Billi Pig fala com quem?

Billi Pig é um daqueles filmes que você quer muito gostar, mas não consegue. A proposta inicial é muito boa: fazer uma comédia brasileira popular com pegada autoral, remontando às chanchadas e às comédias screwball. E José Eduardo Belmonte (e equipe) bem que tenta, você percebe isso na tela. Mas seu esforço esbarra em algumas questões.

 

Belmonte vem de uma sequência de filmes elogiados e, infelizmente, pouco vistos no circuito comercial. O destaque fica por conta de “Se Nada Mais Der Certo” (texto), de 2008, que talvez seja uma das produções nacionais mais emblemáticas desta recente geração de cineastas empenhados em discutir o jovem brasileiro inserido em uma sociedade individualista. É também um filme que discute o jovem cinema brasileiro e sua estética. Sendo assim, “Billi Pig”, por mais que destoe no tom debochado, encontra ramificações com o restante da obra de Belmonte. Há uma discussão da imagem ali, e também uma discussão política.

 



O que se tenta fazer é criar um diálogo entre o cinema popular da Globo Filmes e o cinema autoral, independente. E Belmonte não aparenta estar totalmente à vontade como o mediador desse encontro. Se ele consegue por um lado misturar bem o escracho e o bizarro, por outro se vê limitado na construção de uma narrativa envolvente. Uma suposta coerência jamais poderia ser exigida, mas sente-se, sim, uma carência por parte da história que está sendo contada, já que há nela um direcionamento ao público dos shoppings (o filme está em cartaz há duas semanas com 207 cópias, quase o triplo do vencedor do Oscar “O Artista” e não muito menos que os principais blockbusters em cartaz; em contrapartida, ainda não atingiu os 200 mil espectadores).

 

Essa história gira em torno do deslumbramento do morador do subúrbio que ainda não chegou à condição de emergente, cujo poder aquisitivo ainda está aquém do da chamada “nova classe média”. É a jovem dona de casa que sonha em ser atriz e ficar hospedada em hotel cinco estrelas, “obrigando” o marido a recorrer à trapaça para satisfazê-la. É um tema superbrasileiro encorpado na farsa do con movie e do filme musical, orientado pelo sobrenatural do imaginário cultural do país (a macumba e o sincretismo religioso). Uma verdadeira salada.

 

Belmonte, portanto, continua a falar com seu público fiel, capaz de reconhecer suas referências e seu estilo (na montagem, em especial). Já o elenco conversa mais francamente com os espectadores de “Se Eu Fosse Você” e da “Zorra Total”, ao mesmo tempo em que também busca o riso na paródia do cinema estrangeiro (encontrando seu melhor momento em Milton Gonçalves, que em certo momento fala inglês como o estereótipo do negro americano). Talvez apenas o porco de brinquedo falante fique isolado, sem encaixe nessa baderna toda, sendo a pior escolha de Belmonte em termos narrativos e mesmo como sátira.

 

A segmentação do público persiste, portanto, mas na tentativa de minimizá-la “Billi Pig” não é uma falha completa. Apenas fica no meio do caminho. E nem é uma tentativa inédita do nosso cinema. Basta lembrarmos que Hugo Carvana vem fazendo comédias populares que remontam à chanchada desde 2008, quando lançou “A Casa Mãe Joana” – e por coincidência, seu último filme é “Não Se Preocupe, Nada Vai Dar Certo”, uma rima involuntária com o título do melhor trabalho de Belmonte até agora.

 

BILLI PIG (2012, Brasil). Direção: José Eduardo Belmonte. Roteiro:Ronaldo D´Oxum e José Eduardo Belmonte. Fotografia: André Lá venere. Montagem: Bruno Lasevicius e Frederico Ribeincher. Música: Zepedro Gollo e Sascha Kratzer. Produção: Vânia Catani. Com: Selton Mello, Grazi Massafera, Milton Gonçalves, Preta Gil, Otávio Muller, Cássia Kiss, Zezeh Barbosa, Sandra Pêra, Milhem Cortaz, Murilo Grossi, Tadeu Mello. Estúdio: Bananeira Filmes. Distribuição: Imagem Filmes. 95 min

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