Cidade de Megasaki, Arquipélago Japonês, 20 anos no futuro. O crescimento da população canina atingiu proporções epidêmicas, gerando um surto de “febre do focinho”, que agora parece estar prestes a infectar também os humanos. O prefeito Kobayashi (Kunichi Nomura), em uma decisão apressada, assina um decreto executivo prevendo a expulsão e a contenção de todas as raças de cachorros, tanto os de rua quanto os domesticados. A partir de então, todos eles são capturados e enviados a Trash Island, que se torna uma colônia de exilados: a “Ilha dos Cachorros”.

Seis meses depois, o jovem Atari (Koyu Rankin), um órfão de apenas 12 anos tutelado pelo Prefeito Kobayashi, decidido a resgatar seu cão de guarda Spots (Liev Schreiber), sequestra um avião monomotor. Já na Ilha, ele conta com a ajuda de uma matilha de Alfa Dogs. São eles: Chief (Bryan Cranston), Rex (Edward Norton), Boss (Bill Murray), King (Bob Balaban) e Duke (Jeff Goldblum).

"Ilha dos Cachorros" (Isle of Dogs, 2018)

Foto: Fox Searchlight/Divulgação

Após quase uma década do lançamento de “O Fantástico Sr. Raposo”, Wes Anderson volta a trabalhar com stop motion em “Ilha dos Cachorros”. O filme manifesta sua paixão por planos e enquadramentos geometricamente bem decupados através da influência do cinema japonês das décadas de ’50 e ’60.

Apesar do cineasta Akira Kurosawa – possivelmente o maior nome do cinema clássico japonês – ser abertamente a grande influência de Anderson, as digitais de Yasujiro Ozu podem ser facilmente percebidas ao longo dos 101 minutos de “Ilha de Cachorros”. A confluência da rigidez geométrica de Ozu e a fluidez onírica da narrativa de Wes Anderson imbui o longa animado de um hipnotismo sensorial que é acentuado pela escolha das referências visuais no trabalho da Escola Ukiyo-e de Xilografia.

Ukiyo-e, que pode ser traduzido como “retratos do mundo flutuante”, geralmente representa temas relacionados à beleza feminina, atores de kabuki e paisagens. Dentro deste último mote, Anderson usou especificamente o trabalho de Hokusai e Hiroshige para dar ao artista Jay Clarke (que já havia trabalhado com Anderson em “O Grande Hotel Budapeste”) a inspiração para os storyboards do filme.

Neste sentido esses “retratos do mundo falante” interagem de forma simbiótica com os famosos pillow shots de Ozu. O termo foi cunhado por Noël Burch em alusão aos planos (comuns no cinema do diretor) que suspendem o fluxo da narrativa sem necessariamente contribuir para seu desenvolvimento.

O aspecto fabulesco do cinema de Wes Anderson encontra nessas referências um palanque através do qual o stop motion funciona como ferramenta narrativa e não gênero. É através do uso desse tipo de técnica que a composição visual do filme pode ser mais completamente absorvida.

No campo temático, o diretor mescla de forma harmônica elementos de humor e drama sem soar superficial. Tópicos como luto e perda são abordados com leveza, o que não implica de forma alguma na perda do peso dramático, afinal, para o bem ou para o mal, se trata de um filme com forte apelo junto ao público infantil.

Outra acertada decisão foi a de nem sempre traduzir as falas em japonês. Segundo o próprio Wes Anderson em entrevista inserida no Kit de Imprensa do filme, “(…) quando você está lendo as legendas, você realmente foca nelas durante todo o filme e não para pra ouvir a linguagem. (…). Deixar as falas em japonês sem legenda faz com que você realmente os ouça falando. Você não entende as palavras, mas certamente entende a emoção” (tradução livre).

Essa escolha criativa até chega a incomodar no início apesar do aviso bem-humorado que acompanha os créditos de abertura, outrossim serve ao seu proposito de forma excepcional e contribui com a imersão na obra.

“Ilha dos Cachorros” prova mais uma vez a excentricidade e a capacidade de Wes Anderson em criar histórias únicas e bem executadas. A partir de um mote até certo ponto simples, o diretor consegue explorar toda uma gama de temas através da abordagem visual que caracteriza o seu cinema. ■

“Ilha dos Cachorros” estreia no Brasil em 19 de julho.

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