Em seu quarto longa-metragem como diretor, Marco Dutra mantém os dois pés fincados no cinema de gênero. “O Silêncio do Céu” é um suspense hitchcockiano de primeira qualidade, mas esta não é uma referência gratuita, da homenagem pela homenagem, do estilo pelo estilo. Hitchcock aqui é gramática: no uso da luz, da ambientação, do som, dos cortes, dos planos de detalhe, do close-up extremo. Dutra até brinca ao fazer uma aparição em uma cena, mas o que torna original e madura a sua abordagem ao cinema do mestre é aquilo que ele já vinha fazendo em seus filmes anteriores: busca retratar medos contidos na vida doméstica.

Mas existem diferenças importantes neste filme em comparação ao trabalho pregresso do cineasta. Primeiro, o ineditismo por este ser o primeiro longa de Dutra feito sem a parceria com Juliana Rojas, que dividiu com ele a direção de “Trabalhar Cansa” (2011) e fez a montagem de “Quando Eu Era Vivo” (2014). Os dois também trabalharam no coletivo “Desassossego” e em diversos curtas antes.

Há de se considerar também que, nesses filmes anteriores, os medos surgem de situações prosaicas, quase burlescas, e a partir daí Dutra e Rojas utilizam o sarcasmo para explorar um tipo de humor mórbido que se tornou especialidade da dupla (também presente em “Sinfonia da Necrópole”, que tem direção solo de Rojas e música de Dutra).

Em “O Silêncio do Céu” não é assim. Aqui, os medos resultam da realidade brutal de uma violência que nos atinge, que nos machuca enquanto seres humanos vivendo em sociedade.

Carolina Dieckmann interpreta Diana, jovem estilista brasileira que vive no Uruguai com o marido e os dois filhos. O primeiro contato que nós temos com a personagem não revela nada sobre a sua história a não ser que ela está sendo vítima de um estupro dentro da própria casa. E ela escolhe não denunciar o crime, guarda a dor do trauma para si. Liga para o marido, Mário (Leonardo Sbaraglia), para pedir que ele busque as crianças na escola, sem imaginar que ele testemunhou o crime pela janela. Algo que ele não sabe explicar o que é o impediu de agir e os dois não conversam sobre o que aconteceu naquela tarde. Mas como falar sobre aquilo? Se nos colocarmos no lugar do casal, veremos que não é nada fácil — e nem poderia ser.

Se nós começamos o filme sob o ponto de vista de Diana, nós seguiremos quase a sua totalidade sob o ponto de vista de Mário, guiados pela narração em off que, se em alguns momentos parece excessiva, na maior parte do tempo se justifica exatamente pela incapacidade de Mário de falar abertamente sobre tudo o que passa em sua cabeça. É por meio dos seus pensamentos que descobrimos quem ele é e, mais que isso, por ele ser um escritor e roteirista, o que se passa em sua mente alimenta a própria construção dramática da história que está sendo contada.

Em meio à luta contra as inúmeras fobias que já o atormentavam e que são possíveis causadoras da separação que ele tenta contornar (é também por meio do off que nós sabemos que o casal reatou há pouco tempo), Mário formula uma narrativa para si mesmo, como se ele fosse um personagem que ganha vida própria e domina o seu criador. Na ambivalência metalinguística colocada em jogo, a fábula entra por uma fissura aberta na realidade, fissura essa causada pela violência imposta ao cotidiano do casal.

O medo invade a vida doméstica e a transforma em um thriller. Portanto, se existem diferenças substanciais entre “O Silêncio do Céu” e os filmes anteriores de Dutra, há também consonância pelo fato de o horror vir do que não é dito. Neste ponto congruente da filmografia de Dutra, os temores não são escancarados, não assumem exatamente uma forma. O odor de algo que vem de trás da parede em “Trabalhar Cansa”. A “serpente da noite” na magia negra de “Quando Eu Era Vivo”. O rosto do agressor oculto pela contra luz em “O Silêncio do Céu”.

O filme também se sai como uma espécie de ramificação ou reconstrução de “Sob o Domínio do Medo” (Straw Dogs, 1972), de Sam Peckinpah. É como se ele recortasse a polêmica cena do estupro sofrido pela personagem de Susan George e trabalhasse a partir daí a complexidade dos sentimentos da mulher violentada, a impossibilidade que ela também encontra para falar sobre aquilo com o marido e tudo o que está em jogo (a segurança dela, da família, a sua dignidade, enfim).

Há de se pesar, porém, que Dutra não polemiza como Peckinpah a questão do afeto que a personagem nutre pelo ex-namorado que a violenta. No caso de Diana, o estupro sofrido por ela é violência e dor. Não há margens para outra interpretação, até pela forma como a cena é filmada (note-se, porém, que em Peckinpah a ambiguidade está a serviço da construção da personagem, e não para criação de mera controvérsia, desmentindo o que muitas vezes uma leitura superficial dá a entender).

Ainda na relação proposta com “Sob o Domínio do Medo”, há outra diferença essencial no fato de Mário testemunhar o estupro, ao contrário do personagem de Dustin Hoffman, que também precisa vencer o medo da violência, mas termina o filme sem saber do abuso sexual sofrido pela esposa. Ou seja, “O Silêncio do Céu” nesse sentido é duplamente complexo. Apresenta os dois pontos de vista, do marido e da esposa, e tenta fazer a travessia sobre o abismo que se fez entre eles.

“O Silêncio do Céu” também se aproxima dos outros filmes de Dutra pelas muitas qualidades estéticas, desde a concepção visual — a harmonia das cores, a direção de arte, o figurino (em especial a forma como Diana se veste quando a narrativa retorna para o seu ponto de vista, no ato final) — até o excepcional trabalho de som, com ruídos do cotidiano aumentados para causar sensações de tensão, angústia e aflição.

É interessante pensar também em algumas metáforas, como a presença recorrente do cacto no decorrer da trama, já que Diana, que busca inspiração na espinhosa planta para desenhar uma coleção, de certa forma também se torna, ela mesma, um cacto. Para Mário, tocar a esposa fica difícil após o trauma, como fica explícito em uma cena íntima do casal. Eles mal se tocam durante todo o filme, na verdade. O céu do título também é simbólico como representação de um lugar inatingível e indecifrável em sua densidade, em seu silêncio imperativo.

Cabe salientar ainda que o roteirista Caetano Gotardo, também parceiro de trabalho de Dutra e Rojas (e diretor do excelente drama musical “O Que Se Move”), entrou no projeto para reescrever o primeiro tratamento do roteiro, baseado em material não original (o livro “Era el Cielo”, do escritor argentino Sergio Bizzio). Na ausência de Rojas, certamente Gotardo ajudou Dutra a dar a cara da dupla — ou do trio — ao longa.  E o resultado é um dos filmes mais fortes que o cinema brasileiro nos apresentou este ano, daqueles que deixam o ar rarefeito e te derrubam no chão. ■

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