Saneamento Básico, o Filme

De quantas comédias brasileiras recentes você conseguiria se lembrar se tivesse apenas 10 segundos para responder a esta pergunta? Não vale falar os filmes dos Trapalhões. Nem adaptações de seriados da Globo. Provavelmente, você teria pensado em algum trabalho de Guel Arraes (“Lisbela e o Prisioneiro”), Daniel Filho (“Se Eu Fosse Você”) ou Jorge Furtado (“O Homem que Copiava”). E é deste último que vem “Saneamento Básico, o Filme”, que, a partir de agora, também pode ser incluído na lista de comédias memoráveis da retomada.

É fato que há muita porcaria sendo feito dentro do gênero por aqui. Se o critério qualidade pesar na pergunta feita há pouco, Daniel Filho terá que ser excluído, juntamente com outros diretores bem menos talentosos que nos presentearam nos últimos anos com pérolas como “Gatão de Meia-Idade”, “Coisa de Mulher” e os dois filmes do Casseta & Planeta. E se Guel Arraes e sua trupe estão devendo boas e verdadeiras risadas já há algum tempo, Jorge Furtado é a ovelha desgarrada.

“Saneamento Básico” é seu melhor longa depois de “O Homem que Copiava” e mais uma prova de que o cineasta gaúcho é o grande defensor do cinema de entretenimento no Brasil. Trata-se de uma sátira inteligente sobre a produção cinematográfica nacional, na qual, através da alegoria, o diretor-roteirista ironiza o sistema de captação de recursos a que nossas produções são submetidas, a participação da iniciativa privada e do governo, e, principalmente, a mentalidade de que, para se fazer cinema no Brasil, o filme precisa ter engajamento social. Para Furtado, o engajamento social é o próprio cinema.



A mensagem é clara quando vemos o personagem de Bruno Garcia dizer que “o melhor de se filmar é bobagem”. A bobagem a que ele se refere são gravações caseiras, feitas com amigos, só de brincadeira. Mas, para Furtado, a bobagem é sinônimo de um cinema que diverte o público, mas que nem por isso deixa de ter sua importância. Um cinema que ele faz desde que iniciou a carreira como diretor de longas. E mesmo em seus curtas, o humor e a linguagem leve e dinâmica são usados para entreter o espectador. Foi através disto, aliás, que ele já fez suas próprias “denúncias sociais”, no consagrado “Ilha das Flores” e no ótimo “O Dia em Que Dorival Encarou a Guarda”.

Com “Saneamento Básico”, não é que Furtado esteja dizendo que problemas sociais não são importantes e não devem ser retratados na tela. O ponto é que o cinema não precisa ficar preso a isso. Hoje, a identidade audiovisual no Brasil vive em um impasse entre o “cinema de autor” e o “cinema de indústria”. E o tal engajamento é o pivô da disputa, já que serve como apoio para que sejam feitos em abundância vários dramas sobre a miséria, a ditadura, a seca e outras aflições do passado e do presente do país. Agora, veja quantos filmes de terror, ação, ficção-científica ou infantil realmente bons estão sendo produzidos aqui? Afinal, filme de gênero não é relevante… É só escapismo… Mas comédia televisiva pode!

Não é à toa que, ao longo de “Saneamento Básico”, a protagonista, Marina – vivida por Fernanda Torres, ela é a idealizadora do projeto de construção de uma fossa para o esgoto de sua cidade, para o qual não há verba disponível na prefeitura – gradativamente deixe de lado o objetivo do filme que está fazendo, que é justificar a obra, e passe a se preocupar apenas com o sucesso do filme. E quando entra em cena o personagem de Lázaro Ramos – um editor de vídeos de casamentos e formaturas que se passa por cineasta – surge também a maior ironia criada por Furtado, que pode ser lida como uma crítica à hipocrisia de quem pretende tratar de questões sociais no cinema somente para posar de artista, quando, na verdade, não tem muito a dizer.

Pontuar as referências e alfinetadas dadas no decorrer do longa seria praticamente transcrevê-lo. O humor está presente em praticamente todas as cenas, atingindo seus pontos mais altos quando os personagens estão planejando o roteiro e, mais tarde, quando o gravam. Este humor funciona porque os atores estão muito bem. Nas primeiras cenas, Torres, Wagner Moura, Camila Pitanga e Paulo José parecem estar interpretando eles mesmos, ou melhor, as figuras que estão associadas às suas imagens. Mas eles conseguem se livrar do estereótipo televisivo e se tornam pessoas críveis. É perfeitamente possível acreditar que eles são habitantes de uma cidade pequena e que nunca fizeram cinema na vida. O melhor disso está nas cenas do filme-dentro-do-filme, no qual Moura, Pitanga e Garcia (além de Lúcio Mauro Filho e Zéu Britto, em pequenas participações) propositalmente fazem péssimas atuações. Eles interpretam atores amadores e convencem, tornando o resultado engraçadíssimo.

O estilo de Jorge Furtado não se define na elaboração dos planos, na montagem ou na fotografia, mas, sim, na metalinguagem. Desde “Ilha das Flores”, Furtado fala com o espectador, usa jogos de palavra, foge do enredo para explicar um termo estranho dito por algum personagem, entre outras brincadeiras (seu parceiro mais freqüente é o dicionário, e, aqui, ele chega a estar presente fisicamente em duas cenas). Um fruto desse estilo pode ser percebido logo no começo do filme, na habitual tela da Lei de Incentivo e dos patrocinadores, quando Fernanda Torres, em voice-over, chama o público para ocupar as cadeiras ainda vazias do cinema. Felizmente, a piadinha batida e desnecessária não contamina o que vem a seguir: uma comédia popular de qualidade, que pode encontrar seu público tanto nos shoppings quanto nas salas do “circuito de arte”.

Não é isto que nossos cineastas deveriam sempre perseguir?

nota: 8/10 — veja no cinema e compre o DVD

Saneamento Básico, o Filme (Brasil, 2007), dir.: Jorge Furtado – em cartaz nos cinemas
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