Não é muito frequente esbarrarmos com textos críticos, ensaios ou mesmo pequenas resenhas de obras audiovisuais no formato curta-metragem em sites ou blogs especializados em cinema. Muito menos encontramos tal dedicação na mídia impressa. À exceção de algumas menções a propósito de festivais e mostras, a cobertura hegemônica do cinema – e falo aqui mais especificamente da produção audiovisual brasileira – se dá por meio da análise de longas-metragens e, se tanto, de obras seriadas (novelas, séries e programas para a TV ou realizados diretamente para a internet). A despeito de sua importância tanto na formação de novos cineastas quanto na experimentação da linguagem, o curta e o média-metragem situam-se constantemente à margem dessa produção textual crítica.

Em entrevista concedida à Revista Janela, Cid Nader (falecido em agosto de 2017), um dos jornalistas e críticos mais dedicados a cobrir a produção de curta-metragem no Brasil, esclarece:

“Eu embarquei nos curtas, gostei muito do formato. Achei que essa história de se resolver muito rapidinho tinha a ver e era exigente. O cara que fazia curta-metragem de verdade a gente percebia que entedia do assunto. […] Eu era um fanático, fanático religioso por escrever; eu diminuí um pouquinho agora o ritmo, mas em festivais não. E curta-metragem ninguém dava bola, todo mundo achava que era um cocô, como até hoje muita gente acha que é um cocô, né? E eu comecei a falar: cara, tem que escrever sobre curta-metragem, ninguém escreve, eu vou escrever.”

No último dia 8 de março, foram exibidos no Cine Odeon 15 curtas-metragens oriundos do projeto LABs Produtora Escola 2017, realizado através do programa Territórios Culturais RJ/Favela Criativa, da Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro, em parceria com a Light e a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica). O projeto, também responsável por um laboratório de formação audiovisual promovido pela produtora Cinema Nosso, concedeu R$ 25 mil a cada um dos 15 projetos, selecionados mediante duas chamadas públicas. Profissionais consolidados no mercado (Silvio Tendler, Lula Carvalho, Hernani Heffner, Clara Meirelles, Cavi Borges, entre outros) orientaram os projetos por meio de workshops e cursos desde a concepção dos roteiros até os processos de pós-produção e finalização.

A longa sessão (os curtas tinham entre 15 e 25 minutos, aproximadamente) começou bastante quente e política já na apresentação dos filmes por parte dos realizadores convidados ao palco. O Odeon lotado contemplou a discussão sobre o cinema feito por mulheres, negros e residentes de regiões periféricas, principal pauta dos discursos dos realizadores, que por sua vez clamaram por mais incentivos e programas de formação e de fomento voltados para as áreas mais descentralizadas do território fluminense. Carol Vilamaro, diretora de um dos curtas da noite, resumiu bem em sua fala os dois principais pontos debatidos no evento como um todo:

“Eu tenho duas coisas pra falar com vocês hoje: a primeira é que nós estamos no dia da mulher, e temos visto o constante apagamento das mulheres no cinema. Eu gostaria de ressaltar que esse aqui é um edital que de 15 filmes, cinco foram dirigidos por mulheres. Então, é muito representativo a gente estar aqui neste palco histórico, no Odeon, exibindo os nossos filmes nesse telão. Que os próximos filmes e os próximos editais tenham mais a nossa presença pra que possamos ver cada vez mais mulheres fazendo cinema. A segunda coisa que eu tenho pra falar pra vocês hoje é que cinco desses 15 filmes foram feitos por produtores e diretores da Baixada Fluminense. A Baixada Fluminense tem esse estigma. Só falam da gente quando é violência. Quando é alguma coisa muito ruim. E o que eu tenho a dizer pra vocês é que a Baixada tem dois lados: primeiro é o que a mídia mostra, o segundo vocês vão ver aqui nesse telão hoje.”

Do ponto de vista temático, os filmes exibidos foram capazes de alcançar os assuntos mais plurais, quase sempre num jogo de reflexo entre a situação do cotidiano vivido pelos próprios cineastas com o desmonte da cultura e o “caos organizado e muito bem planejado” (por parte dos golpistas, obviamente) pelo qual passa não apenas o Rio de Janeiro como também todo o Brasil. Já no âmbito formal, diversos realizadores demonstraram uma ousadia louvável na concepção estética de suas obras e na compreensão de que o fazer cinematográfico é também desafiar as convenções e o seu próprio público.

“Cineclubismo na BF” – Foto: Divulgação

Dirigido por Bruno Ribeiro (responsável pelo consistente “Pele Suja Minha Carne”, exibido ao longo dos dois últimos anos em diversos festivais), “BR3” concilia o discurso frontal de seu roteiro, constituído por três pequenas histórias, com o rigor na fabricação dos seus planos. A fotografia cuidadosa pode ser percebida na maneira como os corpos em tela são registrados: a intensa cena de sexo entre Dandara e Johi filmada com uma proximidade assombrosa; o diálogo entre três amigas que bebem e se divertem enquanto se maquiam para uma festa; a demonstração de segurança de Kastelanny perante Luciana, sua nova roommate responsável por introduzi-la no universo da prostituição – aqui o número musical rodado em plano-sequência demonstra não só um esmero técnico absoluto como também a consciência por parte dos realizadores de que forma e conteúdo podem ser aliados poderosos na condução de temas tão complexos e caros à nossa sociedade, sobretudo no tratamento de personagens periféricos e marginalizados como os trabalhados aqui.

Cascudos” lida com uma situação comum a quase qualquer garoto de 12 anos oriundo da periferia: ao dedicar boas horas de sua vida no fliperama próximo ao trabalho de sua mãe, ele é atormentado pelos garotos mais velhos que insistem em “dar uma mãozinha”. A câmera de Igor Barradas registra tão bem o cotidiano da Vila Ideal, bairro situado em Duque de Caxias, como a fascinação dos garotos pelo jogo (as cores em neon do videogame saltam aos olhos). Os atores realizam um trabalho competente, sobretudo o protagonista e sua mãe, interpretada pela experiente Eliane Costa. A obra ainda dá conta de evidenciar a diferença de classe entre os personagens de forma sutil, apesar de entregar uma conclusão em aberto que não deixa muito claro as intenções finais expostas ali.

Dois documentários tentam dar conta do cinema enquanto patrimônio material e imaterial, apesar de seus assuntos pedirem um tempo de tela muito mais extenso do que lhes é disposto. São eles “Cineclubismo na BF” e “Entre Pó e Películas: Uma História Esquecida”, ambos concentrados em colocar a história da Baixada Fluminense em primeiro plano. O primeiro discorre sobre a história dos cineclubes Buraco do Getúlio, Mate com Angu, Donana, Cinema de Guerrilha, Xuxu com Xis e Facção Feminista, cada qual situado em um município diferente e com propostas diversas. A diretora conduz as entrevistas com o objetivo de captar a particularidade de cada um e revelar os processos históricos e sociais que levaram às suas respectivas fundações. O segundo propõe um mapeamento dos cinemas de rua, os antigos “poeiras”, da Baixada ao revelar a situação de cada um deles nos dias atuais. As imagens do abandonado Cine Center, em Nova Iguaçu, concedem ao filme um ar de decadência próprio ao tema proposto, mas as entrevistas realizadas não dão conta de situar o espectador na complexa malha de eventos que levaram essas salas ao abandono ou à venda de suas propriedades a igrejas ou a lojas de departamento.

Outros dois documentários partem de um tema muito particular para a condução de suas narrativas. “Meninas Invisíveis” concede a palavra às jovens mulheres que cumprem medida no sistema socioeducativo do Rio de Janeiro, o DEGASE. As diretoras Isabela Aleixo e Karla Suarez escolhem enquadrar suas personagens sem jamais revelar seus rostos em totalidade, garantindo foco e força aos seus discursos e evitando qualquer exploração ou vitimização dessas pessoas. Tocando em aspectos bastante delicados, a obra consegue se manter fiel à proposta até o fim. Já “Meu Fuzil é a Poesia” talvez seja o filme mais impactante de toda a mostra. Poderoso em seu discurso, o filme traz personagens-poetas que declamam, berram e vomitam sua poesia no transporte público, nas praças, nas escolas e nas favelas. Nenhuma contextualização se faz necessária aqui. Da mesma maneira, não sentimos falta de nenhuma entrevista formal com os artistas e muito menos com “especialistas” sobre os mais complexos temas abordados. A poesia se basta, e a direção de Fernando Salinas e Victor Hugo Liporage – que também assinam a produção, o roteiro e a montagem do filme – é precisa ao evocar justamente a presença física desses personagens que conseguem transformar em poesia toda a complexidade de um estado ao mesmo tempo inacreditavelmente mágico e bárbaro como o Rio de Janeiro. Estamos em guerra, como evidencia a sequência final, cujo teor sensacionalista é imediatamente abandonado na medida em que percebemos como tudo ali, até mesmo os momentos de maior desespero e violência, está sendo conduzido pela poesia em estado bruto.

Pobre Yurinho” reúne uma inspirada trinca de protagonistas para conduzir uma comédia infantil bem divertida. A encenação, entretanto, é deveras prejudicada pela direção e montagem, deixando algumas cenas um pouco truncadas e hesitantes, mas o filme continua potente em sua proposta e consegue tirar boas risadas com suas gags visuais e principalmente pela expressividade dos atores mirins. Impressionante como o cinema infantil e infanto-juvenil é pouco explorado atualmente no Brasil, sobretudo por sua importância na formação de público. João Ademir dá conta de preencher essa lacuna com o seu curta-metragem.

A Cor da Terça-feira”, de Lucas Moratelli, e “Acúmulo”, de Gilson Junior, são filmes mais densos e com uma particular condução de ritmo. O primeiro acaba se atrapalhando com a direção pouco inspirada e as dificuldades técnicas, sobretudo na captação e mixagem de som, deixando os diálogos que já são bastante enigmáticos e opacos difíceis de serem compreendidos. Apesar de alguns momentos inspirados (o diálogo que dá nome ao filme talvez seja o principal deles), a comunicação entre os personagens e o público é prejudicada pela tentativa de encaixar em um curta-metragem uma história que talvez precisasse de um pouco mais de tempo para ser absorvida. “Acúmulo”, por sua vez, presta homenagem à monumental Léa Garcia (“Orfeu Negro”, “Sudoeste”), que entrega uma atuação absolutamente tocante ao interpretar Lete, uma mulher cujas lembranças se materializam nos objetivos que encontra pela cidade e insiste em trazer para dentro de casa. O realismo se transforma em fantasia à medida que o filme se encanta com sua protagonista (nós também somos enfeitiçados). Alguns planos soam um pouco desajustados e longos demais, mas o mote dramático é tão potente que nem sentimos o tempo passar.  A música e a dança coroam não apenas uma atriz no auge de sua carreira, aos 85 anos de idade, como também um belíssimo conto atulhado até o teto de carinho e afeto.

“Cravo, Lírio e Rosa” – Foto: Divulgação

Por fim, quatro filmes determinam bem suas referências e dialogam muito com o cinema brasileiro contemporâneo. “Kosí Ewé Kosí Orixá” e “Perpétuo” imediatamente me lembraram de filmes como “A Vizinhança do Tigre” e “Baronesa”, ambos vencedores da Mostra Aurora de Tiradentes em 2014 e 2017, respectivamente. Apesar de não seguirem a mesma lógica radical de encenação dos filmes citados, Naouel Laamiri e Lorran Dias constroem narrativas a partir de personagens absolutamente palpáveis e todo o trabalho de câmera é voltado para um realismo que não cabe em si mesmo e excede sua estrutura numa combustão que abala a linguagem proposta até então (seja na inserção, com um louvável trabalho de steadycam, do musical enquanto gênero cinematográfico e transcendência de uma ordenação cênica – mais uma vez, assim como em “BR3” – ou na fusão de imagens que transforma o realismo num realismo mágico que distende as tensões entre o equilíbrio da natureza e a injustiça social). Apesar de enfrentarem problemas de ritmo, os dois filmes acertam ao apostar as fichas em suas poderosas sequências finais.

O diálogo entre “A Mulher do Fim do Mundo”, “Cravo, Lírio e Rosa” e o cinema contemporâneo brasileiro, por sua vez, se dá pela consciência por parte de seus realizadores de que estão trabalhando com códigos de linguagem muito específicos do cinema fantástico. O filme de Geo Abreu é uma ficção científica em sua plenitude: uma mulher percorre uma Maré distópica no ano de 2057 para se conectar com algo essencial; o que é exatamente talvez jamais saibamos, mas a sua jornada de autoconhecimento e de afirmação identitária é o que importa. O título do curta é preciso ao evocar o último álbum da cantora Elza Soares (“Olha não tem ninguém na rua / Não vi ninguém no açougue / Não tem ninguém lá pra abandonar / Olha não tem ninguém na praça / Só tem um sol sem graça / Não tem ninguém para ver e contar”, canta Elza na faixa “Luz Vermelha”). Maju de Paiva (diretora do cativante “Pequenos Animais Sem Dono”), no entanto, sedimenta o seu roteiro e sua decupagem a partir de referências mais clássicas do cinema de horror e entrega um filme bastante narrativo. Vampiros, mortos (vivos?) e as próprias tensões sociais assombram as personagens, duas irmãs confrontadas com a vulnerabilidade de seus corpos (ecos do cinema de Gabriela Amaral Almeida, Juliana Rojas e Marco Dutra). Sexualidade, autoestima e solidão são temas discutidos a partir dos sentimentos das protagonistas, materializados em vivências horroríficas (o cadáver encontrado na rua; o atropelamento do assediador; a presença fantasmagórica na última cena). A direção de fotografia e o desenho de som ressaltam a ambientação proposta pela diretora, nos conduzindo ora pela rua deserta, ora pelos cantos escuros da escola que insistem em conjurar um clima de tensão assustador. Quando o silêncio é a condição e o desejo do antissocial, não há muito que se fazer a não ser se permitir calada. Atenta, plácida e quieta. E a força oriunda dessa condição é imensuravelmente deslumbrante.

Em síntese, cada um dos curtas-metragens exibidos merecia uma análise muito mais completa e minuciosa do que a que fiz aqui. Contudo, optei por falar da sessão como um todo e traçar algumas equivalências na tentativa de abarcar os aspectos que mais me chamaram a atenção em cada um deles (apenas não consegui assistir aos filmes “Beira” e “TV Olho”). Como expressei anteriormente, praticamente todos esses filmes apenas foram possíveis graças ao investimento em um cinema feito por grupos constantemente desprezados pelo sistema hegemônico de financiamento e patrocínio no âmbito audiovisual. Que mais projetos como esse surjam e se consolidem no cenário cultural fluminense e brasileiro. Realizadores e público agradecem.

Viva o cinema nacional!

Relação dos curtas-metragens exibidos na sessão:

A Cor da Terça-feira – 15 min – Dir. Lucas Moratelli

A Mulher do Fim do Mundo – 14 min – Dir. Geo Abreu

Acúmulo – 15 min – Dir. Gilson Junior

Beira – Dir. Douglas Farias

BR3 – 23 min – Dir. Bruno Ribeiro

Cascudos – 17 min – Dir. Igor Barradas

Cineclubismo na BF – 21 min – Dir. Carol Vilamaro

Cravo, Lírio e Rosa – 20 min – Dir. Maju de Paiva

Entre Pó e Películas: Uma História Esquecida – 14 min – Dir. Renan Rocha

Kosí Ewé Kosí Orixá – 16 min – Dir. Naouel Laamiri

Meninas Invisíveis – 19 min – Dir. Isabela Aleixo e Karla Suarez

Meu Fuzil é a Poesia – 20 min – Dir. Fernando Salinas e Victor Hugo Liporage

Perpétuo – 25 min – Dir. Lorran Dias

Pobre Yurinho – 15 min – Dir. João Ademir

TV Olho – Dir. Rodrigo Dutra

Para acessar o Manifesto “A Baixada Filma”http://baixadafilma.com.br/

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