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FESTIVAL DO RIO 2017: “As Boas Maneiras”, “A Câmera de Claire”, “Praça Paris”, “Aos Teus Olhos” e mais

A nossa cobertura da 19ª edição do Festival do Rio é feita por Laura Batitucci e Leandro Luz. Acompanhe também pelas redes sociais: YouTube, Twitter e Instagram.

 

As Boas Maneiras | dir.: Juliana Rojas e Marco Dutra

Foto: Divulgação

Se há amor, há riscos: e nessa dualidade entre a violência e o carinho está “As Boas Maneiras”, da dupla Juliana Rojas e Marco Dutra. Concebido como uma mistura de gêneros, dentre eles o horror, o mistério e até mesmo o musical, o filme também abarca uma grande quantidade de temáticas, discutindo as relações amorosas e familiares, a maternidade, a irracionalidade do medo, e, como todo bom filme sobre criaturas antropomorfizadas, aproveita para discutir também aquilo que nos caracteriza como humanos. Clara (Isabel Zuaa) é uma enfermeira da periferia de São Paulo (que aqui se encontra bem estilizada e diferente da que estamos acostumados) iniciando seu trabalho de doméstica e babá para Ana (Marjorie Estiano), que, nos meses finais da gravidez, mora sozinha em um apartamento no centro da cidade, após ser abandonada por sua família rica do interior. Essa ideia inicial pouco incomum, porém, vai agregando elementos dramáticos que mudam radicalmente, a todo tempo, o tom da narrativa: primeiro acreditamos estar vendo um retrato das desigualdades do país, depois, estamos acompanhando um estudo de personagem, apenas para sermos surpreendidos com um filme de terror que só se revela após meia hora de projeção, e ainda nos depararmos com trechos que unem música cantada e imagem em sequências musicais. Mas em nenhum momento “As Boas Maneiras” deixa de ser qualquer uma dessas coisas para ser apenas outra, e, nesse amálgama deveras maluco de características, se sai absurdamente bem. Original do começo ao fim, a divisão em duas partes quase que completamente distintas faz com que o filme passe por mudanças bruscas, como entrada (ou saída) de personagens, e ainda assim se sustente devido à força da construção daqueles temas, símbolos e personagens que permanecem nessa transição. A fotografia belíssima e equilibrada, que abusa das cores e contrastes, conduz nosso olhar para que vejamos o horror não apenas como choque, mas também como experiência estética; enquanto os efeitos especiais são bastante convincentes, dignos de produções até muito mais caras. Todos esses elementos não são apenas jogados na tela para que os absorvamos, e sim reunidos em prol de uma mensagem muito profunda: o amor sobrevive a qualquer monstruosidade, mesmo que, no processo, tenha que abraçá-la para curar o seu mal. (Laura Batitucci)

 

A Câmera de Claire La Camerá de Claire dir.: Hong Sang-soo

Foto: Divulgação

Pelo terceiro ano consecutivo tive o prazer de conferir mais um longa-metragem do sul-coreano Hong Sang-soo na programação do Festival do Rio. 2017 foi a vez do anedótico “A Câmera de Claire”, filmado durante Cannes do ano passado e lançado no mesmo Festival este ano. A “Claire” do título é Isabelle Huppert, que parece se divertir bastante no papel de uma professora que insiste em andar pela cidade com sua Polaroid em mãos e “transformar” (segundo ela própria) as pessoas no instante em que as fotografa. O filme é uma espécie de autorreflexão de um realizador repleto de incertezas e desconfiado com o próprio sistema no qual está inserido. “95% dos erros que cometi foram em decorrência do consumo de álcool”, reflete um dos personagens numa clara referência à própria obsessão de Sang-soo pela função da ebriedade em suas obras. A dimensão referencial buscada pelo diretor, aliás, é o principal fio condutor apresentado pelo roteiro, por sua vez muito interessado em fabricar versões ficcionais de personagens que habitam um universo em comum: no primeiro plano do filme, por exemplo, somos capazes de identificar o cartaz internacional de “Você e os Seus” (“Yourself and Yours”, na tradução em inglês, lançado em 2016); em outra ocasião, escutamos dois personagens conversando sobre a própria natureza de Cannes e do fazer cinematográfico (“não é preciso maturidade para se fazer um filme”). A narrativa é construída a partir de uma encenação já experimentada pelo diretor em seus filmes anteriores: os personagens caminham, comem, bebem e conversam pela cidade, tudo envolto por uma decupagem que insiste na utilização do “zoom” e aposta em reenquadramentos frequentes e inusitados para encontrar sempre uma maneira de melhor captar os diálogos e seus subtextos. A montagem também encarrega-se de reforçar esta concepção ao empregar cortes secos que nos transportam de forma tão brusca pela linha temporal estabelecida que precisamos de alguns minutos para nos situarmos e voltarmos a entender o que está acontecendo exatamente. Combinando diálogos um pouco mais longos do que o necessário, sobretudo levando em conta a curta duração do filme (69 minutos) e  passagens hilárias que vão desde um personagem aprendendo a declamar um poema em francês (que muito me lembrou de um episódio da série “Friends” protagonizado por Joey e Phoebe) até uma cena de demissão das mais absurdas de que se tem notícia, “A Câmera de Claire”, no fim das contas, é de uma honestidade avassaladora – a propósito de uma das principais discussões presentes no filme –, e nos transporta para um mundo de espelhos em que o Cinema indubitavelmente é o centro das atenções. (Leandro Luz)

 

Torquato Neto – Todas as Horas do Fim | dir.: Eduardo Ades e Marcus Fernando

Foto: Divulgação

Torquato Neto, apesar de ter tido uma vida bastante produtiva em vários segmentos da arte, como a música, a literatura e o cinema, não é muito conhecido pela população brasileira, sendo ofuscado por figuras da Tropicália que ganharam uma maior importância durante os anos, como Gilberto Gil ou Caetano Veloso. Este documentário, realizado por Marcus Fernando e Eduardo Ades, busca reimaginar, por meio de músicas, cartas, entrevistas, fotos e trechos de filmes, os caminhos de Torquato num Brasil marcado por sonhos de liberdade, mesmo em dias de ditadura. As cartas, lidas por Jesuíta Barbosa, são o ponto alto da pesquisa, visto que trazem retratos íntimos mas também opiniões gerais sobre todo o contexto da época, mostrando um artista preocupado com a dificuldade do cenário nacional em que se encontrava, porém também atormentado pelas mais difíceis e individuais questões, como o desejo de morte e os problemas financeiros. Evitando a convenção das “cabeças falantes”, as entrevistas são, em sua maioria, apenas áudio, com uma rápida apresentação daquele que fala em um plano inicial e uma legenda. Isso permite um pouco mais de criatividade ao âmbito da imagem do documentário, que traz trechos de filmes produzidos por Torquato, mas também trechos de obras importantes do Cinema Novo que dialogam com a proposta tropicalista. Outro mérito aqui é o tratamento dado à questão do suicídio do poeta: não há, como às vezes pode ocorrer com obras sobre suicidas, uma tentativa de dramatizar esse aspecto de sua vida, injetando possíveis “dicas” que sua trajetória daria para culminar nesse atentado contra a vida. “Torquato Neto – Todas as Horas do Fim” entende que esse ato, no caso de Torquato, é um resultado de uma forma de pensar, de um entendimento da vida, que não permitiria a ele outro fim. Assim, este filme foge do lugar-comum de ser um retrato dramático de um artista suicida, sendo uma obra que se permite estudar uma vida marcada por uma compreensão extremamente triste sobre o mundo, mas fascinante em suas expressões poéticas e artísticas. (Laura Batitucci)

 

Based on a True Story | D’après une Histoire Vraie dir.: Roman Polanski

Foto: Divulgação

Um famoso escritor é surpreendido pelo seu fã número um. À medida que os dois personagens se percebem cada vez mais próximos, um frenesi violento e paranoico é estabelecido compondo um thriller psicológico agressivo e perturbador. Com esta breve sinopse eu poderia estar descrevendo o cultuado “Louca Obsessão”, longa-metragem estrelado por Kathy Bates e dirigido por Rob Reiner em 1990 a partir da famosa obra de Stephen King. Não, o filme da vez é “Baseado em uma História Real” (tradução livre), último trabalho dirigido por Roman Polanski. Para além de ser um de meus cineastas favoritos, Polanski certamente é um dos poucos diretores oriundos da Nova Hollywood que se mantiveram prolíficos e relevantes até hoje (Scorsese, Malick e Spielberg também estão nesse grupo). Seus dois últimos trabalhos (“A Pele de Vênus” e “Deus da Carnificina”), por exemplo, trouxeram temas muito contemporâneos e apresentaram uma linguagem cinematográfica bastante inventiva, num diálogo estreito com os elementos oriundos do Teatro, sem jamais desrespeitar uma das características mais marcantes de Polanski que é a sua capacidade de adaptar seu estilo de filmar ao objeto filmado. Contudo, esta sua nova empreitada, que traz Emmanuelle Seigner e Eva Green ao posto de protagonistas, não segue a mesma lógica de suas investidas anteriores e se (des)equilibra entre propostas e estruturas do passado para discutir um tema já batido, mas relevante sempre – a fama e a criatividade do artista –, ofuscado pelo déjà vu pungente ao associarmos o filme a outros como “O Inquilino” e “O Escritor Fantasma”. Somado a essa repetição está a incapacidade do cineasta em compreender e registrar as novas tecnologias. Uma simples conversa por videochamada se transforma numa jornada quase inexequível, como podemos notar pela falta de ritmo exalada pela cena e por um plano bastante problemático com a mão da atriz desproporcionalmente grande localizada em primeiro plano ao segurar o aparelho celular. Além desta, outras situações como a relação da protagonista com a tela em branco do computador e o fato do correio ser mais fundamental e frequente na trama do que o próprio e-mail ilustra bem o problema. Aliás, o uso das redes sociais até ensaia ter alguma relevância em determinada cena, apenas para ser abandonado logo depois. A razão pela qual esses elementos tecnológicos são destaque no filme é um reflexo da presença de Olivier Assayas como roteirista. Contudo, ao contrário da maneira como o diretor francês o faz com maestria em seu recente e admirável “Personal Shopper”, Polanski não consegue adaptar-se à proposta do roteiro, o que resulta em uma obra truncada, com um segundo ato extremamente complicado em termos de ritmo e um desfecho apressado que resinifica todo o filme, não obstante jamais, e isso é o que me deixa mais triste, beneficiando-o. (Leandro Luz)

 

Praça Paris | dir.: Lúcia Murat

Foto: Divulgação

Não é à toa que o título do novo longa-metragem de Lúcia Murat se vale do nome de uma praça muito famosa no Rio de Janeiro. A cidade é leitmotif e personagem principal em “Praça Paris”: o metrô, as vielas do Morro da Providência, o teleférico do Alemão e os corredores da UERJ são ocupados por personagens que transitam de um lugar para o outro à sombra de suas próprias angústias. Gloria (Grace Passô) é ascensorista da UERJ, realiza visitas frequentes ao seu irmão preso e toda semana tenta, sem muito sucesso, se abrir para a psicanalista Camila (Joana de Verona), imigrante portuguesa que está no Brasil para estudos de pós-graduação sobre violência, em duelo constante com o seu passado – representado pela onipresente imagem da avó. Fundamental aqui destacar a impressionante consistência do elenco, que ainda traz Alex Brasil, Digão Ribeiro, Babu Santana e Marco Antonio Caponi, orquestrado pela preparadora de elenco Amanda Gabriel. Todos os atores, sem exceção, me impressionaram da primeira à última cena, e se alguns diálogos acabam soando extensos demais em alguns momentos, o problema certamente não está no carisma e na habilidade dos atores. Murat exercita um gênero inédito em sua carreira: ela trabalha o suspense para aproximar a vida de duas mulheres separadas socialmente por um cruel sistema que governa a cidade. O caos toma conta de Camila à medida que ela se envolve cada vez mais com Gloria, ao passo que esta nunca soube como é viver em tranquilidade – sofreu abuso do pai dos 10 aos 15 anos de idade e o envolvimento do irmão com o tráfico nunca a deixou trilhar sua vida como gostaria. Dentre os departamentos artísticos, importante destacar a fotografia de Guillermo Nieto, que aproveita elementos do próprio ambiente para compor seus enquadramentos (as grades dos prédios, os fios soltos dos postes, as obras nas ruas e o escuro do metrô), e a trilha sonora composta por André Abujamra e Marcio Nigro, responsáveis por materializar em ruídos e sons a paranoia estabelecida pela narrativa. Apesar de algumas escolhas pouco interessantes em termos de roteiro roteiro, como a cena em que Camila presencia o suicídio de uma pessoa e a forma como ela se comporta diante de seu próprio ofício enquanto psicanalista, chegando a abandonar sua paciente e adotar doses exageradas de histeria ao ser confrontada por ela, o filme precisa ser exaltado por sua capacidade em lidar com temas tão importantes e atuais no Brasil, além de evidenciar em tela personagens humanos e em total sintonia com a realidade carioca e brasileira. “Praça Paris” é uma co-produção Brasil-Portugal-Argentina e representa um passo importante e inovador na extensa e consistente carreira de sua realizadora. (Leandro Luz)

 

Aos Teus Olhos | dir.: Carolina Jabor

Foto: Divulgação

Daniel de Oliveira aqui é Rubens, um instrutor de natação para crianças que, repentinamente, se vê assolado por acusações de pedofilia que crescem a cada instante com o poder de alcance das redes sociais. Há em “Aos Teus Olhos” (adaptação da peça “O princípio de Arquimedes”, de Josep Maria Miró) uma clara referência, pelo menos na temática, ao “A Caça” (The Hunt), filme de 2012 com Mads Mikkelsen que foi aclamado por público e crítica por mostrar justamente como a histeria coletiva e o ímpeto de caça às bruxas pode afetar profundamente a vida de um ser humano inocente. Neste filme de Carolina Jabor, no entanto, ficamos na indefinição se Rubens cometeu ou não o ato pelo qual foi acusado: e essa é uma característica importante, visto que muda a relação que temos tanto com o protagonista (que não desperta a simpatia inicial do personagem de Mikkelsen) quanto com aqueles que o temem e o odeiam mesmo sem provas concretas (passamos a nos conectar melhor com essas pessoas e suas motivações, porque assim como elas não temos acesso à realidade objetiva). Porém, apesar dessa boa premissa, de que verdades são fluidas e se adequam aos olhos daqueles que veem apenas fatos nublados, a execução é falha em alguns momentos, principalmente por conta da construção um pouco frágil do protagonista. Ao invés de tentar compreender e expressar em atuação e diálogo a complexidade de um homem que se excita com fotos de meninas menores de idade, mas também é extremamente gentil com todas as crianças que encontra, Daniel de Oliveira (juntamente com a diretora, claro) parece fazer aqui o retrato de um homem simplesmente esquizofrênico, que age de maneiras extremamente diversas e contraditórias em diferentes cenas. Com essa representação limitada da figura central, acabamos por nos desconectar daquele que deveria ser o nosso fio condutor da narrativa. Esse deslize pode ser perdoado se considerarmos que nós, espectadores, pelo nosso parco e parcial conhecimento da verdade, estamos mais próximos à turba condenadora do que ao condenado, e é nessa turba que o filme se concentra, mostrando os pontos de vista, por exemplo, dos pais do menino supostamente agredido, de outros pais dos alunos de natação e da diretora do clube. Seco e direto na representação de uma série de erros de análise de todos os envolvidos no caso, sem se delongar em sensibilidades ao mostrar a gradativa ascensão de violências diversas, o filme tem seu mérito por nos lembrar da facilidade de penetração social de pensamentos intolerantes e vingativos, que geralmente não precisam de grandes justificativas e crescem no eco deles mesmos. (Laura Batitucci)

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