Cão Sem Dono

por
  • RENATO SILVEIRA em
  • 02 Julho 2007


  • Eu faço parte de uma geração que cresceu no boom do consumismo dos anos 80, viu diversas crises financeiras arrasarem a economia do país e testemunhou a chegada de uma moeda forte, que hoje em dia, apesar de estável, não vale muito mais que a metade de quando foi criada. Isso tudo aconteceu durante a minha infância e a adolescência, e agora, que estou atravessando a porta de entrada da fase adulta, me vejo numa situação muito parecida com a do protagonista de “Cão Sem Dono”.

    Peço desculpas por ter iniciado o texto de uma forma um tanto egocêntrica, mas é que o novo filme de Beto Brant, co-dirigido por seu parceiro de longa data, Renato Ciasca, fala direto com um público específico, no qual estou inserido: jovens entre 20 e 30 anos que sofrem de uma falta de perspectiva neste momento de conquistar a independência, mas sem conseguir se desligar do refúgio encontrado sob as asas dos pais; um momento atual, em que as portas do mundo estão abertas para sermos livres, mas, como ser livre, se é o dinheiro que nos garante essa liberdade? E como se paga por ela, se você cresceu e não te ensinaram a lutar para alcançá-la?

    É uma geração de classe média, que, embalada por um certo comodismo que os pais proporcionaram (é tão comum ouvir em casa a frase "No meu tempo, viver não era tão fácil"), chega a essa idade sem a garantia de um emprego certo, ou uma forma de conseguir um - situação que faz a pergunta “Será que eu escolhi a profissão certa?” andar em círculos dentro da cabeça. Sem falar na pressão dos próprios pais, que amadureceram em uma época totalmente diferente, quando o emprego fixo era mais uma regra do que uma exceção, e quando eles talvez não tenham tido tempo ou a chance para pensar se o importante é fazer o que se gosta ou o que é necessário.

    O longa é baseado no romance “Até o Dia em que o Cão Morreu”, de Daniel Galera, que, como eu, nasceu em 1979. A história é quase autobiográfica, já que, assim como Ciro (Julio Andrade, de “O Homem que Copiava”), o escritor também trabalha como tradutor literário. O livro foi concebido a partir das experiências e pensamentos de Galera na época em que ele estava com 20 e poucos anos. Revisto hoje, como o autor mesmo afirma, o texto parece conter idéias um tanto imaturas. Pode ser, mas tudo aquilo pelo que Ciro passa e pensa encontra alguma ressonância no espectador com quem o protagonista compartilha alguma(s) parte(s) de seu drama.

    Uma boa forma encontrada por Brant e Ciasca para mostrar a indefinição em que a vida de Ciro está estacionada é a ausência quase total de bens materiais no apartamento onde ele mora. Circo chegou até ali, mas ali ficou. Não comprou móveis, não comprou roupas, quanto mais carro. O que há de mais valioso ali é Marcela (a estreante Tainá Müller), garota que ele conheceu numa noite, por quem se apaixonou e com quem “meio que” divide o apartamento, junto com um cão sem nome, que ele também encontrou numa noite e que lhe acompanhou até em casa.

    O animal está lá, mas podemos dizer que o principal “cão sem dono” da história é o próprio Ciro (interpretado de maneira muito natural por Andrade, que representa muito bem a introspecção de seu personagem, assim como seus momentos de explosão, quando está bêbado ou quando se desespera). Tal como o cachorro – de quem Ciro se recusa a ser chamado de dono, preferindo dizer que é apenas seu amigo –, o rapaz vai em casa, dorme e volta a perambular pelas ruas. Não é dono de nada e ninguém é seu dono, nem mesmo os pais, que o apóiam e o aconselham, mas jamais o impediram de seguir seus sonhos. E se sonhar é viver, como ele mesmo diz, Ciro começa a entrar em um pesadelo ao primeiro sinal de que Marcela, modelo em início de carreira, poderá sair de sua vida. Ela, que é a luz, como o porteiro do prédio diz.

    De fato, Marcela é aquela que ilumina o filme, que na maior parte do tempo acontece em um tom pouco otimista. Interpretada com doçura pela lindíssima Tainá Müller, a personagem é a representação daquela que considero a minha “garota dos sonhos”. Sei que de muita gente também, e Brant e Ciasca conhecem muito bem sua platéia: os diretores exploram todos os encantos da atriz, que possui aquele irresistível jeito meio meigo, meio rebelde, traduzido numa combinação ideal de inteligência, personalidade forte, sensibilidade e beleza.

    E que beleza. Marcela aparece nua, corpo perfeito (que seios!), sem pudor de sentir prazer e realizar suas (e nossas) fantasias. Transa com Ciro na sacada do apartamento. Dorme de camiseta e calcinha. Acorda e anda pela casa apenas enrolada em um lençol. E como se não bastassem essas cenas, capazes de ficar no imaginário da platéia masculina por um tempo além da duração do filme, ela ainda aparece cantando, meio chapada, a bela e melancólica canção “Moonshiner” (cuja letra tem tudo a ver com os personagens: “I've been a moonshiner/ For seventeen long years/ I spent all my money on whisky and beer/ I go to some hollow/ And set up my holy holy still/ If drinking do not kill me/ Then I don't know what will”).

    Marcela não é para casar, porque, nesse universo e nesse tempo em que o filme se passa, casamento é uma forma de um ser dono do outro, vai contra o que os personagens acreditam. Mas viver junto, morar junto, se entregar junto... Ah! Isso, sim! A cena em que Ciro e Marcela estão deitados e a câmera fecha em seus rostos enquanto eles trocam beijos e carícias é de uma ternura genial. “Você já é uma poesia, eu não preciso fazer uma poesia para você”, diz Ciro, em uma declaração de amor nada piegas. Pelo contrário, ela é extremamente genuína, pela forma como é dita e pelo sentimento que desperta. É uma cena que faz você se apaixonar pelo filme. E foi ali que ele me ganhou.

    Por isso “Cão Sem Dono” é também um filme sobre um cara apaixonado. É sobre o momento, também vivido na fase em que se amadurece, no qual se entende que paixão e amor são coisas diferentes. Ciro passa a amar Marcela, e somente quem já sentiu a dor da perda em um relacionamento entenderá o inferno pelo qual ele passa. O desfecho é fantástico, e depois de tanta pedrada, pode fazer você se perguntar se não é um sonho do protagonista. Acredite no que quiser. Brant e Ciasca acertam em cheio naquele último sorriso e no fade final, sem concluir a história, deixando o público um pouco suspenso no ar por um misto de comoção, esperança e alegria.

    “Cão Sem Dono” é um filme muito autoral, que não segue fórmulas do romance ou do drama que costumamos ver no cinemão. E nem poderia. O que acho bacana é que o estilo de filmar segue o mesmo estilo de viver dos personagens. As cenas não possuem muita movimentação. Tal como em “Crime Delicado”, Brant opta por uma câmera mais quieta, apesar de ela estar na mão o tempo todo. Os planos são calmos, como se fôssemos colocados ali apenas para observar os personagens. A fotografia do ótimo Toca Seabra (que já havia trabalhado com Brant e Ciasca em “O Invasor”, adotando um estilo totalmente diferente) usa muita luz natural. Os sets não têm quase nenhuma decoração, é tudo muito realista. Por isso, também, o filme cria uma identificação tão grande, porque parece que estamos vendo coisas do dia-a-dia, que pertencem ao mundo em que você vive. Os diretores fazem um retrato muito autêntico e acrescentam ainda momentos de puro lirismo, com os personagens declamando poemas e textos literários – reflexos de um lado mais intelectual e erudito de Brant que começou a ser desvelado em seu filme anterior.

    É pouco provável que “Cão Sem Dono” alcance um grande público. Mas é muito possível que ele acerte em cheio aqueles espectadores que não só se identifiquem com os personagens, mas que estejam abertos a um cinema livre e simples, sem grandes preocupações com plasticidade, mas profundamente humano naquilo que tem a dizer e a mostrar.

    nota: 10/10 -- veja no cinema e compre o DVD

    Cão Sem Dono (2007, Brasil), dir.: Beto Brant e Renato Ciasca – em exibição nos cinemas.

    6 comentários:

    Picelli disse...

    Uma pena o filme ter saído de cartaz antes de eu ter tido a oportunidade de conferir.

    Kel disse...

    Oi amor! Como você, gostei mais desse filme do que de "Não por Acaso". Fiquei apaixonada também. Tanto pela identificação com coisas da minha (nossa) própria vida como pela história que ele conta. Algo que achei lindo: mesmo que o relacionamento de Ciro e Marcela seja assim tão livre, sem compromissos mais sérios, os dois "pertecem" um ao outro indubitavelmente. :*

    Kel disse...

    Vou te ligar e dizer: "quero que viaje comigo pra Malaca". Heheh :*

    Roberto Queiroz disse...

    Estou querendo arrumar um tempo para vê-lo mas ando tão assoberbado de seminários e congressos, fora a viagem a Parati (pra onde parto hoje para ver a FLIP) que já viu! Mas cinema do Beto Brant sempre vale uma ida ao cinema. Depois do que ele fez no Crime Delicado então...

    (http://claque-te.blogspot.com): Magnólia, de Paul Thomas Anderson.

    Pequena Notável disse...

    Rena,
    Vou ter que ver esse filme! Fiquei extremamente curiosa, não só pela história que parece realmente interessante, mas pelo contexto que vc muito bem iniciou sua crítica.
    Assim como vc, faço parte dessa geração que tenta sobreviver da própria independência financeira, mas que encontra dilemas e barreiras pra encontrar ou se manter em um emprego que alie o gosto pelo trabalho com uma remuneração ideal.
    Adorei a crítica. Vou dar um jeito de assistir o mais rápido possível.
    Beijo Grande

    Jeferson disse...

    Bela crítica! Belo filme!

    P.S.: No Firefox os comentários ficam em um amarelo claro quase ilegível.

     
    Copyright (c) 2010 Blogger templates by Bloggermint