Crítica: ALEMÃO, de José Eduardo Belmonte

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Se “Cidade de Deus” foi responsável por fazer eclodir o chamado “favela movie”, “Tropa de Elite” incorporou esse subgênero ao filme policial e de ação. Tentativas de explorar o filão não faltaram, mas somente agora, com “Alemão”, podemos dizer que temos um derivado de boa qualidade.

José Eduardo Belmonte é um diretor que a maior parte do público só está ouvindo falar agora, ou nem isso, já que “filmes para massas”, como este, tendem a ser lembrados por muita coisa, mas raramente por seus diretores. Fato é que Belmonte, após conquistar reconhecimento no circuito de festivais e salas ditas alternativas com filmes como “A Concepção” e “Se Nada Mais Der Certo”, está na sua segunda tentativa de dialogar com o espectador procurado pelos grandes lançamentos. “Billi Pig”, mistura um tanto indigesta de chanchada, comédia popular atual e pegada autoral, foi o primeiro flerte, mas não teve o retorno esperado. Já os elementos que ele combina em “Alemão” dão liga, resultam em um filme de ambições mais objetivas, ainda que tenha lá seus percalços.



“Tropa de Elite” é um filme de ação que coloca determinadas questões políticas em debate, e chama para esse debate. Já “Alemão” é um filme de ação que toca em questões políticas, mas que está mais preocupado em ser um filme de ação apenas. E não há nada de errado nisso. Muito pelo contrário.

Belmonte, um cineasta que vem de uma trajetória de filmes políticos, começa o longa com imagens de telejornais mostrando o anúncio de que o Rio de Janeiro sediará os Jogos Olímpicos de 2016, pouco depois de informar ao público, através de letreiros, sobre a operação montada pela polícia para ocupar e pacificar os morros cariocas. A questão político-social voltará mais tarde, em breves momentos, em alguns diálogos de personagens que questionam as reais intenções da ocupação. Na maior parte do tempo, porém, o filme é focado na situação de vida ou morte que obriga policiais infiltrados no Alemão (papéis de Caio Blat, Gabriel Braga Nunes, Milhem Cortaz e Marcello Melo Jr.) a ficar praticamente entrincheirados no porão de uma lanchonete, já que suas identidades foram descobertas pelo líder do tráfico local (papel de Cauã Reymond).

O roteiro de Gabriel Martins divide a trama em três eixos básicos – a procura dos traficantes, a sobrevivência dos policiais e a missão de resgate do delegado vivido por Antônio Fagundes – o que garante a unidade dramática que move a história, sem pausas. É basicamente um faroeste urbano, sensação reforçada pela trilha sonora morriconiana composta por Guilherme e Gustavo Garbato. E não para aí, já que, no encontro dos eixos narrativos, o filme remete aos clássicos “Onde Começa o Inferno” (1959), de Howard Hawks, e “Assalto à 13ª D.P.” (1976), de John Carpenter (sendo este uma refilmagem livre do primeiro), onde policiais também se encontram cercados por bandidos.

Enquanto “Tropa de Elite” ocorre em diversos locais, subindo o morro apenas quando se faz necessário, “Alemão” transcorre praticamente o tempo todo no interior da favela, no olho do furacão. Não é um filme sobre a ocupação do morro ou sobre os bastidores da operação, se ela é boa ou má etc. É um recorte, uma situação hipotética, mas que poderia muito bem ter sido real. É o que diversos (e bons) sucessos de bilheteria já fizeram. E, dentro disso, Belmonte conduz boas, mas um tanto burocráticas cenas de ação, com direito a tiroteios e perseguições, cortes rápidos, câmera tremida, enfim, ele segue o que a cartilha do gênero tem ditado nos últimos anos.

Segue até demais, diga-se, pois o diretor recorre a clichês que poderiam ter sido evitados (como a famosa “passagem do amuleto” — no caso deste e de tantos outros filmes, uma correntinha; e o filtro azulado da delegacia em contraste aos tons mais quentes do morro). Ainda assim, é um filme que empolga sem aquela velha necessidade de ter algum engajamento social, ainda que ao final utilize novamente imagens de telejornal que parecem forçar paralelos nesse sentido. Algo, ao meu ver, desnecessário e que mostra, para o bem, que esta talvez seja a primeira vez, desde a retomada, que o cinema brasileiro procria um filme de gênero, diferente da comédia, que poderia ter dispensado, sem drama, qualquer discurso político. ■

ALEMÃO (2014, Brasil). Direção: José Eduardo Belmonte; Roteiro: Gabriel Martins; Produção: Rodrigo Teixeira; Fotografia: Alexandre Ramos; Montagem: Bruno Lasevicius; Música: Guilherme Garbato e Gustavo Garbato; Com: Caio Blat, Gabriel Braga Nunes, Marcello Melo Jr., Milhem Cortaz, Otávio Müller, Mariana Nunes, Antônio Fagundes, Cauã Reymond; Estúdios: RT Features, Camisa Treze; Distribuição: Downtown Filmes. 121 min

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