DIVERTIDA MENTE

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Um ano sem lançar um filme nos cinemas fez muito bem à Pixar. Após os semitropeços “Carros 2” (história ruim, mas ainda um colírio), “Valente” (conto de fadas um tanto subestimado) e “Universidade Monstros” (que guarda boas piadas), o estúdio de animação volta com tudo com este “Divertida Mente”.

O título brasileiro foi escolhido unicamente para apelo comercial, uma vez que soa até contraditório durante a projeção. Não que o filme não seja divertido, mas ele certamente não foi feito com esse único objetivo.

A protagonista é Riley, uma menina na pré-adolescência que muda de cidade com a família devido ao novo emprego do pai. A premissa é a de que o espectador acompanhe o conflito de emoções dentro da mente da garota enquanto ela sente saudade dos amigos, da antiga escola, do time de hóquei no gelo etc.

É uma fase de adaptação que você não precisa ter vivenciado exatamente daquela forma para saber como é difícil, ainda mais naquela idade. Para muita gente, acredito, é a época quando compreendemos pela primeira vez o que é sentir-se triste, pois, antes, esse é um sentimento usado mais para chamar a atenção dos adultos.

Para o filme foram escolhidas cinco emoções básicas, que são antropomorfizadas: Alegria é como uma fada, brilhante e hiperativa; Tristeza é como uma nerd insegura, de moletom e óculos enormes; Nojinho é caracterizada como uma patricinha mimada; Raiva é um executivo engravatado e rabugento; e Medo é esguio, lembra um nervo, conforme descrição do codiretor e corroteirista Pete Docter. As cores de cada personagem também foram escolhidas dentro do que normalmente se associa a cada emoção.

A metáfora para o que acontece dentro da mente humana é perfeita: a razão (uma entidade invisível) tenta organizar tudo como se fosse uma grande empresa, mas quando as emoções não conseguem ser controladas, o sistema inteiro entra em colapso. É o que se percebe no caso da Tristeza, que começa a agir sem saber exatamente como e por que interfere na Alegria de Riley. Racionalmente, nenhum dos personagens consegue explicar a atitude da colega.

A decisão de colocar Alegria e Tristeza como antagonistas é muito inteligente. Não dá para ser alegre o tempo inteiro, e faz parte do amadurecimento de Riley e da própria Alegria entender que a Tristeza é importante e tem uma função muito importante para que as outras emoções coexistam.

O equilíbrio, no fim, é o que importa. Por mais que uma emoção possa estar no comando da mesa de controle na maior parte do tempo, é necessário que todas interajam para que não haja deficiências que causem, por exemplo, a depressão.

É interessante observar como as emoções dos pais de Riley são caracterizadas, bem como a dos outros personagens na sequência final durante os créditos. No caso do pai, Raiva é o líder e os demais personagens usam seu bigode. Já na mente da mãe, é Tristeza quem está no comando, e ela é fisicamente maior que as outras emoções.

Tudo é questão de tempero: uma das emoções comanda, mas trabalha em conjunto com as demais. A que é eleita “chefe” determina o aspecto principal da personalidade. No caso de Riley, é natural que a Alegria seja a primeira mandatária: ela é a primeira emoção a surgir e a detentora do maior número de lembranças nos arquivos da Memória de Longo Prazo. Mas, como Riley está em fase de formação da personalidade, já percebemos que o controle precisa ser dividido com a Tristeza. Se aquele botão da puberdade for acionado numa eventual continuação, aí que é tudo pode mudar mesmo.

Note também que todas as emoções seguem o gênero da pessoa: são todas homens (no caso do pai) ou mulheres (no caso da mãe). Mas em Riley isso ainda não está decidido. Suspeito que seja um artifício para tornar a interação dos personagens mais dinâmica para o público. Poderia não funcionar se todas fossem homens ou todas fossem mulheres. Eu não iria tão longe ao ponto de levar essa questão para o lado da orientação sexual, mas pode ser interpretado como um modo de representar a fase de transição e indefinição que aquela garota ainda vive. De todo modo, é mais um filme com mulheres protagonistas. São três emoções femininas e duas masculinas. Considerando a caracterização (ou descaracterização) por gênero, a coisa fica ainda mais interessante.

Muito inteligente e imaginativo também como o filme representa as diferentes áreas da mente, como o subconsciente, a “fábrica de sonhos” (que traz ótima referência a “Chinatown” fatalmente perdida na dublagem brasileira), as ilhas de interesses, além da já mencionada Memória de Longo Prazo. E o mais bacana é que por mais que o filme se guie por uma linha racional para representar a mente humana (e no fim das contas um filme sempre é um recorte), ele não é cerebral (sem trocadilho) além da conta. Os elementos são porque são, não precisam de explicações objetivas ou científicas para existirem. E é ótimo quando um filme se permite ter lacunas que o espectador completa por conta própria.

Docter, que a princípio não se mostrava dos melhores diretores da Pixar, assume a posição de um dos principais autores do estúdio com este filme, dada a regularidade e recorrência de temas. Aqui, assim como em “Monstros S.A.” (que praticamente serviu como ensaio para “Divertida Mente”) e “Up – Altas Aventuras” (ah, aquela sequência inicial!), ele fala sobre sonhos e memórias. Seu interesse é sobretudo aquilo que nos torna seres emocionais.

Dito isso, “Divertida Mente” tem uma das cenas mais bonitas e tristes dos filmes da Pixar: um plano aberto no abismo do esquecimento que mostra Alegria ajoelhada e desolada em meio a milhares de memórias descartadas de Riley. O ponto nevrálgico emocional é novamente o fim da infância, tal qual na conclusão de “Toy Story 3”. E no fim dos créditos, os realizadores ainda pedem a suas crianças para não crescerem nunca.

Num escopo mais amplo, os filmes da Pixar, e não apenas os dirigidos por Docter, tratam com recorrência da passagem do tempo, do que temos que deixar para trás. Já mencionei “Toy Story” e cito ainda a cidade parada no tempo de “Carros”, a Terra abandonada de “WALL-E”, os tempos de glória de “Os Incríveis” antes do programa de realocação, o flashback do crítico em “Ratatouille”.

Assim como todos esses elementos, as cenas mais emotivas de “Divertida Mente” também tratam das alegrias de outrora que, inevitavelmente, se tornam nostalgia — essa sensação que sempre vem acompanhada de alguma carga de melancolia. Uma delas, a que apresenta a resolução do conflito entre Alegria e Tristeza, é bastante emblemática para essa questão tão presente nos filmes do estúdio e, claro, em nossas vidas.

Não é à toa que as emoções utilizam justamente um projetor para relembrar as memórias de Riley. ■

JURASSIC WORLD: O MUNDO DOS DINOSSAUROS

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O novo “Jurassic Park” é ao mesmo tempo uma aventura inédita na série e uma volta ao velho “Parque dos Dinossauros”.

Um dos trunfos do filme está na forma como ele acolhe o fã da franquia, como se ele já tivesse visitado aquele lugar. Há um olhar blasé inicial — nosso, dos personagens e do próprio filme — para o que parque representa 22 anos depois: aquele lugar não é mais uma novidade.

Diferente do que acontece no filme original, nós não desembarcamos na Ilha Nublar em planos abertos grandiloquentes acompanhados da música-tema de John Williams. Mas isso não quer dizer que o longa procure se distanciar da produção de 1993. Pelo contrário, a sensação de “já estive aqui” também surge da maneira como, o tempo todo, o diretor Colin Trevorrow nos remete a cenas icônicas do longa de Steven Spielberg.

Não é que ele tenha refilmado ou copiado Spielberg, mas o cineasta faz inúmeras alusões a cenários e personagens, e até mesmo a enquadramentos, como uma forma de homenagem e também de deixar o público numa zona de conforto. É mais déjà vu do que mimese.

É uma segurança que também permite a um diretor novato em Hollywood assumir o controle de uma superprodução tendo apenas um filme no currículo — uma simpática ficção científica de 2012, lançada despercebidamente em DVD no Brasil e chamada “Sem Segurança Nenhuma” (que ironia o título, não?).

Assim, “Jurassic World”, embora seja uma aventura muito bem articulada e envolvente, com momentos de fato eletrizantes e um clímax maiúsculo, não é um filme totalmente novo. Trevorrow trabalha em cima da mitologia da franquia e faz isso muito bem. Utiliza os dinossauros já conhecidos de novas maneiras e dá outra funcionalidade a objetos antigos (o âmbar com o mosquito, o sinalizador, os jipes de tração, a animação do Sr. DNA). Ele recicla ideias, recria significados.

Ao mesmo tempo, remete a outros filmes famosos, clássicos, como “Tubarão”, do próprio Spielberg (numa tomada emblemática do sentido empreendedor da indústria cinematográfica: um supersucesso é abocanhado por outro, dez vezes maior), “Os Pássaros”, de Alfred Hitchcock, “Hatari!”, de Howard Hawks, e “Mogambo”, de John Ford (a relação de Chris Pratt e Bryce Dallas Howard lembra a de Clark Gable e Grace Kelly).

Enfim: é um trabalho extremamente referencial — que, justiça seja feita, não é exclusividade deste filme, mas uma tendência em Hollywood há pelo menos uma década e meia.

Perceba que os novos dinossauros também não são exatamente novos. O bando de velociraptors adestrados é uma releitura muito bem-vinda dos vilões do primeiro filme. E o monstro híbrido criado para ser a nova atração do parque é uma combinação de todas as espécies do local. O Indominus Rex é um tipo de serial killer selvagem, um “psicopatossauro” que coloca em risco a vida de todos, humanos e animais. Há um canibalismo conceitual muito interessante na concepção desse monstro. Uma sacada metalinguística bizarra e muito inteligente, em que a franquia decide se deglutir para poder renascer.

No elenco, Chris Pratt — mais uma vez mostrando que é o herói de ação do momento, a exemplo de “Guardiões da Galáxia” — também é um híbrido de espécies à sua maneira, pois guarda características dos dois principais cientistas do primeiro filme: a cautela e sagacidade do Dr. Grant (Sam Neill) e o ímpeto e a acidez do Dr. Malcolm (Jeff Goldblum).

Há ainda a ameaça estrangeira, velho clichê de Hollywood aqui reaproveitado como um desserviço que pode não ser uma engrenagem do roteiro, mas que está presente no discurso. O novo dono do parque, um empresário que visa o lucro sob o pretexto de proporcionar o bem-estar dos visitantes, é vivido pelo ator indiano Irrfan Khan. O cientista maluco Henry Wu, chefe geneticista do primeiro “Jurassic Park”, retorna, mais uma vez na pele de B.D. Wong, ator americano de descendência chinesa. E o Indominus Rex pode ser visto como representação da miscigenação. Exceção é o chefe de segurança vivido por Vincent D’Onofrio, exemplar perfeito do militarista fanático americano que recorre ao belicismo para resolver todos os problemas.

Mas “Jurassic World” possui também personagens que injetam frescor na tela. Em Bryce Dallas Howard temos a representação e a desconstrução de uma mulher gélida, uma gerente que enxerga a natureza como uma fábrica ou um shopping center, mas que a história mostra que o contato com o mato e a lama a coloca mais próxima de seus instintos. Correr de salto alto não é para qualquer um e quem certamente sabe disso é a corroteirista Amanda Silver (esposa de Rick Jaffa, com quem divide os créditos deste filme e também de “Planeta dos Macacos: A Origem” e “Planeta dos Macacos: O Confronto”).

Vale destacar ainda a presença das crianças no filme, em especial o menino mais novo (Ty Simpkins). Ele, que é o típico garoto spielbergiano (a decoração de seu quarto já denota isso), tem mais medo de que os pais se divorciem do que de ser morto pelos dinossauros. O abalo da estrutura familiar também é refletido no comportamento do irmão mais velho (Nick Robinson), que demonstra interesse por várias garotas que encontra no parque, sem dar bola para a namorada de quem se despediu com indiferença.

É provável que a presença desses dois personagens no roteiro tenha o dedo de Trevorrow, que vem do cinema independente e trouxe junto o também corroteirista Derek Connolly, com quem trabalhou em “Sem Segurança Nenhuma”. O drama familiar é um pequeno tema trabalhado dentro da grande aventura que é “Jurassic World”, mas com certeza é o que a torna mais humana. ■

SOB O MESMO CÉU

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“Sob o Mesmo Céu” (Aloha, 2015) é um filme que tem falhas, o roteiro é pouco coeso, existem personagens completamente dispensáveis, mas, ainda assim, é um filme que possui alma e um sentimento sincero de fazer cinema, coisas que faltam a 90% das produções do gênero.

Comédia romântica dirigida por Cameron Crowe, “Sob o Mesmo Céu” está longe de ser dos melhores trabalhos do cineasta, responsável por “Jerry Maguire – A Grande Virada”, “Quase Famosos” e “Singles – Vida de Solteiro”. No entanto, o longa estrelado por Bradley Cooper e Emma Stone possui partes realmente agradáveis, o que, da mesma forma como se faz com as falhas, não dá para ignorar.

Os melhores momentos do filme estão, em parte, no início do relacionamento dos dois personagens principais. Ele é uma arma de destruição em massa: um militar que volta para o Havaí, sua terra natal, para participar da construção de uma nova base de lançamento de satélites, mas cuja função real é destruir a vida afetiva de todos com quem se relaciona. Ela é uma colega de trabalho que se esforça para proteger o local da exploração militar. Sem dúvida, é o papel mais estranho que Stone já fez e não é à toa que parece ter saído direto de uma comédia screwball, já que este subgênero é a melhor influência que Crowe usa na construção do romance.

Os problemas do recém-formado casal começam quando as reais intenções por trás da empreitada são reveladas, e os problemas do filme também surgem a partir daí. A começar pelo personagem de Bill Murray, um empresário megalomaníaco que nem todo o carisma do ator consegue salvar de ser um sujeito totalmente deslocado da realidade do filme, ainda que sua cena de dança com Stone seja um dos colírios do filme. Além disso, outros funcionários da base militar mostram-se inúteis (o que Danny McBride e Alec Baldwin estão fazendo ali?). Já a personagem de Rachel McAdams, paixão antiga do protagonista, serve apenas de escada para uma espirituosa cena em que seu marido, vivido por John Krasinsky, tem uma conversa com Cooper usando apenas os olhares.

Depois que o romance do casal principal é suspenso, ali por volta dos 50 minutos de duração, o filme se perde mesmo, não dá liga, não faz esforço para nos fazer acreditar naqueles personagens e no que estão fazendo, o que inclui o momento da catarse musical, quando Crowe só falta entrar em cena e empurrar Cooper para fora do quadro (dá-lhe Deus Ex Machina!). Mas as coisas voltam aos trilhos logo depois desse momento, na resolução dos conflitos do protagonista, quando duas boas cenas amaciam a tela. Curiosamente, ambas possuem pouquíssimas falas, o que é sintomático: o que Crowe talvez precise seja conter sua verborragia, para que seus filmes parem de se tornar sessões de análise.

Crowe não desaprendeu a dirigir um filme e, além de continuar a compilar boas trilhas sonoras (aqui novamente variando do rock clássico ao new wave), consegue extrair momentos ternos das relações entre seus personagens. Ele precisa é de concentração e uma inspiração mais profunda para contar uma história, já que há três filmes (com “Tudo Acontece em Elizabethtown” e “Compramos um Zoológico” vindo antes deste) repete o tema do cara que quer uma oportunidade para recomeçar.

Crowe que já fez filmes sobre segundas chances, e aqui faz sobre terceira, quarta, quinta chances… O que também vem se aplicando à sua carreira. Mesmo assim, reitero, é um diretor acima da média e do qual não me canso de insistir.

“Como Eu Aprendi a Parar de Me Preocupar e Amar a Bomba”. Talvez fosse um título melhor para este “Sob o Mesmo Céu”. ■

(Este texto foi adaptado da resenha produzida para o programa Cinefonia, da Rádio Inconfidência, de 27/06/15.)

A INCRÍVEL HISTÓRIA DE ADALINE & TROCANDO OS PÉS

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“A Incrível História de Adaline” utiliza o realismo fantástico para contar uma história de amor. A personagem principal, nascida na virada do século 19 para o século 20, sofre um acidente de carro e ganha o dom, ou a maldição, de nunca envelhecer.

Dirigido por Lee Toland Krieger, o filme é interessante enquanto nos mostra como a protagonista atravessa as décadas sempre com a aparência de uma jovem de 29 anos, e os problemas que ela precisa enfrentar, como fugir da polícia, que desconfia que ela utiliza uma identidade falsa. Além disso, ela evita se apaixonar e ainda vê sua filha se tornar uma senhora e aparentar ser sua avó.

Porém, a partir de meia hora de filme, “A Incrível História de Adaline” passa a dedicar mais atenção ao romance vivido pela personagem com um rapaz que tem uma importante ligação com seu passado. Não é que a história de amor seja ruim, mas a nossa curiosidade é maior em saber como aquela pessoa tão especial lida com as adversidades que uma vida tão longa lhe impôs.

Além de Blake Lively, que tem se revelado uma boa atriz, o filme tem como destaque o ator Harrison Ford, que faz uma das melhores atuações de seus trabalhos mais recentes. Apesar de perder a oportunidade de desenvolver mais sua protagonista, é um filme bonito e metafórico sobre a importância de não deixar para trás problemas mal resolvidos.

 

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Outro filme em cartaz que também utiliza o realismo fantástico é a comédia “Trocando os Pés”. Nela, Adam Sandler interpreta o filho de um sapateiro, vivido por Dustin Hoffman. Ele herda a loja do pai e descobre uma máquina que lhe permite assumir a vida dos donos dos sapatos que o procuram para solicitar algum tipo de conserto em seus calçados.

A ideia é boa e remete a produções típicas dos anos 80. Porém, passados os primeiros minutos e a descoberta dos poderes que a tal máquina dá ao protagonista, o filme se torna um festival de tolices próprias das comédias de Sandler.

É uma pena, pois o filme começa com um tom diferente, muito em função do diretor Thomas McCarthy, que antes havia feito dois dramas muito interessantes e sensíveis, “O Agente da Estação” e “O Visitante”. Ele até consegue dar a “Trocando os Pés” um visual bem trabalhado e um ritmo bem cadenciado, mas se perde na condução de um roteiro implausível, que ainda tenta nos fazer torcer por um personagem que usa seu recém-descoberto poder para praticar crimes e alimentar o próprio ego. Uma oportunidade desperdiçada, infelizmente. ■

(Este texto foi adaptado da resenha produzida para o programa Cinefonia, da Rádio Inconfidência, de 06/06/15.)

PROMESSAS DE GUERRA

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É sempre um exercício interessante observar como atores que se lançam como cineastas se saem atrás das câmeras. No caso de Russell Crowe, com “Promessas de Guerra”, é uma feliz surpresa notar como ele se preocupa em estabelecer um visual belo e consistente para o filme, além de uma narrativa sóbria.

Situado após o fim a Primeira Guerra Mundial, o longa traz o próprio Crowe no papel de um camponês que trabalha descobrindo poços artesianos no interior da Austrália. Seus três filhos se alistaram no exército e desapareceram durante a famosa Batalha de Galípoli. O protagonista então faz uma promessa à sua mulher, de que irá descobrir o paradeiro dos rapazes, apesar de não ter esperanças de que eles estejam vivos. O dom que o personagem possui de “sentir” onde a água brota por baixo da terra irá auxiliá-lo nessa missão, afinal, é notória a sensibilidade que os pais possuem para “sentir” o que se passa com seus filhos.

Ao longo da jornada desse homem, Crowe alterna sequências de batalha e flashbacks com cenas mais intimistas. Por um lado, as belas tomadas que exploram os cenários chamam a atenção, em especial a cena em que ele relembra o dia em que salvou os filhos de uma tempestade de areia. Porém, as subtramas que o filme cria não são convincentes, como o envolvimento de Crowe com a funcionária do hotel em que ele fica hospedado na Turquia, papel de Olga Kurylenko.

Como é raro vermos filmes ambientados na época da Primeira Guerra Mundial, é louvável o esforço de Crowe em resgatar os impactos culturais e políticos que o conflito gerou na região onde ele nasceu, especialmente no que diz respeito à forma como a Austrália entrou na batalha, invadindo a Turquia. Serve como reflexão, sem ser moralista.

“Promessas de Guerra” traz Russell Crowe em uma atuação sólida e com um bom tino para a direção, embora falte ainda valorizar um pouco mais a duração de certos planos, equilibrar o ritmo. Caso ele decida investir na carreira como cineasta, e não se contente com uma só experiência, a tendência é que ele amadureça seu estilo e faça filmes ainda melhores. ■

(Este texto foi adaptado da resenha produzida para o programa Cinefonia, da Rádio Inconfidência, de 30/05/15.)

MAD MAX: ESTRADA DA FÚRIA

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“Mad Max: Estrada da Fúria” faz jus ao título. O filme é praticamente uma grande cena de perseguição de carros que vai ficando cada vez mais insana e, sim, furiosa. Seguindo o exemplo dos filmes anteriores da franquia, este quarto longa funciona isoladamente e não é obrigatório que o público tenha assistido a todos para entender a história, que é bastante simples.

Tudo começa com a captura de Max por um grupo de desajustados que o levam para uma cidadela controlada por bárbaros, no deserto australiano pós-apocalíptico. Lá, as mulheres são mantidas em cativeiro e têm o único papel de reproduzir e alimentar. A imperatriz Furiosa, interpretada por Charlize Theron, organiza uma fuga e Max decide ajudar as prisioneiras.

Um dos aspectos mais interessantes do filme é como as mulheres são personagens fortes. Nesse sentido, “Estrada da Fúria” serve quase como um manifesto feminista dentro de uma indústria cinematográfica dominada por homens, em todos os aspectos.

Vale ponderar, no entanto, que o diretor e roteirista George Miller não soa panfletário em nenhum momento. Ele dá às mulheres do filme uma personalidade natural dentro do contexto em que elas vivem. Ao mesmo tempo, Max não serve como o herói do dia. Ele é um ajudante, mais do que um protagonista, e isso não o faz perder suas peculiaridades. Tom Hardy encarna o mesmo tipo de “lobo solitário” que nós conhecemos na pele de Mel Gibson nos filmes anteriores da série: um cowboy errático montado em um cavalo movido a óleo e graxa.

“Estrada da Fúria” também se destaca por aquilo que a franquia sempre teve de melhor: as cenas de ação alucinantes. Esqueça “Velozes e Furiosos”, “Vingadores”, “Transformers” etc. Miller não faz concessões e coloca na tela sequências viscerais de lutas e perseguições em alta velocidade, com direito a malabarismos incríveis dos dublês. É a perfeita expressão visual de um rock pesado: um filme vibrante, cheio de energia, que faz você ficar sentado na beira da poltrona a cada vez que pisa no acelerador. ■

(Este texto foi adaptado da resenha produzida para o programa Cinefonia, da Rádio Inconfidência, de 23/05/15.)

JIMI: TUDO AO MEU FAVOR

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Você já imaginou fazer um filme sobre a vida de um artista sem poder utilizar as músicas mais famosas dele na trilha sonora? Parece impossível, mas os produtores de “Jimi: Tudo ao Meu Favor” tiveram que se virar para contornar esse problemão.

Após tentativas frustradas de obter os direitos de uso das músicas de Jimi Hendrix para o longa-metragem, a equipe decidiu seguir em frente com o projeto e focalizar apenas no lado pessoal do famoso guitarrista.

Escrito e dirigido por John Ridley, vencedor do Oscar pelo roteiro de “12 Anos de Escravidão”, a cinebiografia acompanha desde as primeiras apresentações de Hendrix, quando ainda era um desconhecido nos palcos, até seu estrelato, quando fez shows inclusive com os Beatles na plateia.

Como acontece na maioria dos filmes sobre astros da música, a narrativa mostra as alegrias e também as tristezas do protagonista, que se deixou iludir pela fama e se rendeu aos excessos.

O lado bom de os produtores não terem conseguido usar as músicas de Hendrix é que você passa a conhecer mais o ser humano do que o ídolo. Porém, um certo excesso de atenção dispensada aos relacionamentos amorosos do biografado nos faz sentir falta de ter contato com o seu lado criativo, descobrir como ele compôs sucessos como “Purple Haze” e “Foxy Lady”. Não é à toa que o filme respira nos poucos momentos em que Hendrix sobe ao palco, mesmo que seja para tocar músicas de outros artistas ou simplesmente improvisar seus alucinantes solos de guitarra.

O filme sofre de uma profusão de pontas infrutíferas de artistas renomados (interpretados por atores desconhecidos), possivelmente porque Ridley se viu obrigado a estabelecer o cenário de fama em que Hendrix circulava, já que não pôde nos situar quanto à sua ascensão através das músicas. Mas é no elenco que reside o ponto alto do filme.

Imogen Poots encanta como Linda Keith (mulher de Keith Richards, dos Rolling Stones), mas a atuação de André Benjamin, que também é músico, faz valer os esforços dos realizadores. Ele é mais lembrado pela dupla Outkast, que ficou famosa com a música “Hey Ya!” Benjamin já atuou em alguns outros filmes (o policial “Quatro Irmãos” deve ser o melhor entre os mais conhecidos, enquanto o musical “Idlewild” é o que as pessoas deveriam conhecer entre os menos vistos), mas sem dúvida este é o seu melhor trabalho, mesmo que a sua fisionomia não se pareça muito com a de Hendrix. O importante é que ele incorpora bem seu estilo e espírito.

“Jimi: Tudo ao Meu Favor” não estreou nos cinemas brasileiros, mas foi lançado recentemente em DVD e Blu-ray. ■

(Este texto foi adaptado da resenha produzida para o programa Cinefonia, da Rádio Inconfidência, de 16/05/15.)

NOITE SEM FIM

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Um bom filme de ação, não é apenas um filme de ação. Sempre tem algo mais. No caso de “Noite Sem Fim”, é a relação entre os personagens.

O incansável Liam Neeson vive um ex-atirador da máfia que atualmente é relegado a trabalhos menores, e até humilhantes, como se vestir de Papai Noel para a festa de Natal da família de seu chefe e amigo pessoal, personagem de Ed Harris.

A tarefa de se passar pelo bom velhinho é atribuída ao protagonista pelo filho do chefão (papel de Boyd Holbrook), que agora está no controle dos negócios. Para piorar ainda mais, o rapaz tenta matar o filho do veterano gângster após uma transação de drogas que dá errado.

Duas relações são testadas a partir dessa situação: a amizade de longa data entre os personagens de Neeson e Harris; e a proximidade entre Neeson e seu filho ameaçado, vivido por Joel Kinnaman, da refilmagem de “Robocop”.

Não é que “Noite Sem Fim” se transforme em um drama por causa disso, mas sem dúvida é o motivo de ele não ser apenas um filme de ação descerebrado. Ele humaniza os personagens, cria a identificação do espectador com aquelas pessoas. Mesmo que elas vivam em realidades distantes da nossa (pelo menos, da maior parte da plateia), as situações que vivenciam são comuns.

No que diz respeito à ação, “Noite Sem Fim” também cumpre bem o trabalho. O diretor espanhol Jaume Collet-Serra, que já havia dirigido Neeson em “Desconhecido” e “Sem Escalas”, faz um trabalho sólido, ainda que convencional para o gênero. Nas cenas de luta e perseguição, ele só peca por usar cortes muito rápidos. Ele se deixa levar pelo frenesi das situações, ao invés de se preocupar em nos fazer compreender totalmente o que acontece diante dos nossos olhos, quem está batendo em quem, onde fulano caiu, para onde ciclano fugiu etc. Além disso, o efeito especial que estabelece a geografia de onde a trama ocorre se revela desnecessário (seria mais interessante investir na transmissão da passagem to tempo).

Ainda que recorra a artifícios da montagem para passar ao espectador a sensação de participar das cenas, e também apesar de usar alguns clichês típicos dos thrillers policiais, Collet-Serra consegue construir bem as sequências de maior tensão e nos deixar apreensivos quanto ao desfecho da amizade do atirador com o chefão e, principalmente, quanto à sua redenção perante o filho.

Não é dos melhores trabalhos de Neeson no gênero, mas é um bom filme. Neeson, que em menos de uma década participou de filmes de ação mais intensos e interessantes do que a carreira inteira de um Gerard Butler da vida. Recomendo ainda “Caçada Mortal” (A Walk Among the Tombstones, 2014, de Scott Frank) dentre seus longas mais recentes, mas “A Perseguição” (The Grey, 2011, de Joe Carnahan), ainda que não seja um filme de ação policial, é insuperável. ■

(Este texto foi adaptado da resenha produzida para o programa Cinefonia, da Rádio Inconfidência, de 09/05/15.)

VELOZES E FURIOSOS 7

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A franquia “Velozes e Furiosos” já está em seu sétimo filme. É uma das séries mais longevas das últimas décadas em Hollywood e não é baseada em nenhum livro ou revista em quadrinhos. Mas qual seria o motivo de tanto sucesso?

A princípio, a “Velozes e Furiosos” começou seu declínio já no segundo filme, que foi muito mal recebido pela crítica. A partir do terceiro, “Desafio em Tóquio”, entrou em cena o diretor Justin Lin, um novato que comandou os três filmes seguintes, incluindo aquele que foi o principal responsável por alavancar a série a lucros astronômicos nas bilheterias: “Velozes e Furiosos 5: Operação Rio”, que trouxe a ação para o Brasil.

Neste filme, Lin transformou a gangue de ladrões de carros liderada por Vin Diesel em uma equipe de assaltantes profissionais. No sexto longa, eles se tornaram praticamente agentes secretos no melhor estilo James Bond. E agora, em “Velozes e Furiosos 7”, a fórmula é mantida, apesar de o diretor ser outro.

Quem está no comando desta vez é James Wan, diretor de sucessos do terror como “Jogos Mortais” e “Invocação do Mal”. Mais talentoso que seu antecessor, o cineasta torna as cenas de ação mais precisas e objetivas, embora ainda mais frenéticas e absurdas. Os saltos que os personagens dão de um carro para outro em pleno movimento estão ainda mais espetaculares. E os próprios carros agora voam, literalmente: pulam de paraquedas e até atravessam arranha-céus.

Esta sensação de absurdo é bem-vinda, uma vez que promove uma quebra dentro do que o cinema hollywoodiano oferece atualmente. Filmes como os de super-heróis, por exemplo, ao invés de abraçarem o fantástico e o inacreditável, tentam ser cada vez mais realistas, indo contra suas origens.

“Velozes e Furiosos” agora é uma criatura totalmente diferente daquela que iniciou a franquia, mas acerta ao apostar no impossível, pois explora o potencial imaginativo que o cinema propõe. É exagerado, é superlativo, é ensurdecedor, mas, ao mesmo tempo, é hipnótico e muito divertido. ■

(Este texto foi adaptado da resenha produzida para o programa Cinefonia, da Rádio Inconfidência, de 18/04/15.)

VINGADORES: ERA DE ULTRON

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“Vingadores: Era de Ultron” reúne a maior quantidade de super-heróis por fotograma que você já viu no cinema. Além de Thor, Homem de Ferro, Capitão América, Hulk, Gavião Arqueiro e Viúva Negra, o time de personagens superpoderosos da Marvel agora ganha o reforço de Mercúrio, Feiticeira Escarlate, Visão e eles ainda contam com a ajuda do Máquina de Guerra e do Falcão.

Tantos heróis para somente um vilão. Ao contrário de outros filmes do gênero, em que a cada continuação o número de inimigos aumenta, em “Vingadores 2” a ameaça é concentrada na figura do robô Ultron. O conceito de seu surgimento é interessante: a partir de um experimento com inteligência artificial, o Homem de Ferro acaba criando um ser maligno que se apodera de sua tecnologia para construir não apenas um corpo mecanizado para si, mas também um exército de robôs assassinos.

Um dos pontos em que “Vingadores: Era de Ultron” melhora em relação ao primeiro filme é na dosagem da ação. Se na aventura original demora um bocado até que os heróis se unam para finalmente lutarem juntos, neste novo filme eles são uma equipe desde o início. Já na primeira sequência, o diretor Joss Whedon (que também comandou a aventura anterior) brinda o espectador com uma grandiosa batalha em uma floresta, em que todos os heróis se ajudam. Mais adiante, ele repete a dose com ainda mais intensidade, já que os novos personagens se juntam ao grupo.

O bom humor também está presente de novo e o Whedon ainda busca dar aos heróis uma dimensão mais humana, mostrando, por exemplo, como eles interagem uns com os outros em uma espécie de “festa da firma”. Sobra espaço até para paqueras. Fazendo isso, Whedon desmistifica aqueles personagens que podem parecer imbatíveis. Eles também possuem sentimentos, sonhos e frustrações.

Mesmo assim, o que a nova aventura não consegue é criar uma sensação real de ameaça aos Vingadores ou mesmo a nós, meros humanos. Ultron pode ser um vilão fisicamente imponente, mas apesar de ter a capacidade de se conectar à internet e virtualmente se transportar para qualquer lugar do mundo, ele jamais chega a mostrar do que realmente é capaz. Parece mais um vírus de computador que não vai demorar a ser eliminado.

Assim, “Vingadores: Era de Ultron” é, na essência, um filme de super-heróis, feito apenas para que eles vençam e se enobreçam ao fim de mais uma batalha. A Marvel antecipa que o grupo não será mais o mesmo para os próximos filmes, mas, seja qual for a nova formação desse supertime, a certeza é a de que nada parece ser páreo para ele. ■

(Este texto foi adaptado da resenha produzida para o programa Cinefonia, da Rádio Inconfidência, de 25/04/15.)

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