[Esta crítica traz detalhes de cenas do filme que podem ser considerados spoilers.]

Em uma busca no catálogo da Netflix, deparei-me com o filme “Romina”. Primeiramente achei sua sinopse trivial: adolescentes que vão acampar sem suspeitarem do mal que lhes ocorrerá. Não havia me interessado o suficiente, até que descobri a nacionalidade do filme: mexicana. Decidi dar uma chance e relatar minhas impressões.

De início, percebe-se que a narrativa se dará em retrospectiva. Na primeira cena, a garota, cujo nome intitula o filme (e interpretada por Francisca Lozano), aparece sendo entrevistada por uma psiquiatra forense a respeito de seu envolvimento em homicídios no Lago de Cristal (expressa referência ao filme “Sexta-Feira 13”). Romina permanece em silêncio, apenas gesticulando com a cabeça, esboçando uma expressão fechada, absolutamente inexpressiva. Dessa, decorre outra cena em formato de “degustação” direta ao espectador, exibindo todas as mortes ocorridas, incluindo os corpos com os ferimentos explícitos. Tudo isso embalado ao som de uma ópera.

Corta para a cena em que uma menina desesperadamente corre da floresta em direção à estrada. Ela faz sinal e afronta um carro em movimento, pedindo auxílio. Entra no carro e ele continua a andar pela rodovia, sem revelar a figura do/da motorista. Os créditos de abertura começam a rolar, enquanto a cena do carro é exibida. Para olhares mais atentos, é, possivelmente, uma falha inicial: ninguém desesperado foge de uma floresta e entra em um carro na rodovia sem que haja um diálogo frenético entre o/a motorista e a vítima, sem que se faça perguntas. A sensação é que após a menina entrar neste carro, a vida apenas “continuou”, nada havia acontecido. E, pelas cenas anteriores, já sabíamos que, provavelmente, aquela menina acabara de sair de uma cena de homicídio em massa. Ainda assim, sinto que o filme conseguiu instigar o espectador a descobrir o que houve ali e qual a relação de Romina com todas as mortes.

O filme, então, passa a contar a história a partir do seu verdadeiro início. Seis jovens dentro de um carro conversam animadamente, irão acampar. Um deles, Diego, manifesta que sua amiga Romina não o atende e que ele está preocupado. Os outros ocupantes do carro fazem piadas de mal gosto com a menina, dando a entender que ela era alguém desprezada e mal vista pelo grupo. A maioria dos garotos do grupo faz piadas machistas de muito mal gosto, principalmente relacionadas a estupro.

Intercalada às cenas dos amigos, é mostrada a de uma menina acampando sozinha e misteriosamente à beira do Lago de Cristal; ela, posteriormente, será revelada como Romina. Faço uma ressalva sobre as cenas “entre amigos”: são demasiadamente  irritantes, com atuações muito primárias e assuntos incessantes e forçados – aqui me pergunto, se algum dia vi algum filme de suspense ou terror protagonizado por grupo adolescente no qual os jovens não sejam absolutamente bobos.

Os adolescentes entram no parque, recebidos por um guarda um pouco esquisito. Na certa, tentativa do diretor e roteirista  Diego Cohen de deixar um quê de dúvida sobre a inocência desta personagem.

O primeiro contato que alguém do grupo tem com Romina é através de Ezequiel. Ele vai procurar lenha e de longe a vê nua, tomando banho no lago e por isso demora a voltar para o grupo. Seu amigo Ramón vai procurá-lo. Ezequiel e Ramon enquanto observam a menina agem de forma machista e abusiva, fazendo comentários perniciosos. Romina percebe que alguém a observava e então os dois fogem.

Já no acampamento não revelam aos outros jovens o que viram. Ezequiel, principalmente, quis usar a presença da menina a seu favor, agindo de má-fé, pois sabia que Diego era amigo dela e estava preocupado com a menina.

Desse ponto em diante, o mistério começa a se desenrolar de forma súbita, não tomando muito tempo da trama que, em questão de suspense, acaba se tornando vazia. São apenas duas ou três cenas em que Romina aparece de forma misteriosa e assusta os jovens. Em uma dessas, eles se incomodaram com um barulho vindo da floresta, e, apesar de não encontrarem nada suspeito, manifestam que seria “legal” se continuassem procurando e se embrenham no meio da mata durante a madrugada – péssima decisão do roteirista como opção para criar uma sequência da narrativa. Os jovens encontram uma barraca com roupas femininas e deduzem que alguma garota acampava naquele local. Nesse meio tempo, Ezequiel havia ficado sozinho no acampamento e percebe que Romina ao longe o espiava. Ela tira a blusa e sai de cena. Ele, corre para alcançá-la.

De volta ao acampamento, o grupo nota o sumiço de Ezequiel. O único que se preocupa com isso é Ramon, que sai em busca do amigo. Encontra-o espiando Romina, que novamente está sem roupa em sua barraca e ambos entendem aquilo como um convite da menina para que entrem; eles vão até ela e a estupram. Ressalto que são diversas as (tentativas) de referências ao filme “A Vingança de Jennifer” (1978), de Meir Zarchi, um clássico do horror.

Amanhece e a cena mostra Romina sentada em uma pedra matando um coelho. É esse o estopim que nos indica o que acontecerá dali em diante. Cena pouco proveitosa e muito desconexa.

Durante todo o filme, Diego, aquele jovem do grupo que era amigo de Romina, parece preocupado. É ele quem descobre, em certo momento, que o carro do grupo fora destruído.

Novamente, Romina aparece apenas para Ezequiel. Ela tira a blusa e ele entende como um convite. Enquanto isso, os demais buscam por respostas a respeito do carro deteriorado. Ouve-se um grito desesperado vindo da floresta. Os outros jovens, preocupados com o carro, não se importam devidamente com o barulho — outra falha do roteiro e da direção, pois a medida da ação e da reação das personagens não são equilibradas.

O filme vai mostrando cenas cada vez mais granuladas e sinais de abandono e destruição do acampamento. A câmera filma de forma muito inconstante, move-se demasiadamente e balança como se estivesse em primeira pessoa (found footage).

O grupo se separa, restando cada integrante por si, ou com os respectivos namorados. Ao procurarem a ajuda do guarda para consertar o carro, descobrem que estão sem linha telefônica no acampamento, correm para uma rodovia próxima para buscar sinal de celular.

Ezequiel, autor do grito ignorado, neste ponto do filme, aparece com a perna machucada, amordaçado a uma árvore. Deste acontecimento decorrem as cenas de mutilação, espancamento e assassinato das demais personagens. Não as descrevo para deixar você as assistir e tirar suas conclusões, principalmente com relação à morte de Ramón, cena bastante impactante e diferenciada, na qual descobre-se a verdadeira razão dos acontecimentos e quem seria o cúmplice de Romina. Interessante notar que as mutilações feitas por Romina localizam-se nos olhos e nos órgãos genitais, transmitindo, a meu ver, alguma simbologia.

Finalmente, volta-se à cena inicial na qual a menina, que é Romina, foge da floresta e entra em um carro.

O filme é curto (1h15 minutos) e, além das tentativas de suspense e terror, arriscou-se – e falhou – querendo transmitir uma mensagem crítica a respeito de machismo, abuso sexual e traumas do gênero. Percebe-se que Romina é uma moça apática e fechada, restando-nos decidir se seria ela a verdadeira idealizadora do crime ou apenas uma cúmplice frágil e manipulável. Entendo pela segunda opção, principalmente por toda a ideia que o filme, visto no geral, buscou transmitir; algo nele rememora a situação da protagonista de Carrie, A Estranha (1976), de Brian De Palma, tendo Romina encontrado sua força para vingar quem a desprezou através de um estímulo mais forte vindo de uma fonte externa. Entendo que sua vingança, na verdade, foi estimulada por um mandante (revelado ao final do filme) que tinha os mesmos desejos de carnificina. Ambos se uniram e os desejos sombrios da garota foram expressos através de uma instigação. É uma personagem que durante todo o filme aparece como “forte”’, mas ao final, podemos entender que ela é “frágil e suscetível”. De qualquer maneira, tal mensagem poderia ter sido passada com mais categoria e ser mais nítida, pois cenas críticas ao machismo devem ser trabalhadas de forma muito cuidadosa para que a ironia contida nelas não seja perdida e para que não sejam interpretadas erroneamente. O filme não compensa, mas para quem gosta do gênero e quer assistir a uma obra de nacionalidade diferente das hegemônicas, fique à vontade para descobrir o mistério deste filme: quem é, afinal, o verdadeiro assassino? ■

“Romina” está disponível na Netflix.

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