Em 2011, o mundo presenciou o levante de uma das maiores séries de protestos da história, que ficou conhecida como Revolução Egípcia (ou, de forma mais ampla, que abrange também o espalhamento dessas manifestações para outros países, a Primavera Árabe). Já são de conhecimento mundial os eventos decorridos durante essa revolução, principalmente devido à divulgação por noticiários, mas também, posteriormente, por filmes (como o documentário “The Square”, presente na plataforma Netflix). Porém, boa parte da mídia internacional deixou de acompanhar o Egito com tanta frequência após esse período, dessa forma, poucos de nós, que não somos residentes do país nem especializados em política internacional, sabemos com detalhes o que se sucedeu depois desse momento.

“Clash” (no original, Eshtebak) se passa dois anos depois da Revolução Egípcia de 2011, num contexto em que já haviam acontecido muitas mudanças de regime. Após a Revolução, o Exército egípcio tomou posse por um curto período, e, logo após, um presidente foi eleito, Mohammed Morsi, representante da Irmandade Muçulmana (uma organização de ativistas islâmicos). Morsi, por sua vez, ao tentar fazer com que uma Constituição com preceitos fortemente islâmicos fosse aprovada, foi destituído de seu poder por um golpe de Estado realizado pelas Forças Armadas egípcias em 2013. No momento representado pelo filme, logo depois desse golpe, o Exército tenta conter protestos islâmicos, enquanto é apoiado pelo resto da população em outros protestos, anti-islâmicos, o que gera grandes conflitos no país.

A contextualização, para esta crítica, não é em vão: é necessário compreender que a obra se passa num cenário de grande polarização e ódio, que flui entre três agentes: o Estado, representado pelo Exército; a população islâmica, representada pela Irmandade Muçulmana e seus simpatizantes; e o resto da população, que se divide entre judeus, cristãos e outras manifestações religiosas. Se “Clash” (“choque”, ou “embate”, em inglês) já se passa nesse país tenso e cheio de conflitos, a escolha do diretor e dos roteiristas de realizá-lo inteiramente dentro de um caminhão do exército que leva criminosos à delegacia amplifica essa atmosfera e a leva a extremos.

Iniciando com a prisão de Zein (El Sebaii Mohamed) e Adam (Hani Adel), jornalistas da imprensa internacional (porém ambos de origem egípcia), o filme acompanha o caminhão enquanto o Exército, ao reconhecer mais “baderneiros” nos protestos por onde passa, os recolhe para dentro do veículo. O primeiro grupo que se junta aos jornalistas é um grupo de manifestantes anti-Irmandade Muçulmana, composto por homens, senhores de idade e uma família de pai, mãe e um filho adolescente, que, ao jogar pedras no caminhão, são presos pelo Exército. Ainda no primeiro ato do filme, um segundo grupo se junta a eles, estes membros da Irmandade, presos em um protesto: nele há um senhor de idade, islamita, e sua filha, de 14 anos, além de outros homens jovens e de meia-idade.

O roteiro, escrito por Khaled Diab e Mohamed Diab (este último também diretor do longa), rapidamente nos familiariza com os personagens apresentados, e os pinta com características individuais muito simples, mas fortes o suficiente para nos fazer entender a motivação de cada um. Dentro do caminhão, há a adolescente que quer lutar pela causa islâmica e conseguiu “arrastar” o pai com ela, há os jovens adultos sem experiências em protestos, há a família que quer sobreviver junta, há o líder islâmico sábio e ponderado, e há até mesmo, infelizmente, o estereótipo do “gordo engraçado”. Essa reunião de personalidades constrói um coletivo bem diverso, pois temos representações de várias ideologias e religiões, mas também inclusive personagens que se mantêm neutros nesse sentido, os jornalistas. Mesmo que o filme seja salpicado por alguns clichês na caracterização individual, a junção de todos esses elementos cria uma dinâmica impressionantemente complexa, de ódio e de amizade entre grupos rivais e iguais, que é o que faz “Clash” se destacar. Tal dinâmica é marcada pelo movimento de pêndulo que o enredo realiza entre situações extremas: extrema quietude, extrema agitação; extremo medo, extrema descontração; extrema solidariedade, extremo conflito. É possível conferir esse movimento do enredo, construído cuidadosamente pelo roteiro, num dos momentos mais tensos do filme: a cena em que os grupos brigam dentro do caminhão e, para acalmar o conflito, os soldados jogam jatos de água pressurizados pela porta. A violência do sangue e dos golpes enquanto a água ainda está jorrando e a tranquilidade das gotas de água caindo do teto do veículo logo após, enquanto os prisioneiros se secam, são separadas por apenas alguns segundos de filme. Porém, essa mudança não parece nem um pouco brusca, e sim engendrada por um roteiro bem pensado, que sabe que a violência precisa de mais violência para se alimentar, sendo, frequentemente, arrefecida facilmente por um elemento externo. Há também pequenos momentos, sutis, que são tão bem construídos que geram uma emoção bem específica no espectador: a tensão se a reação será de descontração e riso ou uma explosão de raiva e conflito. Pode-se ver esses momentos, por exemplo, quando um personagem, que acabou de encher a boca com água, cospe de forma a molhar um outro personagem, ou mesmo em pequenas piadas, como a relacionada a uma camisa, situação na qual não sabemos de que tipo será a reação de quem escuta.

Outra característica de destaque de “Clash” é a direção de fotografia, realizada por Ahmed Gabr. O filme se passa no decorrer de muitas horas, logo, temos o primeiro e boa parte do segundo ato durante o dia, e o restante do filme, à noite. Sendo toda a ação concentrada dentro do mesmo caminhão, são impressionantes os truques de iluminação que Gabr realiza para trazer variedade de cores e luminâncias para aquele local. Durante o dia, os prisioneiros, com calor, são pintados por uma luz amarelada vinda do sol e por um filtro bastante quente. Durante a noite, o uso de cor, de forma contraditória, se intensifica ainda mais: o caminhão está passando por um protesto em que os manifestantes usam lanternas de laser verdes e em que há a projeção de luzes vermelhas e alaranjadas da polícia, o que demonstra, apenas pelo uso de luz e cor, o conflito entre as diferentes facções. Como, nesta situação específica, o perigo maior vem dos manifestantes, quando a luz verde se intensifica sabemos que o perigo também está alto, o que é uma inteligente inversão do código usual de cor no audiovisual, que comumente identifica o vermelho como a cor de alerta. Isso também cria uma rima muito tocante com a cena final do filme, em que o caminhão é invadido quase que completamente pelo verde.

Para finalizar, é importante reconhecer a qualidade da direção de Mohamed Diab, que lida, durante todo o filme, com uma situação incrivelmente difícil no sentido do enquadramento: muitos personagens dentro de um espaço muito reduzido. Esse tipo de cena, que, por motivos óbvios, domina todo o longa, é beneficiada pelo posicionamento preciso dos atores, que, com frequência, isola ou cerca o protagonista de uma determinada situação; e pela movimentação, que é clara quando precisa ser e confusa quando quer nos passar essa sensação. A câmera se encontra, durante o tempo do filme, em duas situações principais: ou segurada pela mão, o que dá a impressão de que estamos chacoalhando junto com o caminhão, ou em closes bastante fechados e com profundidades de campo bem superficiais, que captam de forma eficiente as atuações sensíveis dos atores e também cumprem a função de nos tornar mais próximos de seus personagens.

Obras que retratam conflitos, de qualquer natureza, têm que lidar com questões muito complexas de polarização e de extremos. “Clash” se destaca tanto entre esse tipo de obra por duas razões: pela genialidade de sua premissa, que aperta conflitos que assolam todo o Oriente Médio há milhares de anos em um pequeno galpão de um caminhão; e pelo reconhecimento de que não é só no diálogo que o conflito se dá, mas também nas ações e reações de seus personagens e em como elas são retratadas. ■

“Clash” está disponível no Google Play, Vivo Play, iTunes e Net Now.

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