Primo Basílio

A história da esposa que trai o marido enquanto ele viaja já foi contada inúmeras vezes. O que importa, então, é como contá-la. E Daniel Filho conta muito mal em “Primo Basílio”. Escrevo sem ter lido o romance de Eça de Queirós, mas esta mais recente adaptação carrega um tom moralista irritante.

Dá para imaginar um outro diretor mais talentoso fazendo um bom filme com os temas que a trama trata: mais do que a infidelidade conjugal, é a inversão de papéis na relação entre patroa e empregada que conta. Com um pouco de ironia, a vingança de Juliana (Glória Pires) contra Luísa (Débora Falabella) poderia ter rendido bons momentos. O problema é que Filho demora a entrar nesta questão, dando tempo suficiente para o espectador se perguntar por que a empregada continua a fazer suas tarefas mesmo depois de estar com a faca e o queijo na mão. O longa poderia ter funcionado se o foco fosse esse embate, mas, infelizmente, Filho e os co-roteiristas Rafael Dragaud e Euclydes Marinho preferem dar mais atenção à punição que Luísa deve sofrer por ter sido infiel.



Ora, é claro que a traição não é algo a ser louvado, mas, em “Primo Basílio”, arrependimento e perdão não bastam para resolver o drama de Luísa: ela precisa sofrer. A jovem não só fica paranóica e tem que se rebaixar às chantagens da empregada, como ainda é obrigada a se humilhar e quase se prostituir para conseguir o dinheiro que Juliana exige. E quando você pensa que ela já chegou no fundo do poço, um colapso nervoso surge. Se alguém levar ao pé da letra tudo que o filme prega, jamais irá sequer pensar em chegar perto da cerca, quanto mais pulá-la.

Além de abordar a infidelidade de uma forma que só a sua tia-avó do interior mais conservadora faria, Filho também usa uma direção antiquada e cafona. Incapaz de criar um plano memorável sequer (a não ser os de efeito cômico involuntário, como a “transa em 360º”), o cineasta adota o velho estilo novelão. Aparentemente, usar uma grua já requer muito esforço artístico de sua parte. Para a platéia que acompanha os folhetins televisivos, não deve fazer diferença ver este filme, a não ser pelo tamanho da tela. Mas quem procura por cinema de verdade, não deve se enganar.

Outra razão pela qual o roteiro não funciona é por situar a história em uma época e não fazer paralelos com os dias de hoje. Por que não contrapor os valores dos anos 50 com os atuais, ao invés de apenas valorizar as normas de boa conduta dos tempos dos nossos avós e condenar qualquer tipo de transgressão? A própria traição da protagonista é um exemplo dessa falha: Luísa é toda recatada e pura; quando ela sai dos trilhos, só acontecem coisas ruins (e, para piorar, o primo ainda é um filho da puta!). Mais uma vez, não se trata de aprovar a infidelidade, mas mostrar que Luísa se entregou ao desejo porque se sentia presa de alguma forma (seja por não se permitir a liberar suas taras, seja por ter que levar uma vida de dona de casa, enfim…). Isto, sem falar nos diálogos. Tudo bem que os personagens falem o português da época, mas qual o objetivo de usar pieguices como as que ouvimos nas declarações de amor entre Basílio e Luísa? Não pude conter uma gargalhada na cena em que o sujeito chama a esposa de “minha doce ave noturna”, justo no momento em que ela está se soltando na cama.

Nas atuações, quem se sai realmente bem é Simone Spoladore, a única ali que sabe diferenciar o seu trabalho no cinema e na TV. O resto do elenco vem de novelas e traz junto todos os seus maneirismos. Débora Falabella parou em “Lisbela e o Prisioneiro”. Fábio Assunção não tem muito trabalho, a não ser o papel de macho na cópula. Reinaldo Gianecchini se segura bem nas poucas cenas que têm – até o ato final, quando sua participação cresce e ele volta a nos lembrar que é um modelo, e não um ator. Glória Pires se sobressai pela experiência, mas sinto que ela poderia ter intensificado um pouco mais a maldade de sua personagem.

Há ainda um comentário racista que fica solto no filme, quando Juliana reclama de ter que dividir o quarto com Joana, a outra empregada (vivida pro Zezeh Barbosa), e diz que “negro cheira”. Luísa poderia defender Joana, só que fica calada… Mas não é de se espantar que esse tipo de coisa aconteça em um filme de Daniel Filho (afinal, ele já incluiu uma piada infame sobre a morte de Ayrton Senna em seu trabalho anterior, o terrível “Muito Gelo e Dois Dedos D’Água”). Portanto, se você quiser arriscar, entre no cinema sabendo o que esperar.

nota: 2/10 — não se culpe por não ver

Primo Basílio (2007, Brasil), dir.: Daniel Filho – em cartaz nos cinemas
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