“Engraçado. Eu tinha esse sonho de ser madura para sair em encontros, sair com os amigos de carro. Tinha uma imagem de mim mesma, segurando a mão de um cara bem bonito. Escutando o rádio, dirigindo por uma bela estrada. Talvez no norte. As árvores começando a mudar de cor. Nunca tem a ver com um lugar específico. Devia ser sobre ter liberdade. Agora que somos adultos, aonde diabos iremos?”

“Corrente do Mal” cumpre bem o papel dos bons filmes de terror: usa a alegoria para fazer um comentário. Não é apenas um filme sobre uma maldição, sobre um demônio ou sobre um espírito maligno e assassino: ele fala da fase de amadurecimento pela qual nós passamos no fim da adolescência.

Para extrair o horror incutido nesse tema retratado em dramas coming of age como “Clube dos Cinco” (1985), de John Hughes, “Conta Comigo” (1986), de Rob Reiner, ou ainda a série “Anos Incríveis” (1988-1993), o diretor e roteirista David Robert Mitchell, aqui em seu segundo longa, usa um dos elementos mais conhecidos dos filmes de terror do tipo slasher: o sexo como motivo de punição, tema de uma discussão atemporal e universal que nos remete às fundações do próprio slasher e que, em “Corrente do Mal”, é a forma pela qual a maldição é transmitida de uma pessoa para a outra.

Mitchell é certeiro quando afirma que o sexo é uma forma de sua protagonista, Jay (Maika Monroe), abrir a porta para o perigo, mas também é uma forma de ela se livrar desse perigo. Há de se pesar o fato de que a liberação sexual nas décadas de 60 e 70 quebrou o tabu do sexo para as gerações seguintes, e daí ele se tornar um tema recorrente nesses filmes de terror (“Halloween”, “Sexta-Feira 13”, “A Hora do Pesadelo”, só para citar os mais emblemáticos), em que jovens são frequentemente punidos por transar. É uma punição moral, claro, mas que em “Corrente do Mal” ganha uma dimensão extra, que é a de passar para a frente. Ou seja, não é só transar e receber a maldição: você é incentivado a transar de novo para poder se livrar dela. Você vai fazer isso? Com quem você vai fazer? Ou você vai ser um mártir e não passar adiante?

O filme aos poucos revela que essas opções podem não surtir efeito e que a maldição pode não passar de uma lenda urbana. Ninguém sabe ao certo como ela funciona e como acabar com ela, mas a entidade assassina é real e as formas que ela assume são malignas de acordo com quem as vê. O medo é pessoal, mas as escolhas que você faz para se livrar dele afetam quem está ao seu redor. E isso se aplica a uma infinidade de coisas que fazemos na vida (e não só a uma possível leitura da maldição como análoga ao vírus HIV ou outra DST).

"And you told me we'd never survive..."

“And you told me we’d never survive…” – Arcade Fire

Por permitir ao público fazer uma reflexão como essa, apoiado, claro, pelos diálogos entre Jay e seus amigos (vide citação no início do texto), e também por trazer eficientes sustos e momentos de pavor (lembrando que, mais uma vez, o medo é pessoal), “Corrente do Mal” não apenas se posiciona acima da média entre os filmes de terror lançados todos os anos no circuito comercial, como também agrada aos nostálgicos cinéfilos oitentistas. Pois o subúrbio norte-americano, de cidades como Michigan, onde Mitchell rodou este longa, é tão iconográfico para quem cresceu vendo os slashers, os dramas coming of age e também as comédias escolares dos anos 80 quanto, por exemplo, o Monument Valley é simbólico para os fãs dos westerns clássicos. É um ambiente em que o cineasta e o espectador se sentem “em casa”, que traz uma boa memória, mesmo que não fique claro em que época “Corrente do Mal” se passa, pois Mitchell e o designer de produção Michael Perry trabalham em cima de certa atemporalidade, usando uma direção de arte retrô que não é alheia à tecnologia atual. É como se esse “culto ao passado” fosse uma condição que o universo do filme carrega.

E por falar em memória, é quase impossível “Corrente do Mal” não remeter ao já citado “Halloween” (1978), especialmente porque é um filme de John Carpenter, diretor que o filme reverencia o tempo todo, não apenas com a direção calma, com movimentos de câmera suaves, flutuantes e circulares (trabalho auxiliado pelo diretor de fotografia Mike Gioulakis), mas também com a trilha sonora que conta com belíssima e pontual música eletrônica de Rich Vreeland (ou “Disasterpeace”, que é o nome de trabalho com o qual ele se apresenta). O uso de sons e tons obtidos com sintetizadores colabora para a criação da atmosfera nostálgica e ao mesmo tempo transmite inquietude, que é o estado de espírito vivido pelos personagens, pré-adultos que ainda têm muitas dúvidas quanto ao que farão da vida.

Inquietude essa que, associada ao mesmo subúrbio, também serviu de cenário para o longa de estreia de Mitchell, o singelo e ainda assim pungente “The Myth of the American Sleepover” (2010), este um um típico drama coming of age em que o cineasta já filmava à noite e refletia sobre os medos da juventude face à iminente vida adulta — em determinado momento, quando dois personagens conversam sobre a adolescência ser um mito, um deles diz:

“Eles fazem você deixar a infância para trás, prometendo todas essas aventuras. Mas uma vez que entenda o que você perdeu, é tarde demais. Você não pode recuperar.”

Diante dos temas recorrentes desses dois primeiros filmes de Mitchell, um segundo olhar sobre o título original de “Corrente do Mal” revela um significado interessante. “It Follows” utiliza o pronome indefinido “it” e, de acordo com o enredo, essa opção faz sentido porque a entidade que persegue (follows) os personagens não possui gênero e assume formas de homens e mulheres. Mas ela também pode representar algo que não seja uma pessoa: um sentimento de culpa ou de remorso, uma dívida não paga, uma paixão não correspondida, enfim, um assunto mal resolvido. Nós sabemos que essas coisas nos perseguem pela vida, como uma assombração sem nome, mas cuja forma a nossa memória reconhece à primeira vista. E mesmo que você possa fazer ligações sobre o que as pessoas da maldição do filme representam para quem é perseguido, nunca há informações precisas, a história pregressa fica no ar — o que é bom, pois possibilita que o espectador faça mais suposições que se relacionem com a sua própria vivência. ■

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Enquanto eu escrevia esta crítica, inevitavelmente lembrei do curta “Scenes from the Suburbs” (2010) que Spike Jonze dirigiu e de onde saiu o videoclipe da música “The Suburbs”, da banda Arcade Fire. Veja ou reveja os dois abaixo, com legendas.

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