"A Hora do Lobo" (Vargtimmen, 1968) - Divulgação
"A Hora do Lobo" (Vargtimmen, 1968) - Divulgação

“A Hora do Lobo”: Medo e delírio na madrugada da razão

“Fantasmas, diabos e demônios, bons, maus ou apenas fastidiosos. Sopraram em meu rosto, me empurraram, espetaram-me com agulhas, puxaram meu pulôver. Falaram, sibilaram ou murmuraram, com vozes distintas, não exatamente compreensíveis, mas impossíveis de ignorar.”
— Ingmar Bergman, em “Lanterna Mágica”, p. 216

O que se espera de um filme de horror? Reformulando: o que se espera de um filme de horror de Ingmar Bergman? A categorização por gênero, por vezes, é traiçoeira. No caso do cineasta sueco, muitos filmes poderiam ser considerados “de horror”, julgássemos o estado emocional e psicológico de seus personagens (poderíamos falar em “horror bergmaniano”). Ainda assim, “A Hora do Lobo” (Vargtimmen, 1968) provavelmente é o trabalho dele que mais se aproxima da concepção clássica do termo, ainda que os elementos típicos surjam não da maneira comumente esperada.

A começar pelo título, que pode ludibriar facilmente o espectador literal que espera ver um filme de lobisomem. Não há monstro tampouco um mamífero feroz e faminto aqui: o lobo do título é muito mais uma metáfora hobbeniana (“homo homini lupus”) ligada ao estado de espírito do protagonista, o pintor Johan, que vive um profundo bloqueio criativo, para dizer o menos. Atormentado pelo que tudo indica ser uma crise depressiva, Johan não só ouve vozes como enxerga pessoas que ele considera serem demônios ou “canibais”, como as descreve. Leva, a reboque, em sua insanidade, a esposa Alma, que ainda tem que lidar com o fato de que o marido se torna obcecado por uma ex-namorada cuja personificação também aparece entre suas visões.

Johan e Alma são interpretados por Max von Sydow e Liv Ullmann, respectivamente. Na sequência deste “A Hora do Lobo”, estrelaram os próximos dois filmes de Bergman, “Vergonha” (1968) e “A Paixão de Anna” (1969), formando, assim, uma das trilogias temáticas na extensa filmografia do cineasta. Em comum, vidas ordinárias profundamente afetadas por formas de violência. Aqui, tanto física quanto psicológica – isso, claro, se for sensato pensar numa separação tão simplista. Afinal, a imbricação do que sofrem tanto Johan quanto Alma desafia os sentidos e a percepção externa, algo que Bergman representa com sua característica inventividade imagética em cenas de um realismo oblíquo, especialmente no segundo ato do filme, que se passa no castelo do Barão von Merkens (Erland Josephson, outro ator recorrente de Bergman), após a famigerada “Hora do Lobo” virar no relógio. Nesta que é a seção mais barroca do filme, Bergman parece se divertir como nunca ao explorar efeitos especiais óticos e de maquiagem ao mergulhar conosco na jornada delirante de Johan, cuja fantasmagoria subconsciente aflora em imagens verdadeiramente assustadoras e reveladoras de um lugar que, desta maneira pictórica tão extravagante, o cineasta havia acessado antes apenas em “Morangos Silvestres”.

Há também uma crise conjugal em jogo, outro forte tema bergmaniano. Ullmann e Bergman se encontravam exatamente no meio da relação amorosa que terminaria dois, três anos mais tarde. E Bergman assume ser essa uma história de cunho tão pessoal que ele se viu na necessidade de criar um distanciamento artístico. Desistiu de deixar no corte final as cenas de making of que filmou com esse objetivo, mantendo apenas, durante os créditos iniciais, o som sua voz conversando com os atores e a equipe no set. Mas, ainda que em outras duas ocasiões ele viole a barreira invisível da ilusão (com a quebra da quarta parede na narração de Alma e o intertítulo que reforça o nome do filme na metade da projeção), é inegável o peso de sua experiência de vida sobre a tela, conforme a própria Liv Ullmann já admitiu em entrevistas, ecoando a fala de sua personagem: “Se você vive com alguém que não está em paz, você própria pode perder a paz”, afirma no documentário “Hour of the Wolf: The Search for Sanity” (2004).

Com essa assumida carga autobiográfica (como todo filme de Bergman em maior ou menor grau), “A Hora do Lobo” usa o horror gótico e expressionista para investigar a mente atormentada de um artista em face a uma iminente mudança na vida da qual não há retorno. A dívida paterna que ele busca quitar em “Morangos Silvestres” aqui recai sobre si, posto que ele e Ullmann filmaram em meio à espera do nascimento de Linn. Medos impossíveis de ignorar e, sim, canibalescos, como o título original do roteiro sugeria. A autofagia das faculdades mentais do protagonista expõe a intimidade extrema do artista com uma rara sinceridade – muito maior, provavelmente, do que o limite que ele algum dia pretendeu transgredir, mas o suficiente para fazer pensar se não estamos, todos nós, refletidos nos estilhaços do espelho partido. ■

Nota:

A HORA DO LOBO (Vargtimmen, 1968, Suécia). Direção: Ingmar Bergman; Roteiro: Ingmar Bergman; Produção: Lars-Owe Carlberg; Fotografia: Sven Nykvist; Montagem: Ulla Ryghe; Música: Lars Johan Werle; Com: Max von Sydow, Liv Ullmann, Gertrud Fridh, Georg Rydeberg, Erland Josephson, Naima Wifstrand, Ulf Johansson; Estúdio/Produtora: Svensk Filmindustri; Distribuição: Svensk Filmindustri, Versátil Home Video. 90 min


Texto publicado originalmente na Revista LumeScope, em 28 de julho de 2018.

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