriores da série, quase convergindo para o campo da fantasia. Não só os perigos enfrentados por Katniss são ainda mais mirabolantes (o que, por sinal, aproxima bastante as cenas de ação a fases de um jogo, mas de videogame), como ela também se depara com criaturas monstruosas, os chamados “Bestantes”. Tem ainda o encontro com uma mulher que modificou sua fisionomia através de cirurgias plásticas para ficar parecida com um tigre.
Então, essa mudança de atmosfera no último filme da franquia surge como ponto interessante, pois é como se o autoritarismo da Capital atingisse um nível tão severo, tão absurdo, que nem mesmo a realidade consegue se suportar.

Terceiro de quatro longas sob a direção de Francis Lawrence (somente o primeiro ficou a cargo de Gary Ross), o filme tem problemas, principalmente no que diz respeito à construção das cenas mais climáticas, que perdem força por se tornarem previsíveis. Além disso, alguns personagens que apresentavam claros sinais de trauma por terem sido torturados parecem se recuperar rápido demais, à conveniência do roteiro (casos de Peeta, papel de Josh Hutcherson, e Johanna, a personagem mais interessante e menos aproveitada, vivida por Jena Malone).

A impressão é a de que os realizadores tentaram tornar as coisas o mais leves possíveis para que, curiosa e de certo modo contraditoriamente, o espetáculo, tão combatido por Katniss, fosse favorecido. Dessa forma, é frustrante por um lado percebermos que o último filme é um tanto esquemático. Por outro, no entanto, é satisfatório como encerramento de uma trama tematicamente mais ambiciosa que a média das inúmeras sagas voltadas para o público jovem adulto. ■

PERDIDO EM MARTE: Trabalho em equipe

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“Perdido em Marte” é uma adaptação do livro de ficção científica de mesmo nome, escrito por Andy Weir e publicado em 2011. Mas o filme pode dar perfeitamente a impressão de que é baseado em um caso verídico, mesmo se passando em um futuro não muito distante, quando a NASA já consegue realizar missões tripuladas ao Planeta Vermelho.

A sensação de realismo que o longa nos passa vem, em parte, do material original, que Weir concebeu a partir de intensa pesquisa sobre astronomia, além de suas próprias experiências com a ciência da computação e com a profissão do pai, um físico de partículas. Mas o crédito também deve ser dado ao roteirista Drew Goddard. Ele escreveu “Cloverfield – Monstro” (2008) e “Guerra Mundial Z” (2013), que também são longas que possuem um realismo muito forte, por mais que sejam histórias fantasiosas de homens que lutam contra criaturas (um anfíbio gigantesco e uma horda de zumbis).

No caso de “Perdido em Marte”, o protagonista, o astronauta Mark Watney (papel de Matt Damon), não tem que combater alienígenas. Ele se encontra solitário no deserto marciano, após uma tempestade obrigar sua equipe a levantar voo para se salvar. O inimigo de Watney não tem forma ou rosto, mas é cruel e implacável, e todos nós também temos que enfrentá-lo no dia-a-dia: a passagem do tempo. Afinal, até que o astronauta consiga entrar em contato com a Nasa para avisar que está vivo e a agência enviar uma equipe de resgate para trazê-lo de volta, o tempo se torna o principal obstáculo para sua sobrevivência, já que ele conta com recursos escassos e que podem acabar antes do prazo. Além disso, uma falha, por menor que seja, pode representar um prejuízo enorme, não só para ele, mas também para a Nasa, que investe muito tempo e muito dinheiro na elaboração da operação de resgate, e para os colegas de Mark, que estão na estação espacial e precisam decidir se irão prolongar ainda mais o tempo e a distância de suas famílias, tudo para salvar uma pessoa.

“Perdido em Marte”, além de um filme de sobrevivência, é também um filme sobre compaixão. E por mais que seja centrado no drama de um astronauta sozinho em Marte, é uma história sobre trabalho em equipe. Curiosamente, é também um filme bastante otimista, e vindo de Ridley Scott, um cineasta que já nos brindou com “Alien: O Oitavo Passageiro” (1979) e “Blade Runner: O Caçador de Andróides” (1982), outras excelentes ficções científicas, também sobre personagens solitários, mas que são sombrias, como a maior parte da obra do cineasta, por sinal.

O talento e o carisma de Matt Damon também são fundamentais para o sucesso do longa. Com bom humor, o ator constrói um personagem verossímil, e acreditamos que ele é mesmo capaz de fazer tudo o que nos mostra para sobreviver naquelas condições hostis. Por fim, vale ressaltar que a personagem de Jessica Chastain, líder da equipe de astronautas, reforça seu já respeitável currículo e também a recente galeria de papéis femininos fortes e de destaque numa grande produção hollywoodiana. ■

A HORA E A VEZ DE AUGUSTO MATRAGA: Faroeste à brasileira

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É uma pena que tenha demorado quatro anos para “A Hora e a Vez de Augusto Matraga” chegar ao circuito comercial. Mais lamentável ainda é o fato de que o filme está passando despercebido e não deve durar mais uma semana semana em cartaz.

Dirigido pelo estreante Vinícius Coimbra, o longa leva o clássico literário de Guimarães Rosa para a tela, mistura ingredientes do faroeste clássico e da tragédia grega, acrescentando o necessário tempero brasileiro.

A história do fazendeiro violento que é traído pela esposa e deixado para morrer após uma emboscada já havia sido adaptada para o cinema antes, no clássico de 1965, dirigido por Roberto Santos e com Leonardo Villar no papel principal. O protagonista agora é João Miguel, um dos mais interessantes atores de sua geração e que aqui consegue passar para o público todas as transformações que seu personagem sofre ao curso do enredo: ele deixa a truculência para se tornar um arauto, mas na verdade está mais para um anjo exterminador.

O arco dramático de Augusto Matraga transcorre como uma história, ou melhor, uma fábula de vingança, em que a religião tem grande importância, já que a ação é situada no sertão mineiro, onde o misticismo se faz presente na vida de todos. O roteiro, também assinado por Vinícius Coimbra, ao lado de Manuela Dias, preserva a poética de Guimarães, usando, nos diálogos, o vasto arcabouço de expressões que o escritor coletou para formar a linguagem estilizada e peculiar de sua obra.

As pessoas não falam comumente daquele jeito e dessa forma o filme se afasta da esfera realista que o cinema brasileiro geralmente busca ao retratar aquele tipo de cenário. Como Guimarães, Coimbra busca o mito e, ainda que corra riscos de ser muito literal (e literário), sintetiza muito bem o espírito do material de origem, ao mesmo tempo em que articula elementos típicos do faroeste, com citações visuais a grandes diretores que modelaram o gênero, como John Ford e Sergio Leone. É o que se pode perceber em diversos enquadramentos e no uso da câmera lenta no grande tiroteio final.

Aí, o mérito também deve ser dado à direção de fotografia de Lula Carvalho e seu pai, o renomado Walter Carvalho, que exploram muito bem os cenários da histórica Diamantina, tornando o interior um espaço épico, enaltecido ainda pela trilha sonora orquestrada.

Quem também brilha na tela é José Wilker, em um de seus últimos trabalhos. Ele interpreta o jagunço Joãozinho Bem-Bem, e, assim como o renovado Matraga de João Miguel, lança o olhar do diabo por baixo da face serena. O elenco todo está muito bem, na verdade, com presenças iluminadas de Chico Anysio, Irandhir Santos e Vanessa Gerbeli.

O filme poderia usar mais da sugestão em alguns momentos, e até mesmo em seu desfecho caberia uma certa ambiguidade no lugar da redenção. De todo modo, Coimbra se revela um diretor de talento promissor, que nos deixa ansiosos por seu novo filme, “A Floresta que Se Move”, selecionado para o Festival do Rio deste ano. Mas tomara que não leve tanto tempo para este chegar aos cinemas também. ■

A PELE DE VÊNUS: De Polanski, para Polanski, sobre Polanski

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Quando realizou “A Pele de Vênus”, Roman Polanski já se aproximava dos 80 anos de idade, sendo 60 deles dedicados à carreira cinematográfica. Nada mais natural, portanto, que o longa fosse usado por ele para uma espécie de autorreflexão sobre a sétima arte.

Em entrevistas à época da exibição do filme me Cannes, no ano passado, o próprio Polanski afirmou que o longa é uma comédia e fala da vaidade dos diretores na escolha do elenco de seus filmes, quando utilizam uma dinâmica sadomasoquista para controlar os atores. Para retratar esse aspecto, o cineasta teve uma grande sacada: utilizou como fonte de inspiração uma peça da Broadway sobre o tema, fazendo assim uma transmutação metalinguística. A peça, que por sua vez é inspirada no clássico livro do escritor austríaco Leopold von Sacher-Masoch, agora é reencenada na tela de cinema, ganhando assim uma camada extra.

Mas não para aí: os dois únicos atores em cena são reflexos imediatos do próprio Polanski. Mathieu Amalric interpreta o diretor de teatro e carrega uma semelhança gritante com a fisionomia de Polanski. E a atriz que tenta convencê-lo de que é a escolha ideal para protagonizar a peça é vivida por Emanuelle Seigner, que é esposa de Polanski na vida real e já trabalhou com ele em diversos filmes (a última parceria ocorreu em 1999, com “O Último Portal”).

Desta forma, “A Pele de Vênus” também se sai como um filme sobre as obsessões de Polanski e o modo de enxergar o outro, especialmente a mulher (o ser “mulher”, não apenas sua esposa). As relações de dominância, poder e sexo são discutidas na tela em um nível filosófico e psicológico muitos degraus acima do que um filme como “Cinquenta Tons de Cinza” pretende alcançar, e sem que o sadomasoquismo seja o tema central do filme. É apenas uma representação do objetivo principal do diretor.

Há uma clara inversão de papéis no decorrer do longa, que torna o diretor vivido por Amalric refém de sua própria visão. A constante troca de realidades que os personagens vivem é um dos pontos altos e também nos faz lembrar do “Jogo de Cena” (2007), de Eduardo Coutinho. Os dois atores se saem muito bem vivendo personagens dentro de personagens, enganando o público e a si mesmos, e Seigner está particularmente fantástica, interpretando todas essas facetas com intensidade, além de ainda deter uma beleza deslumbrante.

“A Pele de Vênus” lembra ainda “Deus da Carnificina” (2011), filme anterior do Polanski, por também ser situado em um só cenário na maior parte do tempo e envolver personagens confinados em uma calorosa discussão (por sinal, também a partir de um texto teatral). E remete a “Faca na Água”, primeiro longa do Polanski, que se passa num barco e tem apenas três atores. Há ainda outros elementos menores que o olhar mais curioso e atento pode relacionar a outros filmes do cineasta e concluir que ele fez mesmo um compêndio de sua obra. É claro que a gente espera que o diretor não encerre a carreira agora e ainda nos brinde com mais filmes, mas se este eventualmente for o último, é o fechamento perfeito. ■

LOVE: Testando limites

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Existe um motivo para filmes pornográficos terem histórias muito ruins: quem os vê, não está interessado em histórias, apenas nas cenas de sexo. “Love”, de Gaspar Noé, é o que pode ser chamado de “filme pornográfico de arte”.

O diretor argentino radicado na França filma pessoas transando nas mais variadas posições e com o mais variados parceiros. Em certo momento, o personagem principal — não por coincidência, um rapaz que afirma ser diretor de cinema — diz que o seu sonho é fazer um filme de “sexualidade sentimental”. Esta também é a intenção de Noé, mas, ao bem da verdade, ele não demonstra saber qual história quer contar ou mesmo se quer contar uma história.

O roteiro não é coeso, parece um brainstorm, um rascunho de um filme sobre esse jovem cineasta (vivido por Karl Glusman, o único ator não estreante do trio principal) que relembra a intensa relação vivida com uma belíssima mulher (Aomi Muyock) que conheceu em uma festa em Paris. Logo na primeira meia hora, o longa já nos mostra que o romance acabou, que a ex-namorada do protagonista está desaparecida e que ele teve um filho com uma vizinha (Klara Kristin) íntima do casal. Durante todo o restante do filme, o rapaz tentará fazer contato com sua antiga paixão, enquanto o sofrimento e o arrependimento batem forte.

São quase duas horas mais até o fim, a maior parte delas preenchida por cenas de sexo, todas elas longas e explícitas. Não é que essas cenas não se justifiquem, pois se há na tela a proposta do fluxo de consciência (que, convenhamos, pode servir da vanguarda à picaretagem), elas não soam gratuitas como em um pornô fajuto. O problema é que, depois de um tempo, fica a impressão de que Noé está interessado apenas em explorar os corpos dos atores, seus próprios desejos e fetiches e, claro, a curiosidade do espectador (a ponto de debochar dele com uma cena em que usa o efeito 3D para “jogar” algo em direção à plateia).

Aí a sensação é de que “Love” é um filme de fossa, feito por alguém que teve uma terrível experiência amorosa, ainda que sexualmente inesquecível, e que luta para superá-la. Noé talvez seja diretor e protagonista. Talvez o filme seja um desabafo do diretor, mas também pode simplesmente não passar de uma costura mal feita que serviu/serve apenas ao prazer de filmar e observar o sexo alheio — ato que não carrega em si nada de condenável, é bom frisar. Mas isso basta como cinema?

Noé, que em filmes anteriores, especialmente no impactante “Irreversível” (2002), já havia demonstrado grande habilidade com sua câmera acrobática e sem limites (que não só tudo observa, como também voa, atravessa paredes e até mesmo entra  nos personagens), consegue fazer as cenas de sexo serem esteticamente interessantes, mas emocionalmente ele não chega a lugar algum, ou pelo menos não me levou até esse destino pretendido. “É porque isso vai da subjetividade de cada um.” Tudo bem, mas nem mesmo a tola narração em off, usada para dar ao público acesso direto aos pensamentos do protagonista, ajuda a criar um vínculo com ele. Por sinal, o rapaz pensa e diz frases misóginas e homofóbicas, então, é difícil se importar ou gostar daquela pessoa.

Um outro filme com essa mesma proposta de sexo explícito e que também tem um personagem principal que relembra uma relação amorosa é “9 Canções”, de 2004, dirigido por Michael Winterbottom (escrevi a respeito aqui). A grande diferença é que ele consegue organizar as memórias narrativamente, mesmo sem apresentar uma trama. Já “Love” parece ligado no modo aleatório e, assim, amplia suas chances de falhar em manter o espectador interessado pelo que acontece na tela quando os atores não estão despidos. ■

CORRENTE DO MAL: O medo de se tornar adulto

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“Engraçado. Eu tinha esse sonho de ser madura para sair em encontros, sair com os amigos de carro. Tinha uma imagem de mim mesma, segurando a mão de um cara bem bonito. Escutando o rádio, dirigindo por uma bela estrada. Talvez no norte. As árvores começando a mudar de cor. Nunca tem a ver com um lugar específico. Devia ser sobre ter liberdade. Agora que somos adultos, aonde diabos iremos?”

“Corrente do Mal” cumpre bem o papel dos bons filmes de terror: usa a alegoria para fazer um comentário. Não é apenas um filme sobre uma maldição, sobre um demônio ou sobre um espírito maligno e assassino: ele fala da fase de amadurecimento pela qual nós passamos no fim da adolescência.

Para extrair o horror incutido nesse tema retratado em dramas coming of age como Clube dos Cinco (1985), de John Hughes, Conta Comigo (1986), de Rob Reiner, ou ainda a série Anos Incríveis (1988-1993), o diretor e roteirista David Robert Mitchell, aqui em seu segundo longa, usa um dos elementos mais conhecidos dos filmes de terror do tipo slasher: o sexo como motivo de punição, tema de uma discussão atemporal e universal que nos remete às fundações do próprio slasher e que, em “Corrente do Mal”, é a forma pela qual a maldição é transmitida de uma pessoa para a outra.

Mitchell é certeiro quando afirma que o sexo é uma forma de sua protagonista, Jay (Maika Monroe), abrir a porta para o perigo, mas também é uma forma de ela se livrar desse perigo. Há de se pesar o fato de que a liberação sexual nas décadas de 60 e 70 quebrou o tabu do sexo para as gerações seguintes, e daí ele se tornar um tema recorrente nesses filmes de terror (“Halloween”, “Sexta-Feira 13”, “A Hora do Pesadelo”, só para citar os mais emblemáticos), em que jovens são frequentemente punidos por transar. É uma punição moral, claro, mas que em “Corrente do Mal” ganha uma dimensão extra, que é a de passar para a frente. Ou seja, não é só transar e receber a maldição: você é incentivado a transar de novo para poder se livrar dela. Você vai fazer isso? Com quem você vai fazer? Ou você vai ser um mártir e não passar adiante?

O filme aos poucos revela que essas opções podem não surtir efeito e que a maldição pode não passar de uma lenda urbana. Ninguém sabe ao certo como ela funciona e como acabar com ela, mas a entidade assassina é real e as formas que ela assume são malignas de acordo com quem as vê. O medo é pessoal, mas as escolhas que você faz para se livrar dele afetam quem está ao seu redor. E isso se aplica a uma infinidade de coisas que fazemos na vida (e não só a uma possível leitura da maldição como análoga ao vírus HIV ou outra DST).

"And you told me we'd never survive..."

“And you told me we’d never survive…” – Arcade Fire

Por permitir ao público fazer uma reflexão como essa, apoiado, claro, pelos diálogos entre Jay e seus amigos (vide citação no início do texto), e também por trazer eficientes sustos e momentos de pavor (lembrando que, mais uma vez, o medo é pessoal), “Corrente do Mal” não apenas se posiciona acima da média entre os filmes de terror lançados todos os anos no circuito comercial, como também agrada aos nostálgicos cinéfilos oitentistas. Pois o subúrbio norte-americano, de cidades como Michigan, onde Mitchell rodou este longa, é tão iconográfico para quem cresceu vendo os slashers, os dramas coming of age e também as comédias escolares dos anos 80 quanto, por exemplo, o Monument Valley é simbólico para os fãs dos westerns clássicos. É um ambiente em que o cineasta e o espectador se sentem “em casa”, que traz uma boa memória, mesmo que não fique claro em que época “Corrente do Mal” se passa, pois Mitchell e o designer de produção Michael Perry trabalham em cima de certa atemporalidade, usando uma direção de arte retrô que não é alheia à tecnologia atual. É como se esse “culto ao passado” fosse uma condição que o universo do filme carrega.

E por falar em memória, é quase impossível “Corrente do Mal” não remeter ao já citado “Halloween” (1978), especialmente porque é um filme de John Carpenter, diretor que o filme reverencia o tempo todo, não apenas com a direção calma, com movimentos de câmera suaves, flutuantes e circulares (trabalho auxiliado pelo diretor de fotografia Mike Gioulakis), mas também com a trilha sonora que conta com belíssima e pontual música eletrônica de Rich Vreeland (ou “Disasterpeace”, que é o nome de trabalho com o qual ele se apresenta). O uso de sons e tons obtidos com sintetizadores colabora para a criação da atmosfera nostálgica e ao mesmo tempo transmite inquietude, que é o estado de espírito vivido pelos personagens, pré-adultos que ainda têm muitas dúvidas quanto ao que farão da vida.

Inquietude essa que, associada ao mesmo subúrbio, também serviu de cenário para o longa de estreia de Mitchell, o singelo e ainda assim pungente The Myth of the American Sleepover (2010), este um um típico drama coming of age em que o cineasta já filmava à noite e refletia sobre os medos da juventude face à iminente vida adulta — em determinado momento, quando dois personagens conversam sobre a adolescência ser um mito, um deles diz:

“Eles fazem você deixar a infância para trás, prometendo todas essas aventuras. Mas uma vez que entenda o que você perdeu, é tarde demais. Você não pode recuperar.”

Diante dos temas recorrentes desses dois primeiros filmes de Mitchell, um segundo olhar sobre o título original de “Corrente do Mal” revela um significado interessante. “It Follows” utiliza o pronome indefinido “it” e, de acordo com o enredo, essa opção faz sentido porque a entidade que persegue (follows) os personagens não possui gênero e assume formas de homens e mulheres. Mas ela também pode representar algo que não seja uma pessoa: um sentimento de culpa ou de remorso, uma dívida não paga, uma paixão não correspondida, enfim, um assunto mal resolvido. Nós sabemos que essas coisas nos perseguem pela vida, como uma assombração sem nome, mas cuja forma a nossa memória reconhece à primeira vista. E mesmo que você possa fazer ligações sobre o que as pessoas da maldição do filme representam para quem é perseguido, nunca há informações precisas, a história pregressa fica no ar — o que é bom, pois possibilita que o espectador faça mais suposições que se relacionem com a sua própria vivência. ■

Você também poderá gostar de…

Enquanto eu escrevia esta crítica, inevitavelmente lembrei do curta “Scenes from the Suburbs” (2010) que Spike Jonze dirigiu e de onde saiu o videoclipe da música “The Suburbs”, da banda Arcade Fire. Veja ou reveja os dois abaixo, com legendas.

O ÚLTIMO CINE DRIVE-IN: Algo mais que uma homenagem

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Em um primeiro momento, “O Último Cine Drive-In” remete a “Cinema Paradiso”, o clássico longa de Giuseppe Tornatore, lançado em 1988, porque se configura como uma homenagem à sétima arte, sobretudo ao ofício da projeção de filmes. Hoje em dia, os espaços destinados à exibição se multiplicam, mas são cada vez menores. E os profissionais que se dedicam a proporcionar o ambiente ideal para o público se envolver com a obra apresentada foram substituídos por mão de obra muitas vezes desqualificada.

Almeida, personagem de Othon Bastos em “O Último Cine Drive-In”, tem o cinema como único legado de sua vida. Esse espaço, o único ainda em atividade no país e localizado em Brasília, à sombra do Estádio Mané Garrincha, é também objeto de afeto de seu filho (papel de Breno Nina), batizado cinematograficamente como “Marlombrando”. O rapaz não tem uma relação muito próxima com o pai, mas os dois precisam reatar quando a saúde da mãe fica em estado delicado.

A partir do momento em que o espectador se vê envolvido com o drama dessa família , “O Último Cine Drive-In” deve remeter a outro filme, que também é emblemático para os cinéfilos: “A Última Sessão de Cinema”, drama de 1971, dirigido por Peter Bogdanovich e estrelado por Timothy Bottoms, Jeff Bridges e Cybill Shepherd. Ambos os longas fazem uma relação do estado emocional dos personagens com a desolação do ambiente em que vivem.

O que o diretor de “O Último Cine Drive-In”, Iberê Carvalho, adiciona de forma mais autêntica é a transição gradual de um tom mais realista do drama familiar, para algo que se aproxima da fábula, pisando em terreno que é próprio da arte. O cineasta, em seu longa de estreia, não se rende à simples homenagem referencial e evita fazer um sem número de citações ou dar piscadelas para o fã de cinema. Iberê trabalha numa esfera mais sutil, e o máximo que ele explicita está nos cartazes de filmes clássicos que podem ser vistos nas paredes de alguns cenários. Mesmo assim, tudo ali tem um motivo e foi pensado para estabelecer uma relação com os personagens.

O mesmo pode ser dito dos (poucos) momentos em que nós vemos filmes sendo projetados dentro do filme. A intertextualidade é irresistível quando reconhecemos cenas de “Central do Brasil” (1998), de Walter Salles, e de “Na Mira da Morte” (1968), não à toa também de Bogdanovich.

Talvez “O Último Cine Drive-In” não crie um envolvimento emocional tão forte com todo o público, porque, afinal, a subjetividade desempenha um papel fundamental na criação do vínculo de um espectador com um filme. Mesmo assim, as ótimas atuações e a fluidez narrativa que o longa apresenta já o tornam um trabalho distinto dentre os lançamentos do cinema brasileiro deste ano. ■

MISSÃO: IMPOSSÍVEL – NAÇÃO SECRETA: With a little help from my friends

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Um dos aspectos mais interessantes da franquia “Missão: Impossível” é que cada filme é dirigido por um cineasta diferente. Esta proposta parte do próprio Tom Cruise, que também é produtor dos longas, inspirados na famosa série de TV exibida nas décadas de 60 e 70.

A mais nova aventura do agente especial Ethan Hunt é comandada por Christopher McQuarrie, com quem Cruise trabalhou em “Jack Reacher: O Último Tiro”, “Operação Valquíria” e “No Limite do Amanhã”. O roteiro também ficou a cargo dele, portanto, trata-se de um profissional de confiança do ator. Nada mais justo se levarmos em conta que um dos desafios de Hunt em “Missão: Impossível – Nação Secreta” é saber em quem ele pode confiar.

Desta vez, a agência secreta IMF é desligada pelo governo norte-americano e seus membros são integrados à CIA – a contragosto, é claro. Hunt é o mais radical e se recusa a trabalhar para os novos chefes, passando à condição de procurado. Ao mesmo tempo, ele descobre que uma outra agência secreta, criada no Reino Unido e chamada Sindicato, quer destruir o pouco que sobrou da IMF.

Sem ajuda oficial e com uma quantidade reduzida de recursos à sua disposição, resta a Hunt a amizade que formou com sua equipe ao longo dos anos em que trabalharam juntos: Benji Dunn (Simon Pegg), Luther Stickell (Ving Rhames) e William Brandt (Jeremy Renner). E numa situação em que a confiança se torna fundamental para que eles sobrevivam, o laço de lealdade entre os agentes se torna mais importante do que a parafernália tecnológica que eles costumam utilizar nas missões.

Mesmo sem abrir mão das cenas de ação alucinantes e implausíveis que se tornaram marca registrada da franquia, McQuarrie emprega ao filme o seu estilo de direção sóbrio e equilibrado que dá o tom de “À Sangue Frio” (The Way of the Gun, 2000) e “Jack Reacher: O Último Tiro”. Ele mantém a mão firme tanto nas sequências mais mirabolantes quanto nas cenas que pedem um tom mais pessoal, em que um simples olhar tem muito mais significado do que aparenta.

Na busca por essa sutileza, se destacam as boas atuações de praticamente todo o elenco, que é bastante eclético, indo desde o astro de ação personificado por Cruise, passando pelo alívio cômico na figura de Pegg e o chefe burocrata vivido por Alec Baldwin, até chegar à grande novidade, a atriz sueca Rebecca Fergusson, dona de uma beleza escandinava enigmática e estonteante.

Mesmo reciclando ideias e situações já vistas em outros filmes de ação e espionagem, inclusive dentro da própria franquia “Missão: Impossível”, “Nação Secreta” é sólido em sua proposta e mantém o padrão de qualidade construído desde o primeiro longa da série. E o flerte com os britânicos não é gratuito: Cruise parece mesmo disposto a concorrer com 007. Se um encontro entre os dois superespiões na tela é improvável, a promessa de uma boa briga pela preferência dos fãs é mais real do que nunca. ■

REAL BELEZA: Em busca de inspiração

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Um dos talentos que eu mais admiro em Jorge Furtado é o bom humor presente em seus filmes, sempre usado com originalidade e acidez e associado a questões morais, éticas e políticas. Em “Real Beleza”, o cineasta gaúcho se distancia dessa característica e nos apresenta um drama mais “convencional”, digamos.

Vladimir Brichta interpreta um fotógrafo que visita diversas cidades do Rio Grande do Sul à procura de uma jovem revelação para a carreira de modelo. Após fotografar e entrevistar centenas de garotas, ele fica decidido a contratar uma adolescente de 16 anos, papel da estreante Victoria Strada. O desejo dela é realmente sair de sua cidade e conhecer o mundo. A garota tem o apoio da mãe, vivida por Adriana Esteves, mas é impedida de seguir seu sonho pelo pai, papel de Francisco Cuoco. Ele, que perdeu a visão e não sente mais que pode ser útil para sua família, quer que a filha termine os estudos primeiro.

Vamos voltar ao início do filme, antes de o protagonista encontrar sua musa. Ele passa por um momento de stress enquanto tenta dirigir uma modelo para um ensaio num museu. O trabalho acaba com um tapa na cara da moça, uma agressão que deveria enquadrar o cara na Lei Maria da Penha e render um outro filme. A cena também culmina com a destruição de uma obra de arte. Há um recado sendo dado nisso, um desabafo, parece.

Na sequência do título do filme, o fotógrafo entra na maratona de testes, uma tarefa realmente estafante, mas que Furtado transforma numa gag através da montagem de sucessivos closes com depoimentos das garotas, dizendo a cidade onde moram entre outras informações (acho que vi Leandra Leal ali, praticamente como um easter egg, se meu olhar não me engana). A série de entrevistas continua até que o fotógrafo encontra a garota. Penso se a chave do filme e a motivação que levou Furtado a fazê-lo não está nessa busca, que me fez lembrar do excelente “Na Cidade de Sylvia”. Não sei se Furtado viu o filme do espanhol José Luis Guerín, nunca lançado oficialmente no Brasil, mas isso não importa tanto, já que, a partir da fixação do fotógrafo na descoberta de sua ninfa, ele muda o foco: sai da subjetividade do conceito e parte para a dramaturgia plena.

O protagonista não precisa se esforçar muito para conseguir o que quer. O conflito principal, que seria o impedimento que o pai da menina coloca para que ela arrume as malas e siga a carreira de modelo, se resolve facilmente. Daí, outro conflito importante, que seria a relação extraconjugal que o fotógrafo tem com a mãe da garota, também tem uma solução em que o personagem principal não precisa fazer muita coisa. Ele simplesmente está lá e os fatos se desenrolam.

Talvez seja isso: ele, como fotógrafo profissional e reconhecido, sabe o que tem que fazer e sabe que vai conseguir transformar a garota em um sucesso. O que o atrai de verdade nessa procura é a beleza que ele encontra na mãe da menina, naquela paisagem escondida e até mesmo naquela relação familiar de pretensos apegos.

De todo modo, a impressão é que Furtado não está muito preocupado com a construção de uma narrativa, mas apenas em fazer um relato. Aconteceu assim e pronto. Dessa forma, ele nos propõe pouco envolvimento e acaba prejudicando a experiência que se tem com o filme, que tem um elenco muito bom, é bem filmado e tem uma atmosfera um tanto misteriosa. Justamente por isso, fica aquela sensação de coisa inacabada. Nós esperamos que algo mais aconteça, mas não: é só aquilo mesmo.

Talento não se perde, mas às vezes teima em se esconder, devido a uma infinidade de motivos que não nos cabe especular. Se Furtado precisava de um retiro para buscar novas inspirações, tanto ótimo. Nós ficamos aqui, sempre ansiosos pelo seu próximo trabalho, seja drama, comédia ou documentário. Claro, o cineasta tem todo direito de fazer o filme que bem entender, e é saudável respirar novos ares, reinventar o próprio estilo, independentemente se o resultado agrada ou não. Afinal, a real beleza, por assim dizer, certamente não se reduz a um juízo de valor. A arte está aí como prova inconteste disso. ■

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