Shrek Terceiro

Quando os filmes de uma franquia começam a passar de mão em mão, a série tende a ficar cada vez mais irregular. No primeiro “Shrek”, Ted Elliott e Terry Rossio (dupla que hoje faz mais sucesso com piratas) foram dois dos quatro roteiristas que conseguiram conquistar platéias satirizando contos de fadas e desenhos da Disney. O filme acabou lançando um subgênero que se expandiu em filmes como “Deu a Louca na Chapeuzinho” e “Uma Garota Encantada”, forçando até a própria Disney a criar seu próprio exemplar, “Encantada”, que estréia no fim deste ano. Em “Shrek 2”, apenas Joel Stillman permaneceu na equipe junto com o diretor Andrew Adamson, mas ganhou a companhia de outra dupla, J. David Stern e David N. Weiss. Neste caso, a mudança foi benéfica, já que o filme ficou ainda melhor que o primeiro. Mas agora, na terceira aventura, uma nova mudança aconteceu e o inevitável se abateu sobre o reino de Tão, Tão Distante.

Contando com quatro novos roteiristas (na verdade, duas duplas: os veteranos Jeffrey Price e Peter S. Seaman, e os novatos Aron Warner e Chris Miller, o último também assinando a direção), “Shrek Terceiro” decepciona justamente porque os realizadores descartaram o que havia de mais característico nos filmes anteriores: as referências à cultura pop. Sim, ainda existem piadinhas envolvendo elementos contemporâneos que não pertencem ao mundo dos contos de fadas. Mas no original, e mais ainda na seqüência, o público sente uma ligação muito maior com o universo na tela exatamente por ele possuir inúmeros elementos conhecidos do nosso.



A maior perda, ao meu ver, foi aquela noção, tão bem desenvolvida em “Shrek 2”, de que o cinema substituiu os contos de fadas no imaginário do público jovem. Aqui, há pouquíssimas referências a outros filmes. Se antes era praticamente necessário um guia para pegar todas as citações, agora só consigo me lembrar de uma cena parodiando “Kill Bill” e outra que remete, vejam só, ao próprio “Shrek”. É estranha essa ausência, já que Price e Seaman escreveram o ótimo “Uma Cilada Para Roger Rabbit”, no qual a metalinguagem é onipresente, e Miller trabalha na franquia desde o início, ainda que em funções menores.

O pior, porém, é que não foram deixadas de lado apenas as referências ao cinema, mas também aos próprios contos de fadas. Existem algumas brincadeiras com as princesas, como Bela Adormecida caindo no sono a todo momento ou os animais cercando Branca de Neve sempre que ela começa a cantar, mas fica nisso. O que parece é que os personagens não pertencem mais aos contos de fadas: eles viraram apenas personagens de “Shrek”. As piadas se tornaram internas, mas nem assim funcionam muito, como a troca de corpos entre Burro e Gato de Botas, que acaba tirando a graça de ambos justamente por deixarem de ser eles mesmos.

O início do filme é até promissor, lembrando ao público como o quadro foi totalmente revertido com o Príncipe Encantado se tornando o vilão e o ogro, o herói. A cena inicial, que mostra o Príncipe em um teatro barato encenando o que restou de sua dignidade, funciona nesse sentido quando um figurante entra no palco fantasiado de Shrek e o público comemora. Determinado a se vingar do protagonista, o Príncipe vai ao bar dos vilões para convocá-los a atacar o reino. Ele consegue convencê-los ao relembrar como eles foram marginalizados pelos autores de suas histórias (uma inteligente auto-censura da série, aliás, já que isso inclui o próprio Príncipe de “Shrek”) e que agora era a hora de eles darem o troco.

Parece uma boa premissa, e cheguei até a torcer para que Lorde Farquad fosse ressuscitado, mas o filme não permite que ela se desenvolva devido a uma trama paralela e sem graça que envolve um jovem Rei Arthur, a quem Shrek deve buscar para assumir o trono de Tão, Tão Distante (a jornada conta com piadinhas tolas, como colocar os personagens da lenda dos Cavaleiros da Távola Redonda como adolescentes fúteis de uma escola secundária americana, além de fazer do mago Merlin um velho hippie pirado). Assim, o longa acaba por apenas reafirmar o papel secundário dos vilões no fim da história.

No geral, “Shrek Terceiro” corre com um desânimo evidente. A seqüência dos créditos iniciais, que nos longas anteriores foram sempre bem-humoradas, aqui não empolga tanto, sendo apenas mais do mesmo. Eu até dei risadas nos 20 primeiros minutos do filme, mas depois que Shrek parte em busca de Arthur é como se os elementos cômicos que realmente funcionavam dessem lugar a gags visuais que devem agradar mais ao público abaixo dos dez anos de idade. A trilha sonora também é muito inferior às anteriores, que traziam canções vibrantes, como os dois temas da banda Smash Mouth, e revivals de músicas dos anos 70. Aqui, há o uso de “Live and Let Die”, de Paul McCartney, em uma cena fúnebre bastante inadequada para um filme infantil, e Led Zeppelin, em uma das poucas seqüências que lembram o espírito original da série, quando Branca de Neve aparece cantarolando como no desenho da Disney e, logo depois, emenda seus gritos com os de Robert Plant em “Immigration Song”, convocando os animais da floresta para um ataque em massa.

Geralmente, quando você lê uma sinopse, consegue imaginar como a história irá decorrer. E o que espanta em “Shrek Terceiro” é que não acontece nada além disso. Não há surpresas, não há reviravoltas, nem as piadas mais engraçadas são deixadas para o final. As crianças certamente irão se divertir, mas infelizmente, desta vez, os adultos poderão não se sentir igualmente recompensados – o que é uma pena, já que este era um dos principais diferenciais da série.

nota: 5/10 — veja sem pressa

Shrek Terceiro (Shrek the Third, 2007, EUA), dir.: Chris Miller e Raman Hui – em cartaz nos cinemas
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