JURASSIC WORLD: O MUNDO DOS DINOSSAUROS

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O novo “Jurassic Park” é ao mesmo tempo uma aventura inédita na série e uma volta ao velho “Parque dos Dinossauros”.

Um dos trunfos do filme está na forma como ele acolhe o fã da franquia, como se ele já tivesse visitado aquele lugar. Há um olhar blasé inicial — nosso, dos personagens e do próprio filme — para o que parque representa 22 anos depois: aquele lugar não é mais uma novidade.



Diferente do que acontece no filme original, nós não desembarcamos na Ilha Nublar em planos abertos grandiloquentes acompanhados da música-tema de John Williams. Mas isso não quer dizer que o longa procure se distanciar da produção de 1993. Pelo contrário, a sensação de “já estive aqui” também surge da maneira como, o tempo todo, o diretor Colin Trevorrow nos remete a cenas icônicas do longa de Steven Spielberg.

Não é que ele tenha refilmado ou copiado Spielberg, mas o cineasta faz inúmeras alusões a cenários e personagens, e até mesmo a enquadramentos, como uma forma de homenagem e também de deixar o público numa zona de conforto. É mais déjà vu do que mimese.

É uma segurança que também permite a um diretor novato em Hollywood assumir o controle de uma superprodução tendo apenas um filme no currículo — uma simpática ficção científica de 2012, lançada despercebidamente em DVD no Brasil e chamada “Sem Segurança Nenhuma” (que ironia o título, não?).

Assim, “Jurassic World”, embora seja uma aventura muito bem articulada e envolvente, com momentos de fato eletrizantes e um clímax maiúsculo, não é um filme totalmente novo. Trevorrow trabalha em cima da mitologia da franquia e faz isso muito bem. Utiliza os dinossauros já conhecidos de novas maneiras e dá outra funcionalidade a objetos antigos (o âmbar com o mosquito, o sinalizador, os jipes de tração, a animação do Sr. DNA). Ele recicla ideias, recria significados.

Ao mesmo tempo, remete a outros filmes famosos, clássicos, como “Tubarão”, do próprio Spielberg (numa tomada emblemática do sentido empreendedor da indústria cinematográfica: um supersucesso é abocanhado por outro, dez vezes maior), “Os Pássaros”, de Alfred Hitchcock, “Hatari!”, de Howard Hawks, e “Mogambo”, de John Ford (a relação de Chris Pratt e Bryce Dallas Howard lembra a de Clark Gable e Grace Kelly).

Enfim: é um trabalho extremamente referencial — que, justiça seja feita, não é exclusividade deste filme, mas uma tendência em Hollywood há pelo menos uma década e meia.

Perceba que os novos dinossauros também não são exatamente novos. O bando de velociraptors adestrados é uma releitura muito bem-vinda dos vilões do primeiro filme. E o monstro híbrido criado para ser a nova atração do parque é uma combinação de todas as espécies do local. O Indominus Rex é um tipo de serial killer selvagem, um “psicopatossauro” que coloca em risco a vida de todos, humanos e animais. Há um canibalismo conceitual muito interessante na concepção desse monstro. Uma sacada metalinguística bizarra e muito inteligente, em que a franquia decide se deglutir para poder renascer.

No elenco, Chris Pratt — mais uma vez mostrando que é o herói de ação do momento, a exemplo de “Guardiões da Galáxia” — também é um híbrido de espécies à sua maneira, pois guarda características dos dois principais cientistas do primeiro filme: a cautela e sagacidade do Dr. Grant (Sam Neill) e o ímpeto e a acidez do Dr. Malcolm (Jeff Goldblum).

Há ainda a ameaça estrangeira, velho clichê de Hollywood aqui reaproveitado como um desserviço que pode não ser uma engrenagem do roteiro, mas que está presente no discurso. O novo dono do parque, um empresário que visa o lucro sob o pretexto de proporcionar o bem-estar dos visitantes, é vivido pelo ator indiano Irrfan Khan. O cientista maluco Henry Wu, chefe geneticista do primeiro “Jurassic Park”, retorna, mais uma vez na pele de B.D. Wong, ator americano de descendência chinesa. E o Indominus Rex pode ser visto como representação da miscigenação. Exceção é o chefe de segurança vivido por Vincent D’Onofrio, exemplar perfeito do militarista fanático americano que recorre ao belicismo para resolver todos os problemas.

Mas “Jurassic World” possui também personagens que injetam frescor na tela. Em Bryce Dallas Howard temos a representação e a desconstrução de uma mulher gélida, uma gerente que enxerga a natureza como uma fábrica ou um shopping center, mas que a história mostra que o contato com o mato e a lama a coloca mais próxima de seus instintos. Correr de salto alto não é para qualquer um e quem certamente sabe disso é a corroteirista Amanda Silver (esposa de Rick Jaffa, com quem divide os créditos deste filme e também de “Planeta dos Macacos: A Origem” e “Planeta dos Macacos: O Confronto”).

Vale destacar ainda a presença das crianças no filme, em especial o menino mais novo (Ty Simpkins). Ele, que é o típico garoto spielbergiano (a decoração de seu quarto já denota isso), tem mais medo de que os pais se divorciem do que de ser morto pelos dinossauros. O abalo da estrutura familiar também é refletido no comportamento do irmão mais velho (Nick Robinson), que demonstra interesse por várias garotas que encontra no parque, sem dar bola para a namorada de quem se despediu com indiferença.

É provável que a presença desses dois personagens no roteiro tenha o dedo de Trevorrow, que vem do cinema independente e trouxe junto o também corroteirista Derek Connolly, com quem trabalhou em “Sem Segurança Nenhuma”. O drama familiar é um pequeno tema trabalhado dentro da grande aventura que é “Jurassic World”, mas com certeza é o que a torna mais humana. ■

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