Elogio ao fracasso

Problemas estruturais da instituição familiar têm sido tema de vários filmes ultimamente. Só este ano podemos citar pelo menos quatro: “A Lula e a Baleia”, “Impulsividade”, “Retratos de Família”, “O Solitário Jim”. “Pequena Miss Sunshine” se junta a esse grupo, que tem no sarcasmo sua melhor estratégia de análise. O humor aqui está em situações típicas de uma comédia (a família empurrando a Kombi, por exemplo), mas se sobressai principalmente por meio de um diálogo irônico e da forma como ele é dito. Como na cena em que Greg Kinnear pede aos parentes para tentarem “parecer normais”, quando um policial pede para ele encostar o carro.

“Pequena Miss Sunshine” é um filme que dialoga muito com o tipo de humor melancólico que Wes Anderson sabe fazer como ninguém. Lembra “Os Excêntricos Tenenbaums” por retratar uma família desajustada, na qual cada membro tem sua esquisitice, mas que, apesar de tudo, ainda mantém a esperança de permanecer unida e ser realmente uma família – muito mais do que ter uma mera ligação de parentesco. E o melhor de tudo é que ele não tenta passar nenhum tipo de mensagem moralista ou achar culpados para aquele pessoal ser daquele jeito. Há claramente um problema de comunicação entre eles, seja em decorrência da freqüente discordância entre os pais (Kinnear e Toni Collette), da revolta silenciosa do filho mais velho (Paul Dano), da depressão do irmão suicida (Steve Carell) ou da porralouquice do avô (Alan Arkin). Cada um ali tem uma personalidade bastante distinta e é difícil mesmo manter uma relação de interdependência desse jeito. O que o filme faz é desenvolver cada uma das relações, explorando não só o “lado ruim” de cada um, mas enaltecendo também o “lado bom”. Ele constrói personagens tridimensionais.



Desde o início, o longa deixa claro que outro tema que irá explorar é o “sucesso como base para a felicidade”. É isso que o personagem de Kinnear prega e o que mais irrita seus familiares. Ele trata a felicidade como uma ciência, e a eficiência é o caminho que leva até lá. É de partir o coração a cena em que a pequena Olive (Abigail Breslin) diz ao avô que não quer ser uma perdedora. Pois assim como o subestimado “Sujou… Chegaram os Bears”, de Richard Linklater, “Pequena Miss Sunshine” é justamente um elogio ao fracasso. São dois filmes que nos dizem que não existe tal coisa como “vencer na vida” – expressão vazia e relativíssima, que não quer dizer absolutamente nada, a não ser para nossa sociedade competitiva, onde o segundo lugar costuma valer menos do que o último. Ter sucesso é bom, claro! Mas não tê-lo não é motivo para desprezo, principalmente dentro de uma família. É como diz o personagem de Dano: “A vida é um concurso de beleza atrás do outro. Escola, depois faculdade, depois trabalho… Foda-se tudo isso!”

A cena em que a garotinha apresenta seu número musical no concurso já é uma das melhores do ano, não só por seu humor inerente, mas principalmente por seu desfecho catártico. É ali que os personagens e seus dramas finalmente convergem, e num momento de riso. Ao nos fazer rir da desgraça daqueles personagens, “Pequena Miss Sunshine” nos convida a rir do quão ridícula pode ser a vida se não tratarmos os nossos problemas e os nossos fracassos como parte dela. E isso não é “rir para não chorar”, fingir que está tudo bem. É apenas ser honesto.

Nunca foi tão bom ser imperfeito.

Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine, 2006, EUA), dir.: Jonathan Dayton e Valerie Faris – nos cinemas

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