Romanceando a vida animal

Se você já zapeou por canais como Animal Planet ou National Geographic, provavelmente já viu alguma cena daqueles documentários sobre animais em que vemos a mãe alimentando sua cria, a migração de centenas de bichos entre as temporadas de inverno e verão, além, claro, daqueles momentos presentes em 99,9% desses filmes, quando um predador caça sua inofensiva presa e a devora sem piedade. “O Planeta Branco” é isso. A única diferença significativa é a caprichada fotografia. Aliás, aposto que, quando sair o DVD, esse filme se tornará o favorito entre os vendedores de lojas de eletro-eletrônicos, que o exibirão a exaustão para fazer brilhar os olhos de quem passa por aqueles verdadeiros muros de TVs de plasma.

Pegando carona no sucesso de “A Marcha dos Pingüins”, “O Planeta Branco” pretende mostrar ao espectador como é a vida dos animais no Ártico, tendo como protagonista (sim, protagonista, já que os animais chegam a receber crédito de elenco) uma ursa polar que acabou de ter dois filhotes. Mérito de alguma manobra da equipe de documentaristas (dois dos diretores trabalharam com Jacques Costeau por quase uma década), a câmera entra sabe-se-lá-como dentro da toca da ursa e consegue filmá-la acariciando e alimentando os ursinhos recém-nascidos. Uma daquelas imagens que farão as pessoas na platéia soltarem um: “Aaaah! Que bonitinho!”



Há outros momentos ao longo do filme que também podem te fazer perguntar: “Como diabos eles conseguiram filmar isso?” O porquinho da Índia (me desculpem a ignorância, mas o roedor a que me refiro realmente se parece com um porquinho da Índia) fugindo do lobo por um complexo de tocas debaixo do gelo é um exemplo. Há também cenas no fundo do mar que mostram um polvo vermelho e outros bichos estranhos e belos que, por vezes, parecem saídos de algum filme de ficção-científica. São imagens realmente impressionantes.

Mas, vamos lá: um documentário não deve servir apenas como mera contemplação. É claro que dificilmente todos nós teremos a oportunidade de fazer uma expedição ao Ártico para ver de perto aqueles bichos ou apreciar aquelas paisagens gélidas e assimétricas que só se encontra no topo do planeta, porém, um dos propósitos de um documentário deve ser trazer informação nova ao espectador, e esta parece ter sido a menor das preocupações dos realizadores de “O Planeta Branco”. O que eles tentam nos dizer sobre a vida e o habitat daqueles animais não é nada que não encontremos em rodapé de enciclopédia.

Entretanto, o que realmente atrapalha o filme é a tentativa de humanizar os bichos – algo, aliás, que me incomoda profundamente no superestimado “A Marcha dos Pingüins”. Na tentativa de fazer o público se identificar com os animais, cria-se historinhas para eles. É a mamãe ursa que fica tristonha quando vê que seus filhotes já não precisam mais dela para sobreviverem. É a mamãe foca que se se torna heroína de uma verdadeira cena de ação (com direito a uso de cortes, câmera lenta e trilha sonora de suspense) ao salvar seu filhote das garras da mamãe ursa. São os pássaros que mergulham no mar gelado para “encontrar uma nova vida”. Deus, são animais! O filme chega até mesmo a dizer que “as morsas se deitam na praia e filosoficamente (!) aguardam o retorno do gelo”. Só faltou mesmo contratar atores para dublar os pensamentos dos bichos. Voz de Liam Neeson: “Hoje serei uma morsa ou uma foca? Ou um leão marinho? Hum, pelo meu tamanho, acho melhor ser um elefante marinho, isso sim! Ah… Vida tediosa…”

Este é um daqueles filmes que poderiam perfeitamente ser divididos em capítulos e exibidos como quadro do Fantástico. Eu assisti à cópia legendada, mas não iria me espantar nada se Cid Moreira fosse o narrador da versão brasileira…

O Planeta Branco (La Planète Blanche, 2006, Canadá/França), dir.: Jean Lemire, Thierry Piantanida e Thierry Ragobert – em cartaz nos cinemas.

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