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“Crip Camp” é um olhar sensível na busca por um mundo melhor

"Crip Camp: Revolução pela Inclusão" - Distribuição: Netflix

"Crip Camp: Revolução pela Inclusão" - Distribuição: Netflix

Infelizmente, quando se fala sobre pessoas com deficiência ainda há o risco de alguém cair em estigmas, como os de “pessoas incapazes”, “defeituosas”, “coitadas”, entre outros. “Crip Camp: Revolução pela Inclusão” não é sobre nenhum deles. O documentário fala sobre humanidade e igualdade de direitos. Coisas que nos parecem simples, como rampas, só foram conquistadas há pouco mais de 30 anos por essa parcela da população. Assustador, certo? Pense então para uma pessoa com deficiência que não podia se locomover em transporte público e, além disso, era acompanhada de rótulos não sobre quem ela é, mas sim sobre o que o seu corpo representa.

Premiado no Festival de Sundance, distribuído pela Netflix e cotado para uma indicação ao Oscar 2021, “Crip Camp” é dirigido e produzido por James Lebretch e Nicole Newham. O filme apresenta o tema com muita sensibilidade, pois Lebretch também é um dos personagens e é ele quem abre o documentário, relembrando as férias de verão que passou, ainda adolescente na década de 1970, no Acampamento Jened, localizado no estado de Nova York. O longa surgiu justamente da necessidade do codiretor de contar sua experiência ao mundo.

Lebretch fez parte do grupo de jovens que se conheceu através do Jened e que buscou mudanças não só para suas vivências, mas para toda a sociedade. As leis de garantia de acessibilidade que existem nos EUA hoje são resultado direto da luta dos frequentadores do acampamento por direitos para as pessoas com deficiência. Luta essa que atravessou as décadas de 1980 e 1990.

O filme aborda, sem filtros, os preconceitos e as dificuldades que foram enfrentadas até que essas pessoas conquistassem uma legislação que atua contra a exclusão e determina medidas necessárias para o respeito às diferenças. Nos é apresentada a sociedade real: uma sociedade construída em cima de interesses e que usa do discurso da empatia por conveniência. Uma sociedade excludente que colocava pessoas com deficiência para estudar em porões ou as internava em instituições “especiais”, porque as próprias famílias haviam desistido delas.

Essa sociedade cruel nos é apresentada, mas o documentário não é sobre isso, tampouco sobre o acampamento em si. “Crip Camp” é sobre olhar o outro com a compreensão de que não somos todos iguais e de que a nossa realidade deveria se adaptar à todo tipo de diferença. Em uma cena que reforça essa ideia, Lebretch — que nasceu com a espinha bífida e trabalha com edição e design de som — relembra como ele é quem se “adaptava” ao seu local de trabalho e, muitas vezes, não respeitava o seu próprio corpo. O codiretor aponta como a noção de que sua condição física não deveria alterar o ambiente reforçava o preconceito de que pessoas com deficiência não precisavam de direitos e de leis que permitissem o acesso ao trabalho de maneira segura.

Intimista e cativante, “Crip Camp” intercala imagens de arquivo do acampamento com as entrevistas de seus frequentadores nos dias atuais, criando uma linha cronológica de fácil compreensão e que enriquece o valor histórico da produção. É um documentário acima de tudo reflexivo, capaz de fazer o público parar, respirar e entender porque as pessoas com deficiência eram e ainda são marginalizadas e invisibilizadas. Ao mesmo tempo, o filme também pode render boas risadas com alguns dos depoimentos e revelações feitas com bom humor pelos personagens. E o mais importante: são eles mesmos quem contam suas histórias para a câmera, independentemente do tipo da deficiência que possuem. A sensibilidade de Lebretch e Newham para o lugar de fala de cada um com quem conversam é, de fato, revolucionária. ■

Nota:

CRIP CAMP: REVOLUÇÃO PELA INCLUSÃO (Crip Camp, 2020, EUA). Direção: James Lebrecht, Nicole Newnham; Roteiro: James Lebrecht, Nicole Newnham; Produção: James Lebrecht, Nicole Newnham, Sara Bolder; Fotografia: Justin Schein, Vicente Franco, Mario Furloni, Tom Kaufman, Jon Shenk; Montagem: Andrew Gersh, Eileen Meyer, Mary Lampson; Música: Bear McCreary; Com: James Lebrecht, Judith Heumann, Lionel Je’Woodyard, Dennis Billups, Denise Sherer Jacobson; Estúdio/Produtora: Higher Ground Productions; Distribuição: Netflix. 106 min

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