Foto com todos os premiados na Mostra Tiradentes - Foto: Netun Lima/Universo Produção
Foto com todos os premiados na Mostra Tiradentes - Foto: Netun Lima/Universo Produção

Horror e cinema negro são os grandes destaques na premiação da 23ª Mostra de Tiradentes

Na noite de sábado, dia 1º de fevereiro, a Mostra de Cinema de Tiradentes encerrou sua 23ª edição com a entrega dos prêmios no Cine-Tenda. Na principal competitiva, o grande vencedor foi o filme de terror cearense “Canto dos Ossos”, de Petrus de Bairros e Jorge Polo. Nas palavras do júri, o filme “aposta na imaginação como potência gestada coletivamente e acolhe seu caráter disjuntivo”. E completou: “Um filme pode nos dizer coisas pela metade, pode errar ou exagerar e, no entanto, pode, à sua maneira, revelar epifanias que nos oferecem o intempestivo cristal de um segmento de tempo, de gesto, de susto privilegiado”.

“Canto dos Ossos”/Divulgação

Por ser cinema de gênero, houve quem duvidasse que ele fosse o escolhido pelo júri. Mas sua inventividade, dentro de um processo de produção de baixíssimo orçamento, e todo o imaginário criado a partir do retrato de jovens LGBT, seus corpos e transgressões frente a um sistema opressor, e a presença de monstros, fantasmas e vampiros — literal e metaforicamente — proporcionaram uma experiência estética bastante instigante e também divertida. O filme abraça lacunas, ruídos e a estranheza e remete, inclusive, ao universo de David Lynch em alguns momentos (“Got a light?”).

Quanto aos curtas, o Júri elegeu o fluminense “Egum”, de Yuri Costa. Também trabalhando na chave do terror — ou como o próprio diretor diz, um terror afro-surrealista — se mostra uma narrativa de imersão na angústia e desespero de uma família negra sob o ponto de vista do filho ausente que retorna. Dentro dessa casa filmada de maneira claustrofóbica e expressionista, há a ameaça dos brancos, a importância e também o peso da ancestralidade, o insólito, o sobrenatural, a dor e a morte. As mulheres negras são personagens essenciais. A avó, a mãe e irmã, principalmente, trazem as rusgas e alentos dessas relações familiares e representam diferentes papeis numa história de resistência e luta. 

"Egum" (2020) - Foto: Divulgação
“Egum” (2020) – Foto: Divulgação

Outros filmes realizados por pessoas negras e que trazem a temática racial também se destacaram, evidenciando uma pluralidade de visões e estéticas que precisa, urgentemente, ganhar outras telas em mais espaços. “Até o Fim”, de Glenda Nicácio e Ary Rosa foi aplaudido de pé no dia de sua exibição e foi eleito Melhor Longa pelo Júri Popular. Este é o terceiro longa da dupla de diretores que já vem chamando atenção desde “Café com Canela”. Ele tem uma força cinematográfica ímpar, sustentada pelo encontro muito poderoso de um elenco de mulheres nitidamente entregues a suas personagens, um texto arrebatador, uma direção segura e atenta a detalhes — dos corpos e do que os afetam — e trilha sonora catártica. Os atravessamentos de realidade e de fabulações das irmãs Geralda, Bel, Rosa e Vilmar, na diegese, duram apenas uma noite. Mas toda a conversa, entre feridas e curas possíveis, não se encerra, perduram na gente por meio de epifanias e emoções. Como só os grandes filmes são capazes de fazer.

“Até o Fim”- Foto: Divulgação

O Júri Popular ainda premiou o curta documental “A Parteira”, da diretora Catarina Doolan, que também fala sobre o trabalho de uma mulher negra, que é parteira e mãe de santo na região de São Gonçalo do Amarante, no Rio Grande do Norte.

Confira todos os premiados da 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes:

– Melhor longa-metragem eleito pelo Júri Popular:

Até o Fim (BA), de Glenda Nicácio e Ary Rosa.

– Melhor curta-metragem pelo Júri Popular: 

A Parteira (RN), de Catarina Doolan.

– Melhor curta-metragem pelo Júri Oficial (concorrem os curtas da Mostra Foco):

Egum (RJ), de Yuri Costa. 

– Melhor longa-metragem pelo Júri Jovem, da Mostra Olhos Livres (Prêmio Carlos Reichenbach): 

Yãmĩyhex – As Mulheres-espírito (MG), de Sueli Maxakali e Isael Maxakali. 

– Melhor longa-metragem da Mostra Aurora, pelo Júri Oficial: 

Canto dos Ossos (RJ), de Jorge Polo e Petrus de Bairros. 

– Prêmio Helena Ignez para destaque feminino (concorrem profissionais com filmes que estejam nas mostras Aurora e Foco): 

Lílis Soares, diretora de fotografia. Ela assina a direção de fotografia de três filmes exibidos: o curta “Minha História é Outra”, da Mostra Foco; o curta “Ilhas de Calor”, da Mostra Jovem; e o longa “Um Dia com Jerusa”, da Mostra A Imaginação como Potência.

– Prêmio Canal Brasil de Curtas (Júri da crítica composto por Bruno Carmelo, José Geraldo Couto, Juliana Costa, Kel Gomes e Taiani Mendes)

Perifericu (SP), de Nay Mendl, Rosa Caldeira, Stheffany Fernanda e Vita Pereira. 

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