Nine

O principal problema de “Nine” é justamente sua origem. Baseado em um musical de palco, o filme é dirigido por um cineasta que, antes de ganhar o Oscar com “Chicago”, também trabalhava no teatro. Dessa forma, Rob Marshall parece compartilhar do mesmo mal que o protagonista de “Nine”, um diretor de cinema que passa por um bloqueio criativo. Ambos não conseguem imaginar mais o que é fazer um filme.

Pode parecer um tanto forte essa afirmação, mas o fato é que o personagem de Daniel Day Lewis, Guido Contini, não mostra em momento algum porque é um diretor renomado. Bem diferente de sua contraparte no clássico de Federico Fellini, “8½”, no qual o musical da Broadway é inspirado, o Guido de “Nine” só consegue ter sonhos e devaneios em forma de números cantados e coreografados. Ser um musical não é propriamente o problema. Mas é que tudo é tão óbvio que faz falta até mesmo a dúvida sobre a natureza de cada imagem, se pertencem a um flashback, um lampejo de imaginação ou à realidade do protagonista.



A visão do Guido de “Nine” é basicamente a mesma visão de cinema de Rob Marshall: um teatro filmado. Basta notarmos como ele movimenta a câmera de forma a privilegiar unicamente os telegrafados números musicais (você adivinha facilmente quando cada um irá entrar) e as performances dos atores. Em alguns momentos, parece até que estamos diante de uma transmissão televisiva, com a câmera se movimentando num trilho diante do palco.

As danças são bem executadas, o elenco está bem, a produção dos cenários e roupas é fantástica, pode-se dizer até que as músicas são boas, mas o filme, como um todo, não passa a sensação de realização cinematográfica que Fellini consegue com uma fração. “8½” é cinema. “Nine” é show. É, em ultima instância, o que o número musical protagonizado por Kate Hudson representa: uma completa má interpretação da sétima arte (ou do que o cinema italiano representa) baseada unicamente no fetichismo do glamour.

nota: 4/10 — veja sem pressa

Nine (2009, EUA/Itália)
direção: Rob Marshall; roteiro: Michael Tolkin, Anthony Minghella (baseado no musical de Arthur Kopit, Maury Yeston, Mario Fratti); fotografia: Dion Beebe; montagem: Claire Simpson, Wyatt Smith; música: Andrea Guerra; produção: John DeLuca, Rob Marshall, Marc Platt, Harvey Weinstein; com: Daniel Day-Lewis, Marion Cotillard, Penélope Cruz, Nicole Kidman, Judi Dench, Kate Hudson, Sophia Loren, Stacy Ferguson, Ricky Tognazzi, Giuseppe Cederna, Elio Germano, Andrea Di Stefano, Roberto Nobile; estúdio: The Weinstein Company, Relativity Media, Marc Platt Productions, Lucamar Productions, Cattleya; distribuição: Sony Pictures. 118 min
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