Por que eu vou chorar quando John Cleese se for…

Eu adoro John Cleese. Adoro Monty Python (sempre uso, sozinho, a frase “Ninguém espera a inquisição espanhola!”), mas para mim Cleese sempre foi o melhor deles – e de sua colaboração com Michael Palin vem o melhor e talvez mais famoso quadro dos Pythons, o do papagaio morto. Assim como eu assisto a qualquer filme com Samuel L. Jackson, eu também assisto a qualquer filme com John Cleese, inclusive “George, o Rei da Floresta” e “As Panteras – Detonando”. Quando eu li o artigo que está na versão online da famosa revista The Spectator, me surpreendi com o texto escrito por Cleese, que demostra o mesmo senso de humor pelo qual tantos o admiram, mesmo após tantos anos. Fiz uma pequena tradução para os nossos leitores, para que possamos compartilhar um pouco mais da genialidade desse grande mestre do humor:

A VERDADEIRA RAZÃO PELA QUAL EU ME JUNTEI AO THE SPECTATOR



John Cleese diz que a revista tem sido tão consistentemente horrível com ele durante os anos que se passaram que a única maneira de garantir críticas positivas foi se juntar ao seu time de escritores.

Nas últimas quatro décadas eu recebi muitas críticas na The Spectator, todas elas confusas (no senso técnico teatral de “extremamente ruim”). Por exemplo, em 1976 a The Spectator escreveu sobre “Fawlty Towers”:

Eu estou com dor de barriga, desde que comecei a escrever essa coluna, sobre os baixos padrões dos programas. Amigos e conhecidos me contaram, “Ah! Mas você assistiu a ‘Fawlty Towers’? Você vai gostar desse!”… Bem, no último domingo eu finalmente assisti à maldita coisa e estou feliz em dizer que não ri nenhuma vez sequer. E na verdade eu achei “Fawlty Towers”, assim como seu predecessor “Monty Python”, bem desagradável… Quando Cleese está envolvido eu detecto traços de sadismo. A batalha contínua entre o Sr. e a Sra. Fawlty é obsessiva e o som de um homem gritando o mais alto possível por meia hora está próximo de se tornar chato. Existe a mesma tendência como no “Monty Python” de pegar a piada e martelá-la sem remorsos no chão. Histeria é a atmosfera prevalente, mas não é uma histeria saudável. O personagem Fawlty de Cleese parece desprezível e desumano… Outro programa nada engraçado segundo a minha opinião é o novo esforço John Bird-John Fortune, “Well Anyway”.

Quando a segunda temporada começou, a revista escreveu:

O Sr. John Cleese e sua série cômica “Fawlty Towers” retornam às nossas telas na segunda-feira. Novamente eu a assisti de cara fechada. O problema com Cleese é que ele não consegue ver além de si mesmo. O único personagem que existe no seu cenário é seu alter ego Fawlty. Até que possa adquirir um ponto de vista do mundo menos egoísta e enxergar alguma humanidade nas pessoas que, no presente, ele acha que foram colocadas na Terra somente para irritá-lo, Cleese nunca me fará rir.

“Monty Python” tinha uma reputação um pouco melhor:

O status do Monty Python como tesouro nacional cegou o público para suas imperfeições e criou uma tradição entediante de humor juvenil, meio chapado, travestido de comédia verdadeira… Os desenhos tecnicamente bem feitos mas nada engraçados de Terry Gilliam… Quando os quadros acabavam abruptamente, com um tiro, ou um peso de 100 toneladas caindo do céu, ou a câmera se virando para mostrar o estúdio, ou créditos aparecendo no meio do show, esses truques baratos eram saudados com maquinações Brechtianas ou declarações surrealistas. Na verdade, sua existência servia como um disfarce para o fato de que não tínhamos como terminar os quadros apropriadamente, ou simplesmente terminar o programa… A maiora do suposto material “ofensivo” era juvenil e não satírico… No final das contas, porém, era tão subversivo quanto a Harry Secombe colocando a língua de fora. Para cada um dos telespectadores desgostosos, havia muito mais daqueles que estavam somente irritados ou entediados, e muitos mais alcançaram o botão para desligar a televisão.

Quando eu representei Petruchio em “A Megera Domada” para a BBC, a The Spectator comentou:

Jonathan Miller tomou conta das produções de Shakespeare da BBC com resultados predizíveis. Ele começou escalando John Cleese, meu bête noir, como Petruchio em “A Megera Domada”, um erro de julgamento típico do peculiar Doutor: Cleese não sendo um ator de verdade, mas sim uma marionete enlouquecida capaz de retratar somente raiva e frustração, como Mr. Punch… Em uma atmosfera apropriada de admiração mútua doentia, Cleese e Miller apareceram no Parkinson juntos… Breves amostras da produção não confirmaram seus pontos de vista… Cleese estava, a parte de tudo mais, inaudível, escolhendo por alguma razão declamar suas falas com os dentes cerrados, como o Príncipe Charles. Eu fui novamente abarrotado pela sua incrível arrogância.

A filmagem de “The Secret Policeman’s Other Ball” para caridade para a Anistia gerou essa reação:

O show do ano passado foi um desastre… Notavelmente pelo tipo de humor “esperto” que é popular somente para crianças do nível médio e estudantes… Eu não quero ver John Cleese sem roupas. Na verdade, eu não quero ver John Cleese de maneira alguma.

Minha tentativa de ajudar Robin Skynner a escrever um livro sobre psicologia foi saudada com isso:

A primeira coisa que eu tenho a dizer sobre esse livro é que ele é não pode ser lido. Completamente terminantemente não pode ser lido. Eu desafio qualquer um a acabar um capítulo sem puxar os cabelos e gemer. Você pode usá-lo para alimentar uma traça com disenteria violenta e eu prometo que a criatura morreria de uma prisão de ventre literária aguda lá pela página dez… Sua estrutura idiota é tão incoerente quanto entediante… Imagine o tédio excruciante ao ler 413 páginas de indiferentes e disfarçadas argumentações para se viver bem.

Porém, existe uma certa esperança no fato de receber consistentemente tantas notas ruins nesta revista. Quando uma delas sai, existirão críticos que não gostarão dela e o que alguém pode esperar é que eles escrevam para jornais com circulações menores que a The Spectator tinha há 20 anos atrás. Também ajuda saber que essas críticas nunca serão lidas pelos colegas de alguém nas artes criativas, ou, sem dúvida nenhuma, por qualquer um que possa lhe oferecer trabalho. Então, uma passada de olhos nessas páginas foi tão danosa quanto uma passada de olhos no, digamos, Zagreb Bugle.

Divergindo do ponto principal, ideias interessantes emergem frequentemente do mundo da administração. Um conceito útil é o do “incompetente articulado”. Esta é uma pessoa que fala claramente e de forma convincente sobre algo, sem na verdade entender coisa alguma sobre a realidade que suas palavras estão tentando descrever. Tal pessoa é perigosa para uma organização porque eles podem soar persuasivamente, apesar do fato de que eles não tem idéia absoluta do que eles estão falando.

O que nos trás de volta aos críticos. É extremamente engraçado que pessoas que não conseguem escrever diálogos, e que não conseguem dirigir ou atuar igualmente, são designados para julgar aqueles que conseguem. Mas a razão é óbvia: ninguém com habilidades criativas quer ser um crítico. Então o trabalho tem que ser feito por pessoas que são não qualificadas, e aparentemente estão em necessário desespero pelo pequeno pagamento que isso traz.

Para ser mais sincero (e pode ser um pouco tarde pra isso), podem existir alguns críticos que, incapazes de escrever, dirigir ou atuar, podem ter passado por um estranho processo místico no qual eles receberam uma transmissão de conhecimento genuíno dessas atividades. Infelizmente, eu não sei quem eles são, porque quando eu quero saber algo sobre uma produção que está acontecendo, eu tenho a sorte de poder telefonar para um colega que é capaz de escrever, dirigir ou atuar.

Finalmente eu gostaria de fazer um comentário crítico:

John Cleese é um indivíduo consideravelmente talentoso, de disposição humilde e admirável e de temperamento doce, que continua a fazer sombra sobre seus contemporâneos, especialmente Michael Palin (The Spectator).

John Cleese é um editor contribuinte da The Spectator e irá ocasionalmente escrever artigos sobre uma gama variável de assuntos.

Clique aqui para ler o artigo original.

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