2012

“Terremoto”. “Vulcano”. “Turbulência”. “Poseidon”. “Titanic”. “Guerra dos Mundos”. Todos são filmes-desastre e “2012” tem um pouco de cada um. Especialista no assunto, tendo dirigido tantos outros títulos do gênero, entre eles “Independence Day” e “O Dia Depois de Amanhã”, Roland Emmerich parece tentar fazer aqui o filme-desastre definitivo, quase que numa homenagem a todos eles e a si próprio. Afinal, uma das primeiras cenas – em que o cientista interpretado por Chiwetel Ejiofor toma conhecimento da catástrofe iminente – é idêntica, praticamente uma refilmagem com os mesmos diálogos da cena equivalente de “O Dia Depois de Amanhã”. Troque apenas os gases de efeito estufa por neutrinos solares.

Emmerich nunca foi bom diretor, mas mantém uma obra coerente, o que lhe garante o status de autor. Ora, Michael Bay também é autor. Mas se, como Bay, Emmerich não tem um senso estético bem apurado, ao menos, ao contrário de Bay, ele não desvaloriza o próprio trabalho e opta por tomadas de duração moderada nas cenas de ação, que são a razão de sua carreira existir. Geralmente, ele usa planos abertos e aéreos, o que permite à platéia desfrutar o espetáculo visual maciço desse verdadeiro disaster-porn. E é curioso notar que essas sequências quase sempre acabam com a própria câmera sendo destruída, seja por uma nuvem de poeira, pelo fogo ou por uma enxurrada. Não há o pós-desastre.



Enquanto Emmerich dá tapas nas próprias costas, criando terremotos e maremotos cada vez maiores, reconfigurando a cartografia do mundo ao seu gosto, ele não percebe que transforma “2012” em um filme cada vez mais maçante com o passar do tempo. Isto porque o cineasta se permite “criar” (entre aspas mesmo, porque tudo ali é estereótipo) personagens sobre os quais se debruça ao longo de cansativas duas horas e meia de dramas absurdamente superficiais. Se você viu o trailer, saiba que as cenas de destruição não vão muito além daquilo. Na verdade, é como se Emmerich tivesse pegado o trailer e inserido, entre cada tomada de CGI, mil clichês reciclados de outros filmes-desastre junto com profecias e teorias da conspiração coletadas no Google. Aliás, o papel de John Cusack, um lugar-comum ambulante, não deixa de ser engraçado por ser o de um escritor de ficção-científica que desconhece o mito do ano 2012. Não é à toa que é um fracassado (e eles estão em todos os filmes de Emmerich, não é mesmo?).

“2012” se leva muito a sério, não quanto à concretização da profecia (tolice!), mas no sentido de ser puramente burocrático e seguir convenções de filmes de estúdio. Seria ótimo se fosse de fato um filme exploitation, como a versão alternativa e não-oficial do trailer, vista abaixo:

Na verdade, “2012” é um filme exploitation (Emmerich não tem nem mesmo vergonha de repetir duas grandes sequências de ação uma atrás da outra), mas que se faz passar por superprodução. É onde o diretor erra. Ele quer Cecil B. DeMille, quando deveria ser Roger Corman. O que se salva (sem trocadilho), além dos efeitos especiais, são as observações políticas do cineasta, que sempre surgem de maneira pontual e nada sutil (como já vimos em “Independence Day”, “Godzilla” e “O Dia Depois de Amanhã”), e o senso de humor mórbido inserido numa história pretensamente trágica. São dois aspectos típicos de filmes exploitation, que são percebidos no meio de situações que deveriam ser de pura tensão. Os próprios alívios cômicos estão mal posicionados no texto, mas acabam funcionando por serem independentes de tudo o que ocorre ao redor deles.

Fosse Emmerich dono de um poder de síntese melhor, “2012” poderia ter sido um filme divertido. Do jeito que saiu, causa tédio em sua maior parte.

nota: 4/10 — não se culpe por não ver

2012 (2009, EUA/Canadá)
direção: Roland Emmerich; roteiro: Roland Emmerich, Harald Kloser; fotografia: Dean Semler; montagem: David Brenner, Peter S. Elliot; música: Harald Kloser, Thomas Wanker; produção: Roland Emmerich, Larry J. Franco, Harald Kloser; com: John Cusack, Amanda Peet, Chiwetel Ejiofor, Thandie Newton, Oliver Platt, Thomas McCarthy, Woody Harrelson, Danny Glover, Liam James, Morgan Lily, Zlatko Buric, Beatrice Rosen, Alexandre Haussmann, Philippe Haussmann; estúdio: Columbia Pictures, Centropolis Entertainment, Farewell Productions, The Mark Gordon Company; distribuição: Columbia Pictures. 158 min