Fucking great!

Ao longo de sua carreira, Martin Scorsese estabeleceu “marcas registradas” que tornam seus filmes inconfundíveis: o uso da câmera lenta, os planos-seqüência, os cortes secos que aproximam um detalhe de um plano, a câmera que “corre” em direção aos atores no fundo do quadro, os “chicotes” nas transições, além, claro, da trilha sonora, sempre escolhida a dedo. “Os Infiltrados” não contém todos os elementos dessa cartilha, mas, nem por isso, deixa de ser um filme scorsesiano. A ausência dos longos planos-seqüência que se destacam em filmes como “Os Bons Companheiros” e “Cassino” pode deixar o espectador ansioso, mas ela não torna este novo trabalho do diretor menor que outros de seus grandes feitos. Aos 63 anos, Scorsese, hoje, não é apenas mais um cineasta importante. É um mestre.

“Os Infiltrados” foi recebido como “um retorno do diretor às suas raízes”, numa referência aos filmes policiais e centrados no universo gângster que ele começou a abordar com o semi-biográfico “Caminhos Perigosos”, de 1973, ainda hoje um de seus melhores filmes. Eu diria que, na verdade, “Os Infiltrados” é um filme de um Scorsese ciente do que é necessário para se contar esta história: tensa, nervosa, cheia de suspeitas e reviravoltas, onde o “bad cop” pode acabar sendo o “good cop”. Scorsese escolhe as ferramentas certas. Não é porque seu nome está nos créditos que, obrigatoriamente, tem que haver um plano-seqüência daqueles. Se a história não o pede, para quê fazê-lo? E, honestamente, o filme tem tantas cenas tão bem feitas, que não há como confundir: este é um filme de Martin Scorsese. Um filme elegante até nas mínimas movimentações de câmera. Um simples campo e contra-campo possui todo um estilo de ser filmado. É uma direção extremamente precisa.



Mas os méritos de “Os Infiltrados” vão além da direção. O roteirista William Monahan mantém os melhores elementos do material original, o chinês “Conflitos Internos”, e ainda adiciona novos, além de criar diálogos memoráveis que tornam essa versão da história ainda mais interessante – o que, talvez, também de deva à ocidentalização da trama, ambientando-a em um universo com a qual já estamos mais familiarizados (graças ao próprio Scorsese), ou apenas porque o conjunto de talentos aqui reunidos é capaz fazer um filme simplesmente melhor.

Que elenco. Matt Damon em mais uma grande performance, fazendo um vilão que tenta passar imagem de mocinho. Na ordem inversa, Leonardo DiCaprio aparece em seu melhor papel, não só dos três filmes que fez com Scorsese, mas de todos que já fez até agora. E Jack Nicholson. Elogiar a performance de Jack Nicholson é desnecessário. Basta vê-lo, mais nada. E lhe dar seu quarto Oscar. Eu diria que seu Frank Costello é uma das melhores representações do diabo já feitas no cinema (se Scorsese quisesse tornar isso ainda mais óbvio, tocaria “Sympathy of the Devil” em algum ponto). Afinal, um dos maiores truques do diabo é encantar, e Nicholson faz exatamente isso como Costello: encanta o espectador, dosando perversidade, sadismo, humor e carisma. É o vilão que, mesmo quando está em seu momento mais sórdido (e são vários nesse filme), é capaz de nos fazer gostar dele.

Há uma cena, em que Costello aparece com as mãos e a roupa sujas de sangue, que é o exemplo perfeito do que acontece quando dois monstros como Nicholson e Scorsese trabalham juntos: é uma tomada simples, com quatro ou cinco linhas de diálogo, onde não precisamos ver Costello esfaqueando ou esquartejando alguém para saber o que se passou atrás da porta de onde ele saiu. Scorsese não poupa o espectador da violência em várias partes do filme, mas, nesta cena, ele sabia que não era preciso mostrar, pois o efeito seria muito melhor se ela ficasse apenas na cabeça do espectador. O mesmo pode ser dito da cena do “talco” depois da ópera: nós sabemos do que Costello é capaz e podemos imaginar (ou não!) o que ele quer dizer com “não se levante até se sentir entorpecida.”

Eu poderia continuar discorrendo sobre tudo que gostei no filme aqui, mas vou terminar citando apenas duas faixas da trilha sonora: “Comfortably Numb”, do Pink Floyd, e “Gimme Shelter”, dos Stones. Isto é só o básico que você vai ouvir aqui. Me diga o quão raro é encontrar um diretor com um bom gosto musical como este?

Desde que o projeto foi anunciado eu venho dizendo: é só Scorsese moldá-lo a seu estilo e teremos um grande filme. Não deu outra. Quem dera se tivéssemos pelo menos um assim todo ano.

Os Infiltrados (The Departed, 2006, EUA), dir.: Martin Scorsese – em cartaz nos cinemas

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