"Temporada" (2018) - Foto: Vitrine Filmes/Divulgação
"Temporada" (2018) - Foto: Vitrine Filmes/Divulgação

“Temporada”: Humanista e político

Boa parte do recente cinema independente brasileiro é marcada pela busca por um certo naturalismo em suas imagens. Os chamados “filmes híbridos”, tão em evidência no circuito de festivais, mesclam o formato documental e a narrativa roteirizada, trazendo personagens da vida real nos papéis deles mesmos, ainda que não sejam atores profissionais. As cenas são rodadas em locação e, muitas vezes, no “calor do momento”, sujeitas ao imprevisto e ao improviso.

Tal tendência se faz bastante presente no cinema atualmente realizado em Minas Gerais, cujas produções têm conquistado reconhecimento internacional e prêmios importantes nos principais festivais brasileiros. Centralizo aqui a discussão nos filmes vencedores das últimas três edições do Festival de Brasília, todos eles feitos por cineastas mineiros, trabalhando em produtoras independentes, tanto umas das outras quanto de um possível “cinema industrial brasileiro”, atrelado a empresas de mídia hegemônica do eixo Rio-São Paulo.

A sequência de vitórias tem início em 2016 com “A Cidade Onde Envelheço”, de Marília Rocha (produtoras Anavilhana e Terratreme), filmado em Belo Horizonte; continua em 2017 com “Arábia”, de Affonso Uchôa e João Dumans (Katásia Filmes, Vasto Mundo), com locações em Ouro Preto, mas também em diversas outras cidades do interior mineiro; e tem seu mais recente episódio vitorioso em 2018 com este “Temporada”, de André Novais Oliveira (Filmes de Plástico).

Os três filmes são bastante distintos uns dos outros, mas possuem em comum a mencionada busca pelo naturalismo, com uma importante ressalva: ainda que a proposta do hibridismo esteja lá, nenhum dos três longas pretende ser um relato de evidência documental, em oposição, por exemplo, a outros dois filmes mineiros recentes: “A Vizinhança do Tigre” (2014, também de Affonso Uchôa) e “Baronesa” (2016, de Juliana Antunes), ambos vencedores da Mostra de Tiradentes e híbridos na raiz. “A Cidade Onde Envelheço”, “Arábia” e “Temporada” são ficções que se assumem como tal, mas que não se despojam de elementos documentais. Seus diretores trabalham com atores profissionais e não profissionais, ainda dão preferência para a filmagem em locação, porém, agem com  maior controle sobre a mise en scène.

Na ponta da tríade em que estamos com “Temporada”, André Novais Oliveira faz a curva em relação ao seu longa anterior, “Ela Volta na Quinta”, onde ele mesmo se coloca em cena como ator ao lado da própria família, com o irmão, Renato Novaes, e os pais Norberto e Maria José interpretando os personagens principais. Os três voltam ao elenco em “Temporada”, em papéis coadjuvantes, mas ainda assim memoráveis, com destaque para a mais que afetuosa participação de Dona Zezé (infelizmente falecida antes da finalização do filme e a quem ele é dedicado). Aqui, a família de André não interpreta uma versão de si mesma, mas personagens (aparentemente) inventados. E assim é com a maioria das demais pessoas que aparecem na tela, à exceção de alguns dos agentes de combate a endemias que exercem ou exerceram também essa profissão na vida real e não são atores profissionais.

Para o papel principal, André chamou Grace Passô, atriz experiente. Ela interpreta Juliana, que chega a Contagem, vindo de Itaúna, para começar um novo emprego no combate a endemias. Ela faz novos amigos e vive situações pouco usuais, ao mesmo tempo em que enfrenta dificuldades no casamento enquanto aguarda a chegada do marido. Poderia ser uma história baseada na vida de uma parente ou amiga de André — e se fazemos esta suposição, é porque a proposta híbrida vingou e borrou de vez a barreira entre ficção e realidade na nossa percepção enquanto espectadores. No entanto, Juliana é uma criação de André, aperfeiçoada por Grace. Sua jornada de amadurecimento não é de uma Juliana específica da vida de André, mas poderia ser de tantas outras Julianas da minha, da sua ou de outras vidas. É uma história de gente comum, gente de verdade. E nos fazer acreditar que ela existe é só um dos méritos do filme.

Em “Temporada”, André não aparece na frente da câmera, mas já podemos perceber sua marca autoral, que vem sendo construída desde seus curtas-metragens (são dele “Fantasmas”, “Pouco Mais de Um Mês” e “Quintal”). Ele incorpora ao estilo naturalista elementos bastante pessoais, que criam um vínculo com a plateia por serem elementos imediatamente reconhecíveis como parte do cotidiano, desde a maneira de misturar um achocolatado sem deixar “empelotar”, passando pelas risadas diante de vídeos no YouTube, até o improviso de uma caixa de som com um telefone celular dentro de uma lata vazia. São detalhes, coisas triviais e engraçadas da vida, para a quais André chama a atenção ao construir sua identidade como cineasta.

André tem feito filmes incrivelmente  humanistas — e políticos. Não no sentido político panfletário, mas da ação política de contar histórias sobre pessoas comuns e, por isso mesmo, excluídas ou ridicularizadas pelo entretenimento hegemônico, seja pelas profissões que exercem, seja por seus atributos físicos. A mensagem de “Temporada” contra o racismo e a gordofobia, problemas estruturais da nossa sociedade, não vem em gritos (muitas vezes, sim, necessários), mas na força das imagens. Está nos planos contemplativos em que “nada acontece”. Está na cena em que, numa impressionante atuação de Grace Passô, Juliana revela à prima um episódio que mudou em definitivo os rumos do seu casamento e que desde então a assombra. Está na cena de amor sem diálogos, mas que diz muito sobre representatividade e diversidade. A isso se soma o personagem Russão (interpretado pelo rapper Russo APR), que facilmente poderia cair no clichê do coadjuvante engraçado de tantas produções (hollywoodianas e brasileiras), mas que aqui tem camadas, tem uma trajetória, uma história própria e que se torna um espelho em quem Juliana se identifica.

As escolhas de André são acertadíssimas, do casting ao timing. É difícil você construir um filme baseado em uma sinopse tão simples, que pouco tem a revelar, e só entrar de fato no conflito principal após quase uma hora de projeção. Até que a crise na relação de Juliana com o marido atinja seu ponto incontornável, “Temporada” usa o tempo para nos mostrar não apenas quem é aquela mulher, mas também para apresentar o lugar e seus habitantes. Tome como exemplo a cena que se passa em cima do telhado de uma casa que Juliana precisa vistoriar, em busca de focos do mosquito da dengue. É quase uma desculpa para filmar a cidade de cima e valorizar sua geografia. Não só nesta cena, mas em vários outros momentos do filme, André filma ruas, vielas, relevos, muros, quintais, portões, escadas. Do mesmo modo, dá atenção aos diversos moradores, da mulher que atende nervosa ao chamado no portão aos rapazes sentados em um banco na rua. Contagem, cidade marginalizada também na grande mídia, escondida atrás de notícias de crimes.

André humaniza sua terra e por extensão contempla uma população mais ampla, historicamente mal representada nas telas pelo olhar forasteiro que vê os mineiros como capiaus iletrados e abobalhados. Daí a cena com Dona Zezé ser mais que afetuosa: o bolo de fubá com queijo que ela oferece a Juliana e a própria oferta em si são símbolos da mineiridade que nos coloca na tela. Nós, mineiros, nos identificamos ao mesmo tempo em que Juliana se relaciona e se emociona com tantas histórias contidas nos retratos daquela sala de estar. A relevância desse ato precisa ser festejada.

Texto publicado originalmente na Lume Scope.

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