NOITE SEM FIM

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Um bom filme de ação, não é apenas um filme de ação. Sempre tem algo mais. No caso de “Noite Sem Fim”, é a relação entre os personagens.

O incansável Liam Neeson vive um ex-atirador da máfia que atualmente é relegado a trabalhos menores, e até humilhantes, como se vestir de Papai Noel para a festa de Natal da família de seu chefe e amigo pessoal, personagem de Ed Harris.

A tarefa de se passar pelo bom velhinho é atribuída ao protagonista pelo filho do chefão (papel de Boyd Holbrook), que agora está no controle dos negócios. Para piorar ainda mais, o rapaz tenta matar o filho do veterano gângster após uma transação de drogas que dá errado.

Duas relações são testadas a partir dessa situação: a amizade de longa data entre os personagens de Neeson e Harris; e a proximidade entre Neeson e seu filho ameaçado, vivido por Joel Kinnaman, da refilmagem de “Robocop”.

Não é que “Noite Sem Fim” se transforme em um drama por causa disso, mas sem dúvida é o motivo de ele não ser apenas um filme de ação descerebrado. Ele humaniza os personagens, cria a identificação do espectador com aquelas pessoas. Mesmo que elas vivam em realidades distantes da nossa (pelo menos, da maior parte da plateia), as situações que vivenciam são comuns.

No que diz respeito à ação, “Noite Sem Fim” também cumpre bem o trabalho. O diretor espanhol Jaume Collet-Serra, que já havia dirigido Neeson em “Desconhecido” e “Sem Escalas”, faz um trabalho sólido, ainda que convencional para o gênero. Nas cenas de luta e perseguição, ele só peca por usar cortes muito rápidos. Ele se deixa levar pelo frenesi das situações, ao invés de se preocupar em nos fazer compreender totalmente o que acontece diante dos nossos olhos, quem está batendo em quem, onde fulano caiu, para onde ciclano fugiu etc. Além disso, o efeito especial que estabelece a geografia de onde a trama ocorre se revela desnecessário (seria mais interessante investir na transmissão da passagem to tempo).

Ainda que recorra a artifícios da montagem para passar ao espectador a sensação de participar das cenas, e também apesar de usar alguns clichês típicos dos thrillers policiais, Collet-Serra consegue construir bem as sequências de maior tensão e nos deixar apreensivos quanto ao desfecho da amizade do atirador com o chefão e, principalmente, quanto à sua redenção perante o filho.

Não é dos melhores trabalhos de Neeson no gênero, mas é um bom filme. Neeson, que em menos de uma década participou de filmes de ação mais intensos e interessantes do que a carreira inteira de um Gerard Butler da vida. Recomendo ainda “Caçada Mortal” (A Walk Among the Tombstones, 2014, de Scott Frank) dentre seus longas mais recentes, mas “A Perseguição” (The Grey, 2011, de Joe Carnahan), ainda que não seja um filme de ação policial, é insuperável. ■

(Este texto foi adaptado da resenha produzida para o programa Cinefonia, da Rádio Inconfidência, de 09/05/15.)

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