Um perfume cinematográfico

Você percebe que um diretor é bom quando passam 10, 20, 30 minutos e o filme mantém você interessado pela história e dá poucos ou nenhum motivo para reclamar. Com “Perfume – A História de um Assassino”, de Tom Tykwer (“Corra Lola Corra”), isso acontece durante 40, 60, 90, 120, 147 minutos de duração.

Este é provavelmente um dos filmes de serial killer mais criativos já feitos, tanto pelo material em que se baseia (o livro do alemão Patrick Süskind, “Das Parfum”) quanto pela inventividade com que ele foi adaptado. Tykwer cria uma atmosfera envolvente, não só com o conjunto de fotografia, figurinos, maquiagem e direção de arte, mas também com a própria forma como ele narra a trajetória do protagonista, Jean-Baptiste Grenouille, interpretado pelo jovem ator inglês Ben Whishaw (ele fez Keith Richards em “Stoned – A História Secreta dos Rolling Stones” e esteve no gângster “Nem Tudo é o que Parece”).



O longa faz jus a seu subtítulo: é a história de um assassino, começando no momento de seu nascimento, quando é mostrado como Grenouille adquiriu seu “super-poder” em uma das várias cenas memoráveis do filme. Praticamente expulso do corpo da mãe, embaixo da barraca de feira onde ela trabalhava, o bebê aspira os vários odores do lugar e é isso que o faz chorar para respirar. Daí em diante, acompanhamos sua infância e sua adolescência até ele se tornar um jovem adulto, e vemos o que o levou a se tornar um assassino: o desejo de preservar todo e qualquer cheiro em um frasco de perfume, mesmo aqueles que só ele é capaz de sentir (como o cheiro de vidro, por exemplo).

A motivação de Grenouille é tão absurda (e condizente com a irrealidade de seu dom) que se torna quase poética. A cena da orgia, então, é de um exagero lírico tal, que o título mais adequado para o filme talvez fosse “a fábula de um assassino”. É claro que os crimes e o objetivo de Grenouille são condenáveis, mas nem por isso ele deixa de ser um personagem fascinante.

Perfume – A História de um Assassino (Perfume – The Story of a Murderer, 2006, Alemanha), dir.: Tom Tykwer – em cartaz nos cinemas.

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