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Atrizes

Mais um filme que chega com atraso aos cinemas brasileiros, mais de dois anos depois de passar na Mostra de São Paulo e no Festival de Cannes, onde recebeu o prêmio especial da mostra paralela Um Certo Olhar, “Atrizes” é o segundo longa-metragem dirigido pela experiente atriz Valeria Bruni Tedeschi, irmã da primeira-dama italiana Carla Bruni. Dois filmes famosos e recentes em que ela atua, e que você já deve ter visto, são “Munique”, de Steven Spielberg, e “O Amor em 5 Tempos”, de François Ozon.

Em “Atrizes”, Valeria também interpreta a protagonista, o que já denota o caráter pessoal do filme. É interessante observar como a personagem lida com a vida no palco e longe da coxia. Em ambos os lugares, ela luta para conseguir se concentrar, e também para se adaptar a um papel com o qual ela não se identifica.

Enquanto na peça em que trabalha, do dramaturgo russo Ivan Turgeniev, ela precisa encarnar uma personagem difícil, que passa a agir como um fantasma durante os ensaios, em sua vida pessoal essa mulher passa a ser perseguida por outra assombração: o avanço da idade, que fatalmente a impedirá de ter um filho se ela não se apressar, como alerta sua ginecologista. A presença de um divã no centro do palco é emblemática.

Balançando entre o desespero e surtos de alegria de sua personagem, Valeria oferece uma interpretação muito convincente, que sem dúvidas é a melhor coisa do filme, já que sua direção é apenas correta, demonstrando um estilo ainda em formação.

Enquanto se divide em múltiplas funções (ela também ajudou a escrever e a montar o longa), Valeria consegue montar um eloquente, e por vezes divertido, mosaico dos bastidores das artes cênicas – tendo para isso o respaldo de um elenco de peso, com atores de renome do cinema europeu, como Mathieu Amalric, de “O Escafandro e a Borboleta”, Louis Garrel, de “Os Sonhadores”, e Valeria Golino, de “Respiro”.

Embora se perca em alguns momentos, principalmente na segunda metade, quando as ilusões da protagonista começam a se misturar com a realidade para propósitos pouco inspirados, “Atrizes” não deixa de ser uma boa opção, principalmente para quem se interessa por teatro.

nota: 6/10 — veja sem pressa

Atrizes (Actrices, 2007, França/Itália)
direção: Valeria Bruni Tedeschi; roteiro: Valeria Bruni Tedeschi, Noémie Lvovsky, Agnès de Sacy; fotografia: Jeanne Lapoirie; montagem: Valeria Bruni Tedeschi, Anne Weil; produção: Olivier Delbosc, Marc Missonnier; com: Valeria Bruni Tedeschi, Mathieu Amalric, Louis Garrel, Valeria Golino, Noémie Lvovsky, Bernard Nissile; Marysa Borini, Maurice Garrel, Olivier Rabourdin, Laetitia Spigarelli; estúdio: Canal+, CNC, Fidélité Productions, Virtual Films, Wild Bunch; distribuição: Pandora Filmes. 107 min

Atores-diretores

Escrevi uma coluna para o Pílula Pop, fazendo um apanhado de atores que se tornaram diretores e fizeram bonito. Um trecho:

 

Insatisfação com a carreira? Vocação descoberta? Crise de meia-idade? A lista de atores que foram para trás da câmera e se tornaram diretores é imensa. Ed Harris, que lançou no último fim-de-semana o faroeste “Appaloosa – Uma Cidade Sem Lei”, é um dos que realizou uma bem-sucedida transição: estreou como cineasta com a cinebiografia “Pollock” que, assim como seu segundo longa, recebeu boas críticas. Em ambos, Harris está também no elenco, a exemplo de vários colegas.

Para ler o texto na íntegra, clique aqui. E aproveite para visitar o restante do site, que está muito bacana.

Treze Homens e um Novo Segredo

Algo que acho muito bacana na série “Onze Homens e Um Segredo”, mais do que os próprios filmes, é como, em um elenco de astros, os atores principais conseguem equilibrar seus egos.

No primeiro filme, Danny Ocean, vivido por George Clooney, tem um papel maior, já que é o líder do grupo e os personagens estão sendo estabelecidos. Em “Doze Homens e Outro Segredo”, é a vez de Brad Pitt e seu sempre divertido Rusty Ryan roubarem a cena. Já neste terceiro longa, o membro da gangue que mais se destaca é finalmente o incansável Linus Caldwell de Matt Damon – uma certa recompensa, na verdade, já que, desde que integrou o grupo, ele tenta ser reconhecido por seus esforços.

Nas entrevistas de divulgação, os atores sempre fazem questão de dizer que fizeram o filme por serem amigos e gostarem de trabalhar juntos. Tudo bem, vamos esquecer por um momento os dólares envolvidos nessa festinha particular e acreditar na boa vontade dos camaradas, já que a amizade é de fato a mola mestra da trama de “Treze Homens um Novo Segredo” – amizade esta que os personagens prezam tanto a ponto de Rusty abandonar um elaborado assalto pela metade quando recebe uma ligação de Danny, convocando-o a ajudar o mentor e financiador da gangue, Reuben Tishkoff (Elliott Gould), que foi passado para trás por Willie Bank (Al Pacino), um empresário sem escrúpulos do ramo da hotelaria. Uma vez reunidos, eles planejam uma vingança contra o sujeito, fazendo com que a estréia de seu novo cassino em Las Vegas seja um fracasso.

Além de Clooney, Pitt e Damon, o restante do elenco (que contém atores que você dificilmente vê fora dos filmes da franquia) continua cumprindo sua função e agradando. A preponderância masculina se torna ainda mais óbvia agora, já que Julia Roberts e Catherine Zeta-Jones não voltam (o único papel feminino de destaque é o de Ellen Barkin). Mas a ausência das duas atrizes não é sentida em nenhum momento. Pelo contrário: justamente por elas não aparecerem, mas suas personagens continuarem virtualmente presentes, temos algumas das piadas mais inteligentes do roteiro de Brian Koppelman e David Levien, quando Tess e Isabel são apenas citadas por Danny e Rusty nos diálogos em que um completa o que o outro está dizendo sobre o andamento de seus respectivos relacionamentos.

Por incrível que pareça, minha única ressalva quanto ao elenco é Al Pacino. Eu esperava que ele fosse fazer um vilão mais perverso, só que seu Willie Bank é apenas um sujeito egomaníaco e arrogante, ainda que divertido por isso. Na verdade, o grande problema do personagem é que ele não oferece nenhum grande perigo a Danny Ocean. A graça do filme, portanto, se torna apenas observar como o golpe será efetuado, já que uma solução é encontrada para qualquer tipo de obstáculo, por maior que seja.

É nesse sentido que a história de “Treze Homens e um Novo Segredo” deixa um pouco a desejar em relação às anteriores, pois não surpreende o espectador que vem acompanhando a série. Quando algo dá errado no plano da gangue, por exemplo, você já espera que aquilo, na verdade, faça parte do plano. A trama é engenhosa e divertida como nos outros filmes, mas o roteiro segue a mesmíssima estrutura, o que não deixa de ser um pouco decepcionante, já que não nos pega de surpresa em nenhum momento. Qual fica sendo o tal “segredo”, então, afinal de contas? Saia justa para os tradutores brasileiros.

As piadas internas e auto-referenciais também continuam, como na citação/homenagem a Frank Sinatra, que viveu Danny Ocean no longa original de 1960. E, mais uma vez, os atores cruzam para o lado de cá da tela ao fazerem com que seus personagens assumam suas vidas reais por um momento, só que, agora, de uma forma bem mais contida do que quando vimos Julia Roberts interpretar ela mesma no filme anterior. Basta ver a cena em que Ocean/Clooney faz uma recomendação a Rusty/Pitt sobre sua vida pessoal.

Na direção, Steven Soderbergh também soube manter o mesmo ritmo e estilo com que vem conduzindo a série. Ele continua se divertindo à beça, abusando de panorâmicas e zooms, o que cria uma atmosfera descontraída, bastante propícia ao clima em que a história se desenvolve. Por estar à vontade no set, assim como os atores, o diretor acaba deixando também o público à vontade. E outro ponto que conta a favor do cineasta nesta terceira parte é que, narrativamente, ela flui com mais facilidade do que a segunda (a qual até hoje ainda me deixa perdido em sua trama), já que se concentra em um só plano e em um só lugar, como na primeira. É mais do mesmo, mas um mesmo que não cai na mesmice.

Se você gostou dos filmes anteriores, com este novo irá se sentir em casa. Só não espere abrir a porta e encontrar móveis novos, pois o máximo que irá ver é o sofá reposicionado no canto da sala. Confesso que, por um instante, cheguei a torcer para que Danny e seus amigos se dessem mal e fossem presos desta vez. Assim, ao menos aconteceria algo inédito e teríamos um bom gancho para eles voltarem num próximo filme (que, mais cedo ou mais tarde, parece ser inevitável). Seria também uma forma elegante de fechar a trilogia, cuja primeira cena traz Ocean saindo da cadeia.

nota: 7/10 — vale o ingresso

Treze Homens e um Novo Segredo (Ocean’s Thirteen, 2007, EUA), dir.: Steven Soderbergh – em cartaz nos cinemas

INDIE 2009: um balanço

ÍNDICE DE FILMES COMENTADOS (em ordem alfabética):

4000 Euros / Anticristo / Bem-vindo / Com Todo o Coração / Duas Senhoras / Elevador / Kinatay / Kronos / Li Tong / A Onda / Quanto Dura o Amor?


“Kinatay”, de Brillante Mendoza

O ano em que chegamos mais perto de Cannes

A exibição de “Kinatay” na sessão de encerramento do INDIE 2009, na quinta-feira, dia 10 de setembro, foi especial por vários motivos. O filme de Brillante Mendoza (o cineasta filipino teve a obra completa apresentada em retrospectiva, ponto alto da mostra) fala por si mesmo e proporciona uma experiência intensa ao espectador, que merece um texto próprio. Por hora, vale destacar a forma como Mendoza nos leva por um caminho escuro (grande segmento do filme é quase todo preto, filmado em luz natural, no escuro, com câmera na mão) até pisarmos no terreno igualmente indistinto do questionamento ético que confronta um jovem policial, testemunha de um ato de barbárie.

“Kinatay” é, sem dúvida, um dos melhores títulos exibidos nesta edição do festival. A sessão, aliás, estava comprometida e dependia da chegada dos rolos a Belo Horizonte, após uma longa viagem de Hong Kong, onde também fora exibido em festival. Chegou e a projeção correu tranquila, com legendas em inglês na película e em português na tradução eletrônica. Mesma cópia será exibida em São Paulo na versão compacta do INDIE, mas a exibição em BH teve um gostinho especial para os cinéfilos mineiros que raramente têm essa chance de degustar primeiro que todo mundo no país um filme como este, que chega premiado como Melhor Direção em Cannes 2009. Importante passo para o festival, que a cada ano tem ficado mais forte.

Aliás, outro filme que deixou este INDIE mais próximo de Cannes é “Anticristo”, escândalo de Lars von Trier que já estava em exibição comercial em salas do Rio de Janeiro e São Paulo. Tudo bem, não foi pré-estréia no INDIE, mas o que valeu foi o clima de festival e ver a sala apinhada de gente em plena noite de feriado de 7 de setembro.

A experiência contou mais do que o filme no fim, já que von Trier parece mais preocupado em se exibir, como sempre, do que em narrar uma história. De toda forma, no principal, que é construir imagens próprias de uma tela de cinema, ele consegue mais uma vez se sair bem. É impressionante como cada um de seus filmes possui um visual distinto, mas todos trazem sua inconfundível assinatura. Você sabe sempre que está assistindo a um filme de Lars von Trier. É possível que “Anticristo” (que também terá texto próprio em breve aqui no site) cresça numa revisão, feita com mais tranquilidade e estudo, já que o filme é permeado por simbolismos que no fundo podem ter algo de relevante. Por hora, no entanto, é um exercício plástico que enche os olhos, causa um mínimo de tensão, acerta no choque, mas é pouco construtivo no que tem a dizer.


“Duas Senhoras”, de Philippe Faucon

Alguns destaques da Mostra Mundial

Junto com “Kinatay”, o filme que mais gostei deste INDIE foi o francês “Duas Senhoras”, do diretor marroquino Philippe Faucon. Longa que já está na estrada há mais tempo, tendo sido exibido pela primeira vez no Festival de Toronto de 2007. É um filme humanista, que trata do conflito na Faixa de Gaza com subtexto político presente o tempo todo, mas apenas como pano de fundo, vindo à tona somente quando a relação das duas senhoras do título pede. E as duas, Ariane Jacquot e Zohra Mouffok, são ótimas atrizes – especialmente Zohra, que faz o filme crescer um tanto quando assume o lugar da filha (Sabrina Ben Abdallah) como protagonista.

“Duas Senhoras” trata do encontro inusitado entre essas mulheres idosas, quando Esther (Ariane), a mais rica e judia, precisa de cuidados especiais por estar debilitada e não poder andar. A enfermeira, humilde e muçulmana, sugere que sua mãe, Halima (Zohra), passe a ajudá-la, servindo como companheira para Esther. A frase chave do filme sai da boca do imam que Halima visita: “Respeitamos quem nos respeita”, o que independe de credo, classe social, cultura ou origem. E a relação das duas senhoras se converte numa amizade bonita porque elas não permitem que fatores externos as influenciem.

Este é o primeiro filme de Faucon a que assisto e gostei de seu estilo de direção simples e muito preciso nas escolhas que faz do que deixar dentro e fora do quadro. Ele centraliza a atenção no que é mais importante: um olhar ou uma reação a uma conversa. São constantes as cenas em que os diálogos acontecem num campo só. Curioso, aliás, como todos os homens, exceto o marido muçulmano, quase não têm os rostos mostrados, ficando fora de quadro. E eles, como os demais atores, continuam atuando sem estarem enquadrados. Faucon dirige as cenas mesmo extra-câmera, em todo o set, e ali escolhe onde fazer o recorte. “Duas Senhoras” já tem distribuição garantida e deve entrar em cartaz em breve no circuito.

Outro feliz achado na programação do INDIE 2009 foi o canadense falado em francês “Com Todo o Coração”, de Stéphane Géhami. O filme traz uma certa semelhança com “Amantes”, de James Gray, já que seu protagonista também está dividido entre duas mulheres: a ex-namorada, por quem ainda nutre uma paixão impetuosa, e a nova, que tem emprego e nível social mais confortáveis – para ele. Como Joaquin Phoenix, o personagem de Pierre Rivard também é encrenca: rouba carros para ter sua fonte de renda e não consegue tomar jeito. Muitas vezes, parece um meninão mais imaturo que o adolescente Jimi, seu pupilo e parceiro em delito. Talvez Géhami não precisasse filmar tanto sexo, mas de forma geral sua câmera é bem disposta, consciente, e a narrativa não vacila nas alternâncias entre drama e humor da trajetória do personagem principal. Um bom filme que merece ser visto fora do festival. Ainda está sem distribuição, infelizmente.

Também gostei bastante do chinês “Li Tong”, de Nian Liu – filme doce sobre uma menininha que fica perdida no Centro de Pequim após seu passe de ônibus sumir. A garotinha é uma graça e segura bem o filme inteiro. Ela se sai melhor quando interage com o garoto de rua que encontra no caminho e que a ajuda a voltar para casa. O menino poderia ter entrado mais cedo na história, já que nos momentos em que a garota está sozinha o filme pede por mais ritmo. E não é pela forma como é dirigido, já que Liu demonstra segurança e serenidade, mas simplesmente porque algumas cenas não têm muito porquê de estarem ali (o encontro com o homem vestido de urso panda, por exemplo). É um filme sobre crianças feito para adultos. Também não tem distribuição garantida no Brasil.

Destaco ainda o espanhol “4000 Euros”, que é como se uma trama policial pós-Tarantino fosse dirigida com a crueza que se observa no cinema romeno atual, digamos. Mas antes de você se empolgar, tenho que dizer que o filme de Richard Jordan peca no refinamento da montagem, que conta com fades sem sentido (um deles é tão grosseiro que parece até que o cineasta se esqueceu de revisar o corte final). A comparação que faço com o cinema romeno (e outros contemporâneos) se deve mais àquela ideia de deixar a câmera estática enquadrada num rosto ou num lugar por uma duração acima da média de uma tomada convencional. Há aquela sensação de “naquele tempo, naquele lugar”, que torna o filme mais verdadeiro. Além disso, não há trilha sonora. A trama policial gira em torno de dois irmãos: ela tem que arrumar 4.000 euros para pagar uma dívida do irmão com uma gangue e salvar a vida dele. Os atores, Marta Larralde e Alberto López, são bons. O problema é que o filme termina meio sem jeito. O desfecho deveria dar um baque no público, mas nos deixa perguntando: “É só isso?” Sem estragar o filme para quem não viu, digo apenas que um gângster de verdade teria pelo menos arrancado um dedo do rapaz. “4000 Euros” é outro que está sem distribuição no Brasil. Se aparecer em algum festival na sua cidade, não perca.


“Kronos”, de Olav F. Wehling

Os micos do ano

Se todo INDIE tem filmes muito bons, também tem suas ovelhas negras. Se no ano passado foi o constrangedor “Amantes” (ainda bem que não foi lançado comercialmente, senão poderia causar confusão com o belo filme de James Gray), este ano a Mostra Mundial ofereceu “Kronos”. Sob o pretexto de remontar o mito grego do filho de Urano, o diretor alemão Olav F. Wehling não se vale da boa fotografia e da paisagem desértica que nos minutos iniciais dão esperança de um filme de direção impactante. Mas tal impacto de esvai quando o cineasta (estreante como quase todos da Mostra Mundial) começa a forçar na composição e insiste na trilha sonora maçante e repetitiva. Os problemas estéticos são os menores, na verdade. Wehling quer ser metafórico, mas acaba sem dizer coisa alguma. Seu filme (ou projeto de conclusão de curso, como é apresentado no site do festival) logo se converte numa tentativa pífia de falar sobre a condição humana em situação limite. Pretensioso demais.

(Fato curioso: durante a sessão de “Kronos” no sábado à tarde, um senhor, que aparentava estar embriagado, não se conteve e começou a gritar contra a tela nas cenas de incesto. Saiu da sala no meio de uma delas, esbravejando: “Imundo! Imundo!” Pois se nem ele aguentou…)

Um filme que me decepcionou bastante foi “Quanto Dura o Amor?”, segundo longa de Roberto Moreira, de quem eu esperava bem mais após a estreia com o forte “Contra Todos”. Pois bem. O cineasta cai na arapuca dos filmes de tramas paralelas que competem entre si. Aí temos duas histórias para lá de lugar-comum que o filme tenta empurrar como quebra de tabu por falar de amor através da perspectiva homossexual. O terceiro enredo é o único que gera algum interesse maior: um escritor, careca e barrigudo, que idealiza uma relação perfeita e tenta concretizá-la se refugiando nos braços de uma prostituta. É o único personagem que eu queria ver mais, já que os outros vivem dramas de fácil acepção por qualquer folhetim de TV. Moreira não deveria ter trocado a câmera trêmula e urgente de “Contra Todos” pela steady-cam, que acaba por romantizar o que já é romantizado em excesso. E a trilha sonora tem Radiohead, o que sempre é bom, mas os covers picaretas de Danni Carlos dão nos nervos. Pelos nomes envolvidos em “Quanto Dura o Amor?” (Anna Muylaert também assina o roteiro e Sílvia Lourenço é uma das atrizes principais), o resultado não só poderia, como deveria ter sido bem melhor.


“Elevador”, de George Dorobantu

Na média

Nestes últimos parágrafos, outros três filmes que ficaram na média entre o que vi no INDIE 2009. O francês “Bem-vindo”, de Philippe Lioret, tem aquela história bonitinha, mas ordinária do garoto e da garota que tem um namoro proibido. Ele vai tentar atravessar o Canal da Mancha a nado para reencontrá-la na Grã-Bretanha. O filme tem seus bons momentos na relação do menino com o professor de natação (Vincent Lindon) que o ajuda a treinar – o professor vendo no jovem um esforço para recuperar a mulher amada que ele mesmo naõ foi capaz de exercer para salvar o casamento. A direção de Lioret é muito convencional, o que acaba por pasteurizar demais a abordagem da história de amor.

“Bem-vindo” já está em cartaz nos cinemas de outras cidades, assim como o alemão “A Onda”, de Dennis Gansel. Este, no início, chega a lembrar o ótimo “Edukators” por tratar de uma discussão política entre adolescentes. Esse começo de conversa é bastante interessante na forma como o professor (Jürgen Vogel) apresenta aos alunos o modelo de dominação de massa. Mas depois que o filme passa a se concentrar apenas na falta de controle que o experimento ganha fora da sala de aula, o interesse pelo tema político fica em segundo plano. Você fica apenas curioso em ver como aquilo vai acabar, o que também não é nenhum mistério, graças aos estereótipos de alunos que Gansel utiliza.

Montagem moderninha, trilha sonora agitada, personagens fáceis, rostos bonitos, tudo na medida em “A Onda” para o gosto do público juvenil médio. O mesmo é encontrado no bem mais modesto “Elevador” – que se passa quase todo dentro de um elevador, ora essa. A química entre os dois únicos atores do filme, Cristi Petrescu e Iulia Verdes, é boa e rende empatia e alguns bons diálogos. A ideia de filmar dentro de um recinto fechado não é inédita e acaba não sendo bem executada, já que o diretor George Dorobantu recorre a efeitos de câmera que só atrapalham e o distanciam da “nova escola” do cinema romeno (que já rendeu o premiado “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”, de Cristian Mungiu, além de “À Leste de Bucareste”, de Corneliu Porumboiu, e a elogiada antologia “Tales from the Golden Age”, exibida em Cannes este ano). Sem falar que ele faz cortes rápidos sem necessidade, numa tentativa de tornar as coisas mais agitadas dentro do elevador, e força uma narrativa não-linear mais ao final que também não tem razão, já que não traz nenhuma revelação sobre o que vimos antes. É uma pena que ele não consiga conduzir o filme, pois o plano final, com a tela do celular, é ótimo.

Cassavetes: autor a favor do ator, e vice-versa

Uma das frases mais polêmicas de Alfred Hitchcock é aquela em que o mestre fala que atores devem ser tratados como gado num set de filmagem, ou seja, eles devem fazer o que o diretor mandar. Eu geralmente concordo com essas palavras de Hitchock, pois penso que o diretor é o verdadeiro autor de um filme. É ele quem fornece sua visão e assina o trabalho, por mais que não faça tudo sozinho. É claro que existem atores excelentes e, sem eles, muitos filmes de autor poderiam fracassar. E existem também aqueles atores-autores, que atuam na frente e atrás da câmera. É o caso de – para citar alguns notáveis – Woody Allen, Clint Eastwood, Charles Chaplin e John Cassavetes.

No último dia 11 de novembro, o primeiro filme dirigido por Cassavetes, “Sombras”, completou 50 anos de lançamento. Considerado o pai dos filmes independentes, o longa-metragem foi rodado com pouquíssimos recursos, equipamento modesto e atores desconhecidos do público que tiveram liberdade para levar a seus personagens características próprias que não estavam no roteiro. A história sobre amor e preconceito na Nova York da era beatnik é embalada por uma trilha sonora de jazz, também criada livremente para o filme. Era plantada ali a semente de uma das obras mais distintas do cinema americano, uma que se baseia num realismo e numa independência que Michelangelo Antonioni, Luchino Visconti, Roberto Rossellini e Vittorio De Sica tanto defenderam na Itália, assim como fizeram François Truffaut, Jean-Luc Godard, Éric Rohmer e os enfants terribles da Nouvelle Vague. Realismo que fica claro na atuação improvisada captada pela lente de Cassavetes, graças, justamente, à independência não só conquistada pelo diretor, mas dada a cada membro do elenco.

Cassavetes é um ator-autor. E é em 1977, com “Noite de Estreia”, que ele explicita de uma vez por todas seu pensamento sobre a autonomia do elenco em um filme. Neste trabalho, a esposa de Cassavetes na vida real, a magnífica Gena Rowlands, vive uma atriz alcoólatra que enfrenta problemas para fazer um papel que se mistura com sua própria vida, numa peça de teatro sobre envelhecimento. A direção de Cassavetes atinge, aqui, talvez o seu momento mais maduro, naquilo em que ele torna cada ângulo apropriado a cada cena. Não temos em “Noite de Estreia” a câmera errática de “Sombras”, “Maridos” ou “Minnie e Moskowitz” (muito menos a câmera bem comportada dos filmes de estúdio de Cassavetes, como “Minha Esperança é Você” ou mesmo “Glória”). A direção parece mais consciente do espaço cênico, aposta tanto nos close-ups quanto nos planos abertos, aproxima-se dos personagens quando estritamente necessário. É encaixado até mesmo um aspecto de suspense nas cenas que envolvem a jovem que assombra a protagonista. No ato final, o próprio Cassavetes contracena com Rowlands em cima do palco, num momento em que os dois, interpretando marido e mulher em crise, decidem deixar de lado o texto ensaiado e improvisar todo o desfecho da peça. A câmera fica na platéia, sem intervir, enquanto o diretor da peça (Ben Gazarra, velho companheiro de Cassavetes) nada faz, além de assistir a tudo aquilo. O público adora. E o último plano é aquela saudação enigmática por trás da coxia pelo sucesso de estupenda apresentação única. É praticamente como se Cassavetes fizesse do filme um manifesto a favor do ator, uma contraprova ao pensamento rígido de Hitchcock.

O mais impressionante é que, se os filmes de Cassavetes passam a idéia de serem improvisações (ele mesmo faz tal afirmação no fim de “Sombras”), na verdade sabe-se que o cineasta sempre foi muito meticuloso quanto a seguir o roteiro. O que acontecia é que os atores ajudavam a construir o filme e se sentiam plenamente à vontade, interpretando papéis com os quais eles se identificavam de alguma forma. Em outras palavras, nos filmes de Cassavetes você vê pessoas sendo pessoas, e não meros joguetes de texto. A partir do momento em que somos apresentados àqueles personagens, temos a clara sensação de que eles tiveram uma vida até o início do filme e que vão continuar vivendo após a última cena. Vale ressaltar, no entanto, que o cinema de Cassavetes exige paciência do espectador – não como obrigação, mas como virtude. Afinal, se o que ele nos propõe é acompanhar não um longa-metragem, mas um trecho de vida devemos estar dispostos não a assistir, mas a conviver com seus filmes.

Tanto “Sombras” quanto “Noite de Estréia” foram lançados em DVD no Brasil recentemente pela distribuidora Cinemax, junto com “A Morte de um Bookmaker Chinês”, “Uma Mulher Sob Influência” e a obra-prima “Faces”.

Moscou

Quando entrevistei Eduardo Coutinho em 2005, em ocasião do lançamento de “O Fim e o Princípio”, perguntei se ele já tinha em vista algum novo projeto. Ele respondeu: “Ainda não pensei em nada, mas se eu não fizer cinema, vou fazer o quê? Sentar na praça?”

Curiosamente, o título daquele filme tem relação com a mudança de fase na carreira de Coutinho: o fim de um cinema autêntico baseado em entrevistas informais e o princípio de um aprofundamento ainda mais único na linguagem que ele explora tão bem. Seu trabalho seguinte, “Jogo de Cena”, ainda se baseou em entrevistas, mas difícil dizer se o que está na tela é um documentário, no sentido estrito do termo. O que Coutinho está documentando afinal, ao conversar com diversas mulheres que contam histórias quaisquer de suas vidas, sem sabermos a quem pertencem de fato aquelas confissões?

O que Coutinho propõe ao espectador é um jogo onde documentário e ficção se confundem. E se antes as regras estavam claras – quem é personagem da vida real e quem é atriz – agora, em “Moscou”, o cineasta radicaliza a proposta e o desafio feito ao público.

Assim como em “O Fim e o Princípio”, Coutinho iniciou as filmagens no escuro, sem saber que filme iria sair dali. Reuniu os atores do Grupo Galpão, sob a direção de Enrique Diaz, para que encenassem uma peça que eles só saberiam qual era já diante das câmeras. A surpresa dos atores ao receberem o texto e a atenção com que ouvem as instruções dadas por Diaz e Coutinho são registradas, e esta talvez seja a única parte de “Moscou” que se assemelhe a um documentário convencional. O restante é trabalhado em outro plano, extra-câmera, e depende exclusivamente da percepção do espectador para funcionar. O próprio Coutinho quebra sua assinatura e se ausenta da tela: a não ser no momento em que ele explica o projeto aos atores, ele não é mais visto e sua voz só volta a ser ouvida no final.

O que é “Moscou”, então? É um filme que acontece na sua cabeça e que se nega a todo custo a tornar a ficção ou a realidade concretas, não fornecendo ao espectador qualquer referência além da memória – através de fotos em porta-retratos, que servem como ponto de partida para os atores contarem uma história, ou através apenas das falas dos intérpretes (e como em “Jogo de Cena”, você não sabe se os fatos expostos pertencem mesmo à pessoa ou é “roubada” de outra).

Coutinho prova que a memória é a principal e definitiva ferramenta de construção narrativa. Por isso se mostra tão acertada a escolha do Grupo Galpão, que em seu teatro maleável e desdobrável permite uma ausência quase total de referências concretas, sem cenários, objetos de cena, figurinos ou maquiagens. Tudo isso fica a cargo do imaginário do espectador.

“Moscou” documenta a ficção e, ao mesmo tempo, torna ficcional o documentário. É, acima de tudo, um extraordinário ensaio sobre o cinema, arte de mentir.

nota: 9/10 — veja no cinema e compre o DVD

Moscou (2009, Brasil)
direção: Eduardo Coutinho; fotografia: Jacques Cheuiche; montagem: Jordana Berg; produção: Beth Pessoa; produção executiva: João Moreira Salles, Mauricio Andrade Ramos, Guilherme Cezar Coelho; direção teatral: Enrique Diaz; com: Antonio Edson, Arildo de Barros, Beto Franco, Chico Pelúcio, Eduardo Moreira, Fernanda Vianna, Inês Peixoto, Júlio Maciel, Lydia del Picchia, Paulo André, Rodolfo Vaz, Simone Ordones, Teuda Bara; estúdio: VideoFilmes; distribuição: VideoFilmes. 77 min

Afinal de contas, qual é o propósito da animação digital?

Já tem algum tempo que “Happy Feet” está em cartaz, então, quem queria ver já viu. Dito isto, não acho nenhum absurdo dizer abertamente que aparecem atores reais em certa parte do filme. Parece que algumas pessoas consideram isso um spoiler. De certa forma, estão certas. Mas como é o ponto do meu comentário neste post, não tenho como fugir.

Quando os primeiros humanos apareceram no filme, eu realmente fiquei na dúvida: são atores ou personagens digitais? A mulher que está atrás do vidro tem aquela pele borrachuda que já vimos em “Final Fantasy”, por exemplo, e o mesmo “olhar morto”. Já o homem que surge logo depois tem uma expressão facial mais vívida, mas também não passa a impressão de ser uma pessoa de verdade. Foi só quando veio a cena em que o pingüim se comunica com a menininha é que me dei conta que ela não era uma criação da computação gráfica (já os outros dois, ainda acredito que sejam, mesmo já tendo visto o filme duas vezes).

E aí me veio a pergunta: George Miller teria criado essa confusão propositalmente? Haveria ali uma reflexão sobre os limites e propósitos da animação digital? Para quê, afinal, as animações vem tentando alcançar um nível de realismo cada vez maior?

É claro que este filme tinha que ser feito com animação. Não estou querendo dizer que poderia ter sido feito com bichos de verdade, na Antártica de verdade (já basta “A Marcha dos Pingüins”). Mas a dúvida acima pode ser analisada da seguinte forma: pegue “O Expresso Polar”, de Robert Zemeckis, um filme que usou uma técnica dita “inovadora” para reproduzir fielmente os rostos e expressões dos atores em personagens digitais. Temos lá um Tom Hanks virtual que foi interpretado pelo Tom Hanks de verdade. Ou seja, o único propósito dessa tecnologia foi mostrar que ela é capaz de criar uma realidade que já existe.

Então, temos “Happy Feet”, onde os cenários são absurdamente realistas, assim como a penugem dos pingüims e a pele das baleias e dos elefantes marinhos. Um fotorrealismo lindo, sem dúvidas, e para criar aquele mundo e manipulá-lo, a tecnologia serviu perfeitamente. Já quando aparecem os humanos, temos atores reais. Isto, porque Miller foi mais consciente que Zemeckis: entendeu que o propósito da animação digital não é recriar algo que pode ser mostrado na tela sem precisar ser animado.

O que estou tentando dizer é o seguinte: se é para fazer um filme de animação, que se tente aproveitar a liberdade praticamente infinita que a tecnologia proporciona e se faça algo imaginativo a partir daí, e não apenas uma emulação do real. A partir do momento em que você percebe que um filme animado poderia ter sido feito em live-action, ele perde o sentido. E esse tem sido o grande problema das animações com personagens humanos (a não ser aqueles que adotam feições caricaturais, como “Os Incríveis”).

Há também um certo problema mesmo quando não há humanos: todo esse fotorrealismo acaba sendo uma distração para uma história fraca. E a de “Happy Feet”, no fundo, não passa de uma versão de “O Patinho Feio” com neve – apesar de Miller saber conduzi-la com ritmo e criar seqüências de ação fantásticas, mas isso aí já é mérito de direção, não de roteiro. Em “Carros” acontece o mesmo: há um nível de realismo tão grande na paisagem, no asfalto, na poeira e na lataria dos veículos, que, sem perceber, você pode estar apreciando mais a beleza plástica do filme do que aquilo que ele realmente nos fala.

Honestamente, se continuar a existir essa competição pela “maior realidade”, é melhor voltarem ao 2-D. A não ser que haja um propósito nela. Ou, talvez, uma auto-crítica, como acredito que exista naqueles momentos finais de “Happy Feet”.

Happy Feet: O Pingüim (Happy Feet, 2006, Austrália/EUA), dir.: George Miller – em cartaz nos cinemas

Moscou

Quando entrevistei Eduardo Coutinho em 2005, em ocasião do lançamento de “O Fim e o Princípio”, perguntei se ele já tinha em vista algum novo projeto. Ele respondeu: “Ainda não pensei em nada, mas se eu não fizer cinema, vou fazer o quê? Sentar na praça?”

Curiosamente, o título daquele filme tem relação com a mudança de fase na carreira de Coutinho: o fim de um cinema autêntico baseado em entrevistas informais e o princípio de um aprofundamento ainda mais único na linguagem que ele explora tão bem. Seu trabalho seguinte, “Jogo de Cena”, ainda se baseou em entrevistas, mas difícil dizer se o que está na tela é um documentário, no sentido estrito do termo. O que Coutinho está documentando afinal, ao conversar com diversas mulheres que contam histórias quaisquer de suas vidas, sem sabermos a quem pertencem de fato aquelas confissões?

O que Coutinho propõe ao espectador é um jogo onde documentário e ficção se confundem. E se antes as regras estavam claras – quem é personagem da vida real e quem é atriz – agora, em “Moscou”, o cineasta radicaliza a proposta e o desafio feito ao público.

Assim como em “O Fim e o Princípio”, Coutinho iniciou as filmagens no escuro, sem saber que filme iria sair dali. Reuniu os atores do Grupo Galpão, sob a direção de Enrique Diaz, para que encenassem uma peça que eles só saberiam qual era já diante das câmeras. A surpresa dos atores ao receberem o texto e a atenção com que ouvem as instruções dadas por Diaz e Coutinho são registradas, e esta talvez seja a única parte de “Moscou” que se assemelhe a um documentário convencional. O restante é trabalhado em outro plano, extra-câmera, e depende exclusivamente da percepção do espectador para funcionar. O próprio Coutinho quebra sua assinatura e se ausenta da tela: a não ser no momento em que ele explica o projeto aos atores, ele não é mais visto e sua voz só volta a ser ouvida no final.

O que é “Moscou”, então? É um filme acontece na sua cabeça e que se nega a todo custo a tornar a ficção ou a realidade concretas, não fornecendo ao espectador qualquer referência além da memória – através de fotos em porta-retratos, que servem como ponto de partida para os atores contarem uma história, ou através apenas das falas dos intérpretes (e como em “Jogo de Cena”, você não sabe se os fatos expostos pertencem mesmo à pessoa ou é “roubada” de outra). Coutinho prova que a memória é a principal e definitiva ferramenta de construção narrativa. Por isso se mostra tão acertada a escolha do Grupo Galpão, que em seu teatro maleável e desdobrável permite uma ausência quase total de referências concretas, sem cenários, objetos de cena, figurinos ou maquiagens. Tudo isso fica a cargo do imaginário do espectador.

“Moscou” documenta a ficção e, ao mesmo tempo, torna ficcional o documentário. É, acima de tudo, um extraordinário ensaio sobre o cinema, arte de mentir.

nota: 9/10 — veja no cinema e compre o DVD

Moscou (2009, Brasil)
direção: Eduardo Coutinho; fotografia: Jacques Cheuiche; montagem: Jordana Berg; produção: Beth Pessoa; produção executiva: João Moreira Salles, Mauricio Andrade Ramos, Guilherme Cezar Coelho; direção teatral: Enrique Diaz; com: Antonio Edson, Arildo de Barros, Beto Franco, Chico Pelúcio, Eduardo Moreira, Fernanda Vianna, Inês Peixoto, Júlio Maciel, Lydia del Picchia, Paulo André, Rodolfo Vaz, Simone Ordones, Teuda Bara; estúdio: VideoFilmes; distribuição: VideoFilmes. 77 min

Garota Infernal

“Garota Infernal” tem uma história idiota, perfeita para um filme de terror adolescente. Tem também duas atrizes belíssimas nos papéis principais e sensualidade de sobra. E conta ainda com um humor de tiradas típico de produções do gênero. Mas o longa não possui um ingrediente fundamental: atmosfera.

Diablo Cody faz sua parte no roteiro, com diálogos espertinhos (como os de “Juno”) que dão liga a uma trama muito apropriada para um filme B: Jennifer (Megan Fox) é possuída pelo demônio após seguir um grupo musical que se apresenta na pequena e esquecida cidade onde ela vive. A partir daí, sua melhor amiga, Needy (Amanda Seyfried), não sabe o que faz: se protege o namorado, já que Jennifer passa a devorar (literalmente) os garotos da escola, ou se procura ajuda para a amiga, por quem ela sente uma inegável atração.

Já a diretora Karyn Kusama (do péssimo “Aeon Flux”) parece ter tido o único trabalho de entregar o texto para os atores lerem. OK, ela explora alguns ângulos e movimentos de câmera e cria pelo menos uma ótima cena (na primeira aparição demoníaca de Jennifer, na casa de Needy), mas, de forma geral, tudo parece desconjuntado – especialmente nas cenas de tensão, que se resumem a sustos que seguem aquele velho truque do extra-campo (algo que vem de fora do quadro surpreende o personagem e, teoricamente, o público). Sem falar na repetição do mesmo efeito CGI nos ataques de Jennifer e na covardia de recusar o gore. Resultado: Kusama parece querer fazer um filme de terror para meninas, partindo do pressuposto que meninas que gostam de filmes de terror não querem ver tripas.

Para piorar, há um claro problema de decupagem e montagem em “Garota Infernal”. Tome como exemplo a própria cena do beijo entre Fox e Seyfried. Para começar: porque aquela cena está ali, naquele momento do filme? E note que ela já começa meio fora do lugar, meio do nada, sem nenhuma preliminar, e termina sem dizer a que veio. As duas atrizes fazem tudo certo, se entregam até demais ao momento, mas a cena não escapa de ser gratuita. Cito essa sequência como exemplo, mas durante o filme todo tem-se a sensação de a narrativa estar mal arranjada.

No fim, não há um tema em “Garota Infernal”, só desejo. Ainda que seja um filme distinto dentro da mesmice que assola o gênero (principalmente no cinema hollywoodiano), poderia existir ali uma alegoria sobre a liberação sexual juvenil e o bissexualismo à flor da pele, representados na figura de Jennifer. Mas Cody e, principalmente, Kusama se mostram limitadas demais para fazer um filme que seja fiel às raízes do horror.

nota: 5/10 — veja sem pressa

Garota Infernal (Jennifer’s Body, 2009, EUA)
direção: Karyn Kusama; roteiro: Diablo Cody; fotografia: M. David Mullen; montagem: Plummy Tucker; música: Stephen Barton, Theodore Shapiro; produção: Daniel Dubiecki,
Mason Novick, Jason Reitman; com: Megan Fox, Amanda Seyfried, Johnny Simmons, Adam Brody, Sal Cortez, Ryan Levine, Juan Riedinger, Colin Askey, Chris Pratt, Juno Ruddell, Kyle Gallner, Josh Emerson, J.K. Simmons, Amy Sedaris; estúdio: Dune Entertainment, Fox Atomic, Hard C; distribuição: 20th Century Fox. 102 min

Se Beber, Não Case

“Se Beber, Não Case” é um novo ponto alto na carreira do diretor Todd Phillips, que desde “Dias Incríveis”, de 2003, não fazia um filme tão divertido. Narrando uma história que se revela uma semiparódia de filme noir, o cineasta retoma a fórmula do dude flick e do road movie – que ele já havia explorado em “Caindo na Estrada” (2000). Essa mistura a princípio estranha de subgêneros, aliada ao acerto na escolha dos atores, resulta em um longa que faz rir com um humor que não chega a ser plenamente escatológico, mas que também toma certa distância de qualquer refinamento ou intelecto. É comédia física e de tiradas, besta e cativante.

Há também, no cinema de Phillips, um cuidado com a imagem pouco comum em um gênero enlatado pelo cinema americano. Primeiro, pela consciência de Phillips em não tentar emular o estilo noir apesar da estrutura do roteiro, que segue a jornada de mistério, perigos e surpresas feita por três caras que tentam desvendar o sumiço do amigo que está para se casar. O cineasta mantém o padrão de filmagem de seus trabalhos anteriores, nos quais já demonstrava ser um dos diretores de comédias mainstream que melhor sabe enquadrar hoje em dia, usando bem a largura da tela, de forma nada gratuita, mesmo trabalhando com diferentes diretores de fotografias a cada projeto. Phillips não engessa seu estilo com firulas, o que lhe deixa aberto o caminho para por na tela citações das mais variadas, desde referências a “Jornada nas Estrelas”, “Curtindo a Vida Adoidado” e “Mulher-Gato” (!) ao remake exato de uma famosa tomada de “Cassino”, de Martin Scorsese, rodada no deserto próximo a Las Vegas.

Phillips filma melhor que Judd Apatow, e talvez até melhor que os irmãos Farrelly, para citar cineastas que trabalham com um tipo de humor parecido. E por falar nisso, é um alívio ver que “Se Beber, Não Case” é uma comédia que não parece ser mais um produto da Apatow Produções. É claro que é um “bromance” na tradição do que Apatow e sua trupe fazem, mas Phillips tem uma pegada mais autêntica, bem diferente do que John Hamburg faz em “Eu Te Amo, Cara”, por exemplo. Creio que, além da imagem mais bem cuidada, essa diferença recai no modo como Phillips lida com o roteiro: não existem aqui cenas isoladas de piadas em que o humor é puramente baseado em diálogos ou na improvisação dos atores. Phillips realmente parece mais preocupado na forma como uma cena engraçada será vista do que escutada pela platéia. E como o roteiro não é dele – embora certamente tenha feito ajustes, já que o retrospecto de Jon Lucas e Scott Moore não os favorece (“A Hora da Virada”, “Surpresas do Amor”, “Minhas Adoráveis Ex-namoradas”) – o diretor não deve ter se rendido a vaidades e se concentrou em decupar e filmar.

Outro fator que afasta a lembrança de Apatow é o elenco principal ser formado por atores que não costumamos ver em nove de cada dez comédias que entram em cartaz no ano. À exceção de Bradley Cooper, que já é um pouco mais conhecido hoje, os outros quase não fazem papéis de destaque. Ed Helms (do seriado “The Office”) é o que mais se destaca, pelo timing e por fazer um humor físico muito bom. O mesmo pode ser dito de Zach Galifianakis (“Jogo de Amor em Las Vegas”) que faz rir pelo bom uso da postura desleixada de seu personagem. Sem falar que é genial o que Phillips faz com Justin Bartha, que acaba se tornando quase um McGuffin, um pretexto para a trama acontecer.

nota: 8/10 — vale o ingresso

Se Beber, Não Case (The Hangover, 2009, EUA/Alemanha)
direção: Todd Phillips; roteiro: Jon Lucas, Scott Moore; fotografia: Lawrence Sher; montagem: Debra Neil-Fisher; música: Christophe Beck; produção: Daniel Goldberg, Todd Phillips; com: Bradley Cooper, Ed Helms, Zach Galifianakis, Justin Bartha, Heather Graham, Sasha Barrese, Jeffrey Tambor, Ken Jeong, Rachael Harris, Mike Tyson, Mike Epps; estúdio: Warner Bros. Pictures, Legendary Pictures, Green Hat Films, IFP Westcoast; distribuição: Warner Bros. 100 min
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