[Esta crítica traz detalhes de cenas do filme que podem ser considerados spoilers.]

A despeito de suas próprias origens – ou mesmo em razão delas – o cinema enquanto manifestação artística talvez seja uma das atividades mais elitistas, burguesas e privilegiadas de que temos notícia. O aparato técnico e o conhecimento necessário para se produzir uma obra audiovisual definitivamente não estão à disposição de todos. Muito já se falou sobre como a democratização dos meios de produção, sobretudo com o surgimento das câmeras digitais e, mais recentemente, dos aparelhos celulares, diminuiu consideravelmente esse estigma. Workshops, oficinas, cursos e todo o tipo de empreitada educativa podem, nos dias de hoje, ser empreendidos em praticamente qualquer lugar. Basta interesse por parte dos detentores dessa informação e, decerto, investimento em políticas públicas que valorizem e busquem essa democratização.

Nesse contexto, ao longo dos últimos anos, alguns filmes calcados principalmente na consciência desse processo democrático surgiram. Um dos exemplos mais famosos e aclamados é “Tangerine”, dirigido pelo cineasta nova-iorquino Sean Baker. Filmado (ou gravado, para usar o termo tecnicamente mais adequado) inteiramente pelo celular (um iPhone 5S adaptado para o uso de lentes anamórficas), a obra chamou a atenção dos críticos ao redor do mundo não só pelo seu pioneirismo e ousadia, mas também por sua consistência estética e narrativa.

“Tangerine” é sobre Sin-Dee Rella e Alexandra (Kitana Kiki Rodriguez e Mya Taylor, em grandes performances), duas amigas prostitutas que vagam por uma Los Angeles ensolarada em plena véspera de Natal (a imagem do celular combinada com as lentes anamórficas resulta numa textura incomum para esse tipo de registro). Com o coração no lugar certo, o filme evoca situações cômicas mesmo em momentos de maior precariedade – as cenas do boquete no lava-jato e a da policial resolvendo a confusão entre Alexandra e um babaca no meio da rua são bem representativas. Uma pena o roteiro entregar tão pouco material para que tudo isso se desenvolva de forma mais profunda. As relações acabam não ganhando o tratamento complexo e profundo que merecem e a montagem faz alguns malabarismos para que o filme se sustente enquanto longa-metragem.

Abandonando – não completamente – a experimentação técnica de seu trabalho anterior, em “Projeto Flórida” Sean Baker, todavia, continua mantendo o seu olhar direcionado aos personagens marginalizados de seu país, desta vez registrando-os em 35 mm e executando um estilo mais comedido – não por isso menos inventivo – no seu modo de filmar.

Como se não bastassem todas as dificuldades características do fazer cinematográfico, Baker escolhe exercer seu ofício tendo como base um elenco majoritariamente composto por crianças. As vicissitudes que permeiam um set de filmagem ocupado por atores infantis (e poderíamos colocar nessa mesma categoria o uso de animais domésticos em cena) são enormes, tanto pelo seu próprio comportamento deveras imprevisível, quanto pelos cuidados jurídicos e mesmo pelas questões éticas as quais são submetidas uma equipe de trabalho numa situação como essa. Leis muito rígidas devem ser cumpridas. Regras estabelecidas alteram o cotidiano do set. Isso sem contar a complexa dinâmica na tentativa de orquestrar a movimentação desses atores e atrizes, muitas vezes estreantes diante da objetiva, tornando sua execução consideravelmente mais difícil. Para o nosso deleite, os realizadores escolheram assumir aqui todos esses riscos.

Moonee (Brooklyn Prince) é uma menina de seis anos de idade que, assim como toda criança, faz de seu cotidiano um grande parque de diversões. Sua mãe se chama Halley (Bria Vinaite) e juntas vivem em um motel barato localizado a poucos quilômetros do Walt Disney World Resort, certamente a estação turística de entretenimento mais visitada do mundo. Não é por acaso que Sean Baker e Chris Bergoch escolhem situar toda a ação num local que represente tamanho abismo social: de um lado, imigrantes e pessoas em situação financeira precária. Do outro, turistas de classe média e ricaços que passeiam com suas respectivas famílias durante as tão aguardadas férias de verão.

A invisibilidade dessa classe social, um dos aspectos principais da trama de “Projeto Flórida”, é sublinhada à medida que acompanhamos as desventuras de Moonee com seus amigos pelo motel e redondezas. Contudo, é registrando também o cotidiano de Halley, em sua tentativa desenfreada de sobreviver sem qualquer perspectiva de um emprego formal ou condições minimamente plausíveis de vida, que a obra torna todo o sofrimento e toda a angústia palpáveis. Quase podemos “tocar” aqueles personagens de tão humanos que são. Outro acerto de Baker, que escolhe gerar empatia através das atitudes mais humanas e espontâneas de seus personagens, e não apenas por suas misérias. O sentimento de não pertencimento evidencia-se nas diversas cenas em que mãe e filha são confrontadas com a sua própria realidade: o ato de comprar sorvete no quiosque da esquina, a tentativa de se hospedar em um hotel ou a impossibilidade de executar um trabalho informal escancaram tamanho sacrifício vivido dia após dia.

Baker é preciso ao conduzir a narrativa pelo ponto de vista de Moonee – ou, numa perspectiva mais ontológica, através da visão que ele tem da infância em si. A primeira metade do filme funciona como um catalisador de realidades. Aliás, realismo é algo que o diretor persegue constantemente, tal como a naturalidade da encenação e as diversas travessuras cometidas pelas crianças evidenciam logo nas primeiras sequências. É inegável como essa decisão nos permite familiarizarmo-nos com os personagens e com a geografia daquele local, nos mantendo submersos em uma realidade ao mesmo tempo tão cruel e tão mágica. Não obstante, em termos de roteiro, essa reiteração dos fatos e a profusão incessante de cenas “fofinhas” protagonizadas pelas crianças nos primeiros 40 ou 50 minutos geram também uma sensação de que estamos testemunhando sempre a mesma coisa, por mais que nunca nos cansemos exatamente do que estamos vendo.

A segunda metade, mais consistente e dramaticamente poderosa, se concentra de forma mais cirúrgica na tentativa de Halley ganhar a vida e no seu relacionamento com Moonee. Aliás, não há como deixar de comentar a contribuição dessas duas atrizes. Se Brooklynn Prince se destaca pela absoluta presença magnética diante da câmera e a surreal espontaneidade pela qual suas ações e falas são primorosamente executadas ao longo de todo o filme (impossível mensurar até que ponto a direção de atores contribuiu para alçar o talento espantoso dessa menina), Bria Vinaite demonstra uma vivacidade e um carisma sem os quais sua personagem jamais teria a força que vemos transbordar na tela. São duas atuações monumentais que combinadas resultam num jogo absolutamente crível, especialmente pelo grau de complexidade que envolve a relação.

Uma peça importante do quebra-cabeça, evidentemente, é Bobby (Willem Dafoe, único nome conhecido do elenco), o gerente do motel e espécie de mediador dentro desse universo caótico. As traquinagens aprontadas pelas crianças, as confusões pelas quais os residentes do motel eventualmente se metem, todo o caos cotidiano – tudo é conciliado por ele. Dafoe adota uma composição energética e dura, mas sem nunca perder o afeto (que o ator sutilmente demonstra em seu olhar). A câmera também parece escolher Bobby para protagonizar os momentos de maior contemplação da obra (memorável, portanto, a cena dele espantando os flamingos do complexo do motel). Alexis Zabe, diretor de fotografia, oportunamente aproveita o pôr-do-sol para registrar em um par de cenas o rosto do personagem, frequentemente enevoado pela fumaça do cigarro que carrega em suas mãos. Curioso como as cenas mais introspectivas e melancólicas se contrapõem aos eventos mais agitados, quando a câmera fixa dá lugar a um movimento incessante e lentes grandes angulares responsáveis por capturar a dimensão dos movimentos dos personagens e das construções que compreendem aquele espaço. A câmera, constantemente baixa, à altura das crianças, registra tudo a partir de um ponto de vista muito lúdico e até mesmo inocente (basta notarmos como Baker escolhe filmar a revelação de que Halley se prostitui, com a câmera no rosto de Moonee tomando banho e uma montagem que revela a periodicidade dessa atividade).

“Projeto Flórida” situa-se rigorosamente nesse confronto entre viver uma vida sem preocupações e estar diante de responsabilidades axiomáticas. As figuras de Moonee e Halley representam esse embate, e se em todo o filme nos são escancaradas as dicotomias entre diversão e compromisso, prazer e sofrimento, realidade e fantasia, é na sequência final que todas essas abstrações aglutinam-se numa catarse dramática justificada por todo o trajeto percorrido até aqui. Não é de se espantar que Sean Baker recorra novamente ao celular para registrar a iminência dessa espécie de libertação protagonizada por Moonee e sua amiga. As duas correndo de mãos dadas em direção ao castelo da Cinderela e, portanto, rumo ao próprio faz de conta que extrapola a diegese e nos faz encarar diretamente a nossa própria forma de enxergar o mundo é o único desfecho possível. ■

“Projeto Flórida” está em cartaz nos cinemas.

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