"Você Nem Imagina" (The Half of It, 2020) - Distribuição: Netflix
"Você Nem Imagina" (The Half of It, 2020) - Distribuição: Netflix

“Você Nem Imagina” esbarra em clichês, mas não é só mais uma comédia adolescente

Quando fui assistir ao novo longa da Netflix “Você Nem Imagina”, pensei que se tratava apenas de mais uma comédia adolescente (gênero cada vez mais produzido pela plataforma, diga-se de passagem), mas logo na primeira cena fui surpreendida por uma frase de Platão, presente em seu livro “O Banquete”: “O amor é apenas o nome do desejo pela busca de um todo”. Isto foi o suficiente para mudar a percepção do que aquele filme iria me trazer.

Logo de início, nos deparamos com a narração da protagonista, Ellie Chiu (papel de Leah Lewis, da série “Nancy Drew”), fazendo uma espécie de comparação bem-humorada e um pouco pessimista entre o mito das almas gêmeas de Platão e o colegial, dando a entender que cada vez mais é difícil pensar no amor de maneira tão literal como nesta era. No mito, o filósofo escreve que as almas foram separadas no momento em que nasceram por contrariarem os deuses, enquanto hoje em dia, na visão de Ellie, os jovens estão cada vez mais volúveis em suas relações amorosas, perdendo a idealização proposta pelo significado da simbologia platônica.

Na sinopse, apenas sabemos que Ellie, uma nerd, e Paul (Daniel Diemer), um atleta gente boa, tornam-se amigos porque gostam da mesma garota, mas sem que ele tenha noção disso. A partir deste ponto e do comportamento de Ellie, é possível até traçar um paralelo entre ela e Lara Jean (protagonista de outra produção do gênero da Netflix, “Para Todos os Garotos que Já Amei”), mas isto fica só no início. Ellie aborda muito mais o sentimento e a complexidade que a adolescência traz, seja a insegurança, a incerteza ou até o desencaixe em relação ao mundo. Mesmo as duas personagens sendo leitoras e escritoras assíduas, é possível notar uma maior maturidade em relação à realidade da vida por parte de Ellie. Vemos nela uma adolescente que, apesar de ser superinteligente a ponto de fazer seis análises diferentes sobre um mesmo mito de Platão, não cultiva tantos sonhos como Lara Jean.



O ponto de partida da história acontece quando Paul procura Ellie para ajudá-lo a escrever uma carta de amor para a garota mais popular da escola, Aster Flores (Alexxis Lemire). Sim, neste ponto nos deparamos com muitos clichês adotados por comédias adolescentes desde John Hughes, com direito a todo o paralelo das tribos no colégio etc. Mesmo a contragosto em um primeiro momento, Ellie aceita o “trabalho”, devido a fatores de falta de recursos financeiros, e começa a trocar correspondências com Aster e também a se apaixonar por ela.

Filha de imigrantes, Ellie também é responsável pela estação de trem da pequena cidade onde mora, já que, quando seus pais saíram da China para ganhar a vida nos EUA, aquele seria o pontapé inicial na carreira de engenheiro de seu pai (Collin Chou), algo que nunca se concretizou por ele não dominar o idioma inglês. Para piorar, ele entrou em uma profunda depressão após a morte da esposa. Devido a esses fatores, Ellie passa a oferecer serviços, como a realização de trabalhos escolares, para ajudar a pagar as contas da família. Mesmo assim, ela ainda sofre ataques de bullying por trabalhar na estação e pela sonoridade de seu nome. Com todas essas questões, a personagem acaba sentindo uma espécie de não pertencimento em relação ao local e aos seus colegas, revelando uma ausência quase total de amigos.

Alice Wu estreou como diretora em “Livrando a Cara” (2004), romance que também possui temática LGBTQA+. Neste segundo longa, além de dirigir, ela assina o roteiro e a produção. É muito interessante notar como o olhar delicado e ao mesmo tempo profundo da diretora sobre as relações ressalta no filme. Em carta publicada nas redes sociais da Netflix, a cineasta conta que a ideia inicial era fazer um longa ambientado na fase adulta, mas que a alteração para o colegial se deve à potencialização das emoções e que a história é inspirada em sua vida pessoal, pois ela também teve a ajuda de um cara para se descobrir homossexual.

Wu separa os atos do roteiro com citações de pensadores e escritores que têm um único tema comum: o amor e todas as nuances que ele implica. Ao contrário do que a sinopse dá a entender, durante todo o filme eu me senti muito mais interessada na dinâmica de amizade entre o “atleta gente boa e a nerd” do que no eventual romance entre Ellie e Aster. O que vemos é sim uma história de amor, mas uma história de amor em que o essencial é, antes de qualquer coisa, entender quem você é e quem te ama por enxergar exatamente isto.

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