Os Mercenários

Uma das tendências no cinema comercial americano que já dura mais de uma década é o resgate de ícones da cultura pop dos anos 70 e 80. Novos filmes do Superman, do Indiana Jones, remakes de “Sexta-Feira 13” e “A Hora do Pesadelo”, adaptações de desenhos animados como “Scooby-Doo”, “Zé Colméia” e “Os Smurfs”, sem falar nas séries de TV: “As Panteras”, “Agente 86”, “Esquadrão Classe A” e por aí vai.

“Os Mercenários” não é refilmagem, adaptação ou continuação. Mesmo assim, vê-lo poderá ser uma experiência de retorno à infância para quem duas, três décadas atrás não perdia um filme de ação do Stallone, do Schwarzenegger, do Van Damme e toda aquela turma de brutamontes que só sabiam bater, atirar e explodir.



O filme também não é uma homenagem, como Quentin Tarantino poderia ter feito caso fosse o diretor, estilizando de acordo com sua visão de fã. Este filme de Stallone é rigorosamente um filme como aqueles estrelados por ele e pelos colegas que conseguiu reunir no elenco. É um produto daquela época, com todos os seus defeitos e qualidades.

Stallone, que é mais conhecido como ator, tem uma trajetória irregular como cineasta. Ele dirige filmes desde os anos 70, mas nem de longe tem a produtividade e o talento de Clint Eastwood (que, como Stallone, bebeu da fama conquistada com dois personagens icônicos, o tira durão Harry Callahan e o pistoleiro sem nome dos faroestes). Stallone ganhou experiência como diretor com os filmes do boxeador Rocky Balboa, seu personagem mais redondo e cujo último filme fez com que ele fosse visto como mais do que um simples “herói de ação”. Mas em seguida ele trouxe de volta Rambo, e agora com “Os Mercenários” parece que Stallone quer mesmo é ser o cara dos filmes de ação descerebrados e nada mais.

Em “Os Mercenários”, percebe-se uma tentativa de Stallone de misturar um pouco de “Rocky Balboa” com um pouco de “Rambo IV”. Entre uma cena de ação e outra, os personagens refletem sobre seus relacionamentos amorosos fracassados e a possibilidade de um dia terem uma família. Há um diálogo entre os personagens de Stallone e Mickey Rourke de surpreendente ternura, mas quando você mal começa a pensar que está diante de um filme como “O Lutador”, vem a injeção de adrenalina e os tiros e explosões recomeçam.

Fica claro que Stallone quis apenas juntar os amigos para relembrar os velhos tempos já que no cinema de ação em voga hoje não há mais espaço para eles. Vendo por essa ótica e sem exigir muito – como fazíamos na infância – dá para se divertir bastante com “Os Mercenários”, especialmente com a auto-reverência que o filme faz ao gênero. Mas aí chega uma hora que não dá para relevar que somos adultos e a simples nostalgia não justifica a quase completa falta de enredo. Tudo bem que a história muitas vezes é uma desculpa para esses filmes, existirem mas Stallone não precisava arrumar uma tão esfarrapada.

De qualquer forma, o desequilíbrio do roteiro poderia ser compensado tivesse Stallone colocado alguém como David R. Ellis (“Serpentes a Bordo”) na direção – alguém que desse um pouco mais de polimento a um material já tão abrutalhado. Apesar de filmar mais de perto do que o ideal, Stallone até consegue arranjar boas sequências de ação, como a primeira que se passa na tal ilha latino-americana para qual o Brasil serviu de cenário. Já na última delas, o resultado é bastante bagunçado, coisa de menino brincando de guerra mesmo.

E só para falar um pouco do elenco, o foco está em Stallone e Jason Statham, com Dolph Lundgren correndo por fora como terceiro protagonista e sendo responsável por diálogos impagáveis. Não será surpresa se surgirem na blogosfera tops 10 de falas mais toscas (e nem por isso menos geniais). Jet Li merecia mais do que ser o alívio cômico do grupo, enquanto Randy Couture e Terry Crews – até por não serem tão conhecidos do público – não passam de coadjuvantes que tomam o lugar dos famosos que recusaram o convite de Stallone, como Jean-Claude Van Damme. E Giselle Itié… Bom, arrumaram uma atriz que faz exatamente o que uma atriz dos filmes do Stallone, do Van Damme e cia. precisa fazer. Até para o sotaque forçado acertaram na escolha. Ou seja, assim como tudo no filme, ela segue à risca o que manda o figurino.

Os Mercenários (The Expendables, 2010, EUA)
direção: Sylvester Stallone; roteiro: Sylvester Stallone, Dave Callaham; fotografia: Jeffrey L. Kimball; montagem: Ken Blackwell, Paul Harb; música: Brian Tyler; produção: Kevin King, Avi Lerner, Kevin King Templeton, John Thompson; com: Sylvester Stallone, Jason Statham, Jet Li, Dolph Lundgren, Eric Roberts, Randy Couture, Steve Austin, David Zayas, Giselle Itié; estúdio: Millennium Films, Nu Image Films, Rogue Marble; distribuição: Califórnia Filmes. 103 min

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