"Dália Negra": Homenagem noir

Brian De Palma é visto por alguns como um cineasta sem estilo próprio. Isto porque, em seus filmes, ele procura sempre homenagear um diretor ou um tipo de cinema que gosta muito, colocando-se a serviço de uma emulação – que, no fim das contas, acaba se convertendo em seu próprio estilo. Tal intertextualidade não é exclusiva de De Palma. Quentin Tarantino é um diretor extremamente referencial, para citar um exemplo mais pop, e nem por isso deixa de fazer filmes menos interessantes. De Palma pode não ser o diretor mais original do mundo, mas, trabalhando com aquilo que conhece e domina, consegue ser imbatível. Em “Dália Negra”, ele não nos oferece planos dos mais memoráveis de sua obra, mas, ainda assim, consegue criar um filme envolvente. Aqui, vemos o diretor se entregar ao cinema noir.

O material é mais do que apropriado: o livro de James Ellroy (mesmo autor de “Los Angeles Cidade Proibida”) sobre um dos mais obscuros crimes de Hollywood, o assassinato da aspirante a atriz Elizabeth Short. O filme conta com a narração típica dos filmes noir, na voz de Josh Hartnett (em mais um bom papel este ano, seguindo “Xeque-Mate”). O ator encarna o policial Dwight “Bucky” Bleichert, que se envolve num triângulo amoroso com seu colega de profissão Leland “Lee” Blanchard (Aaron Eckhart) e a namorada deste, a loira gelada Kay Lake (uma Scarlett Johansson menos sensual do que de costume). Hilary Swank é a femme fatale Madeleine Linscott, filha de um ricaço que… Bom, como em qualquer enredo noir que se preze, todos os personagens possuem ligações uns com os outros e alguns não são o que aparentam.



A trama é resolvida sem muito apreço, mas isto é algo que nos últimos anos deixou de ser preocupação de De Palma. Ele está a serviço da imagem, não da história (mesmo que, desta vez, ela seja mais palatável do que as de “Missão: Marte” ou “Femme Fatale”). Com a colaboração imprescindível do diretor de fotografia Vilmos Zsigmond, só faltou mesmo a De Palma filmar em preto-e-branco para reforçar os contrastes e as sombras, mas o tom sépia utilizado serve perfeitamente para recriar a atmosfera de “filme antigo”, que cresce ainda mais com as transições de cenas, feitas freqüentemente com o efeito “cortina”, recurso hoje fora de moda (menos para George Lucas, claro, mas em “Star Wars” é caso de “marca registrada” da saga).

Na direção dos atores, fica claro que De Palma também procurou instruí-los para atuarem como num filme dos anos 40. Veja, por exemplo, na cena em que Buck e Kay fazem a clássica “transa na sala de jantar”: depois de se agarrarem e se beijarem com aquela vontade incontida, os dois rumam para a mesa, onde o ato irá se consumar, e, Hartnett, com todo o estilo possível, dá aquele belo puxão na toalha, jogando no chão tudo que estava em cima. Não é uma cena típica de De Palma. É uma cena típica de uma época. E é a isto que o diretor se curva em “Dália Negra”: faz um filme altamente referencial e de revisitação, mas, ainda assim, elegante, pictórico e cadenciado. Mais que adjetivos, estas são características do cinema de De Palma. Quem precisa de estilo próprio filmando assim?

Dália Negra (The Black Dhalia, 2006, Alemanha/EUA), dir.: Brian De Palma – nos cinemas
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