41ª MOSTRA DE SP: “Happy End”, “As Mulheres Divinas”, “A Sombra da Árvore”, “Scary Mother” e “Jericó”

por Isabel Wittmann, especial para o cinematório

Entre os dias 19 de outubro e 1º de novembro, São Paulo recebe a 41ª edição da Mostra Internacional de Cinema. Ao todo são 394 títulos, entre longas, curtas e até mesmo 19 obras de realidade virtual, exibidos em 31 salas diferentes. As obras são variadas e a seleção inclui temáticas contemporâneas como relações de gênero, a questão dos refugiados e os problemas ambientais. Dentre as obras selecionadas, 98 são dirigidas por mulheres, incluindo 21 diretoras brasileiras. A cineasta belga Agnès Varda é homenageada com o Prêmio Humanidade e recebe uma retrospectiva com 10 filmes sendo exibidos. O diretor francês Paul Vecchiali também é agraciado com o Prêmio Leon Cakoff e tem oito longas restaurados em exibição, além de seus três últimos lançamentos. Apresentações especiais sob vão do MASP (Museu de Arte de São Paulo) de filmes nacionais também estão programadas.



A seguir, breves resenhas dos primeiros filmes que pude conferir. Para ler todos os textos da cobertura, clique aqui.

“Happy End” (2017), de Michael Haneke

A imagem na vertical: Eve (Fantine Harduin), de 13 anos, filma cenas cotidianas por meio de seu celular, em um aplicativo similar ao Snapchat. Reclama do comportamento da mãe, tortura seu hamster de estimação. Câmeras de segurança em uma obra flagram o momento em que um muro de contenção desmorona. Fazendo uso de diversos planos longos, com câmera parada e muitas vezes distantes do que se desenrola, a ponto de o espectador sequer ouvir os diálogos, em “Happy End”, Haneke continua interessado na forma em que as pessoas interagem com o vídeo e nos seus múltiplos desdobramentos.

Os protagonistas aqui são uma família de classe média encabeçada por Anne Laurent (Isabelle Huppert). Conflitos, divergências e todo tipo de hipocrisia vêm à tona, mostrando as incoerências e a frieza que perpassam os relacionamentos. Nesse sentido o filme dialoga muito bem com “Elle”, de Paul Verhoeven. Mas o diálogo é mais complexo com as obras do próprio autor, como “Caché” e “Amor”. Com esse último, o filme cria um universo compartilhado, com o qual Haneke parece brincar. Além das tensões internas à família, existe uma de caráter racial que é abordada tangencialmente, como um breve comentário. A sensação é que muito do filme funciona dessa forma: breve, superficial. Mesmo os personagens principais são adicionados aos poucos, e próximo ao final não há tempo de desenvolvê-lo satisfatoriamente. As dinâmicas que entabulam são interessantes e o humor, essencial para a trama, é bastante ácido e afiado. Rir do desconcertante é inevitável, mas não há espaço para muito mais que isso.

Embora lide com a temática das tecnologias da comunicação, a crítica presente na obra é rasa: Haneke desloca o uso de tecnologias de captura e compartilhamento de imagens para o campo do que é negativado, como se elas criassem distanciamento entre as pessoas e as transformassem em voyeurs de um lado e animais de laboratório de outro, mas não parece entender os mecanismos de compartilhamento e a recompensa em forma de interação que obrigatoriamente se fariam presentes. Se Eve compartilha sua rotina, quem a assiste, quantos likes ganha e que comentários recebe? O compartilhamento pelo compartilhamento é vazio, existe a expectativa de um público, mas Haneke não parece se interessar por esses processos: na visão pessimista típica da década de 1990 que apresenta, filma-se para ninguém e o resultado fica no vácuo. “Happy End” não é dos seus melhores trabalhos, mas comenta diversos aspectos da sua filmografia de forma divertida e tem, provavelmente, o melhor uso de “Chandelier”, da Sia, no cinema.

“Scary Mother” (2017), de Ana Urushadze

“Scary Mother” é um filme que abraça as penas da criação, o insuportável processo de criação. Manana (Nato Murvanidze), a protagonista, é uma mulher em torno dos 50 anos, casada e com três filhos. Com postura fechada, ombros curvados e os cabelos sempre soltos caindo sobre o rosto, ela tem dificuldade de conciliar sua escrita com a convivência familiar. As expectativas dos demais parecem ser o que lhe coloca o peso sobre os ombros. O marido diz que uma mulher deve se cuidar e pintar os cabelos. Os filhos não entendem seu silêncio. Seu mundo de imaginação é uma aberração: como consegue ver figuras nos azulejos do banheiro? A mãe é assustadora: aclaro que é. Assusta ao não se cumprir com os acordos silenciosos da convivência familiar

Quando um homem se isola para criar, ele é um gênio. Quando uma mulher, faz o mesmo, deixando de lado os papéis sociais e domésticos que dela se espera, é louca. O que a família acarreta na trama é o desrespeito pela sua obra, considerada vulgar, profana, inadequada. Literatura e realidade se sobrepõem e se fundem, desconcertando quem a rodeia. “Scary Mother” é o primeiro trabalho da cineasta Ana Urushadze, que o constrói de forma rígida e intensa, frio e nublado como o clima retratado e intrigante como sua protagonista.

“Jericó: el infinito vuelo de los días” (2016), de Catalina Mesa

O documentário se passa em uma pequena cidade de mesmo nome na Colômbia. O breve poema escrito em homenagem a ela que aparece na abertura tem como autora uma mulher que compartilha o sobrenome da diretora. Não é explicado, mas talvez daí saia a conexão entre a criadora e o ambiente retratado

As casas, com fachadas multicoloridas, escondem as histórias de suas moradoras já idosas ou chegando lá. Daquela que ainda moça que foi aos Estados Unidos e acabou ficando porque “o melhor dinheiro é viajar” àquela que cujo noivo hoje é padre pois sua família, branca, a considerou “negra demais para permitir o casamento”. Relacionamentos, devoção, família e pequenos causos de vida são relatados entre uma atividade cotidiana e outra.

Abusando de planos de estabelecimento preenchidos por músicas regionais, o filme, que tem apenas uma hora e dezessete minutos de duração, poderia tranquilamente ser convertido em um programa de televisão com uma hora de duração. Falta uma estrutura que o guie, mas é compreensível que com personagens tão ricas e histórias tão variadas e saborosas em suas mãos, a cineasta não tenha deixado mais nada de fora.

“As Mulheres Divinas” (Die Göttliche Ordnung, 2017), de Petra Volpe

Suiça, 1971: o letreiro inicial do filme relata que, de forma impressionante, as mulheres do país ainda não possuem direito ao voto. O movimento sufragista intensifica sua campanha e nós acompanhamos suas atividades sob o ponto de vista de Nora (Marie Leuenberger), uma dona de casa casada e mãe de dois filhos, moradora de uma pequena vila, que não tinha envolvimento anterior com política, mas não se opõe a ideia de conseguir novos direitos. Seus problemas começam quando seus recém adquiridos desejos políticos entram em choque com a rotina estabelecida para as mulheres.

Nesse momento é possível perceber que o próprio movimento trabalhista local, composto majoritariamente por homens, mas também por uma mulher que se coloca em lugar diferenciado, se opõe à ampliação dos direitos femininos porque isso abalaria o status quo. Mas as mulheres se unem em torno da causa, prontas para desestabilizar o que for preciso.

Pense “Estrelas Além do Tempo” e “Guerra dos Sexos” com uma pitada de “Orgulho e Esperança”: “As Mulheres Divinas” é um desses filmes bem realizados que não são tecnicamente ousados, mas que acalentam pela força da narrativa e pela importância de seu tema, vindo na esteira de obras que obrigatoriamente nos deixam com um sorriso no rosto e o coração aquecido.

“A Sombra da Árvore” (Undir trénu, 2017), de Hafsteinn Gunnar Sigurðsson

Candidato islandês a uma vaga no Oscar do ano que vem, esse filme mistura o drama com o humor de maneira eficiente tendo como fio condutor uma família suburbana. Primeiro conhecemos o filho, Atli (Steinþór Hróar Steinþórsson), que precisa voltar a morar com os pais depois que sua esposa descobre que ele ainda guarda (e se masturba assistindo) filmes pornográficos feitos com uma namorada anterior. Comportando-se como vítima da situação, o rapaz persegue-a e tem comportamento violento.

Sua mãe, Inga (Edda Björgvinsdóttir), age de forma passivo-agressiva com o casal de vizinho que pede para que apare a árvore de seu terreno que faz sombra no quintal deles. Já o pai, Baldvin (Sigurður Sigurjónsson) é incapaz de se posicionar diante dos acontecimentos da vida e parece preferir fugir para o ensaio de seu coral a qualquer sinal de conflito.

A trilha sonora martela suspensa enquanto a trama flerta de forma cada vez mais intensa com o absurdo. Desde o começo somos apresentados às imperfeições dos protagonistas e a polidez das relações entabuladas no subúrbio vai aos poucos revelando as pequenas obsessões pessoais, as loucuras e frustrações, que explodem de forma catártica no terceiro ato.


Isabel Wittmann é crítica de cinema, doutoranda em Antropologia Social na USP, autora do blog Estante da Sala e uma das criadoras do podcast Feito Por Elas.

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