Homem-Aranha 3

por
  • RENATO SILVEIRA em
  • 04 Maio 2007


  • O primeiro “Homem-Aranha” mostrou Peter Parker lidando com a responsabilidade de possuir super-poderes. Na continuação, o protagonista se viu enfrentando um dilema emocional: como conciliar suas obrigações de super-herói com seus sentimentos humanos? Assim, para o terceiro filme da franquia, era de se esperar que o foco narrativo fosse novamente um drama pessoal do personagem. Agora, Peter tem questionamentos morais pela frente.

    Quando o longa começa, sabemos que o Homem-Aranha conquistou o respeito dos cidadãos de Nova York e se tornou um popstar. Até mesmo o Clarim Diário, o jornal que sempre atacou o herói pintando-o como vilão, parece ter se rendido à sua imagem. Paralelamente, o namoro de Peter e Mary Jane vai de vento em popa, podendo logo se transformar em casamento. Diferente dos filmes anteriores, este começa com um Peter Parker cheio de si, auto-confiante, algo observado já no tradicional voice-over de Tobey Maguire que abre cada longa. Mas não demora e vemos que o sucesso do Aranha lhe subiu à cabeça, tornando-o orgulhoso e egoísta. Isto obviamente afeta seu relacionamento com Mary Jane, que se sente ainda mais afastada com a entrada de um novo interesse amoroso na vida do namorado: a angelical Gwen Stacy. Não bastasse essa confusão de sentimentos, e a possibilidade de perder o emprego para o fotógrafo concorrente Eddie Brock, Peter ainda ganha mais dois problemões: depois de ver sua “dívida” com Harry se transformar em confronto direto, ele descobre que o verdadeiro assassino de seu tio Ben está à solta – notícia que desperta novamente o desejo de vingança que ele já havia experimentado no primeiro filme.

    A premissa para a nova aventura é muito boa: a forma encontrada para mostrar esse embate interno do protagonista é um simbionte alienígena que, sem maiores explicações (e não eram necessárias mesmo), chega à Terra a bordo de um meteorito e se afeiçoa a Peter. Graças ao seu frágil estado emocional, ele acaba se tornando um hospedeiro ideal para a criatura, que em troca lhe fornece força e agilidade extremas. O orgulho, o egoísmo e a vingança alimentam o “lado negro” de Peter, e tudo aquilo que ele celebrava no início do filme acaba ruindo.

    Até certo ponto, o roteiro – co-escrito pelo veterano Alvin Sargent (que fez um trabalho brilhante em "Homem-Aranha 2") ao lado do diretor Sam Raimi e seu irmão Ivan Raimi – desenvolve muito bem o argumento, encontrando na metáfora do simbionte seu momento mais inteligente. Porém, dois problemas impedem que a história tenha a mesma fluidez dos filmes anteriores. E, curiosamente, são dois problemas envolvendo mudanças de personalidade.

    O primeiro está relacionado a Harry, que perde a memória após um violento duelo com Peter e esquece tudo o que aconteceu desde a morte do pai. Assim, ele não se lembra mais que Peter é o Homem-Aranha e volta a ser seu amigo. A atitude de Peter frente ao ocorrido (ele chega a esboçar uma expressão de alívio ao perceber que a enfermidade de Harry lhe beneficia) seria mais um interessante aspecto a ser explorado na (des)construção do personagem. Mas, ao invés disso, a presença de Harry no filme se torna uma distração. Ele vira um sujeito dócil, bobo até, diferente do rapaz amargurado que conhecemos dos filmes anteriores (cheguei a pensar que talvez ele estivesse fingindo tudo aquilo e planejando um ataque-surpresa). Harry é deixado em segundo plano e a perda de memória parece ser uma desculpa para tirá-lo da história quando ele não mais interessa, somente para recuperá-la mais tarde quando o roteiro volta a precisar dele.

    Peter também sofre uma mudança de personalidade. Ao se deixar possuir pelo poder negativo do simbionte, ele se torna agressivo, impaciente, despreza aqueles que o amam. Mas parece que Sam Raimi não ficou satisfeito ou não confiou na interpretação de Tobey Maguire para demonstrar essa nova versão de Peter. Com pouquíssima sutileza, ele faz o protagonista mudar não apenas o figurino (além do uniforme, suas roupas passam a ser predominantemente pretas), mas também o penteado. Assim, a franja caída na testa se torna o sinal óbvio de que aquele é o Peter malvado. Além de adotar o visual “emo”, Maguire ainda externa uma vontade, contida até então, de ser John Travolta, já que arrisca passos de discoteca nas ruas e ainda protagoniza um ridículo número de dança com Bryce Dallas Howard.

    Essas duas falhas, somadas a outras inconsistências menores (o drama particular de Mary Jane é mal resolvido e o mordomo de Harry acaba se revelando o grande vilão do filme), fazem “Homem-Aranha 3” ser inferior a seus predecessores. Mas isso não quer dizer que o filme é ruim. Pelo contrário, é bom e tem ótimos momentos, que poderiam ser mais valorizados se a história fosse mais enxuta. Sam Raimi cria cenas de ação absolutamente arrebatadoras, com destaque para a briga aérea entre Peter e Harry e o confronto final do Aranha com Venom e o Homem-Areia. Aliás, a fortuna investida nos efeitos visuais foi muito bem aproveitada. Somente a cena da origem do Homem-Areia já deveria valer a indicação ao Oscar que o filme certamente irá conquistar. E apesar de Venom não ter ficado tão bem desenhado quanto nos quadrinhos (ele perde um pouco do "charme" ao ter suas características monstruosas acentuadas), sua caracterização é competente o bastante. Além disso, os toques de humor são garantia certa de risadas, em especial nas cenas de J. Jonah Jameson e do maître interpretado por Bruce Campbell.

    Parece que os realizadores do filme foram acometidos pelo mesmo mal que Peter Parker: o excesso de confiança devido ao sucesso da franquia fez com que eles fossem auto-indulgentes e tomassem algumas liberdades que se traduziram em decisões erradas. Ainda que sejam erros perdoáveis e que não comprometam o fechamento do arco dramático iniciado em 2002, eles tiram um pouco do brilho desta que vem sendo a melhor série baseada em quadrinhos, ao lado de X-Men. Só espero que demore uns bons cinco anos até voltarem a fazer o inevitável quarto filme, pois os sinais de desgaste já estão evidentes.

    nota: 7/10 -- vale o ingresso

    Homem-Aranha 3 (Spider-Man 3, 2007, EUA), dir.: Sam Raimi – em cartaz nos cinemas

    7 comentários:

    gustavo disse...

    verei essa semana !

    Anônimo disse...

    Cade o sentido aranha?

    Rafael Carvalho disse...

    Olá Renato,

    Gosto muito dos filmes anteriores da série, mas esse último deixou muito a desejar. As questões morais de Peter não me conveceram muito e quantidade de personagens mal desevolvidos me incomodou bastante. Só restaram as ótimas cenas de luta das quais já se era de esperar grande coisa. A cena do Emo-Aranha dançando com a Gwen chega a ser constrangedora. É isso, valeu!
    http://www.cinematografo21.blogspot.com/

    Diadorim Lagarto de Fogo disse...

    Rena, assiti com muito atraso porque nem gosto do Homem Aranha. Pra mim, ele nunca bate, só apanha.
    Olha, gostei mas não achei uma Brastemp. Quando está com a roupa preta, acaba ficando um sexy meio gay, sabe? E o tanto de sub-trama cansa um pouco.
    Será que ainda tem o HA 4?? Nossa, que preguiça!!
    Bjs.

    Analice disse...

    Renato, uma dúvida: "mordomo de Harry acaba se revelando o grande vilão do filme". Que horas? O tio só quis ajudar o Harry... honestamente, estou fazendo um esforço descomunal, mas não consigo lembrar. Será que você consege escrever, mas sem spoiler?
    Bjxxx
    Nalice

    Renato disse...

    Analice, "vilão" no sentido de que o mordomo sabia o tempo todo o que realmente tinha acontecido e só deixou para contar no final do terceiro filme. Deixou o Harry atormentado esse tempo todo, coitado.

    []s!

    timewillcome disse...

    ESSE ATOR SEM GRAÇA CONSEGUIU ESTRAGAR TODOS OS GIBIS DO HOMEM ARANHA!
    O ATOR E O DIRETOR!
    PELAMORDEDEUS!
    Cade o sarcasmo?
    O sadismo?
    A irreverencia e até irresponsabilidade do Fantastico Homem Aranha das HQS?
    Nota 0.
    Nem me atentei pra historia. A atuaçao deles e o enfoque dado sao péssimos demais pra sobrar alguma coisa disso.
    Tenebroso pra quem é fã do Aranha das historias em quadrinhos!

     
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