Os Fantasmas de Scrooge


Assistir aos filmes de Robert Zemeckis feitos com a técnica de motion-capture (captura de movimentos) é como ver um experimento constante. Desde “O Expresso Polar”, o cineasta responsável por filmes inesquecíveis como “De Volta Para o Futuro”, “Uma Cilada Para Roger Rabbit”, “Forrest Gump – O Contador de Histórias” e “Contato”, abandonou o cinema live-action para dar um mergulho (aparentemente) sem volta na animação. Conhecido por seu particular interesse em desafiar as técnicas de efeitos visuais, com o motion-capture Zemeckis dá prosseguimento aos seus estudos. Isso, talvez, justifique o fato de ele escolher histórias prontas e fáceis para contar: um poema medieval, “A Lenda de Beowulf”, e dois contos de Natal, “O Expresso Polar” e, agora, este “Os Fantasmas de Scrooge”. Assim, Zemeckis pode se concentrar em aperfeiçoar o uso das ferramentas.

Apesar de ser o terceiro filme dessa leva de Zemeckis a ser feito também para projeção digital 3-D, “Scrooge”, baseado no clássico de Charles Dickens “Um Conto de Natal”, é o primeiro a que assisto neste formato. Sem comparar a “O Expresso Polar” e “A Lenda de Beowulf” neste quesito, mas comparando a tudo que já vi em 3-D até agora, “Scrooge” tem o trabalho mais imersivo e bonito. Os modelos são extremamente bem trabalhados e detalhados, e embora o aspecto “borrachudo” ainda esteja à vista, nota-se que as imperfeições dos filmes anteriores vêm sendo gradualmente melhoradas, como a falta de umidade dos olhos, a movimentação dura dos lábios e, principalmente, a reprodução dos trejeitos dos atores (os tiques gestuais de Jim Carrey são facilmente identificados, o que não acontece com Tom Hanks, por exemplo, em "O Expresso Polar").

É uma pena, porém, que Zemeckis tenha optado por usar um tom tão escuro na direção de arte. Tudo bem que o protagonista é um homem amargo e que a óbvia opção do cineasta tenha sido usar a ótica do personagem para a visão de mundo do filme. Mas duvido que a maior parte do público infantil vá se sentir à vontade diante da tela. Mais que isso, acaba que a própria narrativa se torna pesada até mesmo para os adultos, muito melancólica, até chegar ao ato final quando vem a redenção e tudo clareia. “Up – Altas Aventuras” também traz um protagonista idoso e amargo (virou moda, já que também tivemos “Gran Torino” este ano), mas nem por isso o filme adota uma identidade visual tão sombria como a de “Scrooge”.

Também nota-se que há um “peso” excessivo na própria animação da câmera, e isto Zemeckis ainda não conseguiu corrigir desde “O Expresso Polar”. Basta compararmos a sequência de “Forrest Gump” em que a câmera segue uma pena flutuando às sequências semelhantes vistas nas animações de Zemeckis. A movimentação da câmera é diferente nelas, como se o “equipamento” usado pesasse uma tonelada e fosse puxado por um helicóptero. O que não impede que esses planos-sequências sejam bem feitos - a sensação que passam é que é estranha.

“Os Fantasmas de Scrooge” ainda representa outra grande evolução na "carreira motion-capture" de Zemeckis: finalmente, o cineasta se permite brincar novamente com o espaço cênico (sempre muito bem aproveitado e equilibrado no scope), criando cenas em que o absurdo predomina e justifica o filme ser uma animação. Por mais que “O Expresso Polar” e “A Lenda de Beowulf” sejam histórias também fantasiosas, há nesses filmes uma tentativa muito clara de Zemeckis de emular o real. Já aqui, embora insista em reproduzir fielmente os traços dos atores, ele já se permite usar mais caricaturas (no próprio Jim Carrey) e, a partir de certo ponto, pula de cabeça na vertigem da imaginação – o que, aposto, deve ter sido um tremendo alívio.

nota: 6/10 -- vale o ingresso

Os Fantasmas de Scrooge (A Christmas Carol, 2009, EUA)
direção: Robert Zemeckis; roteiro: Robert Zemeckis (baseado no livro de Charles Dickens); fotografia: Robert Presley; montagem: Jeremiah O'Driscoll; música: Alan Silvestri; produção: Jack Rapke, Steve Starkey, Robert Zemeckis; com: Jim Carrey, Steve Valentine, Daryl Sabara, Sage Ryan, Ryan Ochoa, Gary Oldman, Colin Firth, Cary Elwes, Robin Wright Penn, Bob Hoskins; estúdio: ImageMovers, Walt Disney Pictures; distribuição: Walt Disney Pictures. 96 min

No Meu Lugar


A partir de “Cidade de Deus”, a estética adotada em filmes situados nas favelas do Rio de Janeiro passou a ser condenada por parte da crítica, e também por cineastas e pesquisadores, pelo fato de os diretores desses filmes reconstruírem uma realidade tão bruta e próxima de nós usando moldes comerciais, sobretudo com uma visão verticalizada, de classe média-alta sobre a classe baixa. Em resumo, a chamada “cosmética da violência” é considerada responsável por transformar um problema social em sucesso de bilheteria.

Andando pela outra margem do rio, “No Meu Lugar” se afasta de qualquer indício estético que o coloque junto de “Cidade de Deus” e companhia. Dirigido por Eduardo Valente, que estreia no comando de um longa-metragem, o filme segue um estilo bem mais próximo da crueza e do rigor que se observa em cinemas estrangeiros, como o do mexicano Carlos Reygadas ("Luz Silenciosa"), do turco Nuri Bilge Ceylan (do recente “3 Macacos”) ou de Cristian Mungiu ("4 Meses, 3 Semanas, 2 Dias), expoente do novo cinema romeno. Embora personagens de um típico “filme de favela” estejam na tela – como o policial corrupto, o pobre que entra para o crime e a família que se vê vítima dos dois – em nenhum momento eles são retratados sob filtros de cores quentes, em ângulos inusitados ou como protagonistas de cenas de ação. Na verdade, naquela que seria “a” cena de ação de “No Meu Lugar”, Valente mantém a câmera distante e estática, do lado de fora da casa onde ocorre um tiroteio. Segundos depois, uma tela preta cobre tudo, deixando apenas o som de gritos e tiros falarem em nome da imagem omitida.

Não deixa de ser irônico, porém, que esse plano-assinatura também seja aquele que revela o principal problema de “No Meu Lugar”. A não-ação, o plano estático, a composição estudada e mesmo a tela preta se tornaram o lugar-comum do “cinema alternativo”, “cinema de autor” ou qualquer outro rótulo que se queira dar. Por mais que a direção de Valente seja bem acabada e bem pensada, com o mínimo de movimento de câmera, métrica nos enquadramentos e um bom timing para cada plano, tudo o que vemos já foi feito antes (e melhor). É como se Valente, que também é crítico de cinema, estivesse interessado apenas em fazer um exercício de estilo baseado em um tipo de cinema do qual ele gosta muito. Há muito potencial ali, mas que está claramente contido no simulacro da mise-en-scène.

O grande mérito de “No Meu Lugar” acaba sendo o roteiro, que mistura a cronologia em que a história transcorre – o que também não é novidade, mas que funciona muito bem, especialmente nos 20 minutos finais (e aí há de ressaltar o excelente trabalho do montador Quito Ribeiro). Sem falar que todos os personagens recebem o mesmo tratamento de camadas, isto é, são desenvolvidos de forma a não parecerem unidimensionais (eles são acompanhados até pela mesma trilha sonora). Mas, no fim, o que as três tramas querem dizer no momento em que convergem não vai além do que já não temos conhecimento antes de a projeção começar. Não há frescor: é só um “filme de favela” feito como se não fosse “filme de favela”.

nota: 6/10 -- veja sem pressa

No Meu Lugar (2009, Brasil)
direção: Eduardo Valente; roteiro: Eduardo Valente, Felipe Bragança; fotografia: Mauro Pinheiro Jr.; montagem: Quito Ribeiro; produção: Pimenta Jr., Walter Salles, Mauricio Andrade Ramos, Luis Galvão Teles; com: Dedina Bernardelli, Raphael Sil, Márcio Vito, Nívea Magno, Luciana Bezerra, Leticia Tavares, João Pedro Celli, Licurgo Spinola; estúdio: VideoFilmes; distribuição: VideoFilmes, Downtown Filmes. 113 min

Garota Infernal


“Garota Infernal” tem uma história idiota, perfeita para um filme de terror adolescente. Tem também duas atrizes belíssimas nos papéis principais e sensualidade de sobra. E conta ainda com um humor de tiradas típico de produções do gênero. Mas o longa não possui um ingrediente fundamental: atmosfera.

Diablo Cody faz sua parte no roteiro, com diálogos espertinhos (como os de “Juno”) que dão liga a uma trama muito apropriada para um filme B: Jennifer (Megan Fox) é possuída pelo demônio após seguir um grupo musical que se apresenta na pequena e esquecida cidade onde ela vive. A partir daí, sua melhor amiga, Needy (Amanda Seyfried), não sabe o que faz: se protege o namorado, já que Jennifer passa a devorar (literalmente) os garotos da escola, ou se procura ajuda para a amiga, por quem ela sente uma inegável atração.

Já a diretora Karyn Kusama (do péssimo “Aeon Flux”) parece ter tido o único trabalho de entregar o texto para os atores lerem. OK, ela explora alguns ângulos e movimentos de câmera e cria pelo menos uma ótima cena (na primeira aparição demoníaca de Jennifer, na casa de Needy), mas, de forma geral, tudo parece desconjuntado – especialmente nas cenas de tensão, que se resumem a sustos que seguem aquele velho truque do extra-campo (algo que vem de fora do quadro surpreende o personagem e, teoricamente, o público). Sem falar na repetição do mesmo efeito CGI nos ataques de Jennifer e na covardia de recusar o gore. Resultado: Kusama parece querer fazer um filme de terror para meninas, partindo do pressuposto que meninas que gostam de filmes de terror não querem ver tripas.

Para piorar, há um claro problema de decupagem e montagem em “Garota Infernal”. Tome como exemplo a própria cena do beijo entre Fox e Seyfried. Para começar: porque aquela cena está ali, naquele momento do filme? E note que ela já começa meio fora do lugar, meio do nada, sem nenhuma preliminar, e termina sem dizer a que veio. As duas atrizes fazem tudo certo, se entregam até demais ao momento, mas a cena não escapa de ser gratuita. Cito essa sequência como exemplo, mas durante o filme todo tem-se a sensação de a narrativa estar mal arranjada.

No fim, não há um tema em “Garota Infernal”, só desejo. Ainda que seja um filme distinto dentro da mesmice que assola o gênero (principalmente no cinema hollywoodiano), poderia existir ali uma alegoria sobre a liberação sexual juvenil e o bissexualismo à flor da pele, representados na figura de Jennifer. Mas Cody e, principalmente, Kusama se mostram limitadas demais para fazer um filme que seja fiel às raízes do horror.

nota: 5/10 -- veja sem pressa

Garota Infernal (Jennifer's Body, 2009, EUA)
direção: Karyn Kusama; roteiro: Diablo Cody; fotografia: M. David Mullen; montagem: Plummy Tucker; música: Stephen Barton, Theodore Shapiro; produção: Daniel Dubiecki,
Mason Novick, Jason Reitman; com: Megan Fox, Amanda Seyfried, Johnny Simmons, Adam Brody, Sal Cortez, Ryan Levine, Juan Riedinger, Colin Askey, Chris Pratt, Juno Ruddell, Kyle Gallner, Josh Emerson, J.K. Simmons, Amy Sedaris; estúdio: Dune Entertainment, Fox Atomic, Hard C; distribuição: 20th Century Fox. 102 min

2012


“Terremoto”. “Vulcano”. “Turbulência”. “Poseidon”. “Titanic”. “Guerra dos Mundos”. Todos são filmes-desastre e “2012” tem um pouco de cada um. Especialista no assunto, tendo dirigido tantos outros títulos do gênero, entre eles “Independence Day” e “O Dia Depois de Amanhã”, Roland Emmerich parece tentar fazer aqui o filme-desastre definitivo, quase que numa homenagem a todos eles e a si próprio. Afinal, uma das primeiras cenas – em que o cientista interpretado por Chiwetel Ejiofor toma conhecimento da catástrofe iminente – é idêntica, praticamente uma refilmagem com os mesmos diálogos da cena equivalente de “O Dia Depois de Amanhã”. Troque apenas os gases de efeito estufa por neutrinos solares.

Emmerich nunca foi bom diretor, mas mantém uma obra coerente, o que lhe garante o status de autor. Ora, Michael Bay também é autor. Mas se, como Bay, Emmerich não tem um senso estético bem apurado, ao menos, ao contrário de Bay, ele não desvaloriza o próprio trabalho e opta por tomadas de duração moderada nas cenas de ação, que são a razão de sua carreira existir. Geralmente, ele usa planos abertos e aéreos, o que permite à platéia desfrutar o espetáculo visual maciço desse verdadeiro disaster-porn. E é curioso notar que essas sequências quase sempre acabam com a própria câmera sendo destruída, seja por uma nuvem de poeira, pelo fogo ou por uma enxurrada. Não há o pós-desastre.

Enquanto Emmerich dá tapas nas próprias costas, criando terremotos e maremotos cada vez maiores, reconfigurando a cartografia do mundo ao seu gosto, ele não percebe que transforma “2012” em um filme cada vez mais maçante com o passar do tempo. Isto porque o cineasta se permite “criar” (entre aspas mesmo, porque tudo ali é estereótipo) personagens sobre os quais se debruça ao longo de cansativas duas horas e meia de dramas absurdamente superficiais. Se você viu o trailer, saiba que as cenas de destruição não vão muito além daquilo. Na verdade, é como se Emmerich tivesse pegado o trailer e inserido, entre cada tomada de CGI, mil clichês reciclados de outros filmes-desastre junto com profecias e teorias da conspiração coletadas no Google. Aliás, o papel de John Cusack, um lugar-comum ambulante, não deixa de ser engraçado por ser o de um escritor de ficção-científica que desconhece o mito do ano 2012. Não é à toa que é um fracassado (e eles estão em todos os filmes de Emmerich, não é mesmo?).

“2012” se leva muito a sério, não quanto à concretização da profecia (tolice!), mas no sentido de ser puramente burocrático e seguir convenções de filmes de estúdio. Seria ótimo se fosse de fato um filme exploitation, como a versão alternativa e não-oficial do trailer, vista abaixo:



Na verdade, “2012” é um filme exploitation (Emmerich não tem nem mesmo vergonha de repetir duas grandes sequências de ação uma atrás da outra), mas que se faz passar por superprodução. É onde o diretor erra. Ele quer Cecil B. DeMille, quando deveria ser Roger Corman. O que se salva (sem trocadilho), além dos efeitos especiais, são as observações políticas do cineasta, que sempre surgem de maneira pontual e nada sutil (como já vimos em “Independence Day”, “Godzilla” e “O Dia Depois de Amanhã”), e o senso de humor mórbido inserido numa história pretensamente trágica. São dois aspectos típicos de filmes exploitation, que são percebidos no meio de situações que deveriam ser de pura tensão. Os próprios alívios cômicos estão mal posicionados no texto, mas acabam funcionando por serem independentes de tudo o que ocorre ao redor deles.

Fosse Emmerich dono de um poder de síntese melhor, “2012” poderia ter sido um filme divertido. Do jeito que saiu, causa tédio em sua maior parte.

nota: 4/10 -- não se culpe por não ver

2012 (2009, EUA/Canadá)
direção: Roland Emmerich; roteiro: Roland Emmerich, Harald Kloser; fotografia: Dean Semler; montagem: David Brenner, Peter S. Elliot; música: Harald Kloser, Thomas Wanker; produção: Roland Emmerich, Larry J. Franco, Harald Kloser; com: John Cusack, Amanda Peet, Chiwetel Ejiofor, Thandie Newton, Oliver Platt, Thomas McCarthy, Woody Harrelson, Danny Glover, Liam James, Morgan Lily, Zlatko Buric, Beatrice Rosen, Alexandre Haussmann, Philippe Haussmann; estúdio: Columbia Pictures, Centropolis Entertainment, Farewell Productions, The Mark Gordon Company; distribuição: Columbia Pictures. 158 min

Hotel Atlântico


Dizer que Suzana Amaral foi influenciada por David Lynch para dirigir “Hotel Atlântico” é praticamente fazer papel de estraga-prazer para quem ainda não assistiu ao filme. Então, me desculpe se estou antecipando o que você vai encontrar no cinema, pois, ao mesmo tempo, posso estar auxiliando sua experiência, já que este não é dos filmes mais fáceis encontrados em cartaz.

A referência a David Lynch parte da estética onírica que o cineasta americano adota em “Cidade dos Sonhos” e “Império dos Sonhos”. Porém, não devemos esperar de “Hotel Atlântico” a mesma solução para o quebra-cabeça apresentado na tela. Se os filmes de Lynch podem ser interpretados como sonhos – ou melhor dizendo, pesadelos – o trabalho de Suzana Amaral pode ser tudo: sonho, devaneio, ilusão, realidade alternativa. Pode ser até uma história de fantasmas, de certa forma. Isto porque a cineasta é ainda mais enigmática que Lynch – o que pode ser frustrante, é verdade.

A jornada dantesca atravessada pelo protagonista, interpretado por Júlio Andrade, em mais uma ótima atuação depois de “Cão Sem Dono”, parece não ter fim em seus absurdos. Tanto pelas situações em que ele se envolve quanto pelos personagens que encontra pelo caminho, cujos destinos parecem sempre levar à morte (ou a algo próximo dela). Nesse freak show existencial, o espectador sobrevive através da intriga.

Suzana Amaral mantém a mão firme na direção deste estranho filme de estrada, sem recorrer em nenhum momento a imagens estilizadas – contribuição certeira para que o mistério exista sob a sombra do real, enquanto os fatos são levados pela maré. E a chave para que “Hotel Atlântico” funcione é justamente tais fatos não voltarem.

nota: 8/10 -- vale o ingresso

Hotel Altântico (2009, Brasil)
direção: Suzana Amaral; roteiro: Suzana Amaral (baseado no livro de João Gilberto Noll); fotografia: José Roberto Eliezer; montagem: Idê Lacreta; música: Luiz Henrique Xavier; produção: Ary Pini; com: Júlio Andrade, Gero Camilo, Emerson Danesi, Renato Dobal, André Frateschi, Luis Guilherme, Helena Ignez, Lorena Lobato, João Miguel, Mariana Ximenes, Jiddú Pinheiro; estúdio: Planifilmes; distribuição: Espaço Filmes. 110 min

Cassavetes: autor a favor do ator, e vice-versa


Uma das frases mais polêmicas de Alfred Hitchcock é aquela em que o mestre fala que atores devem ser tratados como gado num set de filmagem, ou seja, eles devem fazer o que o diretor mandar. Eu geralmente concordo com essas palavras de Hitchock, pois penso que o diretor é o verdadeiro autor de um filme. É ele quem fornece sua visão e assina o trabalho, por mais que não faça tudo sozinho. É claro que existem atores excelentes e, sem eles, muitos filmes de autor poderiam fracassar. E existem também aqueles atores-autores, que atuam na frente e atrás da câmera. É o caso de – para citar alguns notáveis – Woody Allen, Clint Eastwood, Charles Chaplin e John Cassavetes.

No último dia 11 de novembro, o primeiro filme dirigido por Cassavetes, “Sombras”, completou 50 anos de lançamento. Considerado o pai dos filmes independentes, o longa-metragem foi rodado com pouquíssimos recursos, equipamento modesto e atores desconhecidos do público que tiveram liberdade para levar a seus personagens características próprias que não estavam no roteiro. A história sobre amor e preconceito na Nova York da era beatnik é embalada por uma trilha sonora de jazz, também criada livremente para o filme. Era plantada ali a semente de uma das obras mais distintas do cinema americano, uma que se baseia num realismo e numa independência que Michelangelo Antonioni, Luchino Visconti, Roberto Rossellini e Vittorio De Sica tanto defenderam na Itália, assim como fizeram François Truffaut, Jean-Luc Godard, Éric Rohmer e os enfants terribles da Nouvelle Vague. Realismo que fica claro na atuação improvisada captada pela lente de Cassavetes, graças, justamente, à independência não só conquistada pelo diretor, mas dada a cada membro do elenco.


Cassavetes é um ator-autor. E é em 1977, com “Noite de Estreia”, que ele explicita de uma vez por todas seu pensamento sobre a autonomia do elenco em um filme. Neste trabalho, a esposa de Cassavetes na vida real, a magnífica Gena Rowlands, vive uma atriz alcoólatra que enfrenta problemas para fazer um papel que se mistura com sua própria vida, numa peça de teatro sobre envelhecimento. A direção de Cassavetes atinge, aqui, talvez o seu momento mais maduro, naquilo em que ele torna cada ângulo apropriado a cada cena. Não temos em “Noite de Estreia” a câmera errática de “Sombras”, “Maridos” ou “Minnie e Moskowitz” (muito menos a câmera bem comportada dos filmes de estúdio de Cassavetes, como “Minha Esperança é Você” ou mesmo “Glória”). A direção parece mais consciente do espaço cênico, aposta tanto nos close-ups quanto nos planos abertos, aproxima-se dos personagens quando estritamente necessário. É encaixado até mesmo um aspecto de suspense nas cenas que envolvem a jovem que assombra a protagonista. No ato final, o próprio Cassavetes contracena com Rowlands em cima do palco, num momento em que os dois, interpretando marido e mulher em crise, decidem deixar de lado o texto ensaiado e improvisar todo o desfecho da peça. A câmera fica na platéia, sem intervir, enquanto o diretor da peça (Ben Gazarra, velho companheiro de Cassavetes) nada faz, além de assistir a tudo aquilo. O público adora. E o último plano é aquela saudação enigmática por trás da coxia pelo sucesso de estupenda apresentação única. É praticamente como se Cassavetes fizesse do filme um manifesto a favor do ator, uma contraprova ao pensamento rígido de Hitchcock.

O mais impressionante é que, se os filmes de Cassavetes passam a idéia de serem improvisações (ele mesmo faz tal afirmação no fim de “Sombras”), na verdade sabe-se que o cineasta sempre foi muito meticuloso quanto a seguir o roteiro. O que acontecia é que os atores ajudavam a construir o filme e se sentiam plenamente à vontade, interpretando papéis com os quais eles se identificavam de alguma forma. Em outras palavras, nos filmes de Cassavetes você vê pessoas sendo pessoas, e não meros joguetes de texto. A partir do momento em que somos apresentados àqueles personagens, temos a clara sensação de que eles tiveram uma vida até o início do filme e que vão continuar vivendo após a última cena. Vale ressaltar, no entanto, que o cinema de Cassavetes exige paciência do espectador – não como obrigação, mas como virtude. Afinal, se o que ele nos propõe é acompanhar não um longa-metragem, mas um trecho de vida devemos estar dispostos não a assistir, mas a conviver com seus filmes.

Tanto “Sombras” quanto “Noite de Estréia” foram lançados em DVD no Brasil recentemente pela distribuidora Cinemax, junto com “A Morte de um Bookmaker Chinês”, “Uma Mulher Sob Influência” e a obra-prima “Faces”.

Trailer: prelúdio para "O Hobbit"?

A refilmagem de "Fúria de Titãs".



"Príncipe da Pérsia", baseado no famoso jogo de computador.



Ambos saem em 2010. Lembrando que, em 2011, teremos "O Hobbit", com direção de Guillermo del Toro. Os épicos fantásticos estão de volta, pessoal.

Gosto do Louis Leterrier, embora não seja do meu agrado um remake de um clássico que guarda seu charme até hoje. Já do Mike Newell gosto menos e "Príncipe da Pérsia" está muito emo para o meu gosto.

Besouro


Se o cinema é o espelho de seu país, como já dizia o cineasta Guilherme de Almeida Prado, “Besouro” reflete muito bem o momento que a nossa produção audiovisual atravessa. Na tentativa de conseguir público para os filmes nacionais na base do vale-tudo, com produções de apelo popular e comercial cada vez mais duvidoso, o filme de João Daniel Tikhomiroff é a tentativa brasileira de fazer um filme de super-herói – subgênero do cinema de ação e fantasia que se firmou, nesta década, como uma das principais fontes de renda de Hollywood. Por aqui, enquanto a fórmula para se manter no topo das bilheterias ainda é estudada, “Besouro” surge como um autêntico representante do filme brasileiro desejoso pela pegada comercial, sem com isso deixar a temática social de lado. E ainda conta com o diferencial de ter um apelo popular positivo - afinal, já passou da hora de desfazermos essa noção de que popular é sinônimo de má qualidade.

O molde de “Besouro” e das histórias de personagens da Marvel ou da DC Comics é o mesmo: é uma história de origem, na qual o protagonista vive um episódio marcante que faz com que ele receba super-poderes. O herói, então, precisará derrotar seu arquiinimigo e, no caminho, encontrará seu par romântico, se surpreenderá com o amigo que se volta contra ele, além, claro, de contar com o mentor morto que irá aconselhá-lo em sua jornada.

Plágio de Homem-Aranha? Cópia de Superman? Essa discussão é inútil, pois sabemos que o modelo existe e vem sendo readaptado faz tempo. O que importa é o que está dentro da forma e, quebrado o gesso, "Besouro" toma um corpo que não havíamos visto até então no cinema nacional. Adotando como mitologia elementos do candomblé e da capoeira, e tendo como pano de fundo o resíduo da escravatura no Recôncavo Baiano dos anos 20 (o recorte de época pára aí, já que o racismo, infelizmente, não se torna um tema datado), o filme nos apresenta a um personagem que acaba por conseguir vencer a batalha de ser original.

É claro que algumas arestas da história poderiam ter sido mais bem aparadas, mas o resultado não deve nada ao que oferecem muitos desses blockbusters que chegam ao país. E o mesmo vale para as cenas de ação, com lutas muito bem feitas (graças à mão de obra estrangeira do chinês Dee Dee, que trabalhou em "Kill Bill", "Matrix" e "O Tigre e o Dragão") e efeitos especiais que, se não são perfeccionistas, tornam-se mais verossímeis justamente por não recorrerem aos zilhões de dólares e de pixels que a era do CGI impõe à indústria.

“Besouro” aponta um caminho viável para termos um cinema para massas feito com capricho e competência técnica, que é popular sem insultar a inteligência do espectador. É um filme do qual devemos ter orgulho. E dada a deixa no fim, não custa nada pedirmos por uma continuação. Será muito bem-vinda.

nota: 8/10 -- vale o ingresso

Besouro (2009, Brasil)
direção: João Daniel Tikhomiroff; roteiro: Patrícia Andrade; fotografia: Enrique Chediak; montagem: Gustavo Giani; música: Rica Amabis; produção: Vicente Amorim; com: Ailton Carmo, Jessica Barbosa, Anderson Santos de Jesus, Flavio Rocha, Irandhir Santos, Servílio de Holanda, Sérgio Laurentino, Nilton Junior, Leno Sacramento, Chris Vianna, Mestre Alípio, Adriana Alves, Geisa Costa; estúdio: Mixer, Miravista, Globo Filmes, Teleimage, Lereby; distribuição: Buena Vista International. 95 min

This Is It


Em certo momento de “This Is It”, Michael Jackson aparece inserido digitalmente entre os fotogramas do clássico “No Silêncio da Noite”, de 1950, dirigido por Nicholas Ray, e também de “Gilda”, de 1946, que tem direção de Charles Vidor. Ali, o cantor contracena virtualmente com Humphrey Bogart e Rita Hayworth, sem saber que, alguns meses depois das filmagens, ele se juntaria àqueles astros na imortal galeria de ícones gerados pela indústria do entretenimento.

A sequência toda dura dois ou três minutos que nada mais são do que outro exemplo do bom gosto do artista pela sétima arte, já demonstrado tantas vezes em seus videoclipes. Aliás, tanto pela escolha dos filmes citados quanto pelo figurino usado por Michael Jackson nessas cenas, temos a impressão de estarmos diante de uma continuação do clipe da música “Smooth Criminal”, no qual o cantor já havia homenageado os filmes noir.

As cenas com Jackson fugindo dos tiros disparados por Bogart foram criadas para ser exibidas em um telão no fundo do palco daquela que seria a derradeira turnê do Rei do Pop. Como a série de 50 shows em Londres teve que ser cancelada devido à morte de Michael, em 25 de junho deste ano, as cenas foram aproveitadas para este pseudo-documentário. Cenas, aliás, que são o mais próximo que “This Is It” chega de ser algo parecido com cinema, já que todo o resto não passa de uma colcha de retalhos.

Kenny Ortega – que possui passado duvidoso atrás das câmeras, tendo como suas “maiores experiências” os filmes do “High School Musical” – toma para si o crédito de diretor de “This Is It”. Mas eu pergunto: ele efetivamente dirigiu a filmagem das cenas que vemos na tela? Não, ele não dirigiu. Simplesmente porque 90% do que vemos são imagens que foram gravadas para uso próprio de Michael Jackson e para sua equipe analisar e acertar detalhes do show. Em nenhum momento as cenas em que Michael ensaia seu repertório com os dançarinos e a banda foram feitas para ser exibidas numa tela de cinema. Ortega dirigiu o espetáculo, o que é muito diferente de dirigir um filme. Ele pode até ter dito onde os câmeras deveriam se posicionar, mas mesmo assim ele estava orientando a filmagem de qualquer outra coisa: a transmissão televisiva, a gravação do DVD ou mesmo as imagens que seriam projetadas em telões ao lado do palco. Tudo, menos um filme para cinema.

Sem diretor, “This Is It” é apenas a organização das imagens de ensaio e de bastidores para ter como resultado um filme-concerto mal ajambrado (é perfeitamente percecptível a troca de fonte das imagens, algumas gravadas em baixa resolução), no qual os fãs de Michael podem ver as últimas performances do ídolo. Aliás, o próprio Ortega se encarrega de dizer, em um letreiro inicial, que o filme é dedicado aos fãs, na tentativa de se eximir de críticas negativas. Pois bem, o show – ou o que seria o show – está lá, e qualquer pessoa que goste das músicas de Michael Jackson, como eu, vai sentir satisfação ao ouvir novamente os clássicos do artista, mesmo que eles não sejam interpretados em sua plenitude pelo cantor, que evidentemente se poupa para guardar as energias para a turnê. Mas eu não sou crítico de dança, nem crítico de música. Sou crítico de cinema e, como tal, tenho que ser sincero com meus olhos. E “This Is It” é tudo, menos um filme honesto. A memória e a história de Michael Jackson merecem todo o respeito que esse empreendimento caça-níqueis não merece, já que foi feito exclusivamente para arrancar mais dinheiro dos fãs – que certamente irão comprar o DVD depois de pagarem pelo ingresso.

Este filme é um acidente, assim como foi a morte de Michael.

nota: 2/10 -- não se culpe por não ver (a não ser que você seja um fã)

This Is It (2009, EUA)
direção: Kenny Ortega; música: Michael Bearden; produção: Paul Gongaware, Kenny Ortega, Randy Phillips, Robb Wagner; com: Michael Jackson; estúdio: Columbia Pictures, The Michael Jackson Company, AEG Live, Stimulated; distribuição: Sony Pictures. 121 min

Alô, Alô, Terezinha!


Abelardo Barbosa, o famoso Chacrinha, é um personagem em tanto na verdadeira fauna que é a televisão brasileira. E fazer um filme em sua homenagem é mais do que necessário. Na verdade, é bem possível que outro longa-metragem surja em pouco tempo trazendo o apresentador como protagonista. Mas neste primeiro filme que resgata a imagem de Chacrinha, já se pode matar a saudade do Velho Guerreiro da forma como ele mais gostava de ser visto: de maneira engraçada e bastante descontraída.

Duvido muito que a organização do programa do Chacrinha fosse a bagunça que o produto final apresentado ao público dava a entender. Afinal, por trás de todo caos, há uma complexidade extrema que, de longe, não nos é visível. E este é um ponto que faltou ser abordado pelo documentário “Alô, Alô Terezinha”. Não há preocupação com os detalhes que cercavam os bastidores do programa ou mesmo o método de Chacrinha para comandar o show. O filme se resume a colher depoimentos das chacretes, dos cantores que despontaram no palco com a ajuda de Abelardo e de algumas pessoas que trabalharam com ele, como o veterano assistente de palco Russo.

Não que o conteúdo desses depoimentos decepcione. Pelo contrário, o grande mérito do diretor Nelson Hoineff é a condução das entrevistas (ainda que não precisasse ir tão longe a ponto de pedir para as chacretes vestirem suas antigas roupas de palco). Também jornalista, Hoineff consegue arrancar declarações e confissões inusitadas, algumas que contradizem outras, mas que no fim dão um clima saudável para a intenção do filme: trazer ao espectador um pouco do que acontecia nos bastidores do Cassino do Chacrinha. Só é uma pena que o diretor se concentre nos participantes do programa e não vá mais fundo na pesquisa relacionada à vida pessoal de José Abelardo Barbosa de Medeiros. Pelo menos assim, evita-se o tom biográfico que muitos documentários recentes feitos no Brasil adotam quase que automaticamente.

“Alô, Alô Terezinha” peca ainda pela falta de refinamento na montagem e na organização de algumas sequências (logo no começo já se tem um exemplo, quando Hoineff sublinha de maneira um tanto bruta o fato de um ex-calouro pedir para um homem sem braço bater palmas enquanto ele canta). Além disso, o filme se vê vítima da baixa qualidade das imagens de arquivo mais antigas, que numa tela grande de cinema parecem ainda mais desgastadas. Mas se o que vale é diversão, o documentário proporciona bons momentos, daqueles que só mesmo o próprio Chacrinha conseguia oferecer em seus saudosos tempos de televisão.

nota: 6/10 -- veja sem pressa

Alô, Alô, Terezinha! (2009, Brasil)
direção: Nelson Hoineff; fotografia: Guilherme Süssekind; montagem: Daniel Maia, Felipe Paes, Diana Gandra, Daniela Margutti; produção: Daniel Maia, Paloma Piragibe; estúdio: Comalt, Globo Filmes; distribuição: Imovision. 90 min

Substitutos

A premissa de “Substitutos” não é nada original, mas é boa demais para ser usada de forma tão descuidada. Num futuro em que robôs podem ser usados como identidades alternativas pelas pessoas, Bruce Willis interpreta um detetive que investiga o motivo por trás das mortes de usuários dessa tecnologia teoricamente segura. Afinal, a pessoa fica em casa, numa confortável poltrona, conecta-se ao seu substituto e vai ver e experienciar o mundo. Se ela for vítima de um acidente de trânsito, por exemplo, ou for violentada, quem se fere é o robô. Para os soldados, é perfeito. Outra suposta vantagem é que enquanto a pessoa que está em casa já tem idade avançada e está fora de forma, seu substituto é jovem e esbelto. No caso de Willis, até mesmo a calvície é um pormenor resolvido (embora o mau gosto pelo penteado provavelmente tenha saído de uma conversa com Nicolas Cage).

Remontando a filmes como “Blade Runner – O Caçador de Andróides”, “Matrix”, “Eu, Robô” (que, além de tudo, tem James Cromwell praticamente no mesmo papel) e “A.I. – Inteligência Artificial”, naquilo que nos apresenta a um mundo dominado por máquinas, “Substitutos” ainda antecipa “Avatar”, de James Cameron, por pegar também a ideia do controle do ser humano sobre todas as coisas, inclusive a forma como ele se apresenta à sociedade. E é curioso notar que o diretor é Jonathan Mostow, que assumiu no lugar do mesmo Cameron as rédeas de “O Exterminador do Futuro 3 – A Rebelião das Máquinas” – e não é à toa que alguns momentos remetam à “Exterminador”.

Semelhanças e referências deixadas de lado, é frustrante ver tantas boas ideias serem desperdiçadas na tela. O próprio tema da chamada “ditadura da beleza” passa batido, servindo mais como condição sine qua non do que como comentário social. Por que todos só querem rejuvenescer? Um jovem não poderia querer parecer mais experiente, ganhando algumas rugas? E mais: por que 99% dos personagens optam por serem meras versões de si mesmos, quando poderiam ser qualquer coisa (nem precisa ser uma pessoa, poderia ser um pássaro, por exemplo)? Se pelo menos houvesse uma lei que proibisse a mudança radical de aparência, tudo bem. Mas não há sequer a preocupação de estabelecer regras internas para a história.

São questões que poderiam acrescentar camadas à trama policial clichê que recebe toda a atenção. Até mesmo a ética daquele sistema poderia ser debatida através do programa de vigilância, a la “Minority Report”, mas ele se torna um simples artifício para uma reviravolta besta. Sem falar na piada interna que poderia ter sido feita: colocar os atores coadjuvantes usando substitutos com aparência diferente, mas somente Bruce Willis sendo ele mesmo, por vaidade. Ou então, para usar um pouco de metalinguagem, inserir entre os membros da guerrilha um grupo de ex-dublês que perderam seus empregos em Hollywood para substitutos robotizados dos atores de filmes de ação. O que falta ao filme é mais acidez no humor. Penso que seria bem mais divertido, por exemplo, se Willis assumisse disfarces variados, na forma de outros robôs, durante a investigação.

Apesar dos percalços criados pelos sempre irregulares roteiristas Michael Ferris e John D. Brancato (que, aliás, trabalharam nos dois últimos “Exterminador do Futuro”), Mostow tem mão boa para dirigir filmes do gênero e novamente demonstra uma predileção por histórias apocalípticas. É uma pena que as deixas não tenham sido aproveitadas, pois a mitologia e os temas tocados poderiam até render uma franquia. Que falta faz um Paul Verhoeven, um John McTiernan, ou o próprio Cameron, não?

nota: 6/10 -- veja sem pressa

Substitutos (Surrogates, 2009, EUA)
direção: Jonathan Mostow; roteiro: Michael Ferris, John D. Brancato; fotografia: Oliver Wood; montagem: Kevin Stitt; música: Richard Marvin; produção: Max Handelman,
David Hoberman, Todd Lieberman; com: Bruce Willis, Radha Mitchell, Rosamund Pike, Boris Kodjoe, James Francis Ginty, James Cromwell, Ving Rhames, Jack Noseworthy; estúdio: Touchstone Pictures, Mandeville Films, Lanoue Film Arts, Road Rebel, Top Shelf Productions, Wintergreen Productions; distribuição: Walt Disney Pictures. 88 min

Te Amarei Para Sempre


“Te Amarei Para Sempre” é o tipo de filme do qual você quer gostar, mesmo que ele apresente vários problemas de roteiro. Muitos dos furos existem em função das viagens no tempo feitas pelo protagonista (Eric Bana) e a incapacidade do script em fornecer um conjunto básico de regras para que o “poder” ou “doença” daquele personagem se torne plausível.

Ficamos sem saber, por exemplo, o motivo de Henry voltar quase sempre para o mesmo lugar: a casa de campo onde sua amada, Clare (Rachel McAdams), vive até a adolescência e onde ele a conhece. Pelo menos, é nisso que o filme se concentra: em mostrar que ele “caiu” naquele local inúmeras vezes, embora possa, sim, ter viajado para outros lugares na mesma proporção. Mas o que dizer, então, sobre Henry ser capaz de visitar o futuro só a partir de determinado ponto de sua vida?

A figura do médico (Stephen Tobolowsky) que Henry procura, e que inclusive dá nome à sua desordem genética, poderia preencher as lacunas deixadas pelo roteirista Bruce Joel Rubin (de “Ghost – Do Outro Lado da Vida, filme que dialoga de certa forma com “Te Amarei Para Sempre”). Mas o doutor desaparece no meio da trama e não tem muita razão de existir, a não ser servir à necessidade momentânea de Rubin de resolver uma situação – e isso se repete várias e várias vezes.

Um caminho mais seguro a ser seguido seria ter feito de Clare a protagonista (afinal, o título original é "A Mulher do Viajante do Tempo"), pois assim a "doença" se tornaria um McGuffin, um pretexto, e o ponto principal seria o drama da garota que passou os anos condicionada a viver apaixonada por aquele homem. De qualquer forma, os buracos no roteiro não se convertem em armadilhas para o espectador - só tiram a possibilidade de se ter uma história mais amarrada e narrada com mais capricho, o que tornaria o filme uma surpresa ainda melhor na temporada.

Erros à parte, este é um bonito romance sci-fi, não só pela boa direção de Robert Schwentke (“Plano de Vôo”) e pelo ótimo elenco, mas por ponderar, sem pieguismo, sobre a condição dos sentimentos humanos perante a passagem do tempo e frente a esse tal de destino. Equipara-se a “Em Algum Lugar do Passado”, de 1980, com Christopher Reeve e Jane Seymour, só que o filme de Jeannot Szwarc possui um texto melhor, assinado pelo grande Richard Matheson, que adaptou o próprio livro. E outra diferença, esta mais a favor do longa de Schwentke, é que “Te Amarei Para Sempre” possui um toque de humor que ajuda a evitar o tom monocórdio que muitas vezes toma conta das histórias de amor.

nota: 6/10 -- vale o ingresso

Te Amarei Para Sempre (The Time Traveler’s Wife, 2009, EUA)
direção: Robert Schwentke; roteiro: Bruce Joel Rubin (baseado no livro de Audrey Niffenegger); fotografia: Florian Ballhaus; montagem: Thom Noble; música: Mychael Danna; produção: Dede Gardner, Nick Wechsler; com: Eric Bana, Rachel McAdams, Arliss Howard, Ron Livingston, Jane McLean, Philip Craig, Stephen Tobolowsky Hailey McCann; estúdio: New Line Cinema, Nick Wechsler Productions, Plan B Entertainment; distribuição: PlayArte. 107 min