"Botões Dourados" (2020), de Alexey Evstigneev - Divulgação

9º Olhar de Cinema: Refletindo feminilidades, masculinidades e além

Muitos filmes do 9º Olhar de Cinema refletem sobre questões de gênero, a construção e a elaboração de masculinidades e feminilidades, identidade e representação. Chamou-me a atenção, em especial, curtas-metragens da mostra Outros Olhares, mais especificamente os programas 4 e 5,  que foram vistos em conjunto e me afetaram como um interessante mergulho em diferentes formas de pensamento — em imagem e narrativa — sobre experiências e subjetividades de mulheres e homens, garotas e garotos. Os filmes evidenciaram, também, necessárias rupturas com limitações da binaridade.

Em “As Chamas do Sol” (2019), do espanhol Pepe Sapena, a proposta é oferecer uma simples narrativa ficcional, em que acompanhamos um momento na vida de um casal de jovens mulheres. E numa proximidade evidente com o teatro, o foco está no diálogo. Elas visitam uma galeria de arte localizada em um belíssimo parque. Nessa visita, diante de um quadro, uma delas, Ana (Carolina Sobisch) vê na pintura — um homem que flutua com uma mulher — uma representação de seu próprio modo de enxergar o amor, como algo sublime. Logo saberemos que sua companheira, Lúcia (Loreto Santamaría), discorda de sua visão romântica, idealizada, e a problematiza. O diálogo segue: para Ana, a discussão ganha importância decisiva para a relação e este incômodo provoca o distanciamento do casal. Mas após silêncios e caminhadas em separado pelo parque, há o retorno, o reencontro. São apenas 12 minutos de filme, sem complexidades de texto e linguagem cinematográfica, mas que trazem a homoafetividade feminina comunicando de maneira universal. E se Ana e Lúcia veem um quadro de um casal formado por um homem e uma mulher — portanto, uma figuração da heteronormatividade  — e falam naturalmente sobre amor a partir disso, por que não apostar que elas também podem estar nesse lugar?

“As Chamas do Sol”

Do Camboja, “Sonho Californiano” (2019) também é centrado em duas mulheres. Elas se encontram, se identificam e se sentem atraídas uma pela outra num hotel à beira-mar. A diretora, Sreylin Meas, constrói com muita delicadeza e minimalismo essa interação, além de retratar as belas paisagens e a natureza que as envolvem com fotografia melancólica e atenção aos sons. Sarita (Sarita Reth) está em fuga de sua realidade da cidade grande, das demandas da família e de algo mais (um relacionamento, talvez?). E isso se traduz no figurino que praticamente se camufla no espaço, com as mesmas cores suaves (verde e marrom claros) das plantas e estruturas. Já Sak (Monysak Sou) não é hóspede. Ela trabalha no hotel e também se encontra numa desconexão pessoal. Mas ela não se mistura ao ambiente, veste vermelho, quer ser visível. A aproximação das duas nos revela que ambas, fora desse encontro, estão a sustentar papéis que as sufocam. Da introspecção, o filme se abre para o movimento da motocicleta, o vento no rosto e um novo horizonte, mas sem perder o ritmo calmo e a tranquilidade — um estilo que tem sido classificado como slow cinema, na contramão da aceleração da vida e da relação frenética com as imagens.

“Sonho Californiano”

“Garotas Crescem Desenhando Cavalos” (2020), da artista visual estadunidense Joanie Wind, é ensaístico e experimental, mas muito direto em seu discurso e elaborações sobre ser mulher numa sociedade machista, ainda que utilize de metáforas e estratégias conceituais muito próprias. Feito em homenagem à avó (e com memórias sobre ela), o filme é montado com animações, found footage, variadas texturas, múltiplas cores e colagens, representando a ideia de que “fazer as coisas com as mãos  é uma forma de processar traumas”. Ou seja, o cinema e outras artes para a realizadora são também uma cura pessoal. Não à toa, há ainda sua inscrição pela performance. Mas seu trabalho vai além do íntimo e se expande para as questões políticas e as estruturas sociais que operam a opressão feminina e papéis de gênero. Em uma observação perspicaz e provocativa, por exemplo, ela diz: “não existem homens, nem pais, só mães e meninos”. Ademais, é uma experiência envolvente, um manifesto feminista inventivo e ácido.

“Garotas Crescem Desenhando Cavalos”

Em “Rafameia”(2020), das brasileiras Mariah Teixeira e Nanda Felix, o cotidiano da protagonista Carmem (Mariah Teixeira), que vive em João Pessoa, Paraíba, é revelador das tensões e perigos de experiências femininas nas cidades. O filme, sem exageros e com uma direção segura, cria um percurso inteligente para o espectador e a espectadora. Um simples entregador é ameaçador; tomar decisões como síndica e lidar com pessoas que claramente não lhe respeitam e lhe diminuem se tornam conflitos; andar na rua à noite sozinha é desconfiar de todo e qualquer som; entre outras situações que vão surgindo numa crescente de incômodos. Há também o encontro de Carmem com outras mulheres e outros momentos de opressão e violência, ainda que sutis. Também há uma situação de questionamento do próprio lugar de Carmem na sociedade como mulher branca. Mas o mais forte desses encontros é com uma menina, pois, mesmo não sendo uma cena conclusiva, ela nos faz lembrar que, desde crianças, já carregamos grandes pesos por ser tirado de nós o controle dos nossos corpos — além de, por muitas vezes, não estarmos seguras nem no ambiente familiar. E num simples olhar, menina e mulher ali se reconhecem.

“Rafameia”

“Mary Mary, So Contrary” (2019), do cineasta cingapurense Nelson Yeo, se faz experiência ousada, que pode repelir ou instigar. “Andróides sonham com ovelhas elétricas?” é uma pergunta conhecida, mas neste curta experimental, o sonho com ovelhas pertence a Ma Li. Ela é uma mulher chinesa que se imagina como uma outra mulher, mas branca – e por isso com feições ocidentais – chamada Mary. O cinema está no centro dessa imaginação/desejo/crise de identidade. E o filme manipula, distorce, ressignifica imagens de arquivo de dois clássicos: “Spring in a Small Town”, de Fei Mui, e “A Dama Oculta”, de Alfred Hitchcock. Há toda uma atmosfera onírica, lynchiana e um fluxo desafiador aos sentidos e interpretações. Tecnologia se faz voz e a fala robótica muitas vezes incomoda, mas serve bem às texturas de artificialidade e de mistura entre o novo e o antigo, uma temporalidade peculiar.

“Mary Mary, So Contrary”

Em “Botões Dourados” (2020), do russo Alex Evstigneev, o rigor formal responde ao rigor militar, revelando o autoritarismo, a toxicidade e a frieza implacável na Escola Presidencial de Cadetes de Moscou, onde garotos, inscritos voluntariamente — e aqui é preciso refletir sobre complexidades e aspectos sociais que levam à essa “escolha” — são formados para a Guarda Nacional da Rússia, criada em 2016 por Vladimir Putin. Na maior parte do filme, os bastidores dessa escola (e o que eles nos contam) são mostrados ao fundo, enquanto, em um primeiro plano fixo, há o close de crianças e adolescentes em posição imóvel a encarar a câmera. A rigidez de corpos, expressões e crenças é doutrinada e duramente cobrada das crianças e adolescentes. Por meio de trechos das falas dos instrutores, percebe-se o tom e o conteúdo da linguagem, que diz sobre nacionalismo, religião, ordem e obediência. Nas falas dos estudantes, um resgate de individualidade tão perdida ali, ficam evidentes a hereditariedade do serviço militar, a desigualdade de gênero nas famílias, entre outros aspectos importantes que ajudam a preencher as lacunas sobre suas trajetórias. Há também trechos de imagens que captam o choro infantil, que jamais recebe acolhida, assim como o cansaço, o titubeio e qualquer exposição de vulnerabilidade. O respiro parece estar apenas nos telefonemas familiares e nas aulas de dança, mas, ainda assim, ambas as possibilidades se conformam à dureza do ambiente. E todo o filme foi realizado numa estratégia de hackeamento do sistema, perceptível em sua construção fragmentária, pois o diretor conseguiu acesso à escola como fotógrafo, o que traz ainda mais força política à obra.

“Botões Dourados”

“Rios Solitários” (2019), do espanhol Mauro Herce, observa um grupo de homens, de diferentes idades, em momentos de descanso, entre o karaokê, a TV e a pausa para a refeição, num ambiente fechado e isolado, em que, primeiro, não sabemos localizar ou entender e, depois, aos poucos, captamos pistas que nos entregam possibilidades do lugar onde estão e em que trabalham. O karaokê parece ser a única conexão emocional desses homens. Pode a música acalentar almas tão solitárias e em tão longa espera? Há tanto tempo sem a companhia da família e sem estarem em terra firme, há uma atmosfera de exílio e de tempo estagnado, reforçada pelo modo como são filmados, pelo ritmo lento e a falta de diálogos. A sensação de vazio, repetição e a apatia prolongadas ao extremo pelo filme, apesar de um tanto coerente com o momento de seus personagens, transmite uma passividade que pouco nos desloca da mera observação e que confere poucas camadas aos sujeitos observados.

“Rios Solitários”

De Augustina Comedi, “Playback. Ensaio de Uma Despedida” (2019) é, talvez, o filme do festival que mais me deixou melancólica. A estética de VHS, fantasmagórica, mas cheia de afeto pela narração e pelo que pode representar aquelas imagens, mexe com a gente. Vemos registros de um grupo LGBT que se apresenta  em clubes undergrounds no final dos ano 80 e início dos 90, e nos envolvemos com sua arte, performance, resistência e amizade. Mas a narradora, a contadora dessa história, também nos fala como essas memórias (inventadas ou não) se encontram entre o amor vivido e a tristeza do presente porque as pessoas que vemos se tornaram, uma a uma, vítimas fatais da epidemia de HIV. O filme é um rearranjo, o resgate de existências invisibilizadas e uma homenagem fabular, que acredita no poder do cinema e da fantasia. Real e imaginado se misturam para uma mensagem forte, ao mesmo tempo que se faz delicada e bela. “Nossos nomes são nomes de guerra e as lantejoulas, uniformes”.

“Playback. Ensaio de Uma Despedida”

“Os Meninos Lobo” (2020) assustam. Dirigido pelo brasileiro Otávio Almeida, o filme nos apresenta a infância de dois irmãos, Vismán e Alejandro, que carregam uma herança de violência e de guerra — o pai é veterano das Forças Armadas Revolucionárias Cubanas — e estão em um processo de elaboração de performatividade, faltas e perdas. O lúdico se mistura ao violento, a fraternidade à ameaça, os corpos aos espaços precarizados. A encenação deles mediada pela câmera nos perturba, mas se compreende como esses meninos estão apenas tentando (ou fingindo) ser fortes e viris, no cumprimento de um padrão de masculinidade em que se esconde feridas e se expressa e atua com agressividade, em meio ao abandono da sociedade e do Estado. Resta a pergunta: que possibilidades de futuro se desenham ali?

“Os Meninos Lobo”

Obs: Todos os curtas estão disponíveis para acesso no site do Olhar de Cinema, de hoje, dia 15/10, até ás 5h59 de amanhã, dia 16/10. O valor de ingresso para cada programa é de R$5,00.

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