"Dois Dias, Uma Noite" (2014)

“Dois Dias, Uma Noite”: A cultura individualista do mérito

[Esta crítica traz detalhes de cenas do filme que podem ser considerados spoilers.]

por Fernando Machado

Muitas obras cinematográficas surgiram das experiências de vida de seu autor, refletindo a maneira como este enxerga no mundo. Tomemos como exemplo, o cinema dos irmãos Luc e Jean-Pierre Dardenne para traçar um paralelo entre suas vivências e os temas de seus filmes. Ambos nasceram em um conturbado período (entre 1951 e 1954) de mudanças trabalhistas na Europa, mais especificamente na Bélgica, em decorrência do forte processo de industrialização na região. Neste período, um forte movimento operário promoveu uma grande greve conhecida como a “greve do século” que foi de 1960 a 1961. Apesar de ambos serem ainda bem jovens nesse período, tal evento os marcou de forma permanente, influenciando suas obras desde seus primeiros trabalhos. A transformação do espaço público em ações sociais passou a fascinar os Dardenne. Assim, grande parte de suas obras expressam essa preocupação com causas trabalhistas como acontece em “A Promessa” (1996), “Rosetta” (1999),  “A Criança” (2005), “O Garoto da Bicicleta” (2011)” e claro, o filme que analisaremos aqui, “Dois Dias, Uma Noite” (2014).

Estamos diante de um enredo simples, porém profundo. Sandra (Marion Cotillard), uma jovem adulta, recebe a notícia de que fora demitida da empresa onde trabalhara, pois a companhia estava com dificuldades financeiras e precisava cortar gastos. Para se eximir de responsabilidades, o chefe incube seus funcionários a votarem por manter a demissão de Sandra, ou abrir mãos de suas bonificações de 1.000,00 euros para mantê-la no emprego. A partir daí, Sandra precisa convencer a maioria de seus colegas que abram mão do abono para que ela não perca o emprego.

Os Dardenne, de maneira brilhante, conseguem explorar o máximo de uma história com sua inquieta, mas nunca esquizofrênica câmera. O filme começa mostrando Sandra em sua rotina normal no final de semana quando recebe a ligação de sua amiga lhe avisando da demissão. Um diretor menos talentoso poderia fazer da cena um momento de explosão, ou sentimentalismo vitimoso. Mas os Dardenne não trabalham assim. Sandra recebe a notícia com dor, mas a reação dela é de tentar controlar a emoção. O trabalho de atuação de Marion Cottilard, que receberia uma indicação ao Oscar no ano seguinte, é poderoso em extrair emoções conflitantes. Sandra interrompe a ligação, ainda controlando o choro, e sobe para o segundo andar da casa indo para o banheiro. Então, ela toma alguns comprimidos (possivelmente antidepressivos) o que demonstra seu real estado emocional.

A câmera na mão utilizada pelos Dardenne reforçam esse estado ao balançar mais que o costumeiro em algumas cenas, criando uma sensação de abalo no espectador. Outro recurso que os diretores utilizam para reforçar o estado emocional de Sandra é a mis-en-scène. Por exemplo, em diversas vezes quando Sandra está diante de alguém que por algum motivo não pretende abrir mão de seu abono, os Dardenne dividem a tela em dois, colocando cada personagem de um lado, demonstrando que há barreiras entre eles, impedindo que haja empatia e senso de coletividade. Em entrevista dada ao New York Times, Luc Dardenne, resumiu o tema existencial de suas obras com as seguintes palavras: “talvez seja simplista expressar dessa maneira, mas todos os nossos filmes narram como uma pessoa emerge de sua solidão e se une a outra ou outras pessoas. ‘O Filho’, ‘Rosetta’, ‘A Promessa’: de uma maneira ou de outra, mostramos como alguém encontra alguém, e como esse encontro é transformador, como ele resolve o isolamento que havia mantido o personagem principal fora da sociedade, fora da comunidade”. O que ele está dizendo é que essa barreira egocentrista criada por uma cultura meritocrática tem isolado pessoas. Entretanto, quando se rompe essa barreira, há a transformação de uma sociedade individualista para uma coletivista.

“Dois Dias, Uma Noite” (2014)

Sempre que alguém que detinha o direito ao abono era questionado se votaria a favor ou contra a manutenção da demissão de Sandra, a resposta era sempre a mesma: “Não sou eu que estou te demitindo”, assim como a postura da empresa era de: “Os próprios funcionários estão votando para que isso aconteça”. Cada um buscava seu próprio interesse e se pressionado, jogava a responsabilidade para outro. Mas temos um discurso que chama a atenção em meio a todo esse egocentrismo. Há uma cena em que Sandra conversa com um pai e um filho, explicando que um dos argumentos para sua demissão é de que seu histórico de depressão prejudicaria seu desempenho profissional. Ora, durante todo o filme, vimos seus colegas relatando que sua função na empresa não fora prejudicada após retorno de seu afastamento. Ou seja, além de lutar contra a doença, Sandra precisava fazer mais que todos para provar estar apta, pois estaria constantemente sendo avaliada. Mas nem é isso o que mais chama a atenção na cena. Há um momento em que o jovem que não queria abrir do abono grita a seguinte e emblemática frase: “O abono é uma recompensa”. Pois bem, estamos diante de velha muleta do discurso meritocrático. Segundo esse jovem e outros funcionários daquela empresa, eles mereciam receber aquele abono, logo eles estavam no direito de mantê-lo.

Apesar de recentemente o termo “meritocracia” estar sendo utilizado em diversos debates políticos e econômicos, sua origem é curiosa e confusa, assim como suas definições atuais são bastante complexas. O sociólogo e político britânico Michael Young, em seu livro “The Rise of the Meritocracy” (“A ascensão da meritocracia”), de 1958, cunhou o termo como uma crítica a uma sociedade distópica que perpetua a desigualdade social por privilegiar aqueles que tiveram oportunidade de estudar em boas escolas, pois somente pessoas dotadas de alto QI tinham acesso a elas. Entretanto o termo hoje tem uma aplicação muito mais complexa do que isso.

Os que se opõem à cultura da meritocracia a definem como um conceito ou um processo que premia o esforço individual em detrimento de fatores externos, levando em consideração apenas o mérito. Já os que a defendem, consideram-na como um processo que premia o valor que o indivíduo gera para a sociedade/empresa. Aplicando ambos os conceitos em “Dois Dias, Uma Noite”, os colegas de Sandra geraram mais valores para empresa, pois não possuíam nenhum tipo de doença que afetasse seu desempenho, logo eram merecedores do abono, como lembra bem o personagem citado acima. É exatamente nesse conceito que os Dardenne expõem uma sociedade egoísta, de forma inteligente. Sandra consegue ser essa agente de mudança que faz com que parte de seus colegas revejam o voto de não abrir mão do abono, ao mesmo tempo que, diante da possibilidade de recuperar seu emprego em detrimento da vaga de outro, mostra aquilo que os Dardenne mais apreciam abordar em seus filmes: o efeito do pensamento coletivo. Sandra não titubeia (como fizera seus colegas) em recusar a proposta que tiraria o emprego de um colega.

E se ela aceitasse? Estaria errada? Afinal, pensemos: ela se esforçou, provou que poderia gerar valor para a empresa, logo ela teria o “mérito” da vaga. Os que defendem o conceito da meritocracia costumam argumentar que todos corroboram com ela, utilizando-se do seguinte exemplo: “Se sua geladeira quebra, você vai querer um técnico esforçado e que dê tudo de si, ou vai querer um que faça um ótimo serviço, com pouco esforço e a um baixo custo? Quer um restaurante ruim, mas com funcionários esforçados ou quer comer bem?” Parece óbvio? Aos Dardenne não. Para Sandra, uma sociedade justa advém de uma sociedade solidária, que não pense apenas e tão somente no que é vantajoso. Por que não dar uma oportunidade para que outra pessoa conserte sua geladeira? É sobre isso que se trata o cinema de Luc e Jean-Pierre Dardenne. É um cinema social, que busca estabelecer conexão entre pessoas para que haja uma transformação coletiva. Enquanto pessoas se apoiarem na muleta do mérito próprio, as desigualdades tendem a aumentar, e ainda que vivamos em mundo cercado de injustiças, poder fazer a sua parte para mitigar tais desigualdades resultará no final desse belo filme, quando Sandra, com um sorriso no rosto de satisfação por ter feito a coisa certa, diz: “Nós lutamos bem, estou feliz”. ■

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