Camboja pós-guerra do Vietnã. Você é uma criança: uma menina de sete anos chamada Loung, filha de um ex-membro do governo neutro do Camboja, agora perseguido pelo governo totalitário do Khmer Vermelho. Você é obrigada a deixar a sua casa, a sua cidade, todos os seus pertences pessoais, e passar a ser uma nômade em seu próprio país, se deslocando de campos de trabalho forçado a bases de treinamento do Khmer, fugindo de campos minados e tiros que parecem incessantes.

Se começo com esse tom pessoal, buscando, talvez, te levar a se identificar com essa menina, é porque “First They Killed my Father: A Daughter of Cambodia Remembers“, estreia do Netflix com a direção de Angelina Jolie, tem como principal mérito criar e sustentar essa relação íntima entre nós, espectadores, e sua protagonista. Jolie realizou este filme com base no livro memorialístico de mesmo nome de Loung Ung, que foi publicado em 2000, e escreveu o roteiro em conjunto com a autora. Essa parceria traz um resultado final muito interessante, que nos coloca em contato com uma perspectiva pouco adotada em filmes de guerra: uma perspectiva que não procura valorizar grandes tomadas de destruição e morte, mas pequenos detalhes do ponto de vista de uma criança.

Uma criança em uma guerra não é nada além de vítima: não ajudou a construir aquele cenário; não tem discernimento moral para saber, mesmo que faça parte do exército (como muitas faziam do Khmer Vermelho), as consequências maiores de tudo aquilo que ela possa, eventualmente, fazer. Mas “First They Killed My Father” consegue retratar a história indiscutivelmente sofrida de Loung sem utilizar um tom excessivamente melodramático em sua narrativa. As escolhas feitas pela diretora ao demonstrar situações tristes são sutis: um bom exemplo é que tons mais quentes dominam a fotografia do começo do filme, enquanto a menina ainda dança com seus irmãos em sua casa em Phnom Penh, mas as cores vão levemente perdendo a temperatura à medida que Loung também vai perdendo o conforto familiar. A câmera, por boa parte do filme, alterna entre apenas contemplar o rosto da fantástica atriz Sareum Srey Moch enquanto as expressões de dor, confusão, desespero e até mesmo curiosidade passam por ele; e planos-detalhe que mostram o ponto de vista dela a nós – ponto de vista infantil, que só vê o que é imediatamente próximo. Seus pais (e outros adultos fora do Khmer Vermelho) são sempre mostrados em closes fechadíssimos e centrais, com expressões sempre gentis, expressões que devotamos às crianças que nos circundam mesmo que tenhamos que lhes dar uma notícia tristíssima. Em contraste, os (e as) generais do Khmer são mostrados de um ângulo baixo e com expressões pouco amigáveis, sendo personagens muito pouco tridimensionais, limitados a sempre dar ordens e abusar física e psicologicamente das crianças dos campos de trabalho forçados, mesmo que reafirmem constantemente que todas as crianças são filhos e filhas do regime. Não acho, porém, que essa falta de complexidade dos personagens adultos seja um defeito: é como as crianças veem os mais velhos, logo, é como Loung possivelmente percebeu todas aquelas figuras.

Outros esforços são feitos para reforçar a nós sensações físicas e mentais da menina, e todos eles são bem equilibrados, sutis e poéticos. Há sequências de sonho/delírio em que vemos Loung, faminta, imaginando um enorme banquete, coloridíssimo, enquanto come escondida dos oficiais do exército Khmer; ou vendo dançarinas típicas do Camboja quando tudo o que está à sua frente é uma dança militar e formal performada pelos soldados. Há também uma cena lindamente construída em que Loung passa por um campo minado e, ao ver outras crianças morrendo e sendo mutiladas devido às bombas, é ao mesmo tempo tomada por uma profunda tristeza e uma profunda resignação, visto que ajudou ela mesma a plantar aquelas bombas quando ali era uma base do exército do Khmer. Jolie, nos planos que compõem essa cena, mostra detalhes dos corpos mutilados, das folhas no chão, dos pés de Loung, mas também repete rapidamente os planos da menina ativando e enterrando as bombas, enquanto ela se lembra dos locais minados e anda devagar para evitá-los. As lágrimas invadem o seu olhar enquanto ela vê as outras crianças correndo fatalmente para a morte, mas, ao mesmo tempo, ela tem consciência o suficiente para caminhar lentamente e pôr os pés em locais seguros. Esse contraste, entre emoção e controle, tristeza e resignação, infância e amadurecimento, marca toda a história de sobrevivência de Loung, uma criança exposta cedo demais a violência demais.

A trilha sonora, juntamente com o design de som, é outro mérito do filme, sendo trabalho do compositor Marco Beltrami e da equipe de som chefiada por Shalini Agarwal e Ben Barker. O silêncio e o som ambiente dominam boa parte do filme, mas há a inserção de trilhas musicais pontuais, que nunca dão um tom melodramático ou forçam emoções que não estão sendo mostradas em tela. A cena em que os soldados do Khmer levam o pai de Loung é um exemplo fantástico de design de som, pois isola gradativamente o som ambiente (marcado por um rádio que um dos oficiais escuta) e aumenta o que a protagonista escuta: diálogos entrecortados entre o pai e a mãe, trocando as últimas palavras, ruídos de roupas se roçando enquanto abraços são dados, a respiração do pai quando seu rosto se aproxima, seus sussurros de despedida. Ao final da cena, quando o pai é levado para dentro de uma floresta fechada, escutamos o som ambiente dessa floresta, que ainda não havia aparecido, enquanto a menina grita pelo pai. Quando o pai finalmente some de vista, voltamos a escutar os ruídos do campo, há um grito de comando de ordem para que todos voltem a trabalhar, e os trabalhadores invadem a imagem do plano: apesar de toda aquela tristeza íntima, todas aquelas trocas pessoais de despedida, o mundo continuava acontecendo em torno dela, violentamente a retirando, e nos retirando, do momento de emoção.

Ao saber da existência desse filme, sem ainda tê-lo assistido, a primeira reflexão que fiz foi se Angelina Jolie, uma americana, branca, que foi criada em um contexto completamente diferente do de Loung, seria capaz de trazer à tela a força de uma história tão triste, tão complexa e tão outra. Mas Cinema, e Arte, são empatia: são a possibilidade de que você saia do seu local de conforto e experimente, mesmo que por meio de ilusões audiovisuais, as vivências alheias. Jean-Claude Carrière, em seu excelente “A Linguagem Secreta do Cinema”, diz que as histórias são como minhocas em um jardim: passam de um ser humano ao outro, às vezes de um povo ao outro, para fertilizá-los. “First They Killed My Father” é um exemplo dessa empatia fertilizadora, que se utiliza das técnicas audiovisuais para contar uma história com a qual todos nós podemos nos identificar, mesmo não sendo mais crianças, mesmo não sendo cambojanos, mesmo não sendo Loung Ung. ■

“First They Killed My Father” está disponível na Netflix.

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