[Esta crítica traz detalhes de cenas do filme que podem ser considerados spoilers.]

Em 2001, em Durban na África do Sul, ocorreu a Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata. Após inúmeras discussões o texto final foi enfim aprovado, por aclamação (sem necessidade de voto).

No documento, que pode ser lido na íntegra aqui, há uma preocupação em fornecer a uma opinião pública mundial crescentemente sensibilizada pelas intrincadas interações entre distintos fenômenos associados ao racismo e à discriminação racial um conjunto de subsídios normativos elaborados em torno do emprego de instrumentos mais eficazes no combate a suas manifestações contemporâneas.

Vale destacar o seguinte trecho:

“Declaramos que todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos e têm o potencial de contribuir construtivamente para o desenvolvimento e bem-estar de suas sociedades. Qualquer doutrina de superioridade racial é cientificamente falsa, moralmente condenável, socialmente injusta e perigosa, e deve ser rejeitada juntamente com as teorias que tentam determinar a existência de raças humanas distintas”.

É no mínimo alarmante que ainda no século 21 seja necessária uma expressa condenação a qualquer tipo de doutrina a respeito da existência de diferentes raças humanas. Infelizmente, a igualdade, que deveria ser padrão, é ainda uma utopia.

Imbuído de uma relevância inquestionável ao tratar do racismo de forma tão explícita, “Mudbound – Lágrimas Sobre o Mississipi”, dirigido pela cineasta Dee Rees e roteirizado por ela e pelo estreante nos cinemas Virgil Williams, a partir do livro homônimo de Hillary Jordan, acompanha duas famílias em situação de disparidade social no auge do regime de segregação racial nos EUA.

Os Jackson são uma família tipicamente do campo que, pelo fato de serem negros, não possuem títulos de terra, o que os obriga a arrendar de outros em um regime de quase servidão. O próprio patriarca, Hap (Rob Morgan) desabafa em determinado momento: “Para que serve uma escritura? Meus pais e os pais deles não tinham escritura, mas foram eles que cultivaram a terra”. Os McAllan, por outro lado, são uma tradicional, porém decadente família de fazendeiros que decide comprar e morar na fazenda na qual Hap e sua família trabalham.

Ronsel Jackson (Jason Mitchell), filho de Hap, e Jamie McAllan (Garrett Hedlund) são chamados a servir o exército durante a Segunda Guerra Mundial e, após voltarem para casa e ainda sentindo os horrores do combate, começam uma amizade inesperada a partir da qual se desenrolam os acontecimentos do filme.

O fim formal da escravidão nos Estados Unidos se deu em 1863 (durante a Guerra Civil Americana), através da Proclamação da Emancipação. Entretanto, não houve nenhum esforço para que o regime fosse substituído ou superado. Pelo contrário, a população afro-americana foi bastante marginalizada, sobretudo a partir de 1876 com as “Leis de Jim Crow”.

De forma resumida, esse conjunto de leis, ao lado dos Black Codes, institucionalizou a segregação racial nos EUA. Essas leis promoveram a discriminação racial em instalações públicas e privadas, incluindo acesso a serviços como moradia, cuidados médicos, educação, emprego e transporte. Dentro do próprio Exército, por exemplo, até a década de 1950, negros possuíam quartéis e locais de treinamento separados, o que é comentado brevemente no filme.

Apenas no final da década de 1960, a segregação racial foi desinstitucionalizada, não deixando, contudo, de ser exercida socialmente até hoje. O estado do Mississipi, onde se passa “Mudbound”, foi um dos grandes centros de disseminação dessa política de ódio, e não há ressalvas ou minimização disso no filme.

Todas as cenas envolvendo Pappy McAllan (Jonathan Banks) confrontando Ronsel são construídas de forma muito sensível pela diretora. Ela mostra a desumanidade daquele personagem refletida no seu comportamento racista, sem jamais glorificar a violência praticada por ele. Banks parece entender muito bem a psique de seu personagem e a forma como o roteiro o apresenta e incute nele uma repugnância quase cartunesca.

Do outro lado desse mesmo traçado está Jamie, que apesar de desenvolver uma amizade com Ronsel o faz de forma inconsequente, pois no fundo sabe que para ele próprio jamais haverá punição, e mesmo que haja ela jamais será equivalente a de Ronsel. O próprio irmão, Henry (Jason Clarke), afirma, mais próximo do desfecho do filme: “Eles foram avisados, os dois”.

Henry aliás representa uma outra camada do racismo, pois apesar de não praticar atos de violência ou disseminar discurso de ódio como o pai, usa de sua posição para perpetuar o status quo e o faz com a naturalidade de alguém já acostumado a ter dos negros apenas subserviência.

Se Pappy estampa o ódio racista, Ronsel é o baluarte de sua geração, uma juventude cansada de ter que abaixar a cabeça. Apesar de “Mudbound” não ter um protagonista na acepção mais clássica da palavra, é o personagem interpretado por Jason Mitchell que mais se aproxima desse conceito. O ator tem uma presença forte em cena, o que é valorizado graças ao excelente trabalho de fotografia de Rachel Morrison, a primeira mulher em 90 anos a ser indicada ao Oscar da categoria.

Morrison parece ter captado bem a essência do filme. O “laço de lama”, tradução do título original, em inglês, é apresentado pela cena de abertura como aquele entre os irmãos Henry e Jamie enterrando o caixão de seu pai, mas é ressignificado ao longo da trama para o laço entre Jamie e Ronsel, um laço forjado pelas trincheiras da guerra. A forma como a fotografia acentua esse aspecto e cria um vínculo entre os personagens que ressoa o roteiro quando fala da terra e sua relação com a posse é espantosa.

Outra presença magnética em cena é Mary J. Blige, que interpreta Florence Jackson, a mãe de Ronsel. Apesar do pouco tempo de tela, a cantora e atriz tem um papel essencial sobretudo no segundo ato do filme. Blige não só foi indicada ao Oscar pela atuação como pela música “Mighty River”, composta especialmente para o filme e que toca durante os créditos finais.

Em “A Forma da Água”, filme que também aborda (de forma tangencial) o racismo, há uma frase que se encaixa perfeitamente para descrever a importância de “Mudbound – Lágrimas Sobre o Mississipi”: “A vida nada mais é que o naufrágio dos nossos sonhos”. Todos os dias, não só nos Estados Unidos como ao redor do mundo, milhares de Ronsel sonham com uma vida minimamente digna. Poder entrar e sair pela porta da frente e de cabeça erguida e jamais ser julgado se não por seus próprios atos.

Sim, é preciso que um documento oficial produzido durante uma Conferência convocada especialmente para tratar de racismo condene abertamente todas as práticas de discriminação racial. Há atualmente, apenas nos Estados Unidos, 917 grupos de ódio registrados de acordo com o Southern Poverty Law Center. Dentre eles, a “Klu Klux Klan”, em atividade desde 1865.

Quando membros da KKK aparecem em “Mudbound”, liderados pelo personagem de Jonathan Banks, a mensagem é clara. Não há espaço para interpretação ou diálogo. O crime de Ronsel? Abominação. Ter não só transado com uma branca como tê-la engravidado.

É impossível se manter inerte diante dos últimos 20 minutos do filme, nos quais a violência toma forma. Mais do que um galpão cheio de supremacistas brancos torturando o protagonista, causa ojeriza a certeza da impunidade: todos ali sabem quem foram os responsáveis, mas justamente pela falta de amparo inclusive legal não podem fazer NADA.

Mais ainda, quando Henry se dirige a Hap, já na cena final, para pedir que o ajude a enterrar o pai mesmo sabendo de tudo que se passou ali, há uma troca de olhares desoladora e ao mesmo tempo resiliente entre Florence e ele. E mesmo o encontro de Ronsel com seu filho momentos depois não consegue tirar o gosto amargo da realidade — não a diegética, muito menos a de 1946, mas a real, de 2018.■

“Mudbound – Lágrimas Sobre o Mississipi” está em cartaz nos cinemas.

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