Homem de Ferro

Diferente do Homem-Aranha, dos X-Men ou mesmo do Hulk, o Homem de Ferro não é um personagem que conta com tanta popularidade no universo Marvel. Sem dúvida, ele é um super-herói que as pessoas reconhecem, mesmo se não forem fãs de quadrinhos. Mas pergunte nas ruas qual é a identidade secreta por trás da armadura ou quem é seu arqui-inimigo e, provavelmente, poucos saberão responder de imediato.

 

É justamente por se tratar de um personagem com o qual o público não se importa a ponto de torcer o nariz se o tom amarelado da armadura está mais escuro ou mais claro do que na HQ, que esta primeira incursão de Tony Stark no cinema já chega às telas com uma vantagem: a de ter uma platéia não tão exigente. O que a maioria vai exigir é o básico: que o filme seja bom. E a isso Jon Favreau corresponde, e com sobra. “Homem de Ferro” é uma das melhores adaptações da Marvel até agora, ficando atrás apenas de “X-Men 2” e “Homem-Aranha 2”.



 

Foram feitas várias mudanças em relação à história original, a começar pela atualização da linha do tempo: ao invés de Stark ser capturado no Vietnã, agora ele é vítima de uma emboscada no Afeganistão. E o motivo da armadilha e quem está por trás dela também diferem bastante do que contam os quadrinhos. Mas o tema da evolução tecnológica usada a favor da fabricação de armas para a defesa nacional continua lá.

 

Felizmente, a Guerra do Iraque não vai além de uma alusão dentro do filme. Na verdade, o governo americano não chega a ser citado. O que há de crítica aqui em relação à política armamentista diz respeito a quem lucra construindo armas – no caso, a empresa do próprio Stark (cuja marca é estampada em tantos equipamentos que mais parece a Acme dos Looney Tunes). O protagonista, aliás, é um personagem conflituoso, já que, apesar de abandonar a indústria bélica, constrói sua própria arma e decide fazer justiça com as próprias mãos (ou incentiva outros a fazê-lo, como vemos em uma determinada cena).

 

Mas não espere que esse tema seja desenvolvido. É um filme blockbuster de super-herói, afinal de contas, e ele funciona muito mais por seu lado pop do que político. Isso fica ainda mais fácil quando o ator principal é um artista versátil como Robert Downey Jr., que consegue transformar a arrogância e o egocentrismo de seu personagem em puro carisma. Seu Tony Stark é quase um Bruce Wayne, só que mais cool (é notável, aliás, como Homem de Ferro e Batman compartilham várias características, inclusive na promoção, ainda que não premeditada, da escalada da violência).

 

Graças à empatia gerada por Stark, as mais de duas horas do filme passam quase despercebidas. É verdade que o plot twist acaba apressando um pouco as coisas para que o filme chegue ao confronto final (não seria um filme de super-herói sem uma grande luta no clímax, diz a fórmula). Mesmo assim, o roteiro foi bem amarrado para que o longa exista sozinho, sem a obrigação de uma continuação, ainda que saibamos que, mais cedo ou mais tarde, ela vai surgir. E já que falei na fidelidade aos quadrinhos mais acima, os fãs deverão adorar duas referências diretas (uma delas imperdível após o fim dos créditos) que indicam o rumo que a história vai seguir.

 

Aliás, quando o Homem de Ferro voltar, que seja novamente pelas mãos de Jon Favreau. Em seu quarto filme como diretor (e vigésimo como ator, já que faz uma participação como o chofer de Stark), Favreau se mostra bem mais ambicioso e talentoso do que no divertido “Um Duende em Nova York” e no irregular “Zathura” (seu longa de estréia, “Crime Desorganizado”, ainda não foi visto por este crítico). Ele se sai bem tanto em cenas grandiosas de ação quanto naquelas que são baseadas em diálogos ou humor físico (neste aspecto, muito em função da interação de Downey Jr. com um robô que funciona como alívio cômico). Favreau não chega a ser perfeccionista nos enquadramentos como um Bryan Singer, mas está anos-luz à frente de alguém como Tim Story. Ele é um diretor competente e também um apaixonado pelo material – o que resulta em uma entrega ao trabalho que normalmente gera bons resultados.

 

Esta é uma entrada muito bem-vinda no rol de filmes da Marvel (que agora é um estúdio independente, vale lembrar, com total controle criativo sobre seus projetos). Se os super-heróis se estabeleceram de vez no cinema, como os anos vêm provando, “Homem de Ferro” mostra que a fonte de boas idéias da casa ainda não está esgotada.

 

nota: 8/10 — vale o ingresso

 

Homem de Ferro (Iron Man, 2008, EUA)
direção: Jon Favreau; com: Robert Downey Jr., Terrence Howard, Jeff Bridges, Gwyneth Paltrow, Leslie Bibb, Shaun Toub, Faran Tahir; roteiro: Mark Fergus, Hawk Ostby, Art Marcum, Matt Holloway (baseado nos personagens criados por Stan Lee, Don Heck, Larry Lieber e Jack Kirby); produção: Avi Arad, Kevin Feige; fotografia: Matthew Libatique; montagem: Dan Lebental; música: Ramin Djawadi; estúdio: Marvel Studios, Dark Blades Films, Road Rebel; distribuição: Paramount Pictures. 126 min

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