“Where have you been?”

“Here the whole time.”

Acompanhar, em algumas poucas horas, a trajetória de uma vida. Se cinebiografias que se constituem apenas de reconstruções ficcionais já enfrentam imensos percalços ao tentar resumir todo um percurso de um ser humano sobre a Terra, documentários ainda devem se preocupar com outros elementos, como o material de arquivo a ser utilizado e as entrevistas a serem realizadas. Há sempre, também, o perigo adicional de estar endossando certas atitudes ou transformando certas pessoas reais em personagens caricatos – se não o protagonista, aqueles que o cercaram durante toda a sua vida. Apesar de todos esses obstáculos e da natureza sempre polêmica que cerca esse tipo de obra, principalmente em se tratando de uma figura tão absurdamente famosa como George Harrison, Martin Scorsese consegue, com este documentário impressionante, discutir questões que rodearam a mente e o corpo de Harrison, sem realizar julgamentos ou impor limitações de interpretação.

Organizado por meio de entrevistas realizadas pelo diretor com praticamente todas as figuras mais importantes no círculo social de Harrison, como sua família, suas esposas, seus companheiros na música (incluindo Paul McCartney, Ringo Starr, Eric Clapton, Yoko Ono, George Martin) e seus amigos próximos (como Eric Idle, Klaus Voorman, Gordon Murray), este documentário de três horas e meia também conta com uma imensa quantidade de material de arquivo: fotografias, shows, performances, cartas, vídeos pessoais e entrevistas de toda sorte, principalmente envolvendo outras figuras importantes, como John Lennon, Ravi Shankar, Maharishi Mahesh Yogi, dentre muitos outros. A pesquisa aqui foi intensa, trazendo desde imagens já conhecidas, como os famosos shows da época da Beatlemania e as fotos de Harrison aprendendo a tocar cítara na Índia, como trechos que surpreendem pela intimidade, como um momento em que George gargareja, antes de se apresentar, com uma mistura de mel e vinagre, para aliviar a garganta – a mesma garganta que, ao final de sua vida, abrigou o câncer que o matou.

Já não bastasse o trabalho dedicado de pesquisa, que contou também com a ajuda de Olivia Harrison, viúva de George (e creditada como co-produtora), essa infinidade de artefatos e memórias, além das variadas músicas, são dispostos em um conjunto por um trabalho coerentíssimo do diretor e seu editor, David Tedeschi, que também montou outros documentários junto a Scorsese, como “Shine a Light”, devotado à carreira dos Rolling Stones. Nunca procurando uma cronologia absolutamente perfeita, o filme passa muito rapidamente por momentos que poderíamos considerar cruciais, como a ascensão dos Beatles à fama, para se concentrar mais em como os personagens reagiram àqueles momentos, se delongando, por exemplo, na forma com que aquela nova fama foi sentida por George. Isso não pode ser considerado em momento algum um “erro” ou apenas um “salto” daquilo que não interessava aos documentaristas, sendo apenas uma das escolhas, dentre muitas, que o recontar da vida exige. Além de não ser um erro, essa flexibilidade na cronologia (que apesar disso, ainda segue bastante uma linha temporal) permite que cenas de momentos contrastantes sejam postas uma após a outra para verificarmos mudanças que os anos impuseram aos personagens, como ao vermos, no início do filme, o início dos Beatles sendo imediatamente contrastado com o momento das assinaturas da separação da banda. Há também diversos momentos em que, enquanto estamos contemplando, junto ao diretor, algum trecho específico da vida de George, ele mesmo, por meio de entrevistas realizadas após aquele período, comenta o que sentiu naquele momento e possíveis motivos para as suas ações. Isso enriquece as possíveis interpretações realizadas pelo espectador, e tira um pouco da impressão de objetividade e distância provocada por muitos documentários realizados dessa maneira.

É importante ressaltar também a eficácia do uso da música, que, num documentário sobre um cantor e guitarrista, não poderia deixar de ter um papel significativo. Claro que ela é usada para expor fases da arte de George, que mudou de forma radical durante as décadas de 60 e 70, mas ela é também usada contextualmente, para comentar alguns eventos de sua vida. Mas quando o uso da música ganha mais força é quando ele faz essas duas coisas ao mesmo tempo: quando mostra que os eventos da vida de George estão tão relacionados à sua arte e às suas composições que é apenas natural que aquela canção surja como resultado. A música imita a vida, e a vida imita a música: muitas vezes, como este documentário acertadamente admite, é impossível dissociar a carga emocional de certos álbuns ou certas canções da vida daquele que os produziu.

O que se estabelece nesse documentário de forma mais consistente e bonita, porém, não são seus aspectos técnicos, mas as reflexões que consegue fazer sobre temas extremamente fundamentais em nossas vidas como seres humanos. Em determinado momento, Eric Idle, ao ser entrevistado, diz:

“A existência é um pouco engraçada, por causa da nossa temporalidade. Por aí vamos, fingindo ser reis ou imperadores, e você vai morrer. Você vai estar numa caixa, num minuto ou dois. Então, nós somos constantemente aniquilados pelas nossas próprias fisicalidades, nossos corpos físicos, que nos decepcionam.”

Não apenas um comentário sobre nossa natureza efêmera no mundo, essa fala traz muito da própria filosofia de Harrison – filosofia que, assim como a arte que produzia, era profundamente imbricada a suas visões religiosas, principalmente após sua adesão à tradição Hare Krishna, em 1969. Ele era uma pessoa muito mais preocupada com a sua preparação para a vida eterna, conceito que abraçava completamente, do que com o que vivia no que ele considerava ser o mundo terreno, material. Ao dispor essa visão aos espectadores, o filme procura evitar qualquer tipo de julgamento: há depoimentos daqueles que concordavam completamente com essa ideia de espiritualidade, como a sua esposa Olivia, ou daqueles que viam nisso uma forma que George encontrava para escapar de alguns problemas reais. Essa apresentação de suas ideias religiosas e filosóficas, sem buscar atingir uma conclusão óbvia, nos permite uma maior identificação com o ser humano George Harrison – atormentado, certamente, pelos mesmos questionamentos que enfrentamos como seres limitados que somos.

Todas as coisas passam: Harrison passou, e deixou para trás, felizmente, pistas o suficiente para que continuemos o reconstruindo, como Scorsese o fez aqui de forma muito inspirada. Ao responder a pergunta de “o que você falaria para George se ele estivesse aqui?”, Dhani Harrison, seu filho, diz “eu sonhei com isso. Eu falei: ‘onde você esteve?’, ao que ele respondeu ‘aqui, o tempo todo.’” Em obras como esta, assim como em suas músicas, George Harrison não só é estudado, analisado ou julgado: está presente, o tempo todo, por meio dos fragmentos daquilo que não temos mais. ■

“George Harrison: Living in the Material World” está disponível na Netflix.

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