[Esta crítica traz detalhes de cenas do filme que podem ser considerados spoilers.]

De origem oriental e de apropriação dos assírios e babilônios, as fábulas são composições literárias curtas, escritas em prosa ou verso nas quais os personagens são animais que apresentam características antropomórficas, ou seja, animais com semelhanças humanas. As fábulas estão presentes na literatura infantil e possuem caráter educativo, sempre fazendo uma analogia entre o cotidiano humano e as histórias vivenciadas por seus personagens. Essa analogia é chamada de moral e geralmente é apresentada ao final da narrativa.

Durante séculos, histórias foram contadas com base em fábulas, criando alguns elementos simbólicos que entraram para cultura popular como, por exemplo, o touro representando a força; a raposa representando a astúcia; a formiga caracterizada pelo trabalho; a coruja simbolizando a sabedoria; o leão personificando rei ou reinado e assim por diante. Entretanto, no ano de 1995, George Miller, até então famoso pela trilogia “Mad Max” (1979, 1982 e 1985), resolve subverter esses símbolos e suas representatividades ao produzir e roteirizar “Babe – O Porquinho Atrapalhado”, baseado no livro de Dick King-Smith. A direção ficou com Chris Noonan.

Miller opta por uma fábula que questiona exatamente os papéis e símbolos sociais arbitrariamente impostos a cada um de nós. Para tanto, vale-se de um carismático porquinho que não se enquadra no que é socialmente aceito. Esta imposição ao que se espera de um porco é exposta de forma clara na abertura do filme, onde vemos todos os símbolos atribuídos aos porcos: alimento, entretenimento em circos, objetos decorativos na cozinha, dentre outras. A abertura se conclui em um cenário soturno e ameaçador, onde cultiva-se porcos que claramente são criados para o abate e posterior consumo de suas carnes. Pronto, desta forma Miller nos apresenta o status quo daquele grupo de porcos.

Porém, como vimos no início do texto, quando se trata de uma fábula, é necessária a criação de um paralelo, uma analogia entre a história narrada e o nosso cotidiano. Aquela abertura representa nosso próprio status quo e sua ordem pré-estabelecida pelo que é socialmente aceitável. O pequeno Babe, no entanto, se tornará o agente de subversão dessa ordem ao recusar (embora inconscientemente) o papel ou destino de “animal criado para o abate”.

Ao ser oferecido como brinde a um velho fazendeiro, Babe é confrontado por uma fazenda onde todos têm seu papel pré-definido. Os cães-pastores pastoreiam, as vacas dão leite, as ovelhas fornecem lã, o galo canta às manhãs e o gato… Bem, o gato não faz nada a não ser perturbar. De todos os animais, apenas o ganso Ferdinando não aceita seu papel, sendo por vezes zombado pelos demais, porém mantendo o espírito de rebeldia dentro da fazenda. Essa zombaria passa a fazer parte do cotidiano de Babe quando o mesmo passa a agir como cão-pastor, algo inaceitável naquela fazenda. Neste momento, Miller começa a esboçar as transgressões às normas sociais, criando um paralelo entre aquela fazenda e todo conservadorismo de nossa sociedade que reprime desde a infância qualquer desvio social.

Babe, tendo sido criado pela cadela Flecha, tem nela uma inspiração, assim como um garoto pode ter na mãe, tia ou avó. Entretanto, se um menino deseja por exemplo, brincar de boneca, logo isso lhe é reprimido, e caso insista, será alvo de zombaria na escola ou mesmo na vizinhança. Existe um padrão a ser seguido: menino veste azul e brinca de carrinho; menina veste rosa e brinca de boneca. Da mesma maneira, Babe era um porco, logo deveria agir como tal.

Em dado momento do filme, Rex, parceiro de Flecha, questiona a forma como ela lida com essa subversão de papéis. De forma dura e conservadora, Rex reprime Babe tal qual muitos pais reprimem seus filhos que porventura venham a se desviar do padrão heteronormativo. Segundo o instituto de pesquisa Data Popular, que ouviu 1.264 pessoas em todo o país, 37% dos brasileiros rejeitariam um filho ou uma filha caso ele ou ela se assumisse gay. A situação é ainda pior com pais que expulsam seus filhos e filhas de casa sem o que os mesmos tenham quaisquer condição de sustento. “De 20 a 30% dos jovens em situação de rua no mundo são LGBT, essa é uma taxa superior à de LGBTs na sociedade”, afirma o coordenador do Departamento de Ciências Humanas e Educação da UFSCAR.

Babe é rejeitado por seu “pai adotivo” que não aceita o fato dele não se enquadrar no padrão até então presente na fazenda. Essa rejeição, além de trazer um peso emocional para o pequeno porco, traz também uma desorientação quanto ao que ele realmente é. Há uma bela e sensível cena que mostra Babe acuado e confuso diante das dúvidas em sua cabeça. Sem a devida orientação, o porquinho questiona o seu lugar no mundo, algo muito comum na adolescência, como é retratado no segundo ato do filme.

Porém, mesmo depois de passada a fase de auto-aceitação, Babe precisa enfrentar a aceitação dos demais. George Miller nos mostra que a desconfiança e o preconceito vêm de todos os lados. Por exemplo, alguns animais da fazenda deslegitimam o papel social que Babe assume, a dona da fazenda contesta a ação do marido que passa a aceitar o “porco-pastor”, os filhos acham que o pai está ficando maluco ao tratar o porco como pastor de ovelhas e em uma das mais belas cenas do filme, uma legião de pessoas aponta os dedos para o porco e seu dono durante um campeonato de cães pastores. Essa cena remete a dois fatídicos episódios reais. Em 4 de setembro de 1957, Elizabeth Eckford e outros oito estudantes negros tentaram entrar na Little Rock Central High School, reservada apenas para estudantes brancos. Na ocasião, uma multidão impediu a entrada proferindo insultos racistas contra Elizabeth, que foi sozinha por não ter sido informada que os alunos negros iriam em grupo. A imagem dela caminhando sob insultos é representada na cena do filme. No mesmo dia, Dorothy Counts, de apenas 15 anos, se tornava a primeira menina negra no colégio Harding, em Charlotte, sul dos EUA. No primeiro dia de aula, houve protesto de alunos brancos que zombaram e agrediram verbalmente a estudante.

Babe - O Porquinho Atrapalhado (1995)

Assim como acontecera com Dorothy Counts e Elizabeth Eckford, Babe e seu dono continuaram a caminhar com suas cabeças erguidas, desafiando o status quo e subvertendo a ordem arbitrária imposta por uma sociedade cheia de preconceitos. Babe sabia que seu lugar no mundo não seria determinado por um padrão social. Desta forma, George Miller abandona a estética da trilogia “Mad Max”, mas não deixa de lado seu espírito transgressor, fazendo uso de uma fábula para nos mostrar que não deveriam existir papéis pré-estabelecidos.

“Babe – O Porquinho Atrapalhado” à primeira vista pode parecer um simples filme infantil, mas esconde em seu roteiro uma história de subversão dos papéis sociais que nos são impostos. “Babe” discute nosso lugar na sociedade e a aceitação do que somos. É a história de um porquinho em busca de seu lugar no mundo, ainda que este não seja socialmente aceito. 

“Babe – O Porquinho Atrapalhado” está disponível em DVD, Blu-ray e streaming.

» Ouça o podcast plano-sequência sobre o cinema de George Miller.

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