Che

O momento escolhido para a exibição de “Che” nos cinemas não poderia ser mais apropriado. Numa época em que o mundo atravessa uma crise econômica, que se originou justamente do estouro da bolha no setor imobiliário americano, as palavras de Ernesto Guevara sobre temas como reforma agrária e sistema capitalista ganham ainda mais impacto.

Fazer esse paralelo pode não ter sido a intenção do diretor Steven Soderbergh e do ator Benício del Toro, que além de interpretar Che com competência e uma semelhança física assombrosa, também é um dos produtores do filme. Mas mesmo que seja um comentário involuntário, ele se mostra oportuno por refletir aspectos do sistema financeiro dominante que sempre foram combatidos pelos revolucionários cubanos.



Mas o filme está longe de ser uma ode ao comunismo. Figura polêmica que sempre foi, Guevara é retratado na tela como um homem, antes de mais nada. Sente-se que existe ali um pouco de uma aura romantizada em torno do personagem, talvez fruto da própria admiração que ele suscita nos realizadores do longa. Porém, aqui Che está bem mais humanizado do que em “Diários de Motocicleta” – filme do brasileiro Walter Salles que faz de Guevara praticamente um semideus, um herói sem falhas em seu período pré-revolucionário.

Talvez a tarefa mais difícil de “Che” seja justamente separar o homem de seu trabalho. Se o lado carismático de Guevara está presente quase o tempo todo na tela – desde a conversa informal de bastidor até os atos isolados em que ele se mostra rigoroso com seus princípios – também está lá, exposto, o seu idealismo político (muito em função de o filme ser baseado no livro escrito pelo próprio Che, “Reminiscências da Guerra Revolucionária Cubana”).

São esses momentos que fazem o longa funciona melhor – mesmo que o espectador não simpatize com Guevara, ele há de reagir ao que vê. O que já não acontece a partir de certo ponto, quando “Che” vira um filme de guerra mais convencional, ainda que bem filmado por Soderbergh. Aliás, as cenas (fotografadas pelo próprio cineasta, sob pseudônimo) surgem bonitas, nobres até demais, levando em consideração as situações em que a maior parte da ação se passa. No entanto é uma beleza natural, e não acadêmica ou rigorosa demais. Além da composição, colabora para o apelo visual o uso de pelo menos dois tipos de texturas (tendência que Soderbergh exibe desde “Traffic”): 16mm preto e branco, granuladíssimo, dando uma aparência áspera à época pós-revolução em que Che participa da assembléia da ONU em Nova York; e o digital colorido, lindo, captado com a câmera RED, que em contraste enaltece e torna bem mais exuberantes as cenas localizadas na selva cubana.

A estratégia de dominação da ilha empreendida pelos guerrilheiros não deixa de ser uma parte fundamental da biografia de Guevara, mas não soa tão interessante quanto o homem e seus pensamentos. Como primeira parte de uma cinebiografia, este “Che” cumpre bem seu papel de mostrar a ascenção do líder revolucionário por meio de idas e voltas em três tempos na cronologia dos fatos. A montagem transita entre as épocas sem causar confusão e faz paralelos inteligentes por meio de flashbacks. Num deles, por sinal, temos um flashforward não declarado que prenuncia o que virá na segunda parte – aquela que dirá se o intento de Soderbergh foi realmente abrangente como deveria ser na análise de uma das personalidades mais influentes do século 20.

nota: 8/10 — vale o ingresso

Che (Che: Part One, 2008, França/Espanha/EUA)
direção: Steven Soderbergh; roteiro: Peter Buchman (baseado no livro “Reminiscências da Guerra Revolucionária Cubana”, de Ernesto “Che” Guevara); fotografia: Steven Soderbergh (como Peter Andrews); montagem: Pablo Zumárraga; música: Alberto Iglesias; produção: Laura Bickford, Benicio Del Toro; com: Benicio Del Toro, Julia Ormond, Demián Bichir, Yul Vazquez, Rodrigo Santoro, Armando Riesco, Catalina Sandino Moreno; estúdio: Estudios Picasso, Section Eight, Morena Films, Wild Bunch, Telecinco, Laura Bickford Productions; distribuição: Europa Filmes. 126 min
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