Um acidente de um bonde se chocando contra um ônibus. Frida Kahlo quase não existiu para a história das artes devido a esse mero instante, e, contraditoriamente, devido a esse mesmo mero instante, sua existência foi marcada de tal forma que ela não poderia viver sem a arte. O sofrimento, para muitos artistas, é o tema de suas obras; para Frida, porém, o sofrimento era mais do que isso, pois permeava todo o processo de produção: era o próprio lugar de onde vinha sua inspiração, era o próprio fazer artístico, era retratar seu próprio corpo como algo marcado por lágrimas, feridas, rachaduras e sangue. O sofrimento era sua cama e era sua casa, eram as amarras do colete que usava quando teve poliomielite na infância e as amarras do colete de ferro que usava quando adulta para fixar sua coluna, eram as tentativas de suicídio, de deixar para trás seu corpo quebrado. Kahlo foi uma artista de resistência no sentido mais literal da palavra: resistia à dor que a castigava todos os dias para pintar sonhos, sonhos marcados por essa mesma dor.

“Frida” (2002), uma cinebiografia da artista dirigida por Julie Taymor (“Titus”, “Across the Universe”) e protagonizada por Salma Hayek, tenta contar essa história da maneira mais abrangente possível, desde o momento em que a protagonista era uma jovem estudante, antes do acidente, correndo pelos corredores da escola na Cidade do México, até o momento de sua morte, em uma cama na sua cidade natal. A vida de Frida, apesar de se estender por apenas 47 anos, é uma densa fonte de material biográfico, especialmente se considerarmos também o período histórico em que ela viveu, da pós-Revolução Mexicana. Para lidar com essa densidade de material, o roteiro prefere focar em alguns aspectos específicos da sua vida, como a relação com Diego Rivera, que é reforçada desde os primeiros minutos do filme, e as suas relações familiares, especialmente com seu pai e sua irmã mais nova, Cristina.

Cinebiografias, usualmente, tendem a ter um ritmo bastante episódico devido à tentativa de retratar momentos importantes na vida do biografado; assim, acabam “pulando” de situação em situação, o que pode fazer com que o espectador perca a noção de tempo de cada evento e a noção da intensidade com a qual ele afetou a vida do protagonista. Isso acontece em certa medida com “Frida”: o filme peca em desenvolver algumas questões essenciais de sua trajetória, como a questão política. Isso se deve não apenas à montagem, que tende a dar menos tempo de tela a esses momentos, mas também às escolhas de adaptação: no longa, Diego leva Frida para sua primeira reunião do partido comunista, mas, na realidade, ela já frequentava essas reuniões antes mesmo de conhecê-lo. Aqui, o principal problema foi que os realizadores deram ênfase ao papel de Diego como “tutor” de Frida ao invés de retratar os dois como forças individualmente importantes no meio político da época. Por mais que Diego fosse de fato mais velho e mais experiente, Frida, de acordo com seus biógrafos, não assumia um papel passivo em relação à política, ou meramente contextual — como o que é retratado nessa adaptação.

Todavia, esse maior foco na sua relação com Diego Rivera nos permite observar outros aspectos de sua personalidade que também são interessantes. É possível notar, em diversos momentos do filme, que Frida não deseja ser “mais uma” esposa de Diego, que era um galanteador inveterado, conhecido por trair suas mulheres. A determinação da personagem em provar isso para si mesma, para ele e para a sociedade é mostrada diversas vezes no filme, não como o retrato de uma mulher desesperada que quer “salvar” seu casamento, mas como demonstração de que Frida era alguém que não aceitaria viver sob regras alheias. Além disso, a sua bissexualidade, apesar de resumida a “casos” ocasionais com mulheres, principalmente quando ela está distante de Diego (física — quando ela vai a Paris — ou psicologicamente — quando eles estão em Nova York), é reforçada pelo roteiro como uma indicação do fato de que Frida não se encaixava em padrões heteronormativos de relações.

Independente de conseguir ou não retratar de forma suficientemente ampla e holística a vida de Frida Kahlo, o filme de Julie Taymor brilha nos momentos em que se aproxima do tom das obras da pintora e busca expressar, visualmente, seus estados mentais. Essa aproximação se dá de forma literal, diversas vezes, quando a diretora decide encenar, com atores, os quadros da artista, como “Autorretrato com cabelo curto” ou “Frida e Diego Rivera”, mas também de forma mais irreverente, como em algumas sequências em que se misturam elementos de colagem e narrações em segundo plano com trechos do seu diário (por exemplo, na sequência em que o casal chega a Nova York). Esse estilo que, visualmente, flerta com o surrealismo é uma marca da diretora (tendo aparecido, em certo grau, também em “Across the Universe”) e cai perfeitamente bem com o tema do filme, já que Frida é considerada um marco do movimento surrealista do início do século XX.

Essa aproximação visual, em última instância, atinge o objetivo de aproximar-se também dos estados emocionais de Frida que a guiaram por toda sua vida e estão presentes em suas obras. O principal destes é o sofrimento: expressado por sequências visuais oníricas como a que Frida corre em um deserto e é aprisionada por seu colete de ferro, se transformando na Frida da obra “A Coluna Quebrada”; ou aquela do acidente, com elementos pouco convencionais como ouro em pó e um pássaro azul que ajudam a compor o plano final, em que a protagonista é vista deitada, coberta de sangue e trespassada por uma barra de ferro. Além das escolhas da diretora, outro elemento do filme que é eficiente em demonstrar esse sofrimento é a boa performance de Salma Hayek, que, ao mesmo tempo em que consegue nos transmitir toda a dor física e mental em momentos conturbados de sua personagem, consegue também manter um olhar firme e desafiador, próprio a uma mulher que resiste à condição que lhe é imposta.

Vale ver “Frida”, o filme, como uma forma de se aproximar de Frida, a mulher: como toda boa biografia, o longa é capaz de mostrar àqueles que não a conheciam quem ela era e despertar interesse em suas obras. Sendo seu rosto e sua monocelha alguns dos maiores ícones feministas do nosso tempo, vale entender um pouco mais de sua vida e tirar resistência do sofrimento que a guiou. ■

“Frida” está disponível no Google Play, Vivo Play, iTunes, Net Now e Netflix.

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