ESTADO ITINERANTE, de Ana Carolina Soares.

Destaque absoluto entre todos os curtas da Mostra Foco, “Estado Itinerante” é o exemplo de como este formato de menor duração pode ser muito bem trabalhado e entregar uma pequena obra-prima. A diretora, Ana Carolina Soares, tem sensibilidade e domínio cinematográfico que nos envolvem em seu filme do início ao fim, além de nos fazer revisitá-lo em pensamento durante muito tempo depois de visto. Retrata a rotina de Viviana (Lira Ribas, em atuação excepcional), trocadora de ônibus, que constrói uma relação de cumplicidade com suas colegas de trabalho, mas que vive atormentada pela opressão machista cotidiana e pela violência física que sofre do companheiro.

Tudo isso é dito de uma maneira sutil, mas muito forte. Você percebe a angústia da personagem em seu andar cabisbaixo, em seu corpo retraído, no ato de fumar, em estar sempre pensativa, distante e evitando voltar para casa. O figurino também entrega algo de errado: mesmo no calor, Vivi usa “segunda pele” de manga comprida por baixo do uniforme, escondendo seu corpo. Aos poucos e juntando as pistas, entendemos a causa desse sofrimento silencioso e solitário. Um grande trunfo da narrativa, já que, em sua maioria, mulheres vítimas de violência não se expõem. O filme, então, se coloca ao lado da personagem, dando o tempo necessário a ela e a nós para que as descobertas sejam feitas, sem serem explicitadas. Há também a violência fora de casa, do motorista que a repreende, de outros homens à espreita. Situações que reforçam o sufocamento, o suspense, um sentimento de constante perigo.

Uma das cenas mais marcantes é a dança catártica de Vivi num bar, ao som de “Don’t Cry”, da banda Guns n’ Roses. A música acompanha a progressão da personagem, que começa contida, mas vai se entregando à emoção e ao desejo de se libertar de tudo. Seu corpo fala. De arrepiar e chorar junto. Mais tarde, é com a ajuda e companheirismo das outras mulheres, que ela ganha coragem, se empodera e consegue romper com a dura realidade que enfrenta, fugindo. O último plano, de uma beleza e poesia únicas, é Vivi se afastando, sozinha, rumo a um novo horizonte. Infelizmente sabemos que esse horizonte não é seguro e sentimos medo e insegurança por ela. Mas por hora, Vivi é dona de si e fez seu movimento de mudança. A esperança nos preenche. Definitivamente um filme feminista e uma diretora para ficar de olho.

A CANÇÃO DO ASFALTO, de Pedro Giongo

O retrato de um indivíduo em conflito silencioso com o espaço onde se encontra. A própria escolha do diretor em utilizar uma razão de aspecto 4:3 já imprime a sensação de um certo sufocamento, uma limitação importante. Aliás, toda a estética, com o predomínio de detalhes em vermelho, serve ao propósito de abordar o deslocamento, o não pertencimento, ao ser estrangeiro, a imposição do espaço. O personagem principal, Chen, é um chinês que se mudou recentemente para o Brasil e trabalha na lanchonete do tio. Ele nos é apresentado já no primeiro plano do filme, com seu olhar distante, envolto pelo ambiente opressor de trabalho e pelos sons diversos da rua.

Essa rotina é quebrada pelos encontros com outros chineses. Primeiro, com um amigo, com quem ele conversa em sua língua nativa. A própria sonoridade da língua, tão estranha ao nosso português, já confere um certo afastamento daquelas pessoas, embora a câmera os acompanhe de forma muito natural. Depois, com uma garota, por quem ele parece nutrir um interesse romântico, mas que, apesar de também ser chinesa e também trabalhar numa lanchonete, fala sempre em português. Aqui percebe-se um distanciamento mais dele do que nosso, embora seja visível seu desejo por mais aproximação.

Detalhes do design de produção ajudam a identificar que estamos numa realidade que se divide entre aqueles que se adaptam e aqueles que ainda estão enraizados às suas origens. A exemplo da cena em que tio e sobrinho fazem uma refeição juntos, onde o primeiro já utiliza talheres ocidentais, enquanto o segundo ainda não abandonou os hashi ou fachi. Embora aborde a solidão urbana, a melancolia e a vontade de “voltar para casa” através do olhar de um estrangeiro, esses são sentimentos comuns a todas as pessoas, por motivos diversos. Mas a falta de uma narrativa mais elaborada não nos permite alcançar o personagem e sua inquietação na totalidade necessária para nos trazer uma conexão verdadeira e duradoura. Destaque para a cena final em que Chen percorre a rua de bicicleta e sua jaqueta aberta ao vento nos remete a asas.

RESTOS, de Renato Gaiarsa

Numa atmosfera de ficção científica, o filme aborda o poder que trabalhadores comuns possuem na sociedade, caso rompam com suas “obrigações”. No caso, um gari, que junto de outros colegas aderem a uma greve em Salvador, provocando um verdadeiro caos na cidade. Acompanhamos como a mídia e os cidadãos se voltam contra os grevistas, sem ao menos darem voz aos mesmos e tentarem entender seus motivos.

O gari Souza é retratado também em sua casa com sua mulher e cuidando de seu pai idoso, em cenas de muita sensibilidade e construção estética para o chamamento à empatia. Crítica social pertinente e bom domínio do fazer cinematográfico com planos bem construídos e cheios de significado. Para além disso, também é possível refletir, a partir de sua dramaturgia, o que nos é descartável e o que nos é necessário e porque, muitas vezes, não tratamos essa diferença de um modo justo.

TEMPOS DE CÃO, de Ronaldo Dimer e Victor AmaroAqui também há a proposta de ficção científica por se passar num futuro distópico onde há total escassez de água na cidade. A câmera se desloca pelos espaços e revela a precariedade da vida das pessoas que, em suas expressões e movimentação, se mostram cansadas e sem esperança. Em contrapartida, há um belo plano-sequência que segue uma criança vestida de Homem-Aranha, como se nela se depositasse toda a esperança e vigor. A religiosidade está presente e parece ser o elo entre as pessoas da pensão, que dividem tanta ruína e crueza.

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