A Concepção

Sobre ligar o foda-se

Eu já senti isto. Você provavelmente também já sentiu. Chega uma certa idade em que a gente simplesmente se cansa de tudo e quer mudar o mundo. E quando você não tem uma idéia muito clara sobre o que quer da vida, aquela neblina dentro da sua cabeça parece nunca se dissipar. Ser e não ser: eis “A Concepção”, segundo longa de José Eduardo Belmonte (“Subterrâneos”), onde encontramos um grupo de jovens que vivem com esse sentimento de crise constante. Só que em vez de quererem ser alguém, eles pegam a contra-mão e decidem ser ninguém.



Tudo surge com a chegada de um cara que eles apelidam de X (interpretado pelo sempre inspirado Matheus Nachtergaele). Fundam um movimento que não é movimento, chamado Concepcionismo. E as regras do clube são:

1. Morte ao ego.
2. Ser uma nova personalidade a cada dia.
3. Toda memória deve ser apagada.
4. O dinheiro deve ser abolido.
5. A humanidade está doente, o Concepcionismo é o caminho para a cura.
6. O concepcionista é uma fraude que dura 24 horas.
7. O caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria.
8.?
9. Voa!
10. Tudo o que foi dito deve ser esquecido agora.

A trama toda gira em torno daquela gente fazendo gato e sapato do livre-arbítrio, com direito a orgias épicas (uma delas filmada num longo plano-seqüência), álcool e entorpecentes a gosto, um de cada vez ou tudo ao mesmo tempo. O negócio é fazer o que você quiser. Viva la revolución!

Belmonte parece ter entrado de cabeça nessa idéia. Da filmagem à montagem, o diretor usa, mas abusa da experimentação. Perdi a conta de quantos tipos de filtros, filmes, câmeras e trucagens ele utilizou. Durante um certo tempo, eu entrei naquela viagem junto com os personagens, gostando daquele caos audiovisual. Mas depois a coisa toda começou a ficar poluída demais. Belmonte não chega a ser um Tony Scott, que te deixa tonto com tanta firula, mas se arrisca um bocado com essa opção de testar o público.

“A Concepção” não é filme para ser visto por qualquer um, nem para se ver a qualquer momento. É um filme que requer um determinado estado de espírito para ser apreciado (e com isso quero dizer que você tem que estar com a mente aberta – a maneira como irá abri-la fica por sua conta). Seu maior problema é a ausência de uma estrutura mais firme, capaz de aproximar o espectador dos personagens. Entretanto, pensando um pouco mais a respeito, cabe a noção de que o filme não quer criar uma identificação deles com o público, propositalmente (afinal, o Concepcionismo é isso: não ter identidade, se transformar a todo momento, ser ao mesmo tempo em que não se é).

Esta pode ou não ter sido uma opção consciente de Belmonte, que diz ter feito um filme experimental e pop – conceitos que se evitam por natureza. Por tentar misturar água e óleo, o diretor cria um filme estranho. Tem a vibração de “Clube da Luta” e “Trainspotting” (deste especialmente, graças ao bom uso da trilha sonora), mas não consegue se equiparar a eles com seu argumento.

“A Concepção” pode ser visto como uma crítica a uma geração sem rumo ou um protesto contra uma sociedade padronizada ou uma apologia à anarquia ou um manifesto anti-drogas – um de cada vez ou tudo ao mesmo tempo. Se uma coisa fica provada, é que um pouco de ordem não faz mal a ninguém. Certamente, teria feito bem ao filme.

A Concepção (Brasil, 2006) – em cartaz nos cinemas

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