Moscou

Quando entrevistei Eduardo Coutinho em 2005, em ocasião do lançamento de “O Fim e o Princípio”, perguntei se ele já tinha em vista algum novo projeto. Ele respondeu: “Ainda não pensei em nada, mas se eu não fizer cinema, vou fazer o quê? Sentar na praça?”

Curiosamente, o título daquele filme tem relação com a mudança de fase na carreira de Coutinho: o fim de um cinema autêntico baseado em entrevistas informais e o princípio de um aprofundamento ainda mais único na linguagem que ele explora tão bem. Seu trabalho seguinte, “Jogo de Cena”, ainda se baseou em entrevistas, mas difícil dizer se o que está na tela é um documentário, no sentido estrito do termo. O que Coutinho está documentando afinal, ao conversar com diversas mulheres que contam histórias quaisquer de suas vidas, sem sabermos a quem pertencem de fato aquelas confissões?



O que Coutinho propõe ao espectador é um jogo onde documentário e ficção se confundem. E se antes as regras estavam claras – quem é personagem da vida real e quem é atriz – agora, em “Moscou”, o cineasta radicaliza a proposta e o desafio feito ao público.

Assim como em “O Fim e o Princípio”, Coutinho iniciou as filmagens no escuro, sem saber que filme iria sair dali. Reuniu os atores do Grupo Galpão, sob a direção de Enrique Diaz, para que encenassem uma peça que eles só saberiam qual era já diante das câmeras. A surpresa dos atores ao receberem o texto e a atenção com que ouvem as instruções dadas por Diaz e Coutinho são registradas, e esta talvez seja a única parte de “Moscou” que se assemelhe a um documentário convencional. O restante é trabalhado em outro plano, extra-câmera, e depende exclusivamente da percepção do espectador para funcionar. O próprio Coutinho quebra sua assinatura e se ausenta da tela: a não ser no momento em que ele explica o projeto aos atores, ele não é mais visto e sua voz só volta a ser ouvida no final.

O que é “Moscou”, então? É um filme que acontece na sua cabeça e que se nega a todo custo a tornar a ficção ou a realidade concretas, não fornecendo ao espectador qualquer referência além da memória – através de fotos em porta-retratos, que servem como ponto de partida para os atores contarem uma história, ou através apenas das falas dos intérpretes (e como em “Jogo de Cena”, você não sabe se os fatos expostos pertencem mesmo à pessoa ou é “roubada” de outra).

Coutinho prova que a memória é a principal e definitiva ferramenta de construção narrativa. Por isso se mostra tão acertada a escolha do Grupo Galpão, que em seu teatro maleável e desdobrável permite uma ausência quase total de referências concretas, sem cenários, objetos de cena, figurinos ou maquiagens. Tudo isso fica a cargo do imaginário do espectador.

“Moscou” documenta a ficção e, ao mesmo tempo, torna ficcional o documentário. É, acima de tudo, um extraordinário ensaio sobre o cinema, arte de mentir.

nota: 9/10 — veja no cinema e compre o DVD

Moscou (2009, Brasil)
direção: Eduardo Coutinho; fotografia: Jacques Cheuiche; montagem: Jordana Berg; produção: Beth Pessoa; produção executiva: João Moreira Salles, Mauricio Andrade Ramos, Guilherme Cezar Coelho; direção teatral: Enrique Diaz; com: Antonio Edson, Arildo de Barros, Beto Franco, Chico Pelúcio, Eduardo Moreira, Fernanda Vianna, Inês Peixoto, Júlio Maciel, Lydia del Picchia, Paulo André, Rodolfo Vaz, Simone Ordones, Teuda Bara; estúdio: VideoFilmes; distribuição: VideoFilmes. 77 min
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