Terra Estrangeira

Walter Salles se consagrou como grande diretor brasileiro da geração da retomada já em seu terceiro filme, “Central do Brasil”. Antes, porém, o cineasta dirigiu “Terra Estrangeira” em parceria com Daniela Thomas, um trabalho mais pessoal, mas tão forte e tocante quanto o filme que o alçou à fama.
O longa narra a história de Paco, um jovem que, frente à morte da mãe e à falta de perspectiva de viver no Brasil do governo Collor, aceita levar uma encomenda clandestina a Portugal para assim conseguir dinheiro suficiente que pague seu exílio.
A dupla de diretores filmou em preto-e-branco pois acreditava que essas eram as cores ideais para representar o sentimento duplo daquela geração da qual eles fizeram parte, balançada entre a esperança e o desespero. Mistura de thriller com romance, que surge quando o protagonista vivido por Fernando Alves Pinto conhece a personagem de Fernanda Torres, “Terra Estrangeira” é um retrato de uma juventude que tentava se encontrar em um país que deixou de ser “pai” num momento em que seus “filhos” começavam a se perguntar: “E agora, como é que eu vou me virar?”
Além de contar com planos estudados e compostos cuidadosamente, o filme tem no roteiro a colaboração do então novato e promissor Marcos Bernstein (que mais tarde voltaria a trabalhar com Salles em “Central do Brasil”) e o consagrado escritor Millor Fernandes, cuja ajuda na construção dos diálogos agregou qualidade às belíssimas imagens fotografadas por Walter Carvalho.
As cenas de “Terra Estrangeira” encantam por um lirismo intríseco, que se sobressai na seqüência em que Fernanda Torres canta versos chorados de “Vapor Barato”. Ao fundo, na voz de Gal Costa, a música torna a cena, se não inesquecível, no minímo digna de um aperto no coração. Sozinha, ela já faz valer a hora e meia que a precede. No todo, completa uma elegia entoada no momento da busca de um cinema por sua identidade, seu povo, sua casa.
Terra Estrangeira (1996, Brasil/Portugal). Direção de Walter Salles e Daniela Thomas. Com Fernando Alves Pinto, Fernanda Torres, Alexandre Borges, Laura Cardoso, Tchéky Karyo, João Lagarto, Luís Melo.
O DVD
Apresentado em uma embalagem digipak fina e protegida por uma luva, o DVD comemorativo dos 10 anos de “Terra Estrangeira” foi lançado em uma edição caprichada pela VideoFilmes. A embalagem se abre e traz impressas diversas citações sobre o filme publicadas em jornais e revistas do Brasil e do mundo. Na parte de dentro, há também um texto assinado por Walter Salles e Daniela Thomas.
A imagem do filme está em seu widescreen original e é apresentada em ótima qualidade, valorizando principalmente o contraste do preto-e-branco da fotografia de Walter Carvalho. O som, em Dolby Digital 2.0, foi remasterizado para esta edição, não deixando nada a desejar.
Apesar de poucos, os extras são valiosos. Há um “curta” que Daniela Thomas fez com Fernando Alves Pinto em Nova York a fim de apresentar o ator a Walter Salles como candidato ao papel de Paco. Também está presente o documentário “De Volta a Terra Estrangeira”, realizado em 2005 numa visita dos diretores ao Minhocão de São Paulo, uma das principais locações do filme. É um documentário curto, mas abrangente, que também conta com depoimentos de Fernanda Torres e Fernando Alves Pinto, além de imagens inéditas de bastidores.
Mas caso você queira ir realmente fundo no que há por trás da realização de “Terra Estrangeira”, o prato principal é a faixa comentada por Walter Salles, Daniela Thomas e o crítico de cinema Carlos Alberto Mattos. Faixas comentadas sempre são uma atração que vale a pena ser conferida e esta é bastante informativa, o que é fundamental. Os cineastas explicam detalhes de como planejaram as cenas e apontam o significado de cada elemento nelas (só para citar um exemplo, logo no início, Salles compara o prédio de Paco com um navio, como se ele estivesse emborcado no Minhocão, um plano que ecoa mais tarde no filme). É um grande atrativo, não só para quem gosta de entender escolhas de direção, mas também para qualquer um que queira apreciar um pouco mais esta obra de arte de nosso cinema.
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