SOB O MESMO CÉU

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“Sob o Mesmo Céu” (Aloha, 2015) é um filme que tem falhas, o roteiro é pouco coeso, existem personagens completamente dispensáveis, mas, ainda assim, é um filme que possui alma e um sentimento sincero de fazer cinema, coisas que faltam a 90% das produções do gênero.

Comédia romântica dirigida por Cameron Crowe, “Sob o Mesmo Céu” está longe de ser dos melhores trabalhos do cineasta, responsável por “Jerry Maguire – A Grande Virada”, “Quase Famosos” e “Singles – Vida de Solteiro”. No entanto, o longa estrelado por Bradley Cooper e Emma Stone possui partes realmente agradáveis, o que, da mesma forma como se faz com as falhas, não dá para ignorar.

Os melhores momentos do filme estão, em parte, no início do relacionamento dos dois personagens principais. Ele é uma arma de destruição em massa: um militar que volta para o Havaí, sua terra natal, para participar da construção de uma nova base de lançamento de satélites, mas cuja função real é destruir a vida afetiva de todos com quem se relaciona. Ela é uma colega de trabalho que se esforça para proteger o local da exploração militar. Sem dúvida, é o papel mais estranho que Stone já fez e não é à toa que parece ter saído direto de uma comédia screwball, já que este subgênero é a melhor influência que Crowe usa na construção do romance.

Os problemas do recém-formado casal começam quando as reais intenções por trás da empreitada são reveladas, e os problemas do filme também surgem a partir daí. A começar pelo personagem de Bill Murray, um empresário megalomaníaco que nem todo o carisma do ator consegue salvar de ser um sujeito totalmente deslocado da realidade do filme, ainda que sua cena de dança com Stone seja um dos colírios do filme. Além disso, outros funcionários da base militar mostram-se inúteis (o que Danny McBride e Alec Baldwin estão fazendo ali?). Já a personagem de Rachel McAdams, paixão antiga do protagonista, serve apenas de escada para uma espirituosa cena em que seu marido, vivido por John Krasinsky, tem uma conversa com Cooper usando apenas os olhares.

Depois que o romance do casal principal é suspenso, ali por volta dos 50 minutos de duração, o filme se perde mesmo, não dá liga, não faz esforço para nos fazer acreditar naqueles personagens e no que estão fazendo, o que inclui o momento da catarse musical, quando Crowe só falta entrar em cena e empurrar Cooper para fora do quadro (dá-lhe Deus Ex Machina!). Mas as coisas voltam aos trilhos logo depois desse momento, na resolução dos conflitos do protagonista, quando duas boas cenas amaciam a tela. Curiosamente, ambas possuem pouquíssimas falas, o que é sintomático: o que Crowe talvez precise seja conter sua verborragia, para que seus filmes parem de se tornar sessões de análise.

Crowe não desaprendeu a dirigir um filme e, além de continuar a compilar boas trilhas sonoras (aqui novamente variando do rock clássico ao new wave), consegue extrair momentos ternos das relações entre seus personagens. Ele precisa é de concentração e uma inspiração mais profunda para contar uma história, já que há três filmes (com “Tudo Acontece em Elizabethtown” e “Compramos um Zoológico” vindo antes deste) repete o tema do cara que quer uma oportunidade para recomeçar.

Crowe que já fez filmes sobre segundas chances, e aqui faz sobre terceira, quarta, quinta chances… O que também vem se aplicando à sua carreira. Mesmo assim, reitero, é um diretor acima da média e do qual não me canso de insistir.

“Como Eu Aprendi a Parar de Me Preocupar e Amar a Bomba”. Talvez fosse um título melhor para este “Sob o Mesmo Céu”. ■

(Este texto foi adaptado da resenha produzida para o programa Cinefonia, da Rádio Inconfidência, de 27/06/15.)

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