Os primeiros passos do astronauta Neil Armstrong (Ryan Gosling) na Lua em 20 de julho de 1969 (e se você não tem o mínimo conhecimento da história da humanidade no século XX talvez queira parar de ler por aqui) marcam o clímax de “O Primeiro Homem”. É o ápice de uma sequência grandiosa, em um dos raros momentos em que o filme, impulsionado pela percussão da trilha de Justin Horowitz, chega próximo do épico.

Esse “próximo”, porém, nunca se torna um “literalmente” porque o diretor Damien Chazelle (“La La Land”) abre mão de tomadas muito abertas, ou épicas, em favor de enquadramentos mais fechados – e, principalmente, de muitos planos subjetivos do ponto de vista de Armstrong. O público vive aquele momento pelo olhar do protagonista, e esse é o principal objetivo do cineasta: colocar o espectador dentro da mente de Neil Armstrong, fazendo com que ele enxergue o astronauta não como um herói mítico dos livros de história, mas como um ser humano falho, complexo e de carne e osso.

Porque “O Primeiro Homem” é isso: o estudo de um personagem totalmente introspectivo e nada carismático, atravessando um dos momentos mais difíceis de sua vida. O longa começa no início dos anos 60, quando Armstrong e sua esposa Janet (Claire Foy) perderam a filha de 2 anos para o câncer, e segue pela década seguinte, quando o protagonista mergulhou de cabeça no programa Gemini da Nasa, até se tornar o primeiro homem a pisar na Lua.

E Chazelle e o roteiro de Josh Singer (“Spotlight”) entendem esse mergulho como uma forma de Armstrong de lidar com o próprio luto – ou, talvez, de fugir dele. “O Primeiro Homem” é um filme sóbrio, quase sombrio em muitos momentos, marcado o tempo todo por mortes trágicas e inesperadas – e pela necessidade que sentimos de dar algum sentido a elas quando acontecem.

Armstrong é um homem de pouquíssimas palavras, que nunca fala sobre a própria dor. E como bom engenheiro, seu refúgio para a incapacidade de verbalizá-la são os números e a certeza de que, quando acertados, eles vão dar um sentido à toda tragédia que os antecedeu. O porém é que isso faz dele um personagem frio, por vezes distante. E o maior mérito da performance de Gosling é se despir de seu charme e magnetismo de astro de cinema para viver um homem que, nas roupas sem sal, no cabelo certinho e nas entrevistas monossilábicas, era o oposto do carisma.

Entrar na mente desse sujeito tão fechado e matemático é o desafio que torna o longa de Chazelle, ao mesmo tempo, tão interessante e pouco caloroso. Essa abordagem intimista e pessoal é reforçada pelos insistentes super closes da fotografia de Linus Sandgren, que obrigam o espectador a permanecer colado no olhar e nos poros de Armstrong. E o granulado do Super 16, típico dos anos 60, acentua ainda mais esse tom próximo, quase cinema verité da época.

Com a frieza determinada de Armstrong, e dos ambientes da Nasa e seus diálogos nem sempre compreensíveis, cabe muito a Janet trazer à tona a emoção que o protagonista sufoca dentro de si. A “rainha” Claire Foy é relegada, em grande parte do filme, ao papel ingrato da esposa do herói que fica em casa cuidando dos filhos, mas faz o melhor possível com o material – e, especificamente numa cena logo antes da partida para a Lua, garante sua provável indicação ao Oscar de coadjuvante.

Rejeitando durante a maior parte do longa o ritmo empolgante e pulsante de “Whiplash” e “La La Land”, Chazelle tenta mostrar versatilidade e uma outra faceta de seu cinema. E por mais que o resultado não seja o que o público possa esperar, ele é competente e, em certa medida, ousado. Transformar o conto épico da jornada à Lua na desconstrução de um herói em um ser humano comum, complexo e nem sempre agradável – e numa história sobre luto e como cada pessoa encontra uma forma de lidar com ele – mostra que o cineasta não está em busca das soluções mais fáceis ou óbvias. E isso é o mínimo que se pode esperar do mais jovem vencedor do Oscar de direção. ■

“O Primeiro Homem” entra em cartaz nos cinemas em 18 de outubro.

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