Obama Kid quer China in Box! (Ou um comentário cínico sobre o novo "Karatê Kid")

Curiosa, esta refilmagem de “Karatê Kid”. O Guilherme já fez um breve comentário sobre o filme, e com o qual estou de acordo, mas tem algumas coisas que eu não posso deixar de levantar.

Quando o projeto foi anunciado, logo pensei: “Ah, Will Smith mostrou o filme para o filho, o garoto virou fã e falou: ‘Papai, eu quero!’ E como o papai é super-ator, superprodutor e supercoruja, o remake será feito simplesmente por causa disso.”



De fato, o filme parece ser um veículo para Smith lançar o filho Jaden como um Mini-Me. Seja por genética ou por influência, o menino é a cópia do pai até no timing cômico. O que não é ponto negativo, uma vez que Smith é o carisma em pessoa e o sucesso do novo “Karatê Kid” reside muito no humor que Jaden emprega às suas cenas. Só que as primeiras cenas do menino na China surgiram para mim quase como numa revelação do que realmente é este remake.

É sabido que, desde a abertura dos portões chineses para a entrada do capitalismo selvagem, Hollywood tenta uma penetração cada vez maior no mercado de lá. Logo, me parece bastante oportuno que um estúdio aproveite uma chance como esta, tendo:

a) contrato com um dos maiores e mais rentáveis nomes da indústria do entretenimento;

b) direitos sobre uma franquia muito bem estabelecida e afetivamente lembrada pelos pais do público-alvo atual;

c) um momento em que a indústria se sustenta com resgates, refilmagens e homenagens a seus mais valiosos (alguns nem tantos) produtos;

d) o primeiro presidente americano negro, que é a imagem pop do “sim, nós podemos” – bordão que resume bem a mensagem do filme.

É batata.

E aí você vê o Jaden Smith andando pelo pátio perto da nova casa e repara que ele não parece ter saído dos EUA, apesar de ter passado 13 horas dentro do avião. Aquilo é a China? Crianças de All Star e roupas coloridas jogando basquete? E a julgar pelo refeitório da escola, me perguntei qual a real dificuldade de adaptação que o garoto teria ali, já que parecia ser um autêntico colégio americano, com direito a figurantes americanos. E as confusões nos filmes (americanos) sempre acontecem nos refeitórios. Agora, se é uma escola para filhos de imigrantes, o que os encrenquinhas (ou os bullies, para usar o termo em voga na mídia) e a paquera do protagonista fazem lá? Tem ainda aquela visão de turista, mania de filmar os pontos turísticos do país como se fosse comercial de agência de viagem. E Lady Gaga? Verdadeiro golpe final.

De certa forma, se bobear até sem querer, o filme acaba fazendo um contraponto a essa visão de dominação cultural ao levar o menino e seu mestre para as montanhas, aparentemente onde a verdadeira cultura e filosofia chinesas se refugiaram (vocês sabem, “run to the hills!“). É de lá que o garoto irá tirar seus maiores ensinamentos, e não da cidade, já “corrompida”.

Posso estar sendo cínico demais, reconheço. Mas, mesmo assim, penso que o novo “Karatê Kid” mantém o espírito do filme original, que é a fonte de suas melhores partes, entre elas o que diz a respeito da importância de se ter disciplina. Há cenas literalmente refilmadas, mas outras funcionam mais como uma homenagem terna e respeitosa ao longa de 1984. Quem conhece o filme vai identificar esses momentos logo que eles surgirem.

Na verdade, o remake poderia muito bem ser, aliás, deve ser reconhecido como o quinto “Karatê Kid”. Apesar de não dar sequência à história e de mudar a arte marcial (a justificativa encontrada para manter o título poderia ter sido aproveitada de modo melhor), trata-se de um novo capítulo da franquia, e um que é superior às três continuações que o precedem.

De qualquer forma, incomoda que a Sony não aproveite o gancho para exaltar o filme original (que pode não ser obra-prima, mas ainda funciona e marcou época indubitavelmente). Houve um lançamento recente em Blu-ray (formato que inclusive é propriedade da empresa), mas foi dado tratamento de título de catálogo. Por que não aproveitar o momento e apresentar o filme a um novo público, como a Disney faz com suas animações ou como Paramount e Universal fazem com seus sucessos (“De Volta Para o Futuro”, “Indiana Jones” etc.)?

No fim, acho que meu amigo Heitor Valadão resumiu bem a ideia no Twitter: “Quem viu o original na época tá muito velho pra se interessar. Quem é mais novo, não tá nem aí se é remake.” Faz todo sentido.

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